Desodorante só veio depois.
O que usávamos em casa era talco, tanto adultos quanto crianças.
O pó grudava na pele ao sair do banho. Eu me sentia um bife à milanesa pronto para a escola.
Passava por duas nuvens logo cedo: a do vapor do chuveiro quente e a do talco. Botava o pulmão para fora com a série de espirros. Nunca espirrei tanto quanto nessa época. Partia do talco para o giz do quadro-negro, minha aura permanecia adocicada, esfumaçada.
Fui grisalho na minha infância e adolescência.
Já me acostumei desde cedo com os pelos brancos – nenhuma velhice me assusta.
Quando alguém tirava o cisco do meu olho, soprando fortemente dentro das pálpebras, levava também a poeira branca do pescoço. Era engraçado, dava vontade de rir da casualidade.Eita!
Havia uma outra dinâmica na higiene. Uma outra atmosfera. O spray não dominava os armarinhos. As mulheres recorriam a um pompom para retirar o conteúdo alvo e se perfumar. Os machos despejavam o pote direto nas axilas, metade caía no chão. Deixavam um tapete de neve pelo banheiro.
Não se levava perfumaria ao trabalho, tarefa exclusivamente doméstica. Como as pessoas voltavam para almoçar em casa, existia a chance do reforço da beleza e dos retoques. O dia assim oferecia dois turnos para se arrumar e remediar o suor da manhã.
As bolsas femininas ficavam mais leves. Os homens carregavam apenas um pente no bolso de trás da calça, sempre esquecendo do objeto e quebrando na hora de sentar à mesa.
Todos cheiravam semelhante: a travesseiro limpo, a tio e tia felizes, a vó e vô passeando, a residência antiga. Todos cheiravam parecido, desfrutando de uma fragrância coletiva. Talvez por isso o talco me dá saudade de família. O talco é cheiro de família unida. O talco é cheiro de quando tínhamos tempo, de quando nos olhávamos mais, de quando espanávamos o excesso das camadas no abraço, de quando a vaidade e o egoísmo não eram maiores do que a vontade de estar junto.
A igualdade não matava a diferença.
Publicado em Jornal ZH em 27/02/2018
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sexta-feira, 1 de março de 2019
O VENDEDOR DE PARAÍSOS
Sempre sábado à tarde, em minha infância, alguém batia palmas na frente do portão. Não havia campainha, quiçá interfone.
Ele se esgoelava gritando para vencer os latidos e aplaudia fervorosamente o infinito das janelas, como quem pede bis a um artista.
E já sabíamos quem era: o incansável vendedor de enciclopédias. Por mais que recusássemos, ele voltava para alcançar as suas metas. Não aceitava recusa. Antes do nosso “não” definitivo deixava o folheto colorido e dizia para os pais pensarem no assunto com calma.
Nos anos 70, sem Google e sem internet, sem celular e sem redes sociais, reinava o conhecimento escrito. Ter uma enciclopédia significava a salvação do ensino para as crianças, a retaguarda dos trabalhos escolares e pesquisas para apresentações em grupo. Lá encontravam-se as grandes invenções da humanidade, a história das civilizações, a anatomia do corpo explicada por plásticos sobrepostos, os maiores cientistas e personalidades. Impossível de se ler inteira, com 20 volumes e mais de 11 mil páginas, atendia somente a consultas pontuais. A vastidão impressionava os possíveis clientes - comprava-se cadeiras no céu da sabedoria.
Além de ser vista como investimento, produzia glamour e inveja. Quem conseguia adquirir esnobava as visitas: colocava na estante da sala, atrás do sofá, com os livros alinhados e em sequência numéricas dos tomos. Aparentava uma biblioteca cenográfica de novela, nada fora do lugar.
No mundo sexista do período, mulheres vendiam cosméticos de casa em casa, em especial a partir de revistas da Avon, e homens circulavam com edições da Barsa ou da Britannica Mirador debaixo dos braços - a Britannica custava o dobro, pomposa, maior e de capa marrom, reservada a classe média alta. Quem adquiria Britannica, invariavelmente, tinha piscina, a relação fazia sentido.
O vendedor seguia uma carreira séria, surgia de terno e gravata, cabelo engomado, sapatos engraxados e falava difícil de propósito, para justificar o pacote promocional da sapiência. Lembrava um outro idioma, só mesmo com dicionário ao lado para entendê-lo.
A assinatura de enciclopédia costumava ser celebrada com comemoração pelas famílias, partilhando do status de batizado e casamento. Não se pagava à vista, mas em parcelas a perder de vista, como se fosse um carro ou um imóvel, em uma porção de cheques pré-datados atravessando a penúria de décadas.
Quando meus pais compraram o produto, deram tapinhas em minhas costas:
- Agora tem tudo nas mãos para ser alguém na vida!
Publicado em Jornal ZH em 20/02/2018
Ele se esgoelava gritando para vencer os latidos e aplaudia fervorosamente o infinito das janelas, como quem pede bis a um artista.
E já sabíamos quem era: o incansável vendedor de enciclopédias. Por mais que recusássemos, ele voltava para alcançar as suas metas. Não aceitava recusa. Antes do nosso “não” definitivo deixava o folheto colorido e dizia para os pais pensarem no assunto com calma.
Nos anos 70, sem Google e sem internet, sem celular e sem redes sociais, reinava o conhecimento escrito. Ter uma enciclopédia significava a salvação do ensino para as crianças, a retaguarda dos trabalhos escolares e pesquisas para apresentações em grupo. Lá encontravam-se as grandes invenções da humanidade, a história das civilizações, a anatomia do corpo explicada por plásticos sobrepostos, os maiores cientistas e personalidades. Impossível de se ler inteira, com 20 volumes e mais de 11 mil páginas, atendia somente a consultas pontuais. A vastidão impressionava os possíveis clientes - comprava-se cadeiras no céu da sabedoria.
Além de ser vista como investimento, produzia glamour e inveja. Quem conseguia adquirir esnobava as visitas: colocava na estante da sala, atrás do sofá, com os livros alinhados e em sequência numéricas dos tomos. Aparentava uma biblioteca cenográfica de novela, nada fora do lugar.
No mundo sexista do período, mulheres vendiam cosméticos de casa em casa, em especial a partir de revistas da Avon, e homens circulavam com edições da Barsa ou da Britannica Mirador debaixo dos braços - a Britannica custava o dobro, pomposa, maior e de capa marrom, reservada a classe média alta. Quem adquiria Britannica, invariavelmente, tinha piscina, a relação fazia sentido.
O vendedor seguia uma carreira séria, surgia de terno e gravata, cabelo engomado, sapatos engraxados e falava difícil de propósito, para justificar o pacote promocional da sapiência. Lembrava um outro idioma, só mesmo com dicionário ao lado para entendê-lo.
A assinatura de enciclopédia costumava ser celebrada com comemoração pelas famílias, partilhando do status de batizado e casamento. Não se pagava à vista, mas em parcelas a perder de vista, como se fosse um carro ou um imóvel, em uma porção de cheques pré-datados atravessando a penúria de décadas.
Quando meus pais compraram o produto, deram tapinhas em minhas costas:
- Agora tem tudo nas mãos para ser alguém na vida!
Publicado em Jornal ZH em 20/02/2018
INFÂNCIA FELIZ
Uma infância feliz me dá mais ciúme que uma carreira gloriosa.
Se alguém é famoso, exitoso e contente na vida adulta não produz nem cócegas em meu espírito.
Empresários, jogadores de futebol, artistas, com fortuna e estabilidade, passeando de Fernando de Noronha a Paris em uma semana, não mexem com os meus sentimentos.
Mas a cobiça surge quando um amigo ou familiar me confessa que foi feliz quando criança. É extremamente raro. É hercúleo o contentamento genuíno e o cuidado na primeira década de nossa história, sem bullying, sem atritos de convivência, sem dificuldades de adaptação, com o apoio dos pais. É uma loteria incomparável.
Minha mãe pulou do nascimento ao paraíso, surgiu direto num éden no interior gaúcho. Será errado invejá-la?
Quando conta o seu passado de menina de vestido de chita e pés descalços, de menina e corda de pular, de menina e tranças, estou ouvindo contos de fadas. Ela não tinha nenhuma piscina em sua casa, mas tinha o rio Taquari só para si, para nadar e jogar pedrinhas. Ela não dispunha de um quintal, mas um pomar inteiro, com casinha na árvore e circo dos galhos para ser trapezista. A um passo dos morros verdes, abria trilhas com canivete e inventava saídas para a sua solidão. Dispensava a exclusividade dos bichos, todos eram de todos. Brincava com os cachorros de rua, pegava emprestado os cavalos dos colonos, levava pássaros nos dedos.
Ela morou num hotel em Guaporé, propriedade dos meus avós. Imagine a alegria de dormir em quartos diferentes, só para experimentar? Não sofreu com problema de espaço com irmãos, nem dividiu o beliche, o guarda-roupa com ninguém. Conheceu pessoas dos mais diferentes sotaques, das mais longínquas regiões e tipos, nem precisava de passaporte, o mundo vinha visitá-la. A comida estava sempre quente na cozinha, a qualquer hora, já que não parava de receber gente. Havia café da manhã com leite tirado de vaca e queijo fresco. Ganhava, para colorir, os livros de registros dos hóspedes. Desde cedo, acostumou-se com molho de chaves de um castelo, podendo abrir portas e atravessar paredes. Houve tempo de sobra para sonhar e imaginar o futuro e me imaginar e imaginar os seus netos e a sua poesia.
Mariazinha foi tão feliz, que até hoje é amiga de Nayr e Marília, colegas do seu primeiro colégio, Scalabrini. Ainda por cima tem testemunhas.
Publicado em Jornal ZH em 13/02/2018
Se alguém é famoso, exitoso e contente na vida adulta não produz nem cócegas em meu espírito.
Empresários, jogadores de futebol, artistas, com fortuna e estabilidade, passeando de Fernando de Noronha a Paris em uma semana, não mexem com os meus sentimentos.
Mas a cobiça surge quando um amigo ou familiar me confessa que foi feliz quando criança. É extremamente raro. É hercúleo o contentamento genuíno e o cuidado na primeira década de nossa história, sem bullying, sem atritos de convivência, sem dificuldades de adaptação, com o apoio dos pais. É uma loteria incomparável.
Minha mãe pulou do nascimento ao paraíso, surgiu direto num éden no interior gaúcho. Será errado invejá-la?
Quando conta o seu passado de menina de vestido de chita e pés descalços, de menina e corda de pular, de menina e tranças, estou ouvindo contos de fadas. Ela não tinha nenhuma piscina em sua casa, mas tinha o rio Taquari só para si, para nadar e jogar pedrinhas. Ela não dispunha de um quintal, mas um pomar inteiro, com casinha na árvore e circo dos galhos para ser trapezista. A um passo dos morros verdes, abria trilhas com canivete e inventava saídas para a sua solidão. Dispensava a exclusividade dos bichos, todos eram de todos. Brincava com os cachorros de rua, pegava emprestado os cavalos dos colonos, levava pássaros nos dedos.
Ela morou num hotel em Guaporé, propriedade dos meus avós. Imagine a alegria de dormir em quartos diferentes, só para experimentar? Não sofreu com problema de espaço com irmãos, nem dividiu o beliche, o guarda-roupa com ninguém. Conheceu pessoas dos mais diferentes sotaques, das mais longínquas regiões e tipos, nem precisava de passaporte, o mundo vinha visitá-la. A comida estava sempre quente na cozinha, a qualquer hora, já que não parava de receber gente. Havia café da manhã com leite tirado de vaca e queijo fresco. Ganhava, para colorir, os livros de registros dos hóspedes. Desde cedo, acostumou-se com molho de chaves de um castelo, podendo abrir portas e atravessar paredes. Houve tempo de sobra para sonhar e imaginar o futuro e me imaginar e imaginar os seus netos e a sua poesia.
Mariazinha foi tão feliz, que até hoje é amiga de Nayr e Marília, colegas do seu primeiro colégio, Scalabrini. Ainda por cima tem testemunhas.
Publicado em Jornal ZH em 13/02/2018
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
VÓ FLOR
E quando a mãe era analfabeta. E quando a mãe analfabeta só podia se comunicar com os filhos espalhados pelo mundo por cartas.
Não havia telefone disponível na cidade de Salinas (MG), não havia nenhuma forma de diálogo, a não ser o papel e a tinta.
A vó Flor, da minha amiga Fernanda, na metade do século passado, driblava os desafios para obter notícias de suas crias. Ela tinha a vizinha do lado esquerdo para ler as cartas. E tinha a vizinha do lado direito para escrever as cartas de volta. Duas comadres que serviam de seus olhos e de suas mãos.
Quando aparecia uma carta, ela corria para a casinha verde da vizinhança, um passarinho equilibrando farelos de bolo no bico. Ela tremia, querendo ver o que havia por detrás da caligrafia miúda. Como observar uma vitrine com as suas próprias roupas e não contar com dinheiro para comprar.
Ela se emocionava, impaciente, a cada linha decifrada: - O que mais? O que mais?
Não conseguia esperar o final. Seus filhos se transformavam em sua novela favorita, capítulos com relatos de namoro, do estado de saúde, de quanto ganhavam no emprego, das dificuldades de adaptação em cidade grande.
Depois corria para a casinha vermelha e pedia para a outra vizinha escrever a resposta antes que esquecesse a emoção. Ditava o que desejava de pé, num único fôlego, lutando contra a gagueira da memória, caminhando ao redor da mesa. Apanhava as palavras no ar.
Desejava dizer tanto, mas tanto que sempre faltava papel para a saudade. A vizinha a estimulava a pôr um ponto final.
- Flor, não tem mais espaço, acabaram as linhas.
Então, sem vazio para mais nada, além do vazio no peito, ela se despedia: "A bênção, filho, não canse de me escrever!".
Sozinha em casa, já viúva, a vó Flor mantinha o ritual da esperança, até o próximo ataque de alegria dos Correios. Ligava o radinho de pilha, desembaraçava a fita rosa da coleção de cartas, abria a tábua e passava uma por uma as correspondências recebidas. Com a sensação de que estava engomando as camisas de seus filhos.
Publicado em Jornal Zero Hora em 06/02/2018
Não havia telefone disponível na cidade de Salinas (MG), não havia nenhuma forma de diálogo, a não ser o papel e a tinta.
A vó Flor, da minha amiga Fernanda, na metade do século passado, driblava os desafios para obter notícias de suas crias. Ela tinha a vizinha do lado esquerdo para ler as cartas. E tinha a vizinha do lado direito para escrever as cartas de volta. Duas comadres que serviam de seus olhos e de suas mãos.
Quando aparecia uma carta, ela corria para a casinha verde da vizinhança, um passarinho equilibrando farelos de bolo no bico. Ela tremia, querendo ver o que havia por detrás da caligrafia miúda. Como observar uma vitrine com as suas próprias roupas e não contar com dinheiro para comprar.
Ela se emocionava, impaciente, a cada linha decifrada: - O que mais? O que mais?
Não conseguia esperar o final. Seus filhos se transformavam em sua novela favorita, capítulos com relatos de namoro, do estado de saúde, de quanto ganhavam no emprego, das dificuldades de adaptação em cidade grande.
Depois corria para a casinha vermelha e pedia para a outra vizinha escrever a resposta antes que esquecesse a emoção. Ditava o que desejava de pé, num único fôlego, lutando contra a gagueira da memória, caminhando ao redor da mesa. Apanhava as palavras no ar.
Desejava dizer tanto, mas tanto que sempre faltava papel para a saudade. A vizinha a estimulava a pôr um ponto final.
- Flor, não tem mais espaço, acabaram as linhas.
Então, sem vazio para mais nada, além do vazio no peito, ela se despedia: "A bênção, filho, não canse de me escrever!".
Sozinha em casa, já viúva, a vó Flor mantinha o ritual da esperança, até o próximo ataque de alegria dos Correios. Ligava o radinho de pilha, desembaraçava a fita rosa da coleção de cartas, abria a tábua e passava uma por uma as correspondências recebidas. Com a sensação de que estava engomando as camisas de seus filhos.
Publicado em Jornal Zero Hora em 06/02/2018
TERNO PARA TODA A VIDA
Só tive um terno até os quinze anos.
Um terno preto e um par de sapatos escuros. Usava para todas as situações que exigiam formalidade. Ia sempre com o mesmo traje em casamentos, batismos, enterros e formaturas da família. A mãe soltava a bainha conforme espichava, as mangas do casacos avançavam aos cotovelos. Não se cogitava comprar outro. Custava caro, os olhos da cara, e nunca reclamava.
Terno era para a vida inteira na minha infância. Eu crescia, ele encolhia. Andava com ele absurdamente menor, apertado, pelas horas graves da honra, quando tinha que parecer velho e sério. Não deveria faltar com o respeito quando colocava as minhas pernas e o meu tronco nele, roupa de ser grande e forte, precisava mastigar as palavras e suportar o silêncio.
Pegue o seu terno – meu pai me avisava com brevidade.
E eu tinha a noção de que alguém havia morrido. E tentava parecer mais triste do que realmente era. O chamado vinha claro e inegociável. Não podia rir, não podia brincar, não podia correr, não podia bagunçar com os meus irmãos.
Assim como havia o pijama para dormir, havia o terno para ser adulto. Ele me servia para antecipar a maturidade. Ele me preparava para a barba e para as dores. Era um tempo futuro recebido com antecedência, uma amostra grátis da velhice durante o meu corpo em formação, uma iniciação das conversas sussurradas e das despedidas.
Talvez eu não tivesse crescido sem o terno, confidente das primeiras lágrimas e sustos, cúmplice do mundo misterioso dos casamentos e divórcios, da culpa e do perdão, das demoradas celebrações. Sem ele, jamais entenderia que existe o momento de rir e o momento de não fazer piada, o momento de festejar e o momento de se calar.
Lembro que não o lavava, ele não conheceu a água e a espuma, o balde e o sol, minha mãe simplesmente passava uma escova em seus ombros para retirar os cabelos e a poeira e estava pronto para a nova batalha.
No meu armário, num cabide solitário de madeira, ainda o conservo. Ele preserva o cheiro e o suor da primeira metade de minha história, o DNA do meu espírito. É a mais fiel caixinha de recordações de casa.
Aquele terno esconde a minha imensa ternura de criança.
Publicado em Jornal Zero Hora em 30/01/2018
Um terno preto e um par de sapatos escuros. Usava para todas as situações que exigiam formalidade. Ia sempre com o mesmo traje em casamentos, batismos, enterros e formaturas da família. A mãe soltava a bainha conforme espichava, as mangas do casacos avançavam aos cotovelos. Não se cogitava comprar outro. Custava caro, os olhos da cara, e nunca reclamava.
Terno era para a vida inteira na minha infância. Eu crescia, ele encolhia. Andava com ele absurdamente menor, apertado, pelas horas graves da honra, quando tinha que parecer velho e sério. Não deveria faltar com o respeito quando colocava as minhas pernas e o meu tronco nele, roupa de ser grande e forte, precisava mastigar as palavras e suportar o silêncio.
Pegue o seu terno – meu pai me avisava com brevidade.
E eu tinha a noção de que alguém havia morrido. E tentava parecer mais triste do que realmente era. O chamado vinha claro e inegociável. Não podia rir, não podia brincar, não podia correr, não podia bagunçar com os meus irmãos.
Assim como havia o pijama para dormir, havia o terno para ser adulto. Ele me servia para antecipar a maturidade. Ele me preparava para a barba e para as dores. Era um tempo futuro recebido com antecedência, uma amostra grátis da velhice durante o meu corpo em formação, uma iniciação das conversas sussurradas e das despedidas.
Talvez eu não tivesse crescido sem o terno, confidente das primeiras lágrimas e sustos, cúmplice do mundo misterioso dos casamentos e divórcios, da culpa e do perdão, das demoradas celebrações. Sem ele, jamais entenderia que existe o momento de rir e o momento de não fazer piada, o momento de festejar e o momento de se calar.
Lembro que não o lavava, ele não conheceu a água e a espuma, o balde e o sol, minha mãe simplesmente passava uma escova em seus ombros para retirar os cabelos e a poeira e estava pronto para a nova batalha.
No meu armário, num cabide solitário de madeira, ainda o conservo. Ele preserva o cheiro e o suor da primeira metade de minha história, o DNA do meu espírito. É a mais fiel caixinha de recordações de casa.
Aquele terno esconde a minha imensa ternura de criança.
Publicado em Jornal Zero Hora em 30/01/2018
O CONCURSO DO AMOR
Em dicas de vestibular e concursos, recebi a clara recomendação de descartar as questões mais simples para depois resolver as mais difíceis.
Nunca deu certo. Assim que começava uma prova, as mais fáceis pareciam também difíceis. Batia um pânico na porta de meus olhos. Não conseguia eliminar nenhuma das perguntas simples para ganhar preciosos minutos e enfrentar as soluções dispendiosas. Eu me debatia pela quebra do planejamento. Mordia a caneta, mastigava o lápis, tirava nacos da borracha.
Há quem, diferentemente dos conselhos dos professores, segue a ordem cronológica da prova para não enlouquecer com o que vem pela frente.
Comigo apenas funcionou a receita de iniciar pelas perguntas mais espinhosas e depois resolver as mais básicas. Encaro o que não sei para em seguida desenrolar o que entendo. Aproveito a tranquilidade do cronômetro para refletir demoradamente em uma saída para as charadas e ciladas.
Na vida pessoal, segui idêntico processo. Eu me preocupei bem mais em ter sucesso no amor do que na profissão. Mesmo que isso significasse ser reprovado pela soma dos pontos.
Eu me lancei na missão de achar a minha cara-metade. Não tive nenhuma outra prioridade. Mantive a consciência de que me quebraria, de que erraria, de que choraria, de que superaria vexames e desilusões, de que me arrependeria das certezas e me enervaria com as dúvidas.
O que entendi desde sempre: é preciso estudar para amar. Não é algo que se nasce conhecendo. Você experimentará pessoas, fórmulas e crises para definir o seu repouso. Passará madrugadas lendo os pensamentos e avaliando o instinto. Não se acertará de primeira. Dependerá de rascunhos e recomeços.
Ser amado e amar é a operação mais complexa da existência, a mais assustadora. Não é tarefa superficial localizar alguém para casar nesse mundão, compatível, com cumplicidade para atravessar as tormentas e generosidade para transformar a banalidade da rotina em alegria. Exige a nossa maior concentração. Há grandes chances de não encontrar ou se desencontrar do grande amor de sua biografia. Ou de deixar a folha em branco aguardando uma melhor hora.
Após responder à questão amorosa, todas as demais se tornam mais singelas e desembaraçadas. O êxito na carreira vem como consequência, os filhos serão resultado da convivência harmoniosa.
Quando Beatriz disse que ficava feliz não fazendo nada ao meu lado, eu poderia finalmente ser tudo. Não existe declaração de felicidade mais imponente para se ouvir.
O tempo agora está a meu favor para seguir com o exame.
Publicado em Jornal Zero Hora em 23/01/2018
Nunca deu certo. Assim que começava uma prova, as mais fáceis pareciam também difíceis. Batia um pânico na porta de meus olhos. Não conseguia eliminar nenhuma das perguntas simples para ganhar preciosos minutos e enfrentar as soluções dispendiosas. Eu me debatia pela quebra do planejamento. Mordia a caneta, mastigava o lápis, tirava nacos da borracha.
Há quem, diferentemente dos conselhos dos professores, segue a ordem cronológica da prova para não enlouquecer com o que vem pela frente.
Comigo apenas funcionou a receita de iniciar pelas perguntas mais espinhosas e depois resolver as mais básicas. Encaro o que não sei para em seguida desenrolar o que entendo. Aproveito a tranquilidade do cronômetro para refletir demoradamente em uma saída para as charadas e ciladas.
Na vida pessoal, segui idêntico processo. Eu me preocupei bem mais em ter sucesso no amor do que na profissão. Mesmo que isso significasse ser reprovado pela soma dos pontos.
Eu me lancei na missão de achar a minha cara-metade. Não tive nenhuma outra prioridade. Mantive a consciência de que me quebraria, de que erraria, de que choraria, de que superaria vexames e desilusões, de que me arrependeria das certezas e me enervaria com as dúvidas.
O que entendi desde sempre: é preciso estudar para amar. Não é algo que se nasce conhecendo. Você experimentará pessoas, fórmulas e crises para definir o seu repouso. Passará madrugadas lendo os pensamentos e avaliando o instinto. Não se acertará de primeira. Dependerá de rascunhos e recomeços.
Ser amado e amar é a operação mais complexa da existência, a mais assustadora. Não é tarefa superficial localizar alguém para casar nesse mundão, compatível, com cumplicidade para atravessar as tormentas e generosidade para transformar a banalidade da rotina em alegria. Exige a nossa maior concentração. Há grandes chances de não encontrar ou se desencontrar do grande amor de sua biografia. Ou de deixar a folha em branco aguardando uma melhor hora.
Após responder à questão amorosa, todas as demais se tornam mais singelas e desembaraçadas. O êxito na carreira vem como consequência, os filhos serão resultado da convivência harmoniosa.
Quando Beatriz disse que ficava feliz não fazendo nada ao meu lado, eu poderia finalmente ser tudo. Não existe declaração de felicidade mais imponente para se ouvir.
O tempo agora está a meu favor para seguir com o exame.
Publicado em Jornal Zero Hora em 23/01/2018
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
MINHA MANIA DE INVENTAR O PRATO
Sou aquela figura temida nos restaurantes. Não porque seja crítico do Michelin ou do Quatro Rodas, é que nunca concordo com o cardápio. Ele não existe para mim. Ao pedir um prato, eu penso, confabulo e chamo o garçom: quero este bife, mas pode mudar o molho vermelho, tirar o champignon e trocar por palmito.
O garçom me encara estranho:
– Você não prefere o número 5, com palmito e molho branco.
Daí medito um pouco mais e concordo em termos, tenho uma dificuldade para concordar integralmente em qualquer situação. A teimosia é a minha longevidade.
– Pode ser. Mas pode trocar o arroz e a batata palha por purê e salada.
A minha família, morta de fome, começa a se desesperar. Era para ser um simples almoço e se transforma numa batalha campal, numa negociação de troca de reféns, uma porção pela outra, uma guarnição pela outra infinitamente.
Já me encontro num pregão. O suor frio desce na esponja das sobrancelhas do garçom. Ele está encurralado pela minha conversa fiada e costuma aprovar as minhas exigências extravagantes para não se incomodar mais com o quebra-cabeça.
A minha presença em qualquer estabelecimento é suportada, nada agradável, à semelhança de um artista com manias absurdas no seu camarim.
Seria mais fácil inventar um prato, tamanhas as restrições com um tempero e uma combinação. Quem tem intolerância à lactose ou é vegano me entenderia, com a diferença de que o meu sofrimento é imaginário.
Eu entro no restaurante para me incomodar, não para relaxar. Crio uma refeição mental e não há como me demover da obsessão. Vou misturando todas as ofertas do cardápio, montando algo incomparável e incompatível. Melhor ficar em casa e cozinhar.
Só não me perturbo em galeteria e churrascaria, onde escolho o que gosto sem a obrigação de me indispor com ninguém.
E fujo, como o diabo da cruz, de restaurantes com cardápios com mais de 50 opções e ainda com batismo para cada uma delas. É muito trabalho definir o ponto de partida. Eu me esgoto intelectualmente para encaixar o resumo e o almoço termina virando jantar.
Não duvido que cuspam no meu alimento na cozinha, com um ingrediente absolutamente inesperado e indecifrável.
Publicado em Jornal Zero Hora em 16/01/2018
Sou aquela figura temida nos restaurantes. Não porque seja crítico do Michelin ou do Quatro Rodas, é que nunca concordo com o cardápio. Ele não existe para mim. Ao pedir um prato, eu penso, confabulo e chamo o garçom: quero este bife, mas pode mudar o molho vermelho, tirar o champignon e trocar por palmito.
O garçom me encara estranho:
– Você não prefere o número 5, com palmito e molho branco.
Daí medito um pouco mais e concordo em termos, tenho uma dificuldade para concordar integralmente em qualquer situação. A teimosia é a minha longevidade.
– Pode ser. Mas pode trocar o arroz e a batata palha por purê e salada.
A minha família, morta de fome, começa a se desesperar. Era para ser um simples almoço e se transforma numa batalha campal, numa negociação de troca de reféns, uma porção pela outra, uma guarnição pela outra infinitamente.
Já me encontro num pregão. O suor frio desce na esponja das sobrancelhas do garçom. Ele está encurralado pela minha conversa fiada e costuma aprovar as minhas exigências extravagantes para não se incomodar mais com o quebra-cabeça.
A minha presença em qualquer estabelecimento é suportada, nada agradável, à semelhança de um artista com manias absurdas no seu camarim.
Seria mais fácil inventar um prato, tamanhas as restrições com um tempero e uma combinação. Quem tem intolerância à lactose ou é vegano me entenderia, com a diferença de que o meu sofrimento é imaginário.
Eu entro no restaurante para me incomodar, não para relaxar. Crio uma refeição mental e não há como me demover da obsessão. Vou misturando todas as ofertas do cardápio, montando algo incomparável e incompatível. Melhor ficar em casa e cozinhar.
Só não me perturbo em galeteria e churrascaria, onde escolho o que gosto sem a obrigação de me indispor com ninguém.
E fujo, como o diabo da cruz, de restaurantes com cardápios com mais de 50 opções e ainda com batismo para cada uma delas. É muito trabalho definir o ponto de partida. Eu me esgoto intelectualmente para encaixar o resumo e o almoço termina virando jantar.
Não duvido que cuspam no meu alimento na cozinha, com um ingrediente absolutamente inesperado e indecifrável.
Publicado em Jornal Zero Hora em 16/01/2018
QUANDO DEI BANHO EM MINHA MÃE
Não subestime a criança. Não deixe de contar para ela o que está sentindo. Não espere que ele fique adulta para esclarecer as sombras do passado - pode ser tarde demais, pode custar terapias e confusões inacreditáveis. É preferível que a criança enfrente a verdade do que os monstros de sua imaginação. Se você está chorando e o filho pequeno se aproxima perguntando o que foi não diga que não é nada, estabeleça claramente que não está num dia bom e narre as suas preocupações. Se fingir, a criança aprenderá a mentir e a esconder os próprios sentimentos vida afora. Demonstrará que não confia nela. E ela tampouco abrirá o seu coração quando precisar. Na adolescência, fechará a porta do quarto e de seus segredos afirmando também que não é nada.
Filho é filho não importa a idade - terá condições de absorver do seu jeito. É um telepata das emoções. Uma esponja das crises. Criança entende mais rápido o que vem acontecendo do que você imagina - entende e resolve com um abraço, entende e resolve com um beijo, entende e resolve com um cartão, entende e resolve melhor que muito marmanjo oferecendo ternura em vez de palavras ásperas de ordem, restrição e sermão.
Quando tinha sete anos, a minha mãe não camuflou a sua dor. Desabou em lágrimas na minha frente expondo que o casamento com o meu pai havia terminado. Eu era um toco de gente e ela me pediu ajuda. Não me assustei. O desespero infantiliza o outro, e de repente a senhora dos meus cuidados tornou-se a minha primeira filha.
Eu peguei a minha mãe pela mão e falei:
- Vou lhe cuidar.
Acendi algumas velas e depositei no canto da banheira, preparei um banho bem quente, despejei um pote de xampu na água, para criar espuma, e esfreguei as suas costas lentamente, enquanto ela expulsava os soluços. O escuro com as chamas tremeluzindo lhe deu alguma esperança de igreja e promessa. Escoltei a sua saída para pisar no tapete, entreguei uma toalha e ela dormiu mais cedo naquela noite. Vigiei o seu sono até que a respiração voltasse ao normal.
Nunca mais nos separamos por dentro, nunca mais nos omitimos descobertas e aflições.
O mundo continuou sendo o nosso ventre.
Publicado em Jornal Zero Hora em 09/01/2018
Filho é filho não importa a idade - terá condições de absorver do seu jeito. É um telepata das emoções. Uma esponja das crises. Criança entende mais rápido o que vem acontecendo do que você imagina - entende e resolve com um abraço, entende e resolve com um beijo, entende e resolve com um cartão, entende e resolve melhor que muito marmanjo oferecendo ternura em vez de palavras ásperas de ordem, restrição e sermão.
Quando tinha sete anos, a minha mãe não camuflou a sua dor. Desabou em lágrimas na minha frente expondo que o casamento com o meu pai havia terminado. Eu era um toco de gente e ela me pediu ajuda. Não me assustei. O desespero infantiliza o outro, e de repente a senhora dos meus cuidados tornou-se a minha primeira filha.
Eu peguei a minha mãe pela mão e falei:
- Vou lhe cuidar.
Acendi algumas velas e depositei no canto da banheira, preparei um banho bem quente, despejei um pote de xampu na água, para criar espuma, e esfreguei as suas costas lentamente, enquanto ela expulsava os soluços. O escuro com as chamas tremeluzindo lhe deu alguma esperança de igreja e promessa. Escoltei a sua saída para pisar no tapete, entreguei uma toalha e ela dormiu mais cedo naquela noite. Vigiei o seu sono até que a respiração voltasse ao normal.
Nunca mais nos separamos por dentro, nunca mais nos omitimos descobertas e aflições.
O mundo continuou sendo o nosso ventre.
Publicado em Jornal Zero Hora em 09/01/2018
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
MINHA VOZINHA E SUA INFALÍVEL HORTELÃ
Quando criança, os meus pais me acordavam com a didática do grito. Não surtindo efeito, iam lá mexer nos meus ombros. Não cumprindo a sua missão ainda, puxavam as minhas cobertas. Na época, não havia celular, muito menos alarme dos aplicativos. Rádio-relógio era caro e ficava na cabeceira dos adultos (a estação preferida tocava música na hora marcada rompendo a quietude).
Eu lutava contra as táticas militares materna e paterna. Procurava uma prorrogação, uma soneca, um adiamento fingindo dormir.
Só não resistia à estratégia da avó Elisa. Ela sabia acordar as pessoas, inspirar o sonho de olhos abertos. Tinha PHD do sereno da madrugada e do galo cantando.
Ela me despertava pelo olfato. Pois não é pelo ouvido que acordamos, mas pelo nariz.
Ela recolhia um maço de hortelã da horta e espalhava perto de mim. Não soltava um pio, não falava nada. Entrava silenciosamente no quarto abafando as tiras do seu velho chinelo e largava o seu contrabando de ervas pelos travesseiros.
Com o cheiro forte do tempero, estranhíssimo naquele cenário de linho e penas de ganso, eu saia do conforto dos lençóis. Não tinha como continuar dormindo - a curiosidade se fazia mais forte do que a dormência. A hortelã berrava com o seu perfume. Ninguém consegue se defender do seu aroma forte, lembrando os assados do Natal e do Ano Novo. Provocava imediata fome e repentina avidez pelo sol.
Assim que me punha de pé, a avó zoava de mim, vitoriosa de seu jeitinho:
- Já se levantou? Podia ter dormido mais. Acordou dez minutos antes da hora.
Até hoje, no momento de pular da cama, procuro se não existe um ramo de hortelã por perto.
Minha avó não está mais aqui, o câncer a levou para longe, mas ela achou um modo todo seu de entrar para dentro de minha respiração e me dar bom-dia.
Publicado em 02/01/2018
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
O QUANTO AMO MINHA FILHA PARA ENTENDER SUA IMPLICÂNCIA
Minha filha hoje completa 24 anos.
Minha filha não usa o meu sobrenome para não criar ligação direta comigo.
Agendar um encontro com minha filha é uma operação de guerra. Chamo para almoço, jantar, café, viagem, cinema, e costuma arrumar uma desculpa e uma urgência para não aceitar.
Minha filha não comenta os meus textos. Muito menos revela se leu os meus livros.
Minha filha não usa as redes sociais para não criar parentesco com as minhas postagens.
Minha filha me deixa no vácuo quatro dias numa mensagem – eu até uso emojis para sensibilizá-la, sem efeito.
Minha filha não atende às minhas ligações – depois de algum tempo, pergunta se eu telefonei.
Minha filha não sofre com os meus problemas – avisa que é para parar de drama.
Minha filha não se emociona com o meu abraço escandaloso na rua, pelo contrário, faz um gesto de menos.
Minha filha reclama quando beijo o seu rosto e roço as bochechas com a minha barba.
Minha filha sugere que tem vergonha de mim, e é, no fundo, orgulho. Quando o filho se opõe ao pai, significa respeito e admiração. Eu não fracassei, eduquei alguém capaz de me encarar de igual para igual e me testar para descobrir o quanto a amo.
Não me elogiar não quer dizer que ela não está me enxergando. Na hora em que precisar, surgirá batendo à porta e oferecerá o seu colo. Não sofro do desespero de perdê-la, estou eternamente em seus traços e manias.
Identifico o seu esforço de lutar contra a saudade, e reconheço o seu mérito.
Você só tenta escapar daquilo que é importante. Ela procura construir a sua personalidade longe de minha influência.
Eu compreendo: realizei semelhante oposição aos meus pais, escritores.
A beleza do conflito é que não existe bajulação, a relação é profundamente mais sincera.
Ela vem aprendendo a se defender do mundo comprando briga em casa. Há sempre um porém. Já entendi que não está à minha sombra. Cursa Letras, porém confessa que é para seguir um caminho diferente do meu. Escreve, porém mente que não é escritora. Compõe e canta, porém guarda as suas músicas para o seu próprio prazer.
Ela não admite o quanto somos parecidos. Logo descobrirá que não somos. Ela é muito melhor do que eu. Paternidade é rascunho.
Publicado em Jornal Zero Hora em 26/12/2017
Minha filha não usa o meu sobrenome para não criar ligação direta comigo.
Agendar um encontro com minha filha é uma operação de guerra. Chamo para almoço, jantar, café, viagem, cinema, e costuma arrumar uma desculpa e uma urgência para não aceitar.
Minha filha não comenta os meus textos. Muito menos revela se leu os meus livros.
Minha filha não usa as redes sociais para não criar parentesco com as minhas postagens.
Minha filha me deixa no vácuo quatro dias numa mensagem – eu até uso emojis para sensibilizá-la, sem efeito.
Minha filha não atende às minhas ligações – depois de algum tempo, pergunta se eu telefonei.
Minha filha não sofre com os meus problemas – avisa que é para parar de drama.
Minha filha não se emociona com o meu abraço escandaloso na rua, pelo contrário, faz um gesto de menos.
Minha filha reclama quando beijo o seu rosto e roço as bochechas com a minha barba.
Minha filha sugere que tem vergonha de mim, e é, no fundo, orgulho. Quando o filho se opõe ao pai, significa respeito e admiração. Eu não fracassei, eduquei alguém capaz de me encarar de igual para igual e me testar para descobrir o quanto a amo.
Não me elogiar não quer dizer que ela não está me enxergando. Na hora em que precisar, surgirá batendo à porta e oferecerá o seu colo. Não sofro do desespero de perdê-la, estou eternamente em seus traços e manias.
Identifico o seu esforço de lutar contra a saudade, e reconheço o seu mérito.
Você só tenta escapar daquilo que é importante. Ela procura construir a sua personalidade longe de minha influência.
Eu compreendo: realizei semelhante oposição aos meus pais, escritores.
A beleza do conflito é que não existe bajulação, a relação é profundamente mais sincera.
Ela vem aprendendo a se defender do mundo comprando briga em casa. Há sempre um porém. Já entendi que não está à minha sombra. Cursa Letras, porém confessa que é para seguir um caminho diferente do meu. Escreve, porém mente que não é escritora. Compõe e canta, porém guarda as suas músicas para o seu próprio prazer.
Ela não admite o quanto somos parecidos. Logo descobrirá que não somos. Ela é muito melhor do que eu. Paternidade é rascunho.
Publicado em Jornal Zero Hora em 26/12/2017
O MENINO DONO DA BOLA
A bola era cara antes dos anos 80. Não se reproduzia em série como hoje, não havia oferta do produto por diferentes marcas, não se adquiria a bola oficial da Copa, da Libertadores, do Campeonato Brasileiro e do Gaúcho, não podia ser encontrada em camelôs, muito menos tinha a aparência como a conhecemos: impermeável, sem costura, realmente esférica e de várias cores.
A bola tinha gomos de couro, que caíam conforme o uso. Ia se desfolhando como massa de pastel, até aparecer a bexiga, que saía para fora como uma espinha gigante pronta a estourar. Não durava muito. Costurada à mão, artesanal mesmo, exigia cuidados especiais, como esfregar sebo no couro, assim como um surfista passa parafina em sua prancha. Tudo para deixá-la mais resistente aos paralelepípedos e campos de terra batida.
O risco de perdê-la costumava ser imenso. Jogávamos também nas ruas, com traves de tijolos e, invariavelmente, diante do chute desesperado do zagueiro para desafogar o ataque, a bola quebrava uma vidraça ou parava no pátio de alguma residência, e os vizinhos não a devolviam, para compensar o prejuízo. Isso quando não terminava atropelada por um carro. O estouro ou a apreensão de uma bola poderia significar o término da brincadeira por meses, suspender o campeonato do bairro, pois a turma não desfrutava de condições de comprar outra.
Receber uma bola de presente costumava ser uma dádiva da classe média alta para cima. Coisa rara para nós, molecada descalça.
O que criou condições para o surgimento de uma figura odiada no meu tempo: o menino rico que dava carteiraço porque trazia a bola. Ele nunca jogava nada, inábil e desastrado, com alma perna de pau, mas mandava e desmandava nas partidas. Agia como um híbrido de gandula, técnico e cartola. Abusava da autoridade de sua posse. A pelada só começava quando ele autorizava, do lado do time que ele desejava, com o regulamento inesperado de seu humor. Quando perdia, ele apitava o fim do duelo. Do nada, estragava a disputa, enervava o adversário dizendo que não havia vencedor já que o jogo foi suspenso e corria para casa com a desculpa de que a mãe o estava esperando. Queríamos bater em sua lata esnobe, enchê-lo de porrada devido a sua tirania, oferecer uma lição ao seu egoísmo filhinho da mamãe, porém pensávamos melhor e aceitávamos a cartolagem, passivos e obedientes, porque só ele possuía a bola, no raio de 10 quilômetros.
Todas as pessoas de que não gosto na vida, eu as imagino com uma bola debaixo do braço fugindo para casa. Nunca me recuperei dessa submissão na infância.
Publicado em Jornal Zero Hora em 19/12/2017
A bola tinha gomos de couro, que caíam conforme o uso. Ia se desfolhando como massa de pastel, até aparecer a bexiga, que saía para fora como uma espinha gigante pronta a estourar. Não durava muito. Costurada à mão, artesanal mesmo, exigia cuidados especiais, como esfregar sebo no couro, assim como um surfista passa parafina em sua prancha. Tudo para deixá-la mais resistente aos paralelepípedos e campos de terra batida.
O risco de perdê-la costumava ser imenso. Jogávamos também nas ruas, com traves de tijolos e, invariavelmente, diante do chute desesperado do zagueiro para desafogar o ataque, a bola quebrava uma vidraça ou parava no pátio de alguma residência, e os vizinhos não a devolviam, para compensar o prejuízo. Isso quando não terminava atropelada por um carro. O estouro ou a apreensão de uma bola poderia significar o término da brincadeira por meses, suspender o campeonato do bairro, pois a turma não desfrutava de condições de comprar outra.
Receber uma bola de presente costumava ser uma dádiva da classe média alta para cima. Coisa rara para nós, molecada descalça.
O que criou condições para o surgimento de uma figura odiada no meu tempo: o menino rico que dava carteiraço porque trazia a bola. Ele nunca jogava nada, inábil e desastrado, com alma perna de pau, mas mandava e desmandava nas partidas. Agia como um híbrido de gandula, técnico e cartola. Abusava da autoridade de sua posse. A pelada só começava quando ele autorizava, do lado do time que ele desejava, com o regulamento inesperado de seu humor. Quando perdia, ele apitava o fim do duelo. Do nada, estragava a disputa, enervava o adversário dizendo que não havia vencedor já que o jogo foi suspenso e corria para casa com a desculpa de que a mãe o estava esperando. Queríamos bater em sua lata esnobe, enchê-lo de porrada devido a sua tirania, oferecer uma lição ao seu egoísmo filhinho da mamãe, porém pensávamos melhor e aceitávamos a cartolagem, passivos e obedientes, porque só ele possuía a bola, no raio de 10 quilômetros.
Todas as pessoas de que não gosto na vida, eu as imagino com uma bola debaixo do braço fugindo para casa. Nunca me recuperei dessa submissão na infância.
Publicado em Jornal Zero Hora em 19/12/2017
PERIGOSA SUPERPROTEÇÃO
Talvez um dos grandes dilemas da vida seja deixar o outro fazer. Aguentar o outro empreender algo que você domina bem, sem interferir, é uma proeza.
Você vive reclamando de que realiza tudo sozinho em casa. Já cogitou a ideia de que você é que não cede espaço?
Você lava a louça todo dia porque não permite que ninguém se habilite. Você prepara a refeição todo dia porque não permite que ninguém tente. Você arruma a casa todo dia porque não permite que ninguém execute devagar e diferente.
Como você ama os filhos, às vezes quer ajudar e termina cumprindo as tarefas no lugar deles.
Não adotar a superproteção é difícil. A síndrome samaritana que aflige os pais surge quando as crianças começam a caminhar, a falar e comer sozinhas. Na verdade, você está apavorado com a hipótese de não ser mais necessário e carrega o bebê no colo quando ele pode caminhar, põe comida na boca quando ele já pode segurar a colher, responde por mímica quando ele já pode pronunciar as palavras.
Quando pensa por dois, pelos dois, não colabora para a independência de quem gosta.
Ajuda, por motivos nobres mas tortos, a formar pessoas vulneráveis, fragilizadas, despreparadas para a rotina. E o filho que julga que criou bem de repente não entende como é riscar um fósforo.
Existe uma hora virtuosa da incompetência, de suportar a bagunça, ficar de lado e aceitar que as pessoas aprendam na marra, dentro da sua solidão. Um momento de se ausentar para que os demais possam aparecer e se desenvolver. Mesmo que isso signifique que elas se deem mal. Mesmo que isso custe sofrimento e frustração.
O caso engloba, inclusive, os tratos entre marido e mulher. Há casais em que somente um trabalha, um dirige, um paga as contas, um organiza o futuro. E não vigora equilíbrio pela exclusividade de funções por um lado apenas do relacionamento.
É preciso combater a falta de amor e também o excesso de amor. Pois o amor escraviza. E o escravo é, estranhamente, aquele que não faz nada. Ou melhor, não pode fazer nada.
Publicado em Jornal Zero Hora em 12/12/2017
Você vive reclamando de que realiza tudo sozinho em casa. Já cogitou a ideia de que você é que não cede espaço?
Você lava a louça todo dia porque não permite que ninguém se habilite. Você prepara a refeição todo dia porque não permite que ninguém tente. Você arruma a casa todo dia porque não permite que ninguém execute devagar e diferente.
Como você ama os filhos, às vezes quer ajudar e termina cumprindo as tarefas no lugar deles.
Não adotar a superproteção é difícil. A síndrome samaritana que aflige os pais surge quando as crianças começam a caminhar, a falar e comer sozinhas. Na verdade, você está apavorado com a hipótese de não ser mais necessário e carrega o bebê no colo quando ele pode caminhar, põe comida na boca quando ele já pode segurar a colher, responde por mímica quando ele já pode pronunciar as palavras.
Quando pensa por dois, pelos dois, não colabora para a independência de quem gosta.
Ajuda, por motivos nobres mas tortos, a formar pessoas vulneráveis, fragilizadas, despreparadas para a rotina. E o filho que julga que criou bem de repente não entende como é riscar um fósforo.
Existe uma hora virtuosa da incompetência, de suportar a bagunça, ficar de lado e aceitar que as pessoas aprendam na marra, dentro da sua solidão. Um momento de se ausentar para que os demais possam aparecer e se desenvolver. Mesmo que isso signifique que elas se deem mal. Mesmo que isso custe sofrimento e frustração.
O caso engloba, inclusive, os tratos entre marido e mulher. Há casais em que somente um trabalha, um dirige, um paga as contas, um organiza o futuro. E não vigora equilíbrio pela exclusividade de funções por um lado apenas do relacionamento.
É preciso combater a falta de amor e também o excesso de amor. Pois o amor escraviza. E o escravo é, estranhamente, aquele que não faz nada. Ou melhor, não pode fazer nada.
Publicado em Jornal Zero Hora em 12/12/2017
A MOEDA DAS FRALDAS
Os amigos Daniel e Gabriella recém tiveram uma filha: Joana.
Eles não estão mais no nosso mundo contábil e financeiro. Falam um idioma novo, de exclamações e onomatopeias.
Convivem entre nós, mas não acreditem na materialidade de seus corpos. As suas cabeças habitam um outro país, de formato de sapatinhos de crochê, com a bandeira do cueiro e a moeda da fralda. Não lidam mais com o real no dia a dia, os seus cálculos se resumem a fraldas.
As fraldas são os seus dólares e euros. As fraldas são os seus bitcoins. As fraldas são o seu fundo de investimentos. As fraldas são o seu IGP-DI (índice de inflação).
Como todos os cuidadores de bebê, precisam estocar fraldas. Só pensam nisso. São 12 por dia, média de 370 por mês. Limparam um armário para colocar as novas barras de ouro da residência.
Fralda virou uma obsessão, uma luta pela sobrevivência. É como insulina para diabético, não dá para contar com a sorte. Tornou-se uma urgência inadiável, dependente de rápida reposição.
Fundamenta o início e o término de qualquer telefonema. Antes se despediam com "tchau, eu te amo", agora é "tchau, não esquece de ver fraldas".
Não voltam mais do trabalho com a sacola de pães quentinhos, mas com fraldas. Festejam quando encontram uma promoção. Abrem um vinho quando acham um pacote de 46 por menos de R$ 1 cada fralda. Qualquer saída requer uma espiada nos preços das farmácias e dos supermercados.
Mesmo sem necessidade iminente, perdem o tempo de seus compromissos e verificam os valores nas prateleiras – vá que tenha uma barbada.
Calculam os seus salários por fraldas, convertem saídas para jantar e cinema em fraldas, fixaram uma tabela mental que reverte feijão, arroz, carne, ovos em fraldas. A cesta básica é comparada com fraldas. As únicas cotações que lhes interessam na bolsa de valores são a da Pampers e a da Huggies.
Serão dois anos e pouco com um raciocínio estranho, com uma matemática mágica, com divagações incessantes de estatísticos do amor.
Trocar o filho é realmente trocar de vida.
Publicado em Jornal Zero Hora em 05/12/2017
Eles não estão mais no nosso mundo contábil e financeiro. Falam um idioma novo, de exclamações e onomatopeias.
Convivem entre nós, mas não acreditem na materialidade de seus corpos. As suas cabeças habitam um outro país, de formato de sapatinhos de crochê, com a bandeira do cueiro e a moeda da fralda. Não lidam mais com o real no dia a dia, os seus cálculos se resumem a fraldas.
As fraldas são os seus dólares e euros. As fraldas são os seus bitcoins. As fraldas são o seu fundo de investimentos. As fraldas são o seu IGP-DI (índice de inflação).
Como todos os cuidadores de bebê, precisam estocar fraldas. Só pensam nisso. São 12 por dia, média de 370 por mês. Limparam um armário para colocar as novas barras de ouro da residência.
Fralda virou uma obsessão, uma luta pela sobrevivência. É como insulina para diabético, não dá para contar com a sorte. Tornou-se uma urgência inadiável, dependente de rápida reposição.
Fundamenta o início e o término de qualquer telefonema. Antes se despediam com "tchau, eu te amo", agora é "tchau, não esquece de ver fraldas".
Não voltam mais do trabalho com a sacola de pães quentinhos, mas com fraldas. Festejam quando encontram uma promoção. Abrem um vinho quando acham um pacote de 46 por menos de R$ 1 cada fralda. Qualquer saída requer uma espiada nos preços das farmácias e dos supermercados.
Mesmo sem necessidade iminente, perdem o tempo de seus compromissos e verificam os valores nas prateleiras – vá que tenha uma barbada.
Calculam os seus salários por fraldas, convertem saídas para jantar e cinema em fraldas, fixaram uma tabela mental que reverte feijão, arroz, carne, ovos em fraldas. A cesta básica é comparada com fraldas. As únicas cotações que lhes interessam na bolsa de valores são a da Pampers e a da Huggies.
Serão dois anos e pouco com um raciocínio estranho, com uma matemática mágica, com divagações incessantes de estatísticos do amor.
Trocar o filho é realmente trocar de vida.
Publicado em Jornal Zero Hora em 05/12/2017
A IMPORTÂNCIA DA SOBREMESA PARA A FAMÍLIA
Sou da cultura do doce. Almoço e jantar são apenas aperitivos. Eu me interesso por aquilo que vem depois para acompanhar o cafezinho.
A infância me condicionou. A gente comia o básico, feijão com arroz, bife e salada, com variações de acordo com o dia. Às vezes massa, às vezes bolo de carne, às vezes pastelão, dependendo do tamanho da conta e do fiado no armazém.
Não reclamávamos da mesmice do cardápio, desde que não faltasse a cobiçada guloseima.
O escândalo residia na primeira prateleira da geladeira, com pudim ou ambrosia ou sagu ou cassata ou doce de leite ou torta de bolacha ou pavê. A mãe se esmerava nas surpresas (onde arranjava horário para preparar? Não sei, não faço nem ideia, magias inexplicáveis da maternidade).
Morava numa involuntária confeitaria. Ninguém dispensava a sobremesa naquele tempo. Guardava um espaço imaginário no estômago para não desperdiçá-la, não repetia as porções e recuava o apetite antes de me empanturrar.
Podia-se estar atrasado para o trabalho ou para a escola, não permitíamos a pressa apagar os nossos caprichos e o momento solene dos pratinhos pequenos.
Os garfos e facas não conseguiam vencer a importância das colheres.
Não se falava nada durante o almoço familiar. O silêncio imperava naquele instante, cortávamos a carne instintivamente, máquinas de triturar e moer a comida. O que se escutava se resumia aos barulhos dos talheres na porcelana.
Mas todo mundo abria a matraca milagrosamente na sobremesa. Vinham confissões, risadas, bobagens, lembranças. Éramos desconhecidos no sal, íntimos no açúcar. Abraços aconteciam mais fáceis, carinhos nos cabelos surgiam aos borbotões.
Acredito que as famílias hoje deixaram de falar porque extinguimos a sobremesa. Os filhos não mais relatam as suas façanhas nas aulas porque abolimos a sobremesa. Os pais não trocam mais beijos e juras de amor na frente dos outros porque erradicamos a sobremesa da rotina.
A glicose sempre salvou as amizades e os relacionamentos. As palavras nadam quando estamos com água na boca.
Publicado em Jornal Zero Hora em 28/11/2017
A infância me condicionou. A gente comia o básico, feijão com arroz, bife e salada, com variações de acordo com o dia. Às vezes massa, às vezes bolo de carne, às vezes pastelão, dependendo do tamanho da conta e do fiado no armazém.
Não reclamávamos da mesmice do cardápio, desde que não faltasse a cobiçada guloseima.
O escândalo residia na primeira prateleira da geladeira, com pudim ou ambrosia ou sagu ou cassata ou doce de leite ou torta de bolacha ou pavê. A mãe se esmerava nas surpresas (onde arranjava horário para preparar? Não sei, não faço nem ideia, magias inexplicáveis da maternidade).
Morava numa involuntária confeitaria. Ninguém dispensava a sobremesa naquele tempo. Guardava um espaço imaginário no estômago para não desperdiçá-la, não repetia as porções e recuava o apetite antes de me empanturrar.
Podia-se estar atrasado para o trabalho ou para a escola, não permitíamos a pressa apagar os nossos caprichos e o momento solene dos pratinhos pequenos.
Os garfos e facas não conseguiam vencer a importância das colheres.
Não se falava nada durante o almoço familiar. O silêncio imperava naquele instante, cortávamos a carne instintivamente, máquinas de triturar e moer a comida. O que se escutava se resumia aos barulhos dos talheres na porcelana.
Mas todo mundo abria a matraca milagrosamente na sobremesa. Vinham confissões, risadas, bobagens, lembranças. Éramos desconhecidos no sal, íntimos no açúcar. Abraços aconteciam mais fáceis, carinhos nos cabelos surgiam aos borbotões.
Acredito que as famílias hoje deixaram de falar porque extinguimos a sobremesa. Os filhos não mais relatam as suas façanhas nas aulas porque abolimos a sobremesa. Os pais não trocam mais beijos e juras de amor na frente dos outros porque erradicamos a sobremesa da rotina.
A glicose sempre salvou as amizades e os relacionamentos. As palavras nadam quando estamos com água na boca.
Publicado em Jornal Zero Hora em 28/11/2017
CAPITÃO GANCHO
Quando está sozinho, os braços são um problema para o homem. Um estorvo. Ele não decidiu muito bem o que fazer com os gestos. Vacila no controle da marionete de si mesmo. Quer manter uma postura séria, compenetrada e não relaxa o tronco. Costuma escolher duas posições de defesa: braços cruzados e mãos no bolso. Neste momento, metade dos homens do universo estão com a mão no bolso e outra metade de braços cruzados.
O que o macho gostaria é de pegar tudo com os pés. Seu maior desejo é nunca parar de jogar futebol e fazer embaixadinha com os objetos e roupas. Se possível, inventando um gol na cesta da lavanderia ou na gaveta.
Se largo uma cueca no chão, jamais vou me abaixar para buscar, raciocino o custo-benefício da situação, vejo que será mais fácil não me mexer e ergo a roupa com o dedão. Jogo para cima e seguro depois em festa, como se fossem cupons de urna de shopping no Natal.
Não é uma atitude isolada. Tento abrir portas com os pés, mexer na geladeira com os pés, segurar elevador com os pés, recolher xampu com os pés. Os pés são sempre mais rápidos. É também uma forma de me divertir, de manter a infância da molecagem, de realizar malabarismo de circo, de ser engraçado. Até para tirar ou colocar o tênis dispenso as mãos. Vou enfiando os pés e pulando pela casa esperando me encaixar na fôrma.
A praticidade não me seduz, opero por desafios nas atividades prosaicas e domésticas. É um rapel estranho pelas paredes do apartamento. Realizo simpatias e cumpro metas _ falta apenas me fantasiar de Capitão Gancho.
Quem não gosta nem um pouco das minhas brincadeiras é a minha esposa. Vive cortando o meu barato. Acha que sou preguiçoso e não entende nada do meu incurável universo infantil. As mãos são o fracasso do homem, somente usadas em último caso.
Publicado em Donna ZH em 26/11/2017
O que o macho gostaria é de pegar tudo com os pés. Seu maior desejo é nunca parar de jogar futebol e fazer embaixadinha com os objetos e roupas. Se possível, inventando um gol na cesta da lavanderia ou na gaveta.
Se largo uma cueca no chão, jamais vou me abaixar para buscar, raciocino o custo-benefício da situação, vejo que será mais fácil não me mexer e ergo a roupa com o dedão. Jogo para cima e seguro depois em festa, como se fossem cupons de urna de shopping no Natal.
Não é uma atitude isolada. Tento abrir portas com os pés, mexer na geladeira com os pés, segurar elevador com os pés, recolher xampu com os pés. Os pés são sempre mais rápidos. É também uma forma de me divertir, de manter a infância da molecagem, de realizar malabarismo de circo, de ser engraçado. Até para tirar ou colocar o tênis dispenso as mãos. Vou enfiando os pés e pulando pela casa esperando me encaixar na fôrma.
A praticidade não me seduz, opero por desafios nas atividades prosaicas e domésticas. É um rapel estranho pelas paredes do apartamento. Realizo simpatias e cumpro metas _ falta apenas me fantasiar de Capitão Gancho.
Quem não gosta nem um pouco das minhas brincadeiras é a minha esposa. Vive cortando o meu barato. Acha que sou preguiçoso e não entende nada do meu incurável universo infantil. As mãos são o fracasso do homem, somente usadas em último caso.
Publicado em Donna ZH em 26/11/2017
GAÚCHO APOSENTADO
Um gaúcho se aposenta de ser gaúcho não quando para de tomar chimarrão, o que já é grave, não quando deixa de conjugar o tu e adota o você, o que é muito suspeito, não quando corta o "bah" de suas exclamações, o que é esquisito, mas quando transforma a sua churrasqueira em depósito de tralhas.
Um gaúcho que ocupa a sua churrasqueira como se fosse extensão de lixo seco já é paulista. Ele profanou o altar sagrado da picanha. Ele sublocou o território de suas tradições.
Pode faltar espaço na casa, pode ter que pedir arrego na garagem da mãe, mas gaúcho que é gaúcho não cede a churrasqueira para fins espúrios. Não empresta a sua churrasqueira para mais nada. O máximo permitido é usá-la para guardar as suas armas de guerra: os espetos e o saco de carvão.
Na hora em que o lugar do churrasquinho quinzenal é posto a pique para esconder caixas, revistas e badulaques significa o fim vexaminoso do CTG da família.
Não existe como negociar aquele vão. É o poço artesiano da camaradagem e da cumplicidade com os amigos. Nenhum outro emprego é justificável. Mesmo que a mulher destile o seu charme e merchandising da sedução para conservar as caixas de sapatos. Mesmo que o filho venha com manha para estacionar o seu skate ou patinete.
Churrasqueira é cova aberta para a eternidade das brasas. É o nosso quartinho de fumaça. É o nosso pebolim de adultos. É o nosso jeito vitalício de agradar às visitas e exercitar a cordialidade. Não tem como ser rifado, bloqueado.
Não há lenço colorado no pescoço, bombacha e esporas que sejam capazes de restaurar a honra depois.
Pior que isso é só converter a churrasqueira em lareira. Mas daí o gaúcho não abandona o seu bairrismo, despede-se também de ser brasileiro. Assume o exílio definitivo dos trópicos e adquire o passaporte da União Europeia.
Publicado em Jornal Zero Hora em 21/11/2017
Um gaúcho que ocupa a sua churrasqueira como se fosse extensão de lixo seco já é paulista. Ele profanou o altar sagrado da picanha. Ele sublocou o território de suas tradições.
Pode faltar espaço na casa, pode ter que pedir arrego na garagem da mãe, mas gaúcho que é gaúcho não cede a churrasqueira para fins espúrios. Não empresta a sua churrasqueira para mais nada. O máximo permitido é usá-la para guardar as suas armas de guerra: os espetos e o saco de carvão.
Na hora em que o lugar do churrasquinho quinzenal é posto a pique para esconder caixas, revistas e badulaques significa o fim vexaminoso do CTG da família.
Não existe como negociar aquele vão. É o poço artesiano da camaradagem e da cumplicidade com os amigos. Nenhum outro emprego é justificável. Mesmo que a mulher destile o seu charme e merchandising da sedução para conservar as caixas de sapatos. Mesmo que o filho venha com manha para estacionar o seu skate ou patinete.
Churrasqueira é cova aberta para a eternidade das brasas. É o nosso quartinho de fumaça. É o nosso pebolim de adultos. É o nosso jeito vitalício de agradar às visitas e exercitar a cordialidade. Não tem como ser rifado, bloqueado.
Não há lenço colorado no pescoço, bombacha e esporas que sejam capazes de restaurar a honra depois.
Pior que isso é só converter a churrasqueira em lareira. Mas daí o gaúcho não abandona o seu bairrismo, despede-se também de ser brasileiro. Assume o exílio definitivo dos trópicos e adquire o passaporte da União Europeia.
Publicado em Jornal Zero Hora em 21/11/2017
O ÚNICO HOMEM HONESTO QUE EU CONHECI
Meu avô sempre dizia que honesto era o seu pai. Para qualquer situação. Quando ouvia as notícias do rádio de manhã na cozinha, no almoço, quando aprontava alguma malandragem e me passava o pito, quando colocava o seu calção e seu chinelo para o entardecer de chimarrão, antes de me dar boa-noite e, de novo, no bom-dia.
Eu confabulava com os meus botões: o que será que ele fez com descomunal excelência e honradez, para ser um exemplo perfeito e recorrente? Chegava a ser chata a evocação, mas não podia menosprezar o amor da sentença, havia uma homenagem a um caráter de exceção, um reverência a um padrão de vida e de clareza. Quisera que os meus filhos pensassem o mesmo de mim no futuro.
- Meu pai é que era honesto. O único homem honesto que conheci.
Já imaginava o seu pai como um super-herói de Guaporé, de sunga por cima do collant, meias coloridas e capa esvoaçante, prendendo assaltantes de banco, ajudando velhinhas a subir no ônibus, desmoralizando os políticos na Câmara de Vereadores, criticando a indolência dos mendigos nos bancos de pedra da praça, devolvendo o troco dos caixas aos aposentados. Sua figura tomou boa parte da memória de minha infância. Pretendia atingir o mesmo grau de retidão, prometi a mim mesmo não mentir mais, com exceção da hora de comer rúcula, que eu detestava.
Ele devia nunca ter atrasado uma conta, nunca ter passado ninguém para trás, nunca ter enganado esposa, nunca ter faltado ao trabalho, nunca ter omitido a sua opinião, aposto que pedia desculpas no exato momento de uma falha e não cedia à tentação da soberba. Pois o antônimo da honestidade não é a mentira, mas o orgulho.
Surpreso fiquei quando o meu avô pediu que eu buscasse correspondência na agência de Correios da esquina e me entregou a sua identidade para a retirada do volume. Constava que ele era filho de Honesto Carpi.
Nunca um documento causou tanto estrago em minha personalidade. Demorei a minha adolescência inteira para desfazer a fantasia.
Publicado em Jornal Zero Hora em 14/11/2017
Eu confabulava com os meus botões: o que será que ele fez com descomunal excelência e honradez, para ser um exemplo perfeito e recorrente? Chegava a ser chata a evocação, mas não podia menosprezar o amor da sentença, havia uma homenagem a um caráter de exceção, um reverência a um padrão de vida e de clareza. Quisera que os meus filhos pensassem o mesmo de mim no futuro.
- Meu pai é que era honesto. O único homem honesto que conheci.
Já imaginava o seu pai como um super-herói de Guaporé, de sunga por cima do collant, meias coloridas e capa esvoaçante, prendendo assaltantes de banco, ajudando velhinhas a subir no ônibus, desmoralizando os políticos na Câmara de Vereadores, criticando a indolência dos mendigos nos bancos de pedra da praça, devolvendo o troco dos caixas aos aposentados. Sua figura tomou boa parte da memória de minha infância. Pretendia atingir o mesmo grau de retidão, prometi a mim mesmo não mentir mais, com exceção da hora de comer rúcula, que eu detestava.
Ele devia nunca ter atrasado uma conta, nunca ter passado ninguém para trás, nunca ter enganado esposa, nunca ter faltado ao trabalho, nunca ter omitido a sua opinião, aposto que pedia desculpas no exato momento de uma falha e não cedia à tentação da soberba. Pois o antônimo da honestidade não é a mentira, mas o orgulho.
Surpreso fiquei quando o meu avô pediu que eu buscasse correspondência na agência de Correios da esquina e me entregou a sua identidade para a retirada do volume. Constava que ele era filho de Honesto Carpi.
Nunca um documento causou tanto estrago em minha personalidade. Demorei a minha adolescência inteira para desfazer a fantasia.
Publicado em Jornal Zero Hora em 14/11/2017
PÃOZINHO QUENTE
A minha grande alegria familiar não é trazer presentes para os filhos ou para a esposa, não é fechar negócios polpudos no trabalho e voltar satisfeito, não é a promessa de um prato predileto, mas é abrir a porta de casa com os pãezinhos quentinhos no colo.
Esquentam o meu peito no caminho a pé, tal bebê sonhando com o berço.
Quando chego na padaria e a atendente diz: "o pão acabou de sair", eu me vejo consagrado.
Aparecer na padaria exatamente com o pão saindo do forno representa sorte e inspiração. Como se eu fosse premiado pela Mega Sena do cotidiano. Como se tivesse acertado os números da Quina dos horários. Abro o sorriso com a fortuna dos dentes. Levanto o braço gritando "Bingo!". Comemoro o gol abraçando estranhos.
Não levaria os pães cabisbaixos da cesta, frios e duros, cansados de esperança. Estava pegando os mais cobiçados, os de miolo quente e de casca crocante, feitos sob encomenda para o nosso café da tarde. Desciam do fogo direto para o calor das mãos.
Já salivava imaginando a geleia de morango ou a manteiga derretendo em sua crosta. Eu me distanciava da vitrine com água na boca, atrapalhado e ansioso, tendo a certeza de que havia sido um predestinado naquela noite.
Não há melhor sensação do que ser pontual na retirada dos pães. Não preciso de mais nada para ser feliz.
Encaro os vizinhos na rua com a superioridade do privilégio, ostentando a medalha de honra. Não posso nem fechar o saco, tamanho o frescor do nascimento, pois ele ficará absolutamente embaçado. O cheiro emana para a minha barba, enfeitiçando-me de sortilégios.
