Logo que a criança nasce, nas primeiras semanas depois do parto, a mãe deve evitar o uso de perfume. Para não confundir o filho.
O cheiro do corpo materno será a maior ligação que o bebê terá com o mundo. Tanto que ele costuma chorar no colo de que qualquer um, menos no colo da mãe, pois reconhecerá imediatamente o cheiro do pescoço. Só o olfato já o acalmará.
Pôr o pequeno no peito, ainda que não seja para mamar, trará o conforto da pele conhecida, o agrado de pertencer a um lugar definido depois do ventre.
É pela respiração que nos sentimos amados, antes das palavras, antes dos gestos.
O bebê mal pode enxergar, mas já sabe quem é quem pelo suor, pela química dos poros. É uma conexão primitiva, quase inexplicável, de animal com o seu ninho.
Quando ele inspira a pele da mãe, estabelece um endereço de proteção. Talvez represente o momento oficial de seu nascimento: quando ele liga o Wi-Fi da personalidade. Todo perigo se apresentará fora daquele corpo, daqueles quadrantes, daquela bússola.
A maior parte de suas lágrimas decorre de quando se vê distante do seu cheiro de existir, presente na mãe. É o seu primeiro cueiro, a sua primeira manta. É o seu esconderijo na luz, o seu ferrolho para entender o que está acontecendo e onde veio parar.
Suas lembranças primevas descendem do faro, o seu canal de comunicação com os outros.
Não é por menos que, adultos, nos comovemos com um olor, sem fixar a origem da atração. Surgiu certamente do berço, da nossa fulminante e arrebatadora estreia. Eu, por exemplo, sou apaixonado por hortelã. Numa conversa à toa com a mãe, descobri que era o seu chá predileto nas minhas semanas iniciais de vida.
Dos 3 mil odores que um ser humano pode colecionar ao longo de sua trajetória, há um apenas que lhe dará segurança.
Quando abraçamos a nossa mãe, refazemos a mágica da fragrância fundadora. Não há melhor abrigo para nascer de novo.
Publicado em Donna ZH em 25/12/2017
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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
BEIJO DIÁRIO DE DESPEDIDA
Conservo um costume com a minha esposa: o primeiro a trabalhar não pode sair de casa sem dar um beijo de despedida. Mesmo que acorde o outro. Mesmo que derrube um objeto no escuro. Mesmo que sacrifique o seu mundo onírico.
Dói entrar no no quarto e ter que informar a minha partida. Talvez esteja quebrando o sono leve de minha mulher, rompendo a casca fina do insconsciente. Nem sempre ela pode dormir mais. Nem sempre ela tem uma folguinha nos horários. Mas é o nosso pacto. E acordos entre nós dois são inquebrantáveis - nos lixamos se os demais compreenderão a nossa rotina como dependência e submissão.
Chego de leve e arrisco um toque manso de boca. Seguro a respiração ofegante do café tomado, tento me conter, não quebrar os cristais do descanso, só que é ela me perceber partindo, com o perfume da loção na barba feita, que logo fica espalhafatosa: já me abraça forte e troca juras. Depois se amansa e vira ao seu lado, com o prazer do romance renovado.
Ela diz que a minha aparição não a atrapalha, ela até gosta. Confessa que dorme melhor sabendo que a amo. Espia a minha roupa, faz um check-in em meu terno e gravata, e fecha os olhos docemente. Eu sou uma espécie de despertador de celular, um alarme do amor. Ela já se habitou a ativar o tempo da soneca a parir da minha entrada para o tchau.
Ela acredita que a despedida diária mantém o casal unido. Quem não avisa que está saindo se desapega e pode não voltar. O hábito constrói o respeito e mantém acesa a paixão.
É a grande diferença entre o casamento e colegas dividindo a casa: a intimidade declarada. Quando avisamos da partida com os olhos dos lábios não deixaremos de nos procurar e nos enxergar durante a distância dos empregos.
Nossos bilhetinhos são feitos de pele, com a tinta da saliva. São dois anos invictos, com as datas presas ao calendário do ritual.
Não cumprir o nosso combinado me deixaria mal durante o resto da jornada. Não quero nem pensar viver diferente. Eu sussurro histórias de nosso romance em seus ouvidos, de manhã cedo, para ela adormecer e sonhar comigo.
Publicado em Donna ZH em 17/12/2017
Dói entrar no no quarto e ter que informar a minha partida. Talvez esteja quebrando o sono leve de minha mulher, rompendo a casca fina do insconsciente. Nem sempre ela pode dormir mais. Nem sempre ela tem uma folguinha nos horários. Mas é o nosso pacto. E acordos entre nós dois são inquebrantáveis - nos lixamos se os demais compreenderão a nossa rotina como dependência e submissão.
Chego de leve e arrisco um toque manso de boca. Seguro a respiração ofegante do café tomado, tento me conter, não quebrar os cristais do descanso, só que é ela me perceber partindo, com o perfume da loção na barba feita, que logo fica espalhafatosa: já me abraça forte e troca juras. Depois se amansa e vira ao seu lado, com o prazer do romance renovado.
Ela diz que a minha aparição não a atrapalha, ela até gosta. Confessa que dorme melhor sabendo que a amo. Espia a minha roupa, faz um check-in em meu terno e gravata, e fecha os olhos docemente. Eu sou uma espécie de despertador de celular, um alarme do amor. Ela já se habitou a ativar o tempo da soneca a parir da minha entrada para o tchau.
Ela acredita que a despedida diária mantém o casal unido. Quem não avisa que está saindo se desapega e pode não voltar. O hábito constrói o respeito e mantém acesa a paixão.
É a grande diferença entre o casamento e colegas dividindo a casa: a intimidade declarada. Quando avisamos da partida com os olhos dos lábios não deixaremos de nos procurar e nos enxergar durante a distância dos empregos.
Nossos bilhetinhos são feitos de pele, com a tinta da saliva. São dois anos invictos, com as datas presas ao calendário do ritual.
Não cumprir o nosso combinado me deixaria mal durante o resto da jornada. Não quero nem pensar viver diferente. Eu sussurro histórias de nosso romance em seus ouvidos, de manhã cedo, para ela adormecer e sonhar comigo.
Publicado em Donna ZH em 17/12/2017
CARTAS MUSICADAS
Quando adolescente, eu sempre andava com uma caneta Bic no bolso da camisa. Não era para escrever, mas para desenrolar a fita-cassete de 10 cm por 7 cm. O rolo às vezes escapava das duas bobinas e precisava rebobinar.
Não havia CDs, streaming, aplicativos, nem celular, o único jeito de montar trilhas sonoras consistia em gravar a programação direto das rádios.
Custava muito esforço. Significava noites em claro para localizar as músicas favoritas. Não existia a possibilidade de cochilo e distração. Fazia-se plantão na frente do som 2 em 1. Com xícaras obsessivas de café, a tarefa exigia concentração absoluta. A habilidade estava em apertar e soltar rapidamente os botões REC e PLAY, eliminar os comerciais e organizar uma coletânea parecida com a continuidade de um LP.
A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho da canção, despontava o reclame, como relâmpago impossível de conter. A propaganda inesperada no meio do refrão arruinava o trabalho.
Obrigava-me a treinar a telepatia. Adivinhar quando iria surgir o apresentador, para suspender por alguns segundos a gravação e retomar o fio da meada em seguida. Emendava lacunas, sem nenhuma ilha de edição, no dedo mesmo, num artesanato puro, suando frio. Tinha que ocupar trinta minutos do primeiro lado e mais trinta do segundo. O espaço comportava uma seleta de duas dezenas, sendo que cada uma das composições passava pelo corte e costura das teclas.
Na época, não nos declarávamos com flores e cartão, caixa de bombons e ursinho de pelúcia. Preparávamos fita-cassete para quem amávamos. Ninguém queria sofrer o vexame de receber um fora pessoalmente das meninas, ainda mais diante dos colegas e da turma. Assim, o recurso romântico utilizado era montar uma trilha para expressar a atração. As baladas traduziam os nossas emoções mais secretas. As letras demonstravam o que não conseguíamos falar cara a cara. Você conquistava alguém com cartas musicadas. Vinha a ser o jeito daquele tempo para vencer a timidez e declarar o amor.
Ninguém ousava dizer eu te amo, o que se dizia:
- Fiz uma fita para você.
E se esperava, com ansiedade, o telefonema na semana seguinte, a voz do outro lado que valia as nossas 20 canções prediletas.
Publicado em Donna ZH em 10/12/2017
Não havia CDs, streaming, aplicativos, nem celular, o único jeito de montar trilhas sonoras consistia em gravar a programação direto das rádios.
Custava muito esforço. Significava noites em claro para localizar as músicas favoritas. Não existia a possibilidade de cochilo e distração. Fazia-se plantão na frente do som 2 em 1. Com xícaras obsessivas de café, a tarefa exigia concentração absoluta. A habilidade estava em apertar e soltar rapidamente os botões REC e PLAY, eliminar os comerciais e organizar uma coletânea parecida com a continuidade de um LP.
A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho da canção, despontava o reclame, como relâmpago impossível de conter. A propaganda inesperada no meio do refrão arruinava o trabalho.
