quarta-feira, 8 de agosto de 2012

PINÓQUIO OU CINDERELA

Cínthya Verri me chamou de Cinderela, e eu confiava que era o Pinóquio.

Confira o quadro DRnaTV, nosso consultório sentimental ao vivo na TVCOM, com a participação especial do casal de terapeutas Diana e Mário Corso.

A mediação é de Sara Bodowsky. O encontro ocorreu na noite de terça-feira (7/8).

A FÉ DA MULHER NÃO É PERFUMARIA

Arte de Cínthya Verri

Minha esposa perguntou quem trocou o sabonete.

— Trocar o sabonete?

Pensei que sabonete vinha com o box do banheiro, como um refil substituído semanalmente por assistência técnica.

Ela reparou que a marca era outra, que aquilo não faria bem para sua pele, que traria espinhas.

Falou com tamanha convicção que disse amém.

Mulher é fiel com produtos de beleza. Mais supersticiosa do que um torcedor que jura que a cor da cueca ou a lealdade a uma camiseta favorita influenciam no resultado.

Banheiro não poderia ser dividido entre marido e esposa. Cada um deveria ter o seu. Simone de Beauvoir, Camille Paglia e Madonna apenas queriam um banheiro exclusivo. É um crime o gênero feminino partilhar o espelho com amadores.

Homem não tem banheiro, mas vestiário. Ele usa aquele lugar para tomar banho e sair para o serviço.

Já descerrar o armarinho de uma mulher é tirar a burka de uma muçulmana: todo o rosto está ali.

É um laboratório. Uma feitiçaria. Uma alquimia de receitas.

Tudo o que tem nas prateleiras é uma longa soma cultural de experiência de babilônias, gregas, chinesas, indianas e maias, é a história do universo num frasco, realizaram testes com vendedoras, manicures e cabeleireiras, se desfizeram de amostras grátis, travaram conversas socráticas com a mãe e as avós.

O batom, o rímel, o pincel são confidentes. Amigos das sombras azuis. Não foram escolhas aleatórias, mas frutos de estudo minucioso e atento, de sofrido descarte de concorrentes. A acetona ficou de pé por um motivo, o desodorante tem seu segredo, o hidrante é insubstituível, o bloqueador não produz alergias. Não busque argumentar. É como discutir estrelas com astrônomo ou empregar binóculo como telescópio.

Só elas leem realmente os ingredientes do sabonete. Nunca vi nenhum homem atento aos componentes miúdos das laterais da caixa.

Elas abandonam o perfume devido a um insucesso profissional. Culpam um creme pela sua depressão. Incriminam pomada pela hipersensibilidade.

É uma fé inabalável que invejo.

Homem se contenta com a caixa de primeiros socorros do carro — é a única nécessaire que se permite. Sofre pela soberba, adepto da ideia de que nasceu pronto e que pode mijar em qualquer lugar.

Não repara nos sinais, confunde a prevenção com luxo. Ao sofrer de caspa, não substitui o xampu. Não compreende que a chuva branca e miúda, aparentemente inofensiva nos ombros, provocará a queda do império de seus cabelos.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 7 de agosto de 2012

PAC-MAN SEMPRE VAI MORRER NUM BECO


O homem é um produto frágil demais. Pode ser destruído simplesmente pelo saca-rolha.

Eu tremo ao abrir uma garrafa de vinho. Vá que a rolha esteja esfarelada e afunde. O longo esforço de maturação da bebida, depois de dois anos de envelhecimento no barril e três na garrafa, morre em segundos pela minha imperícia. Nenhum dos presentes vai mexer o líquido rubro no cálice e cheirar o buquê por minha culpa.

O medo tem uma razão especial: a esposa é que me alcança a safra. Representa um ato de confiança, um crédito no relacionamento. É coisa de macho. Ela finge se distrair enquanto observa o desempenho pelo rabo dos olhos.

E se eu vacilo e ela delega a atividade para a visita? E se a visita abre com facilidade e solta um risinho diabólico?

Toda garrafa de vinho traz uma mensagem de S.O.S. Apelo de náufragos do amor.

O champanhe é também uma tragédia moral. Festa da virada, contagem regressiva 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, e você se demora ao puxar o lacre. O mundo familiar aplaude, grita, e a garrafa permanece fechada em sua mão. É azar para o resto da vida amorosa, não somente para um ano.

Nossos maiores constrangimentos baixam nos pequenos atos, onde não há coragem, mas apenas obrigação. É se enxergar no dever de fazer, que o fracasso é certo.