Não existe desentendimento com a mulher, cisma dos filhos, dívida bancária, mal-estar com a vida, que resista a minha aparição caseira gritando: "Os pães estão quentinhos, venham logo para a mesa".
Publicado em Jornal ZH em 07/11/2017
Esquentam o meu peito no caminho a pé, tal bebê sonhando com o berço.
Quando chego na padaria e a atendente diz: "o pão acabou de sair", eu me vejo consagrado.
Aparecer na padaria exatamente com o pão saindo do forno representa sorte e inspiração. Como se eu fosse premiado pela Mega Sena do cotidiano. Como se tivesse acertado os números da Quina dos horários. Abro o sorriso com a fortuna dos dentes. Levanto o braço gritando "Bingo!". Comemoro o gol abraçando estranhos.
Não levaria os pães cabisbaixos da cesta, frios e duros, cansados de esperança. Estava pegando os mais cobiçados, os de miolo quente e de casca crocante, feitos sob encomenda para o nosso café da tarde. Desciam do fogo direto para o calor das mãos.
Já salivava imaginando a geleia de morango ou a manteiga derretendo em sua crosta. Eu me distanciava da vitrine com água na boca, atrapalhado e ansioso, tendo a certeza de que havia sido um predestinado naquela noite.
Não há melhor sensação do que ser pontual na retirada dos pães. Não preciso de mais nada para ser feliz.
Encaro os vizinhos na rua com a superioridade do privilégio, ostentando a medalha de honra. Não posso nem fechar o saco, tamanho o frescor do nascimento, pois ele ficará absolutamente embaçado. O cheiro emana para a minha barba, enfeitiçando-me de sortilégios.
Não existe desentendimento com a mulher, cisma dos filhos, dívida bancária, mal-estar com a vida, que resista a minha aparição caseira gritando: "Os pães estão quentinhos, venham logo para a mesa".
Publicado em Jornal ZH em 07/11/2017
A MAÇÃ DA VIRTUDE
Os avós preservavam uma sidra na estante, como um objeto de decoração em cima da televisão. Uma sidra fechada reservada para numa ocasião especial. Um troféu da intimidade que coroava a sala da residência em Guaporé (RS), despertando a curiosidade das visitas.
Não se tratava de nenhum champanhe chique, inacessível a quem vivia contando os trocados, mas uma garrafa honesta, simples, dada de presente por amigos e elevada ao céu das expectativas.
A vó sempre passava um paninho nela toda manhã enquanto encerava de lustra-móveis o resto da madeira. Existia no rótulo o desenho de uma maçã, espécie de único Apple da vida analógica do interior.
Cada dia poderia ser o dia ilustre da abertura da bebida. Não sei o que poderia desencadear a festa. Somente os avós guardavam os requisitos para a decisão.
Seria nascimento de mais um neto? Aposentadoria? Cura de uma doença familiar? Milagre econômico?
Eu, menino, esperava. Logo quando me acordava durante as minhas férias lá, verdadeiro Sítio do Pica-pau amarelo, corria para ver se os avós haviam feito a sua comemoração secreta.
Nada, nadinha, por vários verões. Ela resistiu em seu lugar de honra sem ter a rolha estourada. Não duvido que o produto já tinha passado da data de validade há muito tempo.
Atravessei uma esquisita melancolia pelo seu não aproveitamento. Parecia que meus avós nunca encontravam a felicidade para abrir a sidra. Não achavam um pretexto significativo. Eu vivia constrangido pela tristeza da rotina, distante de um sobressalto alegre para brindar os cálices.
Até que percebi, quando morreram, quando embrulhávamos os pertences dos dois em caixas de papelão, quando segurei o recipiente verde na mão para alisar o carpete das letras, já enrugado, que estava profundamente enganado. O sumo fermentado não precisava ser usado – o seu sentido residia em criar expectativa. Ele fornecia esperança, gerava futuro, conservava um algo a mais para a folhinha do calendário. Todo dia era feliz porque havia uma sidra na estante para ser aberta.
Eles não beberam o seu conteúdo, mas beberam a esperança até a última gota.
Publicado em Jornal Zero Hora em 31/10/2017
Não se tratava de nenhum champanhe chique, inacessível a quem vivia contando os trocados, mas uma garrafa honesta, simples, dada de presente por amigos e elevada ao céu das expectativas.
A vó sempre passava um paninho nela toda manhã enquanto encerava de lustra-móveis o resto da madeira. Existia no rótulo o desenho de uma maçã, espécie de único Apple da vida analógica do interior.
Cada dia poderia ser o dia ilustre da abertura da bebida. Não sei o que poderia desencadear a festa. Somente os avós guardavam os requisitos para a decisão.
Seria nascimento de mais um neto? Aposentadoria? Cura de uma doença familiar? Milagre econômico?
Eu, menino, esperava. Logo quando me acordava durante as minhas férias lá, verdadeiro Sítio do Pica-pau amarelo, corria para ver se os avós haviam feito a sua comemoração secreta.
Nada, nadinha, por vários verões. Ela resistiu em seu lugar de honra sem ter a rolha estourada. Não duvido que o produto já tinha passado da data de validade há muito tempo.
Atravessei uma esquisita melancolia pelo seu não aproveitamento. Parecia que meus avós nunca encontravam a felicidade para abrir a sidra. Não achavam um pretexto significativo. Eu vivia constrangido pela tristeza da rotina, distante de um sobressalto alegre para brindar os cálices.
Até que percebi, quando morreram, quando embrulhávamos os pertences dos dois em caixas de papelão, quando segurei o recipiente verde na mão para alisar o carpete das letras, já enrugado, que estava profundamente enganado. O sumo fermentado não precisava ser usado – o seu sentido residia em criar expectativa. Ele fornecia esperança, gerava futuro, conservava um algo a mais para a folhinha do calendário. Todo dia era feliz porque havia uma sidra na estante para ser aberta.
Eles não beberam o seu conteúdo, mas beberam a esperança até a última gota.
Publicado em Jornal Zero Hora em 31/10/2017
DOS OITO AOS 45 ANOS
Não tenho nada a reclamar de minha família. Eu fui protegido por todos eles: os pais, Carla, Rodrigo e Miguel, cada um cuidou de mim em uma fase da vida. Eles se revezavam em vigília, quando um terminava o turno, o outro assumia.
Não chegava a apresentar problemas mentais, mas tampouco parecia normal. Com dicção presa (cuspia na pronúncia de palavras mais longas), andar desengonçado e olhar parado, recebi escolta privilegiada desde cedo. Carla me arrumava, Rodrigo me traduzia, Miguel segurava a mão. Partia para a rua em comitiva.
Havia uma mobilização pela minha aceitação. Para me enturmar, a mãe preparou a festa de aniversário de oito anos aberta para a escola. Preparou convitinho de cisne para ser distribuído aos colegas.
A celebração representaria um salto em minha sociabilidade, a primeira festinha com os amigos. Durante duas semanas, o fogão não parou de madrugada, com preparação de doces, quitutes e salgados. Vivia um sonho, com a expectativa de gritarem o meu nome no "É BIG, É BIG. É HORA, É HORA. RÁ-TIM-BUM". Já antevia a cama ocupada de presentes, dormiria com eles ainda embrulhados, adivinhando o conteúdo pelo tato.
Só que a comemoração aconteceu num feriado e ninguém veio. Aguardei no portão de gravata-borboleta por duas horas. Como morava numa esquina, os passos que contornavam a rua provocavam aceleramento cardíaco. O susto não se cumpria em surpresa: sem a sorte de um abraço e de um riso cúmplice.
Quando entrei de volta para a residência, completamente arrasado, eu vi a minha mãe escondendo as suas lágrimas sentada na mesa da cozinha. Assim como ela sofria comigo, eu sofri por ela. Nosso maior abatimento é com a dor de quem amamos. A minha tristeza logo passou com a tristeza dela. Pois a tristeza dela era maior do que a minha e busquei consolá-la:
– Não há problema, mãe, a gente congela a torta e usa no ano que vem.
Hoje, completo 45 anos, e queria dar os parabéns para os meus pais e irmãos. Valeu o esforço, vocês conseguiram: eu me sinto amado.
Publicado em Jornal Zero Hora em 24/10/2017
Não chegava a apresentar problemas mentais, mas tampouco parecia normal. Com dicção presa (cuspia na pronúncia de palavras mais longas), andar desengonçado e olhar parado, recebi escolta privilegiada desde cedo. Carla me arrumava, Rodrigo me traduzia, Miguel segurava a mão. Partia para a rua em comitiva.
Havia uma mobilização pela minha aceitação. Para me enturmar, a mãe preparou a festa de aniversário de oito anos aberta para a escola. Preparou convitinho de cisne para ser distribuído aos colegas.
A celebração representaria um salto em minha sociabilidade, a primeira festinha com os amigos. Durante duas semanas, o fogão não parou de madrugada, com preparação de doces, quitutes e salgados. Vivia um sonho, com a expectativa de gritarem o meu nome no "É BIG, É BIG. É HORA, É HORA. RÁ-TIM-BUM". Já antevia a cama ocupada de presentes, dormiria com eles ainda embrulhados, adivinhando o conteúdo pelo tato.
Só que a comemoração aconteceu num feriado e ninguém veio. Aguardei no portão de gravata-borboleta por duas horas. Como morava numa esquina, os passos que contornavam a rua provocavam aceleramento cardíaco. O susto não se cumpria em surpresa: sem a sorte de um abraço e de um riso cúmplice.
Quando entrei de volta para a residência, completamente arrasado, eu vi a minha mãe escondendo as suas lágrimas sentada na mesa da cozinha. Assim como ela sofria comigo, eu sofri por ela. Nosso maior abatimento é com a dor de quem amamos. A minha tristeza logo passou com a tristeza dela. Pois a tristeza dela era maior do que a minha e busquei consolá-la:
– Não há problema, mãe, a gente congela a torta e usa no ano que vem.
Hoje, completo 45 anos, e queria dar os parabéns para os meus pais e irmãos. Valeu o esforço, vocês conseguiram: eu me sinto amado.
Publicado em Jornal Zero Hora em 24/10/2017
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