Obrigava-me a treinar a telepatia. Adivinhar quando iria surgir o apresentador, para suspender por alguns segundos a gravação e retomar o fio da meada em seguida. Emendava lacunas, sem nenhuma ilha de edição, no dedo mesmo, num artesanato puro, suando frio. Tinha que ocupar trinta minutos do primeiro lado e mais trinta do segundo. O espaço comportava uma seleta de duas dezenas, sendo que cada uma das composições passava pelo corte e costura das teclas.
Na época, não nos declarávamos com flores e cartão, caixa de bombons e ursinho de pelúcia. Preparávamos fita-cassete para quem amávamos. Ninguém queria sofrer o vexame de receber um fora pessoalmente das meninas, ainda mais diante dos colegas e da turma. Assim, o recurso romântico utilizado era montar uma trilha para expressar a atração. As baladas traduziam os nossas emoções mais secretas. As letras demonstravam o que não conseguíamos falar cara a cara. Você conquistava alguém com cartas musicadas. Vinha a ser o jeito daquele tempo para vencer a timidez e declarar o amor.
Ninguém ousava dizer eu te amo, o que se dizia:
- Fiz uma fita para você.
E se esperava, com ansiedade, o telefonema na semana seguinte, a voz do outro lado que valia as nossas 20 canções prediletas.
Publicado em Donna ZH em 10/12/2017
BLACK FRIDAY DA ETERNIDADE
Todos recebem um bônus. A vida dá uma segunda chance, um período extra, uma dilatação de prazo, um visto a mais. Ela não nos entrega para o fim sem um anúncio, sem nos colocar em uma ante-sala aqui mesmo.
A dificuldade é aproveitar a black friday da eternidade. O que atrapalha é a soberba.
Há pessoas que ficam humildes depois de um acidente e refazem os seus hábitos. Percebem que estavam no caminho errado, contrárias à ternura e recuam prodigiosamente para recuperar os laços com a família e amigos. Mudam o jeito de encarar os limites. Tornam-se mais abertas e confessionais, começam a se despedir dia-a-dia pelo medo de não definir mais qual será o dia derradeiro. Criam férias nas folgas, esticam os lazeres nos finais de semana. Possuídos pela delicadeza, falam o eu te amo com a naturalidade de um cumprimento, abraçam e beijam com uma intensidade incomum. A quase morte passa a ser um trailer da existência. Compreendem o significado do puxão de orelhas do vento e dos anjos e escutam com afinco o som de um pássaro e da chuva. São empresários que largam o acúmulo dos bens pelo bem partilhado, são sujeitos roçados pela suavidade do perdão. Antes ricos de números e vazios de palavras, invertem o julgamento e se predispõem a praticar a fragilidade com coragem. Pois é só cuidando dos outros que revelamos o cuidado consigo.
Mas a maior parte dos sobreviventes não vê a luz em extinção, não coloca as mãos em concha para proteger a chama da vela. Despreza os avisos e as profecias. Pelo contrário, como superou uma tragédia iminente, acha-se agora invencível. Acredita que nada pode mais levá-lo embora. Internaliza uma onipotência que agrava os defeitos e os vícios. Dedica-se ainda mais à carreira e à fortuna e abandona de vez os semelhantes, já que eles são inferiores e não desfrutaram da mesma experiência de ressurreição.
Não percebe a promoção, a liquidação dos ideais, o céu se abrindo. Não acorda as horas mortas, não renasce diferente dos escombros, não compra a sua vida de volta, aquela vida que se consumia na indiferença e no egoísmo. Descarta Deus e os homens, como se respirar fosse um dom vitalício.
O susto da morte pode gerar arrependimento ou arrogância, agradecimento ou acusação. Nem sempre é entendido como milagre.
Quem acha que nunca vai morrer não encontra tempo para amar.
Publicado em Donna ZH em 03/12/2017
A dificuldade é aproveitar a black friday da eternidade. O que atrapalha é a soberba.
Há pessoas que ficam humildes depois de um acidente e refazem os seus hábitos. Percebem que estavam no caminho errado, contrárias à ternura e recuam prodigiosamente para recuperar os laços com a família e amigos. Mudam o jeito de encarar os limites. Tornam-se mais abertas e confessionais, começam a se despedir dia-a-dia pelo medo de não definir mais qual será o dia derradeiro. Criam férias nas folgas, esticam os lazeres nos finais de semana. Possuídos pela delicadeza, falam o eu te amo com a naturalidade de um cumprimento, abraçam e beijam com uma intensidade incomum. A quase morte passa a ser um trailer da existência. Compreendem o significado do puxão de orelhas do vento e dos anjos e escutam com afinco o som de um pássaro e da chuva. São empresários que largam o acúmulo dos bens pelo bem partilhado, são sujeitos roçados pela suavidade do perdão. Antes ricos de números e vazios de palavras, invertem o julgamento e se predispõem a praticar a fragilidade com coragem. Pois é só cuidando dos outros que revelamos o cuidado consigo.
Mas a maior parte dos sobreviventes não vê a luz em extinção, não coloca as mãos em concha para proteger a chama da vela. Despreza os avisos e as profecias. Pelo contrário, como superou uma tragédia iminente, acha-se agora invencível. Acredita que nada pode mais levá-lo embora. Internaliza uma onipotência que agrava os defeitos e os vícios. Dedica-se ainda mais à carreira e à fortuna e abandona de vez os semelhantes, já que eles são inferiores e não desfrutaram da mesma experiência de ressurreição.
Não percebe a promoção, a liquidação dos ideais, o céu se abrindo. Não acorda as horas mortas, não renasce diferente dos escombros, não compra a sua vida de volta, aquela vida que se consumia na indiferença e no egoísmo. Descarta Deus e os homens, como se respirar fosse um dom vitalício.
O susto da morte pode gerar arrependimento ou arrogância, agradecimento ou acusação. Nem sempre é entendido como milagre.
Quem acha que nunca vai morrer não encontra tempo para amar.
Publicado em Donna ZH em 03/12/2017
RECEITA PARA MANTER A SOGRA LONGE
Você não suporta a sogra insistentemente por perto?
Não tem mais paciência para vê-la aparecendo de repente e assumindo o controle de casa?
Você conversou com o marido, pediu limites e providências e nada foi feito?
Você descobriu que está casada com um filhinho da mamãe, de sangue de barata, e que ele jamais vai se opor a invasão do espaço e desembaraçar a confusão de papéis?
Você já está no último auge da escravidão, quando ela abre a geladeira como uma fiscal da vigilância sanitária para verificar o que tem e determina o que deve ser descartado e o que deve subir no congelador?
Tenho a receita de olho de sogra, a simpatia para ela nunca mais incomodar.
Pense comigo. Não funcionou a clara oposição: ou ela ou eu, pois ele ainda continua pendendo para as razões e tirania materna, sob a alegação de que ela somente pretende ajudar. Não surtiu efeito o boicote ao sexo, a birra, as intermináveis discussões de relacionamento chamando atenção para a manutenção da privacidade e dos segredos, sem que sejam partilhados com a matriarca.
A fórmula é realizar exatamente o contrário: seja a melhor amiga da sogra. Convide-a para todos os eventos a dois, até para aquele restaurante romântico que costumam frequentar uma vez por semana. Só fale dela para o marido durante dois meses seguidos, elogiando-a, defendendo-a, achando estranho que ele não vem dando a devida atenção à própria mãe, que ele precisava agradecer, com esforço redobrado, o mérito do nascimento e da vida. Compre presentes de decoração estranhíssimos, com bilhetes açucarados: “Segui o conselho de sua mãe, um exemplo de mulher!”.
Transforme a admiração em obsessão. Traga a sogra para assistir a uma longa série de Netflix de noite com direito a cobertor no sofá e pipoca. Desligue o celular e faça longas incursões com ela pelos shoppings _ ao chegar tarde, o esposo se sentirá excluído dos planos de passeio e perguntará "onde estavam?". Confidencie manias na cama para a sogra e depois encerre o assunto com muitas gargalhadas quando ele se aproximar.
Trate de ser mais filha que o filho. Nenhum marido aguenta disputar a mãe com uma irmã. Ele romperá os laços com a mãe por ciúme e desfrutará de longeva exclusividade. Ainda poderá colocar a culpa nele, telefonar para a sogra dizendo não entender o que está acontecendo, que ele é um filho ingrato e que ela foi sempre excelente e não merecia nem um pouco tamanha desconsideração.
Publicado em Donna ZH em 19/11/2017
Não tem mais paciência para vê-la aparecendo de repente e assumindo o controle de casa?
Você conversou com o marido, pediu limites e providências e nada foi feito?
Você descobriu que está casada com um filhinho da mamãe, de sangue de barata, e que ele jamais vai se opor a invasão do espaço e desembaraçar a confusão de papéis?
Você já está no último auge da escravidão, quando ela abre a geladeira como uma fiscal da vigilância sanitária para verificar o que tem e determina o que deve ser descartado e o que deve subir no congelador?
Tenho a receita de olho de sogra, a simpatia para ela nunca mais incomodar.
Pense comigo. Não funcionou a clara oposição: ou ela ou eu, pois ele ainda continua pendendo para as razões e tirania materna, sob a alegação de que ela somente pretende ajudar. Não surtiu efeito o boicote ao sexo, a birra, as intermináveis discussões de relacionamento chamando atenção para a manutenção da privacidade e dos segredos, sem que sejam partilhados com a matriarca.
A fórmula é realizar exatamente o contrário: seja a melhor amiga da sogra. Convide-a para todos os eventos a dois, até para aquele restaurante romântico que costumam frequentar uma vez por semana. Só fale dela para o marido durante dois meses seguidos, elogiando-a, defendendo-a, achando estranho que ele não vem dando a devida atenção à própria mãe, que ele precisava agradecer, com esforço redobrado, o mérito do nascimento e da vida. Compre presentes de decoração estranhíssimos, com bilhetes açucarados: “Segui o conselho de sua mãe, um exemplo de mulher!”.
Transforme a admiração em obsessão. Traga a sogra para assistir a uma longa série de Netflix de noite com direito a cobertor no sofá e pipoca. Desligue o celular e faça longas incursões com ela pelos shoppings _ ao chegar tarde, o esposo se sentirá excluído dos planos de passeio e perguntará "onde estavam?". Confidencie manias na cama para a sogra e depois encerre o assunto com muitas gargalhadas quando ele se aproximar.
Trate de ser mais filha que o filho. Nenhum marido aguenta disputar a mãe com uma irmã. Ele romperá os laços com a mãe por ciúme e desfrutará de longeva exclusividade. Ainda poderá colocar a culpa nele, telefonar para a sogra dizendo não entender o que está acontecendo, que ele é um filho ingrato e que ela foi sempre excelente e não merecia nem um pouco tamanha desconsideração.
Publicado em Donna ZH em 19/11/2017
UM CRUCIFIXO NO JARDIM
Um pouco de sofrimento dá saudade e pode apressar reconciliações. Uma colher de sopa de dor, não mais que isso.
Qualquer um aguenta um mês longe, inclusive dois meses, um constrangimento, um desentendimento sério, uma ausência muda de telefonemas e aparições.
Angústia breve é salutar, permite ajustes necessários na convivência, trazendo à tona exigências e reivindicações até então secretas. Uma briguinha não é ruim, revela o que não foi acertado no início, aumenta com a lupa as cláusulas minúsculas do contrato afetivo.
Já não deixe o seu amor sofrer demais, o risco da superdose é fatal. É necessário não passar do ponto, evitando de converter teorias dissonantes em grosserias e aviltamento da personalidade.
A generosidade do enamoramento tem o seu limite. Logo a distância perde o charme e expõe que, de repente, não vigora nenhuma aceitação e compatibilidade de gênios.
O sofrimento excessivo termina relacionamentos. O sofredor é capaz de realmente cansar de amar e não querer mais nada em seguida. Ficará vacinado para qualquer nova aproximação.
Não brinque com as esperanças e expectativas, não recue nas palavras, não apresente a todos amigos e familiares para remendar que não queria algo sério. A vergonha costuma não oferecer caminho de volta.
Quando as lembranças ruins superam as boas, quando o mal-estar abafa a paixão do começo, o namoro tem os seus laços quebrados. Quem pensa demais sempre vai se separar, já que a emoção tornou-se secundária. Pois daí é possível se defender racionalmente daquilo que não se gostou.
Depois de aguardar um pedido de desculpa por longo tempo inutilmente, não existe conserto. Arrependimento não deve ser demorado. Mesmo que o perdão venha, será atrasado e servirá para somente limpar a consciência, não lavar o amor. O outro não acreditará mais. O outro não suportará a ideia de passar pela mesma tormenta no futuro. Terá força para dizer não, de tantas negativas acumuladas dentro de si.
Separação é como esteio de uma planta jovem. A madeira de alicerce, se tremendamente pesada, encurvará o caule e se transformará em crucifixo de lápide no jardim.
Publicado em Donna ZH em 12/11/2017
Qualquer um aguenta um mês longe, inclusive dois meses, um constrangimento, um desentendimento sério, uma ausência muda de telefonemas e aparições.
Angústia breve é salutar, permite ajustes necessários na convivência, trazendo à tona exigências e reivindicações até então secretas. Uma briguinha não é ruim, revela o que não foi acertado no início, aumenta com a lupa as cláusulas minúsculas do contrato afetivo.
Já não deixe o seu amor sofrer demais, o risco da superdose é fatal. É necessário não passar do ponto, evitando de converter teorias dissonantes em grosserias e aviltamento da personalidade.
A generosidade do enamoramento tem o seu limite. Logo a distância perde o charme e expõe que, de repente, não vigora nenhuma aceitação e compatibilidade de gênios.
O sofrimento excessivo termina relacionamentos. O sofredor é capaz de realmente cansar de amar e não querer mais nada em seguida. Ficará vacinado para qualquer nova aproximação.
Não brinque com as esperanças e expectativas, não recue nas palavras, não apresente a todos amigos e familiares para remendar que não queria algo sério. A vergonha costuma não oferecer caminho de volta.
Quando as lembranças ruins superam as boas, quando o mal-estar abafa a paixão do começo, o namoro tem os seus laços quebrados. Quem pensa demais sempre vai se separar, já que a emoção tornou-se secundária. Pois daí é possível se defender racionalmente daquilo que não se gostou.
Depois de aguardar um pedido de desculpa por longo tempo inutilmente, não existe conserto. Arrependimento não deve ser demorado. Mesmo que o perdão venha, será atrasado e servirá para somente limpar a consciência, não lavar o amor. O outro não acreditará mais. O outro não suportará a ideia de passar pela mesma tormenta no futuro. Terá força para dizer não, de tantas negativas acumuladas dentro de si.
Separação é como esteio de uma planta jovem. A madeira de alicerce, se tremendamente pesada, encurvará o caule e se transformará em crucifixo de lápide no jardim.
Publicado em Donna ZH em 12/11/2017
O NÓ ENTRE PAI E FILHO
Há certos rituais que ainda são dos homens, hábitos exclusivos entre pai e filho, que não podem se perder com o tempo e a tecnologia.
Ensinar a se barbear com a devida espuma é um deles. Nada mais bonito do que pai e filho próximos no espelho, rostos sobrepostos, o pai pedindo licença para descer a lâmina na pele do filho, avisando que não vai machucá-lo, que não é para ter medo, demonstrando a firmeza da diagonal do gesto. O filho prestando atenção, e admitindo a exceção de uma mão que não a sua tocando em sua face, como um beijo diferente, como parte da sua vida. E depois colocar a toalha quente e borrifar loção, estapeando levemente os poros abertos e partilhando a ardência saborosa e perfumada da virilidade. Que tudo termine numa risada com "entendi, pai, entendi".
Fazer o nó da gravata é outra lição essencial. Acabei de explicar ao meu filho Vicente. Tinha que ser eu. Para que pudesse lembrar de mim em sua formatura, em seus dias de emprego, em suas saídas oficiais para festas e casamentos.
É hastear a bandeira do nosso amor no colarinho. A gravata traz uma delicadeza séria, uma doçura digna. Não importa a cor, será o nosso jardim nos ombros.
Quando ele firmou o nó pela primeira vez em seu pescoço, eu senti que nenhum mal e desavença posterior nos soltaria. Estávamos presos aos cadarços das camisas.
Foi um misto de orgulho e de nostalgia. Era pôr um laço definitivo de filiação. Eu o deixava ir para ficar na memória. Aceitava, com dificuldade, que ele estava grande, de que cresceu, de que deveria abrir o seu caminho sem precisar de mais ninguém para pedir favor. Daria conta de si sozinho dali por diante.
Não haverá abraço no futuro que nos torne tão rentes como naquele momento.
Assim que deve ser: é o filho que fará a gravata no enterro do pai. Valor a ser passado de geração em geração, pelos ciclos da existência.
Só ele repetirá a minha assinatura, ponto por ponto, dobra por dobra, não aceitando a ponta da gravata maior do que a cintura, não aceitando a despedida de qualquer jeito, mantendo o respeito e o capricho da minha essência na aparência.
Publicado em Donna ZH em 05/11/2017
Ensinar a se barbear com a devida espuma é um deles. Nada mais bonito do que pai e filho próximos no espelho, rostos sobrepostos, o pai pedindo licença para descer a lâmina na pele do filho, avisando que não vai machucá-lo, que não é para ter medo, demonstrando a firmeza da diagonal do gesto. O filho prestando atenção, e admitindo a exceção de uma mão que não a sua tocando em sua face, como um beijo diferente, como parte da sua vida. E depois colocar a toalha quente e borrifar loção, estapeando levemente os poros abertos e partilhando a ardência saborosa e perfumada da virilidade. Que tudo termine numa risada com "entendi, pai, entendi".
Fazer o nó da gravata é outra lição essencial. Acabei de explicar ao meu filho Vicente. Tinha que ser eu. Para que pudesse lembrar de mim em sua formatura, em seus dias de emprego, em suas saídas oficiais para festas e casamentos.
É hastear a bandeira do nosso amor no colarinho. A gravata traz uma delicadeza séria, uma doçura digna. Não importa a cor, será o nosso jardim nos ombros.
Quando ele firmou o nó pela primeira vez em seu pescoço, eu senti que nenhum mal e desavença posterior nos soltaria. Estávamos presos aos cadarços das camisas.
Foi um misto de orgulho e de nostalgia. Era pôr um laço definitivo de filiação. Eu o deixava ir para ficar na memória. Aceitava, com dificuldade, que ele estava grande, de que cresceu, de que deveria abrir o seu caminho sem precisar de mais ninguém para pedir favor. Daria conta de si sozinho dali por diante.