Não são tarefas maiúsculas, em que podemos nos perdoar pela concorrência e nervosismo, como vestibular, autoescola e entrevista de emprego.

Refiro-me a situações coloquiais, da rotina, na qual o outro conclui que você não terá dificuldade. Um dos vexames da escola foi ao bancar o educado com uma colega. Eu me ofereci para abrir seu salgadinho Pingo d’Ouro. Suava frigoríficos, e não descolava as pontas. Até que exagerei e o saco rasgou-se inteiro.

Já penei com uma lata de extrato de tomate. Não fui ensinado a usar o abridor pela mãe, pai, irmão mais velho (afinal, quem era o responsável pela aula?). No casamento, na primeira refeição a dois, dividindo romanticamente o balcão da cozinha, ganhei a ingrata tarefa. Desenhava a tampa e nada de furar a lata e encontrar a polpa. A massa pronta, a mulher aguardando e eu batendo cabeça por 15 intermináveis minutos. O avental foi curto para conter o al sugo do rosto.

Experimento sucessivamente suspiros de alívio ou engasgos de aflição diante de potes de geleia, requeijão e pepino.

Dói quando sua companhia compra ingresso para assistir a você se estrebuchar.

Dói quando você recorre à camisa para torcer a tampa.

Dói ainda mais quando ela consola:

– Não depende de força, mas de jeitinho.

É uma das frases mais horríveis de se escutar na vida, junto com “isso acontece!”.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 07/08/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17154

BRINQUE COM O AZAR

Arte de Oskar Kokoschka


Você não é contratado num emprego por excesso de qualificação.

Você empresta dinheiro a parente. É certo que não será devolvido. E, quando cobrar, ainda será chamado de mão-de-vaca.

Você fala mal de alguém bem no momento em que ele entra na sala e tenta mudar de assunto.

Você trabalha no feriado e os amigos ficam ligando para dizer o que não estão fazendo.

Você tem garantia de um ano da máquina de lavar e ela estraga no primeiro dia do segundo ano.

Você não entra para realizar a prova de concurso público, para qual estudou durante doze meses sem parar, por cinco minutos de atraso. 

Sua namorada termina a relação, diz que é o problema é com ela e deseja continuar sua amiga.

Ouça o comentário da manhã de terça (7/8), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:

domingo, 5 de agosto de 2012

NUNCA NAMOREI

Arte de Cínthya Verri

“Olá, Boa tarde! Sou estudante e tenho 29 anos. Nunca tive namorado, vivo apaixonada por um ou outro, mas sempre platonicamante, nada de concreto. Até rola uns amassos, beijos na balada, mas nada além disso, sei que sou um pouco exigente em relação a homens, não saio com qualquer um. Mas me considero uma pessoa "liberal", não gosto de hipocrisia. Será que o problema é comigo? Beijo Stephane”

Querida Stephane,

Não noto nenhum problema, vejo que você absolutamente não deseja namorar. Não é exigente, mas excludente. Exigente é o que avalia as possibilidades e tenta, mas você descarta as hipóteses antes de experimentar.

A paixão platônica é um modo de manter o desejo ocupado e não ser importunada pelos apelos da realidade. Como deseja um sujeito em sua imaginação, não pode se interessar por um homem próximo. É uma fidelidade de faz-de-conta, que elimina o trabalho de conhecer alguém de verdade. 

Namoro é ensaio, é pisar no pé para roçar as pernas, chutar o ar para criar nova dança, é cometer gafes e rir e se atrapalhar. Todo apaixonado é gago, confuso, estranho, de péssimo desempenho social. O amor vai perdoando o nervosismo pela vontade de aprender diferente.

Para que aconteça o namoro, deve errar. O primeiro passo para namorar é fracassar, desativar os alarmes de proteção, esquecer o que sabia sobre o amor. Por isso as bebedeiras são os melhores cupidos.

Namorar é oferecer a chance para aquele que não atende às nossas expectativas. É romper a idealização e ampliar nossa curiosidade sobre o mundo.

Enquanto esperar o par de fábrica, Cinderela, ficará descalça.

Mas entendo que sua rejeição é preventiva. Tem medo da avaliação alheia. Não se gosta, não se acha ideal e acredita que qualquer um sentirá a mesma aversão. 

Aceita ficar na balada desde que não desenvolva amizade no dia seguinte. Elimina o contato para não ser recusada depois. Você, certamente, não deseja namorar consigo.