Não haverá abraço no futuro que nos torne tão rentes como naquele momento.
Assim que deve ser: é o filho que fará a gravata no enterro do pai. Valor a ser passado de geração em geração, pelos ciclos da existência.
Só ele repetirá a minha assinatura, ponto por ponto, dobra por dobra, não aceitando a ponta da gravata maior do que a cintura, não aceitando a despedida de qualquer jeito, mantendo o respeito e o capricho da minha essência na aparência.
Publicado em Donna ZH em 05/11/2017
NENHUMA DESCULPA É INSTANTÂNEA
Quando você erra nunca tem tempo para se explicar. Sempre ficará de castigo.
Não existe retratação imediata, entenda isso, não há desculpa instantânea, não receberá o indulto no próximo minuto.
Nem conseguirá argumentar. Gaguejará as primeiras palavras de arrependimento, e o microfone do coração será cortado. A pessoa agredida com a falsidade não vai querer ouvir - baterá a porta, sairá de perto, virará as costas.
Ninguém aceita bem uma mentira desfeita ou uma lealdade quebrada. O pecado tem o seu preço, os seus juros e os seus números quebrados. Aquele que foi enganado precisa de tempo para absorver a notícia.
Quanto mais demorar em dizer a verdade mais estrago produzirá na confiança.
A ingenuidade é acreditar que não importa o que tenha feito de errado, o amor prevalecerá. Todo mundo que pede perdão comete a gafe de não imaginar a recusa e a raiva após a decepção. Todo mundo que pede perdão é romântico e se ferra. Desenha o melhor dos cenários e não cogita o cancelamento do show.
No relacionamento, o conserto depende da difícil reposição. Não é só chegar na oficina sentimental e aguardar a troca sumária das peças.
Talvez a convivência jamais seja a mesma, talvez a amizade jamais readquira a sua espontaneidade.
Voltar a confiar é uma das missões mais complicadas da vida, pois depende da benevolência da memória e da força de vontade.
Qualquer confissão implica em trabalho para reconquistar o outro. Passará uma semana inteira telefonando ou aparecendo de repente sem chance alguma de ser atendido. Desculpa se alcança com insistência.
Terá que gastar a fortuna de seus dias e de sua paciência. Dependendo da gravidade da falha, exigirá meses ou anos ou quem sabe nunca se concretize um retorno. Mas não tem como ser diferente, não tem como ser indiferente, não tem como seguir uma relação sem honestidade.
Publicado em Donna ZH em 29/10/2017
Não existe retratação imediata, entenda isso, não há desculpa instantânea, não receberá o indulto no próximo minuto.
Nem conseguirá argumentar. Gaguejará as primeiras palavras de arrependimento, e o microfone do coração será cortado. A pessoa agredida com a falsidade não vai querer ouvir - baterá a porta, sairá de perto, virará as costas.
Ninguém aceita bem uma mentira desfeita ou uma lealdade quebrada. O pecado tem o seu preço, os seus juros e os seus números quebrados. Aquele que foi enganado precisa de tempo para absorver a notícia.
Quanto mais demorar em dizer a verdade mais estrago produzirá na confiança.
A ingenuidade é acreditar que não importa o que tenha feito de errado, o amor prevalecerá. Todo mundo que pede perdão comete a gafe de não imaginar a recusa e a raiva após a decepção. Todo mundo que pede perdão é romântico e se ferra. Desenha o melhor dos cenários e não cogita o cancelamento do show.
No relacionamento, o conserto depende da difícil reposição. Não é só chegar na oficina sentimental e aguardar a troca sumária das peças.
Talvez a convivência jamais seja a mesma, talvez a amizade jamais readquira a sua espontaneidade.
Voltar a confiar é uma das missões mais complicadas da vida, pois depende da benevolência da memória e da força de vontade.
Qualquer confissão implica em trabalho para reconquistar o outro. Passará uma semana inteira telefonando ou aparecendo de repente sem chance alguma de ser atendido. Desculpa se alcança com insistência.
Terá que gastar a fortuna de seus dias e de sua paciência. Dependendo da gravidade da falha, exigirá meses ou anos ou quem sabe nunca se concretize um retorno. Mas não tem como ser diferente, não tem como ser indiferente, não tem como seguir uma relação sem honestidade.
Publicado em Donna ZH em 29/10/2017
VOCÊ É UMA ABELHA OU UMA MOSCA DO AMOR?
Você pode ser uma abelha ou uma mosca no relacionamento.
A abelha busca o pólen, prepara longamente o mel do seu esforço, articula as asas em nome da colmeia, chega a esquecer de si pela alvoroço da família, tem a euforia de passear acompanhada, não protesta pela casa e alma cheias. Mesmo quando a vida não ajuda, trabalha a esperança. Não entrou num romance para esperar algo, mas para fazer. Não reclama à toa, partilha os seus dilemas procurando uma solução. A dúvida a inspira a perseguir novos jardins e explorar outras paisagens.
Por sua vez, a mosca namora ou casa já pensando no divórcio, já receosa do fracasso, já aguardando a confirmação de seus medos. Sempre tem razão, sempre replica expectativas desagradáveis. Quer provar que o seu par não presta, ainda que tenha que se privar da própria felicidade.
Ela sobrevoa sobras mortas e fica catando implicâncias superadas. Adota o ciúme para desqualificar, emprega a competição para constranger. Não avalia a sua alegria por aquilo que pode oferecer, mas por aquilo que pode receber. Não vai adiante nas adversidades, para no ar, fixa-se no passado. Revela o pior de sua companhia, desmerecendo os elogios e omitindo os avanços. O
olhar é songamonga, jamais se contentando com pequenas (e sublimes) demonstrações de apreço. Não cria o seu espaço, aproveita-se da personalidade alheia. Suga apenas a realidade de suas projeções, pois nenhuma mosca é capaz de morder ou mastigar os problemas. Acha que o outro não precisa de nada, não valoriza a intimidade, jura que as discussões serão resolvidas automaticamente sem contrapartida de atitude.
A mosca finge que está tudo bem quando está mal, finge que está mal quando está tudo bem, não enfrenta a verdade, conversa fatiado realizando muitas coisas paralelamente, isenta-se pela pressa dizendo que não é a melhor hora para mudar (nunca é a melhor hora), não coloca a sua companhia como prioridade, deixa o telefone tocar quando vê o nome, não retorna a ligação de imediato, conserva uma atenção dispersiva, arruma pretextos para não se mexer, não pede desculpa porque não acredita no parceiro, subestima qualquer reivindicação por ternura (considera tudo um drama), não agradece a vigília do respeito, não retorna gentilezas, não se prontifica a favores, descuida das preocupações fora do seu universo, quando fala fala somente de si, não se interessa com o que pode ser feito a dois, não percebe cenas românticas e roupas sensuais, arma-se de uma pendência no trabalho ou um assunto mais importante a resolver para manter a confortável inércia.
A mosca é egoísta, a abelha é solidária. A mosca é do contra, a abelha é a favor. A mosca é conformada, a abelha é curiosa. A mosca provoca enterros, a abelha apressa renascimentos. A mosca revira o lixo das contradições, a abelha organiza o caos e separa o útil do fútil. A mosca incomoda, a abelha incentiva. A mosca não defende ninguém, a abelha possui a ferroada para proteger quem ama. A mosca abandona, a abelha carrega.
Ambas voam. Mas só a abelha sobe alto no amor.
Publicado em Donna ZH em 22/10/2017
A abelha busca o pólen, prepara longamente o mel do seu esforço, articula as asas em nome da colmeia, chega a esquecer de si pela alvoroço da família, tem a euforia de passear acompanhada, não protesta pela casa e alma cheias. Mesmo quando a vida não ajuda, trabalha a esperança. Não entrou num romance para esperar algo, mas para fazer. Não reclama à toa, partilha os seus dilemas procurando uma solução. A dúvida a inspira a perseguir novos jardins e explorar outras paisagens.
Por sua vez, a mosca namora ou casa já pensando no divórcio, já receosa do fracasso, já aguardando a confirmação de seus medos. Sempre tem razão, sempre replica expectativas desagradáveis. Quer provar que o seu par não presta, ainda que tenha que se privar da própria felicidade.
Ela sobrevoa sobras mortas e fica catando implicâncias superadas. Adota o ciúme para desqualificar, emprega a competição para constranger. Não avalia a sua alegria por aquilo que pode oferecer, mas por aquilo que pode receber. Não vai adiante nas adversidades, para no ar, fixa-se no passado. Revela o pior de sua companhia, desmerecendo os elogios e omitindo os avanços. O
olhar é songamonga, jamais se contentando com pequenas (e sublimes) demonstrações de apreço. Não cria o seu espaço, aproveita-se da personalidade alheia. Suga apenas a realidade de suas projeções, pois nenhuma mosca é capaz de morder ou mastigar os problemas. Acha que o outro não precisa de nada, não valoriza a intimidade, jura que as discussões serão resolvidas automaticamente sem contrapartida de atitude.
A mosca finge que está tudo bem quando está mal, finge que está mal quando está tudo bem, não enfrenta a verdade, conversa fatiado realizando muitas coisas paralelamente, isenta-se pela pressa dizendo que não é a melhor hora para mudar (nunca é a melhor hora), não coloca a sua companhia como prioridade, deixa o telefone tocar quando vê o nome, não retorna a ligação de imediato, conserva uma atenção dispersiva, arruma pretextos para não se mexer, não pede desculpa porque não acredita no parceiro, subestima qualquer reivindicação por ternura (considera tudo um drama), não agradece a vigília do respeito, não retorna gentilezas, não se prontifica a favores, descuida das preocupações fora do seu universo, quando fala fala somente de si, não se interessa com o que pode ser feito a dois, não percebe cenas românticas e roupas sensuais, arma-se de uma pendência no trabalho ou um assunto mais importante a resolver para manter a confortável inércia.
A mosca é egoísta, a abelha é solidária. A mosca é do contra, a abelha é a favor. A mosca é conformada, a abelha é curiosa. A mosca provoca enterros, a abelha apressa renascimentos. A mosca revira o lixo das contradições, a abelha organiza o caos e separa o útil do fútil. A mosca incomoda, a abelha incentiva. A mosca não defende ninguém, a abelha possui a ferroada para proteger quem ama. A mosca abandona, a abelha carrega.
Ambas voam. Mas só a abelha sobe alto no amor.
Publicado em Donna ZH em 22/10/2017
SHIMEJI OU SHITAKE?
Quando abrimos o cardápio de um novo restaurante japonês, eu e minha esposa não lembramos se gostamos de shimeji ou shitake. Como que esquecemos de novo? Paramos com o dedo entre as duas porções de cogumelos. Qual será mesmo a de nossa preferência? Shimeji ou shitake na manteiga?
Sofremos de um lapso mútuo, de um Alzheimer amoroso. E vacilamos o pêndulo da mão diante dos números dos pratos.
- Não acredito que não me lembro, diz Beatriz.
- Não acredito que também não me lembro, respondo.
Já comemos dezenas de vezes. É, inclusive, um de nossos menus prediletos, ao lado do carpaccio de salmão, do guioza e do sashimi.
Porém, há um bloqueio inexplicável de nossa parte. Não guardamos os dados. Somos um Google offline naquela hora.
Coisa estranha. Raciocinando em perspectiva, não é um fato isolado. Existem lembranças que não se fixam por algum motivo inaudito. Registros impossíveis de se decorar. Pode ser um telefone discado com frequência que não entra na cabeça de jeito nenhum. Pode ser o nome de uma cidade recorrente que escapa das sinapses.
Surpreendente é o esquecimento mútuo, o esquecimento sincrônico, eu e ela repetindo a dúvida pela enésima oportunidade.
Chamamos sempre o garçom para esclarecer o dilema.
- Qual dos dois é o menor?, questionamos.
- O shimeji, o garçom explica.
- Queremos o shimeji!, exclamamos em uníssono.
Batemos palmas, gritamos gol, festejamos com beijos. O atendente deve se espantar com o nosso contentamento, exagerado para uma informação trivial.
É que o alívio dá realmente um barato próximo da droga - assim como espirrar é bom, por mais desagradável e barulhento que seja.
Desobrigar o cérebro a mais uma tarefa traz leveza e picos de endorfina.
Rimos sem parar dali por diante, nunca duvidando de que o nosso amor é o grande. A gente nunca erra esse pedido.
Publicado em Donna ZH em 15/10/2017
Sofremos de um lapso mútuo, de um Alzheimer amoroso. E vacilamos o pêndulo da mão diante dos números dos pratos.
- Não acredito que não me lembro, diz Beatriz.
- Não acredito que também não me lembro, respondo.
Já comemos dezenas de vezes. É, inclusive, um de nossos menus prediletos, ao lado do carpaccio de salmão, do guioza e do sashimi.
Porém, há um bloqueio inexplicável de nossa parte. Não guardamos os dados. Somos um Google offline naquela hora.
Coisa estranha. Raciocinando em perspectiva, não é um fato isolado. Existem lembranças que não se fixam por algum motivo inaudito. Registros impossíveis de se decorar. Pode ser um telefone discado com frequência que não entra na cabeça de jeito nenhum. Pode ser o nome de uma cidade recorrente que escapa das sinapses.
Surpreendente é o esquecimento mútuo, o esquecimento sincrônico, eu e ela repetindo a dúvida pela enésima oportunidade.
Chamamos sempre o garçom para esclarecer o dilema.
- Qual dos dois é o menor?, questionamos.
- O shimeji, o garçom explica.
- Queremos o shimeji!, exclamamos em uníssono.
Batemos palmas, gritamos gol, festejamos com beijos. O atendente deve se espantar com o nosso contentamento, exagerado para uma informação trivial.
É que o alívio dá realmente um barato próximo da droga - assim como espirrar é bom, por mais desagradável e barulhento que seja.
Desobrigar o cérebro a mais uma tarefa traz leveza e picos de endorfina.
Rimos sem parar dali por diante, nunca duvidando de que o nosso amor é o grande. A gente nunca erra esse pedido.
Publicado em Donna ZH em 15/10/2017
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
SAÍDAS DE EMERGÊNCIA
A mãe devia pensar que me distraia poeticamente com os pássaros, mas apenas escapava da fundo mortal dos cruzados de meus colegas
Minha escola pública não tinha um único portão de entrada e saída. Na verdade, tinha. Mas eu não poderia arriscar. Vivia no coliseu de Roma. Não se matava um leão por dia, fugia-se dele.
Em minha turma da segunda série, havia meninos muito maiores, já de bigode, que haviam rodado três anos seguidos. Eles roubavam a merenda e criavam um método nada refinado de tortura psicológica com apelidos e ameaças. Era apenas não dar cola na prova que qualquer um já virava jurado de briga.
- Vou lhe pegar na saída!
Quando um dos membros da gangue dos repetentes dizia tal sentença em voz alta, a escola inteira espalhava o indício de briga depois do último período. Improvisava-se a arena na praça, defronte à escola, longe dos professores e das advertências do SOE. Uma escolta de curiosos e mórbidos levava o condenado para o abatedouro e não lhe permitia pensar e declinar do perigoso convite.
No momento em que alguém prometia guerra, não se admitia covardia. A pessoa marcada ficava assinalada para sempre. Até conhecer o sangue de sua boca e perder os dentes de leite.
Terminava sendo a vítima predileta: franzino, desengonçado e de fala fina. Um ideal saco de pancadas para demonstração de virilidade dos agressores.
Eu passava o recreio testando acessos de emergência. Poderia ter sido bombeiro.
Conhecia a segurança da estrutura na palma da minha mão. Pulando duas grades da casinha de jardinagem, eu chegava à rua pela lateral do prédio. Eu me vali desse atalho algumas vezes, corria pela escadaria da Rua Itaqui e contornava cinco quadras. Fiz sempre caminhos mais longos no retorno ao lar. A ida para escola durava 10 minutos, a volta demorava meia hora. A mãe devia pensar que me distraia poeticamente com os pássaros, mas apenas escapava da fundo mortal dos cruzados de meus colegas. O sinal mal soava e já disparava, encerrava as tarefas com antecedência para deixar a mochila pronta e escapulir sem perseguição. Pelo tempo apertado, às vezes, não conseguia me desvencilhar do rebanho e dos dedos em riste na minha cara. Daí fingia ir ao banheiro e descia para a quadra de asfalto do futebol, o que me restava saltar do paredão de três metros. A sorte é que uma carroça largava sacos de lixo com jornais e papéis velhos no terreno, que amortizava a queda. Preferia quebrar a perna pulando a dar ao outro a honra das feridas.
Para sair da escola, não dependia de boas notas. Exigia um tanto de preparo físico e de resiliência.
Quando não vejo saída, guardo ainda o costume de abrir as portas de meu medo.
Publicado em Donna ZH em 08/10/2017
Minha escola pública não tinha um único portão de entrada e saída. Na verdade, tinha. Mas eu não poderia arriscar. Vivia no coliseu de Roma. Não se matava um leão por dia, fugia-se dele.
Em minha turma da segunda série, havia meninos muito maiores, já de bigode, que haviam rodado três anos seguidos. Eles roubavam a merenda e criavam um método nada refinado de tortura psicológica com apelidos e ameaças. Era apenas não dar cola na prova que qualquer um já virava jurado de briga.
- Vou lhe pegar na saída!
Quando um dos membros da gangue dos repetentes dizia tal sentença em voz alta, a escola inteira espalhava o indício de briga depois do último período. Improvisava-se a arena na praça, defronte à escola, longe dos professores e das advertências do SOE. Uma escolta de curiosos e mórbidos levava o condenado para o abatedouro e não lhe permitia pensar e declinar do perigoso convite.
No momento em que alguém prometia guerra, não se admitia covardia. A pessoa marcada ficava assinalada para sempre. Até conhecer o sangue de sua boca e perder os dentes de leite.
Terminava sendo a vítima predileta: franzino, desengonçado e de fala fina. Um ideal saco de pancadas para demonstração de virilidade dos agressores.
Eu passava o recreio testando acessos de emergência. Poderia ter sido bombeiro.
Conhecia a segurança da estrutura na palma da minha mão. Pulando duas grades da casinha de jardinagem, eu chegava à rua pela lateral do prédio. Eu me vali desse atalho algumas vezes, corria pela escadaria da Rua Itaqui e contornava cinco quadras. Fiz sempre caminhos mais longos no retorno ao lar. A ida para escola durava 10 minutos, a volta demorava meia hora. A mãe devia pensar que me distraia poeticamente com os pássaros, mas apenas escapava da fundo mortal dos cruzados de meus colegas. O sinal mal soava e já disparava, encerrava as tarefas com antecedência para deixar a mochila pronta e escapulir sem perseguição. Pelo tempo apertado, às vezes, não conseguia me desvencilhar do rebanho e dos dedos em riste na minha cara. Daí fingia ir ao banheiro e descia para a quadra de asfalto do futebol, o que me restava saltar do paredão de três metros. A sorte é que uma carroça largava sacos de lixo com jornais e papéis velhos no terreno, que amortizava a queda. Preferia quebrar a perna pulando a dar ao outro a honra das feridas.
Para sair da escola, não dependia de boas notas. Exigia um tanto de preparo físico e de resiliência.
Quando não vejo saída, guardo ainda o costume de abrir as portas de meu medo.
Publicado em Donna ZH em 08/10/2017
PREPOTÊNCIA DO MENTIROSO
É muito fácil desmascarar o mentiroso. Quando pego em contradição, fica possesso e indignado. Ataca para não se ver atacado. Distrai a atenção com o escândalo.
Todo mentiroso é um canastrão, gesticula sem necessidade, abraça o ar até sufocá-lo, tem as bochechas vermelhas de ódio, transforma companheiros de longa em data em inimigos, delata os afetos para adquirir imunidade.
Todo mentiroso esperneia e se movimenta de modo frenético. Em vez de ter humildade e desfazer tranquilamente o engano, fica mais prepotente e não deseja dar satisfações. Sai de cena bufando, volta à cena aos gritos. Bate à porta, empurra a cadeira, os objetos sofrem à sua volta.
Todo mentiroso ameaça, como um profeta de rua. Antecipa o apocalipse por tê-lo posto à prova. Já começa a inventar castigos e reprimendas como o fim da amizade e o término da relação. Prefere acabar a confessar.
Todo mentiroso não se desculpa. Pelo contrário, imagina o acusador pedindo perdão de joelhos pelo mal-entendido.
Todo mentiroso se projeta numa vaga de emprego, não parando de se elogiar, destacando os seus pontos positivos, sublinhando a sua honradez e ética na tomada de decisões.
Todo mentiroso nega e nega e nega: vai soletrando não antes mesmo de ser questionado.
Todo mentiroso conversa sozinho: não escuta nada, pergunta e responde, num júri imaginário. Ocupa, simultaneamente, os papéis de advogado de defesa, promotor e juiz.
Seu primeiro movimento é desqualificar a pessoa que o colocou em dúvida. Poderia desmontar a mentira, mas leva para o lado pessoal e ofende o outro, insinuando uma perseguição.
Não apresenta argumentos, muito menos detalha o ocorrido. Diz inicialmente que é um absurdo a falta de confiança. Tenta entrar no jogo psicológico dos atenuantes, lembrando que se conhecem há tempo e não merecia tamanha desconsideração. Implicará com a lealdade, falando que jamais esperava ser agredido com um golpe baixo. Desmerece a curiosidade e a caracteriza como prova de mais alta traição.
Todo mentiroso não quer perder tempo conversando, mas tampouco cala a boca.
Como não convence com fatos, depois age como um psiquiatra. Cria diagnósticos, despeja receitas, acumula distorções, estabelece sintomas de paranoia. Fará de tudo para provar que tudo é uma loucura e que todos estão doidos, menos ele.
Todo mentiroso é igual. Abomina a lógica e recusa as provas.
Não entende que a inocência não se prova.
Os sinais são evidentes. Quem não tem razão se sente cheio de razão. Quem tem razão não se sente intimidado com o erro.
A verdade é calma e curta. A mentira é penosa e aflitiva.
A verdade é um atalho. A mentira é o caminho mais longo e sempre passa pelo ataque de nervos.
Publicado em Donna ZH em 02/10/2017
Todo mentiroso é um canastrão, gesticula sem necessidade, abraça o ar até sufocá-lo, tem as bochechas vermelhas de ódio, transforma companheiros de longa em data em inimigos, delata os afetos para adquirir imunidade.
Todo mentiroso esperneia e se movimenta de modo frenético. Em vez de ter humildade e desfazer tranquilamente o engano, fica mais prepotente e não deseja dar satisfações. Sai de cena bufando, volta à cena aos gritos. Bate à porta, empurra a cadeira, os objetos sofrem à sua volta.
Todo mentiroso ameaça, como um profeta de rua. Antecipa o apocalipse por tê-lo posto à prova. Já começa a inventar castigos e reprimendas como o fim da amizade e o término da relação. Prefere acabar a confessar.
Todo mentiroso não se desculpa. Pelo contrário, imagina o acusador pedindo perdão de joelhos pelo mal-entendido.
Todo mentiroso se projeta numa vaga de emprego, não parando de se elogiar, destacando os seus pontos positivos, sublinhando a sua honradez e ética na tomada de decisões.
Todo mentiroso nega e nega e nega: vai soletrando não antes mesmo de ser questionado.
Todo mentiroso conversa sozinho: não escuta nada, pergunta e responde, num júri imaginário. Ocupa, simultaneamente, os papéis de advogado de defesa, promotor e juiz.
Seu primeiro movimento é desqualificar a pessoa que o colocou em dúvida. Poderia desmontar a mentira, mas leva para o lado pessoal e ofende o outro, insinuando uma perseguição.
Não apresenta argumentos, muito menos detalha o ocorrido. Diz inicialmente que é um absurdo a falta de confiança. Tenta entrar no jogo psicológico dos atenuantes, lembrando que se conhecem há tempo e não merecia tamanha desconsideração. Implicará com a lealdade, falando que jamais esperava ser agredido com um golpe baixo. Desmerece a curiosidade e a caracteriza como prova de mais alta traição.
Todo mentiroso não quer perder tempo conversando, mas tampouco cala a boca.
Como não convence com fatos, depois age como um psiquiatra. Cria diagnósticos, despeja receitas, acumula distorções, estabelece sintomas de paranoia. Fará de tudo para provar que tudo é uma loucura e que todos estão doidos, menos ele.
Todo mentiroso é igual. Abomina a lógica e recusa as provas.
Não entende que a inocência não se prova.
Os sinais são evidentes. Quem não tem razão se sente cheio de razão. Quem tem razão não se sente intimidado com o erro.
A verdade é calma e curta. A mentira é penosa e aflitiva.
A verdade é um atalho. A mentira é o caminho mais longo e sempre passa pelo ataque de nervos.
Publicado em Donna ZH em 02/10/2017
LÍNGUA NO CANTO DA BOCA
O homem tem a incômoda língua para fora quando se esforça. É carregar algo ou gostar de uma situação que ele põe a tramela no canto da boca.
De repente, não mais do que de repente, prepara um wrap dobrando a sua língua.
Parece um louquinho com camisa de força. Uma criança fazendo careta. Um cachorro com sede. Não traz seriedade, não inspira confiança.
A língua para fora sugere problemas motores incontornáveis. Assusta quem dividimos intimidade, ameaça quem nem conhecemos.
Nenhuma mulher gosta, com a devida razão. Pois estraga a maior parte das selfies e das cenas amorosas. Isso que pode surgir no meio do sexo, com os espelhos do motel apontados para o corpo, provocando inevitáveis desdobramentos broxantes.
É um ataque epilético manso que acomete todo macho. Acontecerá jogando sinuca, levando as compras do mercado, batendo um pênalti, numa brincadeira no sofá, dançando em uma balada, levantando peso na academia.
Não há como apagar aquela porção de Coringa em nosso rosto, acalmar o Jim Carrey de nossas expressões. O contorcionismo poderia ser cômico se houvesse controle. Mas não tem como programá-lo ou desprogramá-lo. É um bug no sistema operacional masculino. Ainda corremos o risco de babar.
Trata-se de um movimento intuitivo, do princípio da linguagem, evocação da transição de gestos bucais nas cavernas, que emerge sem percebermos nas tarefas que exigem grande concentração. Só identificamos quando alguém chama atenção, mas já não existe desculpa convincente e reparo sociável imediato.
Às vezes, quando a esposa coloca a mão em meus lábios, não é para me silenciar, é para devolver o monstro ao seu lugar. Outras vezes quando ela me surpreende com um beijo não significa arrebatamento, é apenas uma mordaça, um selinho constrangido, destinado a interromper a vergonha de qualquer jeito.
Publicado em Donna ZH em 24/9/2017
De repente, não mais do que de repente, prepara um wrap dobrando a sua língua.
Parece um louquinho com camisa de força. Uma criança fazendo careta. Um cachorro com sede. Não traz seriedade, não inspira confiança.
A língua para fora sugere problemas motores incontornáveis. Assusta quem dividimos intimidade, ameaça quem nem conhecemos.
Nenhuma mulher gosta, com a devida razão. Pois estraga a maior parte das selfies e das cenas amorosas. Isso que pode surgir no meio do sexo, com os espelhos do motel apontados para o corpo, provocando inevitáveis desdobramentos broxantes.
É um ataque epilético manso que acomete todo macho. Acontecerá jogando sinuca, levando as compras do mercado, batendo um pênalti, numa brincadeira no sofá, dançando em uma balada, levantando peso na academia.
Não há como apagar aquela porção de Coringa em nosso rosto, acalmar o Jim Carrey de nossas expressões. O contorcionismo poderia ser cômico se houvesse controle. Mas não tem como programá-lo ou desprogramá-lo. É um bug no sistema operacional masculino. Ainda corremos o risco de babar.
Trata-se de um movimento intuitivo, do princípio da linguagem, evocação da transição de gestos bucais nas cavernas, que emerge sem percebermos nas tarefas que exigem grande concentração. Só identificamos quando alguém chama atenção, mas já não existe desculpa convincente e reparo sociável imediato.
Às vezes, quando a esposa coloca a mão em meus lábios, não é para me silenciar, é para devolver o monstro ao seu lugar. Outras vezes quando ela me surpreende com um beijo não significa arrebatamento, é apenas uma mordaça, um selinho constrangido, destinado a interromper a vergonha de qualquer jeito.
Publicado em Donna ZH em 24/9/2017
SESTA PERFEITA
A imperfeição é parte do plano do cochilo. A graça vem em vencer a resistência. Não pode haver facilidades, como o escuro, o blecaute das janelas, a quietude, a porta fechada.
Nada substitui o sono na própria cama. Não tem hotel cinco estrelas que rivalize. Não tem pousada de madeira na Serra que traga o mesmo conforto.
Mas sesta, no inicio da tarde, não combina com o quarto. Traz culpa e pesadelo, ansiedade e alarme de extravio.
Sesta não se faz com o consentimento. É um dos raros prazeres roubados da vida.
Para a cabeça funcionar e jamais ficar perdida depois, sesta depende de um lugar provisório, como se fossemos adormecer por descuido, ouvindo _ até desaparecer progressivamente _ os barulhos da casa.
Sesta perfeita é no sofá, sem travesseiro e lençol, sem ninho e fortaleza, com as almofadas grandes reviradas, exposto ao trânsito da família.
Ela somente prospera contra o relógio, não a favor do tempo.
A imperfeição é parte do plano do cochilo. A graça vem em vencer a resistência. Não pode haver facilidades, como o escuro, o blecaute das janelas, a quietude, a porta fechada.
Deve-se ceder à preguiça integral: deitar logo após comer, não escovar os dentes, não realizar nenhum esforço de concentração, não mexer no celular, não convocar os neurônios a movimentos bruscos.
Sesta é queda livre. É fingir que vai ver um pouquinho de televisão e se esparramar de repente no vazio terapêutico da sala.
A mais saborosa sesta é aquela que é interrompida, mas jamais nos entregamos. Abrimos um canto do olho e não desistimos dos sonhos.
Sono fora de hora renuncia pré-requisitos. Que venha de qualquer jeito, longe do luxo. Que seja por rápidos trinta minutos, que seja uma vingança por despertar cedo no dia, que seja amontoado, dobrado e amassado, que seja deitado de roupa e cinto, com os sapatos de cabeça para baixo no chão, também roncando.
Sesta planejada somente nos piora. Sesta que nos melhora é caprichoso acidente da rotina.
Publicado em Revista Donna, Jornal Zero Hora em 17/9/2017
Nada substitui o sono na própria cama. Não tem hotel cinco estrelas que rivalize. Não tem pousada de madeira na Serra que traga o mesmo conforto.
Mas sesta, no inicio da tarde, não combina com o quarto. Traz culpa e pesadelo, ansiedade e alarme de extravio.
Sesta não se faz com o consentimento. É um dos raros prazeres roubados da vida.
Para a cabeça funcionar e jamais ficar perdida depois, sesta depende de um lugar provisório, como se fossemos adormecer por descuido, ouvindo _ até desaparecer progressivamente _ os barulhos da casa.
Sesta perfeita é no sofá, sem travesseiro e lençol, sem ninho e fortaleza, com as almofadas grandes reviradas, exposto ao trânsito da família.
Ela somente prospera contra o relógio, não a favor do tempo.
A imperfeição é parte do plano do cochilo. A graça vem em vencer a resistência. Não pode haver facilidades, como o escuro, o blecaute das janelas, a quietude, a porta fechada.
Deve-se ceder à preguiça integral: deitar logo após comer, não escovar os dentes, não realizar nenhum esforço de concentração, não mexer no celular, não convocar os neurônios a movimentos bruscos.
Sesta é queda livre. É fingir que vai ver um pouquinho de televisão e se esparramar de repente no vazio terapêutico da sala.
A mais saborosa sesta é aquela que é interrompida, mas jamais nos entregamos. Abrimos um canto do olho e não desistimos dos sonhos.
Sono fora de hora renuncia pré-requisitos. Que venha de qualquer jeito, longe do luxo. Que seja por rápidos trinta minutos, que seja uma vingança por despertar cedo no dia, que seja amontoado, dobrado e amassado, que seja deitado de roupa e cinto, com os sapatos de cabeça para baixo no chão, também roncando.
Sesta planejada somente nos piora. Sesta que nos melhora é caprichoso acidente da rotina.
Publicado em Revista Donna, Jornal Zero Hora em 17/9/2017
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
ONDE COLOCAR AS UNHAS?
Foto: Reprodução Donna
Nunca vi minha mulher cortando as unhas em casa. Se ela faz, é de modo discreto e imperceptível. Seu costume é arrumar no salão.
O meu problema é que deixo as unhas crescerem até furar as meias. E depois não é mais um corte, e sim um abate.
Deveríamos receber um saquinho plástico, tipo o existente em avião para desconforto, com uma cordinha e a recomendação desenhada dos possíveis acidentes.
E não há lugar para cortar em paz, sem ser chamado à atenção. Como são lâminas já, cascos já, é enfiar a tesourinha e a unha salta para nunca mais localizá-la. Deve ir para debaixo de algum móvel, assim como copo quando se despedaça.
Após dois meses, são unhas voadoras, unhas morcegos. Criam asas.
Daí me lembro por que demoro para apará-las, é sempre o mesmo impasse. Retardo ao máximo e apenas tomo uma atitude quando a minha mulher não aguenta mais e reclama dos arranhões com a carícia dos meus pés na cama.
Não raciocino que o adiamento acentua a força do arremesso. Quanto o maior tempo sem ajeitar, maior a compressão do OVNI.
Não tem muito o que fazer: o cortador é uma alavanca para longe. Não há como reunir a sujeira, o montinho, e botar no lixo. Aliás, lixo é o lugar. Uma vez coloquei na privada e uma amostra grátis restou na tampa para nojo da minha adorável companhia.
Onde cortar é um drama masculino. Tentei podar no quarto e foi uma calamidade. Motivo de divórcio a esposa achar um resquício dos meus pés nos lençóis. Tentei na sala e temo que um dia as ossadas sejam localizadas no tapete felpudo e termine condenado pelo crime de porquice. Na cozinha, nem pensar. No banheiro, com os azulejos brancos, é uma odisseia identificar as foragidas. Mais fácil encontrar uma tarraxa de um brinco do que uma unha. Mais fácil encontrar uma tarraxa transparente de um brinco do que uma unha.
Atinjo a curiosa conclusão de que as unhas mijam de pé. Nunca acertam o vaso. É outra disfunção do nosso universo viril.
Publicado em Donna em 07/08/17
terça-feira, 29 de agosto de 2017
NÃO SE MEXA DEPOIS DA SEPARAÇÃO
Foto: Divulgação Pixabay
Na separação, o primeiro passo é não dar nenhum passo. A imobilidade é o grande truque. Não se mexer dentro da raiva porque pode se arrepender no futuro. Não tenha pressa de tomar decisões.
Respire fundo porque as 48 horas após o término serão fundamentais para assegurar uma possível volta. Os divórcios se tornam definitivos não com aquilo que acontece frente a frente, e sim com as consequências irracionais do desespero de ser ver sozinho de repente.
As pessoas ficam transtornadas quando isoladas e se ofendem como animais, com tamanha gravidade que sacramentam o término. Daí não tem como recuperar a honra. Os machucados das discussões se transmudam em golpes fatais na reputação.
Aqueles que se afastam, em vez de calar a boca e realizar um exame de consciência, ampliam os defeitos e a crise colocando mais gente para opinar sobre o que aconteceu de errado no romance. Acabam telefonando para os familiares e amigos do recente ex para contar segredos que nunca deveriam ter saído da relação. A fofoca sempre será o juiz de guerra.
Houve o afastamento provisório, um desentendimento passageiro, não significa um ódio mortal para propor retaliações.
Não encurte o caminho, não corra com os fatos, não se adiante a espalhar a notícia. Um telefonema ou um toque no interfone pode revolucionar a situação em algumas horas e terá o trabalho dobrado de se explicar para a cidade inteira.
Não mergulhe na ansiedade de provocar a saudade e mostrar o que o outro perdeu. Não se vingue trocando o status do Facebook. Não empregue artifícios do terrorismo, colocando bombas nos santuários do relacionamento e nos lugares prediletos do casal. Não saia transando com antigas pendências e novos pretendentes. Não poste imagens exaltando a condição solteira. Não mexa em seus arquivos no celular. Não descarte as conversas. Não bloqueie o seu amor no WhatsApp somente para se enxergar superior. Não apague as fotos do Facebook e das redes sociais, pois o portal ainda está aberto e qualquer ataque é passível de dificultar o retorno e restringir o respeito.
Esconda as bebidas, compre pizza, empreenda um estoque de sorvete e chocolate, e assista a cinco temporadas de uma série alternando o sofá da sala e a cama. Quando não nos precipitamos tudo se resolve automaticamente.
Não fale mal de quem ainda lhe fez bem durante um longo tempo. Bate-bocas são contornáveis, o que não tem conserto é a difamação.
Pense muito antes de enterrar alguém no coração, para não enterrar vivo.
Publicado em Donna em 09/07/17
O INCRÍVEL CAÇADOR DE BARBADAS
Foto: Divulgação Donna
Eu enganei a escassez da adolescência participando dos sorteios da rádio. Vivia sintonizado para receber um disco ou um par de ingressos. Meus ouvidos estavam colados na voz do locutor como se fosse números de um bingo.
Morava sozinho, não tinha dinheiro para sair e tampouco passaria a vergonha de pedir ajuda para os pais. O que eu fazia? Caçava enquetes nas rádios. Pulava de um quiz-show para o outro. Soprava nomes de atores, solucionava charadas, descobria letrista oculto em canções, improvisava declarações de amor; topava tudo. Os apresentadores reconheciam a voz e acabavam envergonhados com a minha constante frequência.
Lembro do diálogo:
– Quem fala?
– Fabrício, do bairro Petrópolis.
– Você de novo?
A que mais me municiava o meu rebanho de vacas magras era a Rádio Cidade. Não foram poucas as vezes em que eu subi o Morro Santa Tereza para buscar cortesias. As namoradas do período não entendiam como arrumava entradas. Acreditavam na minha influência, mal sabiam da chinelagem disfarçada de glamour. Aparecia de repente com vales para lançamentos, shows e peças de teatro. Grande parte da minha vida social, eu devo para o dial. Jamais abri os meus truques e revelei a roda da fortuna. Mantive a mágica do mistério com um sorriso irônico.
Numa época sem celular e sem telefone fixo no apartamento de solteiro, terminava por me enganchar no orelhão. Rezava primeiro para ser atendido – milhares de pessoas tentavam como eu. Não dava para desistir diante do sinal de ocupado. Depois, quando selecionado para falar, rezava para que as fichas sustentassem a ligação. Não podia me demorar, escutava o aparelho engolindo os meus valiosos minutos com ansiedade e sofreguidão. Quando acertava a resposta no programa ao vivo, vibrava e já desligava abruptamente, antes de ser cortado pela falta de crédito.
Resolvia o final de semana perseguindo promoções. Carregava um radinho de pilha no bolso durante a universidade para não chegar atrasado nas ofertas.
Colecionava, igualmente, cupons de desconto em revistas e jornais. Acho que os meus olhos são feitos de linhas pontilhadas.
Nunca fui redundante, pobre materialmente e de espírito. Compensava a ausência de bens com voluntarismo. Nem tive tempo de ser tímido. Por pior que seja, valorizo a apresentação de um artista em minha cidade. Sei o quanto vale o ingresso. Ao longo da juventude, lutei enormemente com as palavras, e um pouco de cara-de-pau, por cada um deles.
Publicado em Donna em 26/06/17
UM HOMEM NUNCA DEVE DAR UM SUTIÃ PARA UMA MULHER
Foto: Divulgação Donna
Só há um único presente que o homem não tem como dar a uma mulher: o sutiã.
Pode até comprar calcinha, já num ato de extrema ousadia. Mas o sutiã é impossível. Não confunda teimosia com coragem e insistência com burrice.
O sutiã é feminino até na compra. Não arrisque que se dará mal. Pense que o sutiã não é uma peça qualquer, desde sempre é a bandeira do feminismo. O estandarte da diferença.
Nem é o problema de acertar o tamanho, e sim definir o conforto e a peculiaridade para cada peito. O sutiã é o mais pessoal dos acessórios. Não pode apertar, não pode tampouco folgar, não pode aparecer, não pode desaparecer por completo. É um sem fim de variáveis.
Olha como é complicado: a alça do sutiã deve ser centralizada nos ombros; quem possui seios menores, enchimento e push-up são uma ótima alternativa; quem detém seios maiores, o correto é optar por laterais e costas reforçadas; não convém expor alça de silicone; cuidado para a cor da pele não destoar demais do conjunto.
Acostumado a uma lista de mercado, nenhum homem chegaria a tal grau de sofisticação. Como tentar passar em Cálculo na Engenharia com a matemática do Ensino Fundamental. Sutiã é conversar de repente, de igual para igual, com Einstein. São fórmulas e fórmulas desenvolvidas para um resultado único e improvável.
Sua esposa ou sua namorada ficará ofendida com o mimo. Acreditará que invadiu a intimidade, que desrespeitou os limites, que não obedeceu aos mistérios da humanidade. Mesmo que use o pretexto de apimentar a relação com produto de uma sex shop, mesmo que venha com rendas pretas e texturas vermelhas diferenciadas, mesmo que apresente sabor de morango e champanhe brut. A sofisticação não é um atenuante, muito menos o valor exorbitante de uma marca. Gastar muito não significa garantia de reconhecimento.
Com o sutiã, errar não é humano. Nenhum clichê salva. Nenhuma nudez será perdoada.
Publicado em Donna em 15/05/17
MEU AMIGO DE SUNGA
Foto: Divulgação Donna
É um choque testemunhar o seu grande amigo na praia. Agora posso dizer que ele é um grande amigo porque eu o vi de sunga. Dividimos o vexame do despojamento do litoral. Antes da praia, a amizade estava vestida para a missa. Depois da praia, duvido que existam maiores constrangimentos. É partilhar o confessionário honesto da idade e da condição física. Os pecados se despedem da carne.
Eu mal me concentrava na conversa. Só o olhava de cima a baixo, da barba ruiva aos chinelos havaianas:
– Será ele mesmo? Eu o conhecia de óculos, jeans e camisa social, com a vestimenta sóbria de terapeuta. Sempre comedido, sempre respeitoso. Já gargalhamos em bares e restaurantes, na casa de um e de outro, só que nunca assim, com os cotovelos próximos no Juízo Final.
De repente, lá estava Mário Corso rindo e dividindo uma caipirinha com pedaço de pano nas partes íntimas, esgueirado numa cadeira no sol. Se ele estivesse fantasiado não seria igualmente extravagante. Nenhuma festa causaria tamanho transtorno. Nem se surgisse de Thor com um martelo de borracha.
Analisava a sua barriguinha tímida, a sua brancura, a sua mirada infinita ao oceano, as suas pausas de espuma, a forma pastosa em que se colocou protetor solar.
– Será ele mesmo? Respondia apenas “aham” para me manter vivo nas palavras e distrair o foco de minha distração. Nenhuma mulher de biquíni chamaria mais atenção do que o meu grande amigo de sunga. Tinha que adaptar a minha admiração. Alojar aquela imagem no álbum de família. Suportar a verdade exclusiva de um banho de mar. Mas podia ser pior. A gente ainda não se encontrou de pijama.
Publicado em Donna em 08/05/17
VIVI E MARI
Foto: Reprodução Pexels
Sempre eu me espantava o tanto que os meus filhos cresceram. Nas roupas, nos gestos, nas tiradas, na defesa dos argumentos. Pasmo que o tempo vai nos empurrando para a frente e não traz nenhuma pausa para repetir as cócegas na barriga deles ou carregá-los na garupa durante os shows de música.
Vicente, 15 anos, ultrapassou a minha altura até então imponente na casa. Mariana, 22, decidiu corrigir meu português até então indefectível na casa. O pai idealizado vai sendo substituído pelo amigo humano, imperfeito e feito de falhas perdoáveis e cômicas.
Logo mais cederei o meu lugar na cabeceira da mesa. Naturais o crescimento e a crítica cada vez mais exigentes.
Como não existe como segurar a idade, o que noto em mim é uma metamorfose do olhar. Há uma inversão de minha mirada diante dos filhos. Como eles amadureceram rapidamente, deixo de procurar em suas feições os adultos que se tornaram para reaver as crianças que um dia foram. Cato e recolho agora resquícios da infância em suas atitudes.
Mudei minha expedição: não perseguir mais o futuro, e sim a pureza e a magia da criancice intactas em alguma de suas frases e expressões. Folheio em seus rostos o nosso velho álbum de fotografias. Não me interessa mais saber se são parecidos com o pai ou com a mãe, com o avô ou avó, o que importa é encontrar semelhança com eles mesmos de antigamente.
Minha luta é identificar o que mantém de quando eram crianças: talvez a curiosidade, ou a risada desbragada, ou a teimosia de dormir tarde ou a pressa de comer quando amam uma refeição.
Minhas pupilas têm pinças e espátulas para não estragar as asas das borboletas do jardim do Éden.
Todo pai, depois de ser um profeta, converte-se num arqueólogo. Não está centrado em adivinhar quem serão os seus filhos, dispõe a proteger a ternura dos laços primevos.
Eu me esforço em não esquecer o começo. Serei a retaguarda deles por toda a vida. Irei guardá-los quando precisarem recuperar as suas identidades.
Enquanto avançam, recuo nostalgicamente.
Não estranho que voltei a adotar os apelidos que usava quando ainda trocavam as fraldas: Vi e Mari. Recorro à diminuição proposital de seus nomes para preservar o amor da filiação.
Assim como meus pais nunca mais me chamaram de Fabrício, porém de Bito. Para não esquecer que serei eternamente uma criança para quem me criou e educou.
Maturidade é jamais negar a nossa origem.
Publicado em Donna em 02/05/17
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