A pergunta é outra: o que considera em si abominável a ponto de fugir da convivência amorosa?

Abraço com todo afeto,
Fabrício Carpinejar

Querida Stephane,

Na hora da sentença, como era seu mórbido costume, o General Persa ordenou que o espião fosse trazido para conversa reservada:

— O que quer: a porta preta ou o esquadrão de fogo?

O prisioneiro hesitou, mas logo disse que preferiria o esquadrão de fogo.

Tiros indicaram que a sentença fora cumprida.  O ajudante questionou:

— O que existe atrás da porta preta?
— A liberdade — respondeu o general —e poucos foram os homens que a escolheram.

Que bonito, Stephane, que se abra para falar conosco. Isso, por si só, mostra sua curiosidade em paquerar com novas possibilidades.

Mas querida, cada um tem seu conceito do que é ser liberal. Quase três décadas de sua vida se passaram e ainda não teve nenhuma relação física importante com alguém. Claro que selecionar pode fazer diferença, mas talvez esteja passando do ponto. Desconfiar é tão legítimo quanto confiar em si.

Com essa peneira tão fina, acaba fechando a luminosidade. Você está se privando de experiências enriquecedoras. Não que seja essencial, veja por você mesma, a vida continua. Mas é certo que a intimidade nos ensina muito.

Será que esse não é um jeito de se tornar especial — enquanto todos se estrebucham em atritos e confusões emocionais, você paira sobre a nuvem, intacta, voando no tapete mágico do amor platônico?

É possível que essas paixões nunca tenham avançado, não por sua desconfiança sobre os parceiros, mas pela incerteza sobre a sua própria capacidade de amar.

É uma abertura diferente daquelas que você já experimentou, inclusive sexualmente. Talvez essa entrega ainda dependa de querer a liberdade a dois. Amar é a coragem de desconhecer.

Beijos meus,
Cínthya Verri

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 05/08/2012 Edição N° 17152

Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.
Nossos palpites amorosos não substituem consulta, terapia, exorcismo e qualquer tratamento técnico.
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sábado, 4 de agosto de 2012

IMPRATICÁVEL

Arte de Rufino Tamayo

Pais com filhos pequenos devem esquecer que tem casa.

Esquecer que tem decoradores. Esquecer que existe combinação de cores. Esquecer o bom gosto.

Não faz sentido comprar uma mesa de vidro, esculturas valiosas, cristaleiras.
Não faz sentido abarrotar o espaço com aquilo que é frágil.

Os objetos serão quebrados e podem machucar. É apenas se incomodar com excessivo controle e limpeza.

O nascimento dos filhos exige uma mudança de mentalidade. Ter filhos e ser chique é impossível.

Ouça meu divertido comentário na manhã de sábado (4/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Daniel Scola e Fernando Zanuzo:

AMAR EH ENTERNECER TODOS À VOLTA


Há dois anos, eu e Cinthya Verri inventamos o Amar eh, caderno de fotos e máximas, para trocar gentilezas e adjetivos. É uma versão biográfica do famoso álbum dos anos 80.

Nosso amor é como correspondência antiga, para colar com saliva e abrir com vapor de chaleira.




Quer colecionar?
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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

MÁQUINA RECEBE JOÃO SUPLICY

Jogo das três palavras. Inimigo secreto.

Todas as brincadeiras possíveis para desarmar as poses de um tímido.

A Máquina, da TV Gazeta, recebe o músico João Suplicy, parceiro de Supla em Brothers of Brazil.

A exibição aconteceu na noite de terça-feira (31/7).


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

FLORES DE PLÁSTICO MORREM

Arte de Fantin-Latour

Sina de se sentir especial traumatizado. Psicologizamos em demasiado a memória, fazendo questão de conservar apenas o que tem impacto. A dor me torna reacionário.  Precisamos mais alegria, mais palpites, mais amizades, mais conversa de varanda e esquina.

Ouça meu comentário de sábado (28/7) na Rádio Gaúcha, no programa Gaúcha Hoje, apresentado por Daniel Scola e Fernando Zanuzo:

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

PARADO!

Não se mexa que estou gozando.

Não fale nada que estou gozando.

Quieto ai que estou gozando.

O que era para ser espontâneo torna-se uma cena de pânico, na qual o casal tem medo de desagradar e estragar o prazer da companhia.

O quadro DRnaTV, meu e de Cínthya Verri, debateu o orgasmo, com aquele humor tradicional que invade a TVCOM toda terça-feira.

A exibição aconteceu na noite de 31/7. Veja: