terça-feira, 11 de setembro de 2012

SOBERBA É RECLAMAR DA PRÓPRIA ALEGRIA


 
Minha mãe se endividava com alegria. Ia com felicidade para as compras. Ela explicava:
 
— Doido é quem gasta e reclama. Comprar reclamando é doença.

Ouça meu divertido comentário na manhã de terça-feira (11/9) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Macedo e Fernando Zanuzo:
 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

MAL-ME-QUER

Arte de Monet
 
Marchar no Desfile de 7 de Setembro durante uma hora debaixo de um sol de 40 graus era o menor dos males.
 
Terrível foi que a escola vestiu meninos e meninas de florzinhas.
 
Tive que acenar aos pais como Margarida.

Ouça meu trauma fundador em comentário no sábado (8/9) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Rafael Colling e Fernando Zanuzo:
 
 

domingo, 9 de setembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

Arte de Eduardo Nasi
 
ENVOLVIMENTO DEMAIS

“Tenho 31 anos, sou profissional liberal bem-sucedida, culta, bem-humorada. Meu relacionamento terminou há quatro meses, quando pressionei meu namorado para alugarmos um apartamento. Ele confessou não estar pronto. Era uma pessoa muito ligada à mãe. Abraços, Magda”

Querida Magda,
 
Não sei se isso é uma pergunta ou uma propaganda pessoal. Você está extremamente partidária de si. Numa campanha eleitoral ostensiva. Nunca errou, pisou na bola? Aparece pregando suas virtudes, o que provoca uma severa desconfiança do eleitorado.
 
Quem se elogia antes não oferece espaço para elogio depois. Acho que somente espera que eu concorde com sua vitimização, mas vamos pensar juntos. Quando tememos um amor, ele fica. Quando desejamos desesperadamente um amor, ele some.
 
Temer é viver a dúvida, a inquietação, ouvir o contraponto com interesse. Já ambicionar o casamento antes do amor é atropelar o namorado com nossa ansiedade. Está tão faminta de uma relação que não sente o sabor das pequenas ofertas.
 
Sua ânsia de se estabelecer rapidamente (e encontrar um parceiro à altura de seus predicados) aniquila qualquer relacionamento. Cheira como um golpe, trote, insanidade. A decisão de morar junto deve ser conjunta, senão haverá recaída logo mais adiante. Se ele diz que não está pronto, não estava brincando. Tanto que acabou.
 
Quando o primeiro pressiona, e o segundo resiste, é um sinal de desentendimento futuro. Não iria mudar sua mentalidade, ou vencer o concurso materno com a sogra. No amor honesto, é mais fácil desistir de nossas convicções do que convencer o outro. Minha dica: use talheres e guardanapo, pare de comer com as mãos.


SEM ENVOLVIMENTO

“Resolvi não me envolver com mais ninguém, mas não consegui. Estou saindo com um cara há quatro meses. Ele deixou claro que não vai se envolver, e eu aceitei. Não começamos e por isso não temos como terminar. Todos me orientam para sair dessa: mãe, amigas. Beijo, Penélope”.
 
Querida Penélope,

Amor não é contrato onde rubricamos cláusulas ou respeitamos promessas logo na entrada. Dizer que não vai se envolver é o mesmo que pedir em casamento de cara. A mesma arbitrariedade. A mesma ditadura. A mesma falta de senso. O mesmo assalto.
 
Estabelecer regras do jogo antes de jogar é constranger a namorada. Entendo que tenha concordado, fingido desinteresse. Entendo que é um modo de não pressionar.
 
Mas ele usará suas palavras contra você. Sua expectativa é que ele mude de opinião e confesse que a ama para seguir com aquilo que realmente se propõe (um namoro sério). Sofrerá todos os encontros aguardando a declaração amorosa libertadora. Criou uma dependência desnecessária. Uma fissura que prejudica o entendimento dos fatos.
 
Está empenhada em alcançar um fim, e é natural desprezar o andamento ou não se ligar com detalhes importantes da aproximação. É um blefe. Todo blefe custa caro. Como não há como ganhar com sua verdade, ele precisa perder. Torce para que ele morda a língua e assim não ser derrotada. O fracasso dele é sua vitória. O êxito dele é seu fiasco.
 
Quando o sujeito confessa que não deseja se envolver não é franqueza, é cara-de-pau. Nas entrelinhas, está avisando o seguinte: terá que me agradar muito para me conquistar. Ele lava as mãos para que trabalhe dobrado pela relação. Ele apenas quer receber e ser mimado. É o escravagismo do silêncio.
 
Abolição já!
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 09/09/2012 Edição N° 17187
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

MÁQUINA RECEBE RODRIGO RODRIGUES

Se vai para o inferno, arrume um bom amigo para passar o tempo.
 
Eu já tenho o meu álibi de crueldades: Rodrigo Rodrigues, RR, tijucano, apresentador do ESPN, idealizador e guitarrista do grupo The Soundtrackers e organizador do almanaque "Música Pop no Cinema" (Leya).
 
Ele é o convidado do programa A Máquina, da TV Gazeta.
 
O encontro ocorreu na noite de terça-feira (4/9).
 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

SUSPIROS

Não fique engasgado de saudade.

Saudade é a alegria da dependência. Cura o egoísmo. Recupera a importância do outro.

Meu quadro DRnaTV, da TV COM, conta os minutos das horas dos dias das semanas.

Suspire junto.

A mediação é de Sara Bodowsky. O encontro aconteceu na noite de terça-feira (4/9).

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

MEU PIOR VÍCIO

Arte de Eduardo Nasi

Quando me sinto só, cheiro meus braços.

Um naco de melancolia e puxo o perfume dos pelos dos braços.

Inspiro escondido, baixinho. Observo os lados para evitar flagrantes.

Eu me vejo culpado por me cheirar em público, como quem mexe no nariz.

Busco me controlar, mas repito de novo e de novo e de novo.

Para me livrar do hábito, teria que ser enviado imediatamente para uma clínica de desintoxicação. Ser preso em uma camisa de força. Ser amarrado na cama.

A verdade é que me acalmo com a fungada em minha pele — não há como evitar.

Pode estranhar a mania. Pode considerá-la uma excentricidade perigosa aos bons costumes. Pode, inclusive, me denunciar para as autoridades.

Já vejo os vizinhos fofocando a meu respeito:

— Aquele careca de óculos vermelhos é totalmente bizarro: cheira os braços.

— Coitada da esposa e dos filhos dele.

— É um viciado, vai desperdiçar sua carreira.

Já sofri preconceito e bullying. Fui pego por um policial cheirando os braços nas moitas da Praça Tamandaré.

Os braços são minha cocaína, meu rapé, meu Vick, minha cola de sapateiro.

É bater em mim uma orfandade de temperamento, a certeza de que ninguém me ama, que o olfato visita minha carne.

É irresistível. Não alcanço a origem do vício.

Desde quando faço isso, desde quando?

Intrigado, tomei Fanta Uva (Fanta Uva é minha hipnose regressiva).

Não surtiu efeito mesmo com uma garrafa dois litros.

Mas, duas semanas depois, ao passar pela frente da antiga escola Imperatriz Leopoldina, ouvi o sinal do meio-dia.

O sinal ainda é idêntico ao meu tempo. A sirene curta e alta.

O toque ancestral da infância mexeu com o pêndulo do coração, que balançou devagar, quase parando pelo peso do ouvido e da mochila imaginária.

Lembrei que ficava deitado em meus braços esperando o fim da aula.

Como a professora sempre terminava o conteúdo mais cedo, sobravam quinze minutos sem nada para fazer.

Ela ordenava:

— Fechem os cadernos e permaneçam em silêncio.

Ninguém deveria conversar com o colega. Calado, taciturno, impossibilitado de movimento, me aninhava em cima da mesa. Sesteava na cesta dos cotovelos.

Então, neste instante, cheirava meus braços.

Cheirava de olhos fechados, simulando a contagem dos segundos.

Até explodir a esperança da rua.
 






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

CORINGA


Matutei comigo: não é fácil fazer propaganda eleitoral.

A gente ri, critica, abomina, desliga, não suporta, mas já parou para exercitar o que você diria se fosse candidato.

O quanto é complicado se expressar em segundos. O quanto temos que elaborar um slogan rapidinho e às vezes totalmente ridículo.

Como não seremos cômicos se apenas podemos falar uma frase. Na verdade, resmungar uma frase. 

O candidato a vereador é um soluço da tevê, um suspiro do rádio.

Tarefa espinhosa: ser conciso com toda uma história de vida, falar o máximo com o pouco, criar um elo de identificação e se diferenciar de centenas de concorrentes.

Aproveitando as eleições 2012, elaborei várias vinhetas para mim. Para mostrar o alto grau de exigência.

Uma propaganda mais irreverente:
— Risos. Vote Carpinejar, Coringa da Rádio Gaúcha. Para uma manhã sempre feliz e poética.

Uma propaganda mais ecológica:
— Vote Carpinejar, capine já.

Uma propaganda com plano de governo, óbvio que impossível de ser cumprido:
— Prometo lavar a louça três vezes por semana, estacionar melhor no box do prédio, não pensar em sexo toda noite.

Uma propaganda para o eleitorado feminino:
— Vote Carpinejar, o homem com alma feminina.

Uma propaganda para a terceira idade:
— O que adianta fila preferencial se você não tem nada no banco: Vote Carpinejar.

Uma propaganda para o CTG:
— Peço licença mui valente tropeiro/ sou um humilde payador/ do pampa missioneiro/ enxotando falsos curandeiros.

Eu sei , eu sei, como publicitário sou um ótimo poeta.

Ouça meu divertido comentário na manhã de quarta-feira (5/9) na Rádio Gaúcha, no programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Fernando Zanuzo:

 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

QUANDO A ESPOSA VAI EMBORA

Arte de Cy Twombly

Maurício estava separado.
 
Sua esposa recém abandonou a casa. Levou as roupas e os pertences sem motivo. Um suicida seria mais educado: pelo menos, deixaria um bilhete e uma explicação. Não foi o que ocorreu.
 
Para complicar, Maurício e Karen irradiavam felicidade nas últimas semanas, o que ferrou com a cabeça do sujeito. Não houve nenhuma discussão, nenhuma cobrança, nenhum problema pontual.
 
Não entendia até aquele momento uma verdade dura dos relacionamentos: a felicidade separa mais do que a infelicidade. Poucos suportam depender de outro. Não há maior humildade do que precisar de alguém.
 
A empregada Leonice vinha sempre às 8h, e encontrava o bancário arrumado e com a mão na maçaneta.
 
Naquela sexta, não foi diferente, a não ser a esperança da reconciliação.
 
– Karen ficou dormindo, somente acordará ao meio-dia. Parecia muito cansada. Assistimos a um filme e deitamos tarde.
 
A empregada suspirou feliz com a reaproximação do casal. Só faltou benzer a porta fechada do quarto.
 
– Volto para o almoço às 14h – completou.
 
A empregada foi ao mercado comprar ingredientes e preparar um empadão de palmito, prato predileto de sua patroa.
 
No decorrer do caminho, recebeu ligação de Maurício.
 
– Não esquece a rúcula e o iogurte natural que acabaram. Karen não abre mão.
 
Ao meio-dia, Maurício telefonou de novo:
 
– Ela levantou?
– Não, permanece quietinha lá, sonhando com os anjos – respondeu Leonice.
– Então, deixa dormindo.
 
Quando Maurício regressou para o almoço, no meio da tarde. Karen não tinha dado sinal. Ponderou, ponderou e decidiu não despertá-la.
 
– Ela nunca pode dormir. Não deve ter trabalho hoje. Não é o caso de incomodá-la. Acordará sozinha.
 
O tempo rodou 15h, 15h30min, 16h, 16h30min.
 
Maurício ligou mais uma vez:
 
– E Karen?
– Nada ainda.
– Compra flores na esquina e decora a sala. Gerânios, ela adora essa palavra: gerânio. Ela costuma falar que a palavra já tem cheiro.
 
Satisfeita por dentro, Leonice riu com suas covinhas, concluiu que os dois continuavam apaixonados um pelo outro.
 
Quando Maurício regressou às 18h, Karen resistia dormindo. Ele teve que pedir:
 
– Vai acordá-la, passou do limite, o almoço já é janta.
 
Leonice ressurgiu na sala branca, esverdeada, rosa, azul, amarelo, lilás, alternando as cores do medo.
 
– Não tem ninguém no quarto.
 
Maurício respirou fundo e somente disse:
 
– Não estou pronto para saber disso. Vamos continuar fingindo que ela ainda mora conosco, tá bom, Leonice?
 



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 04/09/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17182

domingo, 2 de setembro de 2012

QUASE PERFEITO SÓ COMIGO

Esta é minha última coluna do Quase Perfeito ao lado de Cínthya Verri. A partir do próximo número do Donna, assumo a página sozinho.
Consultório Poético de 2010 - Globo

Faço o consultório sentimental desde 2006, iniciado na revista Superinteressante, depois blog, site da Globo e agora jornal Zero Hora. Havia sido a primeira vez que abri meu espaço para uma parceria, que durou somente cinco meses.

* * *
CASAMENTO ABERTO DÁ CERTO?
 
Arte de Cínthya Verri
 
“Durante 13 anos fui monogâmica, mas com muitas escapadas do marido. Agora, ele veio com a receita ideal: o casamento aberto. Até gosto de me sentir desejada por outros homens e consegui encontrar prazer, mas ao mesmo tempo morro de ciúmes dele com outras mulheres. Isso pode dar certo? Carinho, Maria."

Querida Maria,

O problema do casamento aberto é que ele logo se torna escancarado.
 
Casamento aberto é uma invenção de quem já traía.
 
Casamento aberto é uma fachada de lavagem de dinheiro.
 
Casamento aberto é colorir a amizade e desbotar o amor.
 
Casamento aberto é uma forma intelectual de acumular mulheres.
 
Casamento aberto é agência para recrutar nova esposa.
 
Casamento aberto é dividir os méritos, mas não dividir as dívidas.
 
Casamento aberto é substituir a sinceridade pela bajulação.
 
Casamento aberto é o conforto para os indecisos e os mornos.
 
Casamento aberto é quando o ciúme é menor do que a realidade.
 
Casamento aberto é se sentir desejada por todos os homens, menos por aquele que você deseja.
 
Casamento aberto é a receita ideal para uma vida de solteiro.
 
Casamento aberto é menosprezar a dependência dos hábitos.
 
Casamento aberto é concurso de sósias.
 
Casamento aberto é falsificar o pecado original.
 
Casamento aberto é apagar até a possibilidade de trair.
 
Casamento aberto é transar no divã.
 
Casamento aberto é admirar a sogra mais do que a esposa.
 
Casamento aberto é fazer discussão de relacionamento com amantes.
 
Casamento aberto é perder o privilégio da vigília, de alguém acordado por você reclamando que é tarde demais.
 
Casamento aberto é ter o sonho assaltado toda semana.
 
Casamento aberto é transformar o sexo oposto em sexo aposto: casamento, aberto.
 
Casamento aberto é anular a cobrança e a crítica que você possa receber: é a impunidade amorosa.
 
Casamento aberto é trocar as portas pelas cercas, é trocar os cabelos pelos chifres, é trocar a confiança pelo medo.
 
Casamento aberto é para quem não tem coragem nem de se casar muito menos de se separar.
 
Abraço com toda ternura,
Fabrício Carpinejar

Querida Maria,
 
Existem casais com casas separadas; com ou sem filhos; do mesmo sexo; com gatos e cachorros.  Tantos casais além da imaginação. Qualquer tipo de união pode dar certo.

Estima-se que em torno de um terço dos casamentos é firme e prolongado.
 
Simone de Beauvoir encarnou o papel de feminista forte e inteligente. Ficou famosa quando escreveu que o casamento era imoral - o horror de tomar uma decisão definitiva que envolvesse não só o eu de hoje, mas também o eu do futuro.
 
Vivia com Jean-Paul Sartre, um pensador que defendia a individualidade e a liberdade. Um homem que se relacionava “livremente”, com muitas mulheres, talvez mais para comprovar sua tese do que por necessidade amorosa. Simone arranjava mulheres para Sartre e depois caía de cama, literalmente doente de ciúmes.
 
Foram mentes fundamentais para entender nosso século, mas que não parecem ter desenvolvido uma vida plena entre eles.
 
Os casamentos ditos abertos, com excessivas aventuras, costumam ser os mais pobres.
 
O prazer da variedade de parceiros pode encobrir a incapacidade afetiva. Na maioria das vezes, não passa de uma adolescência persistente.
 
O casamento é bom quando a dupla se entende e cada um se revela ao outro progressivamente.
 
De modo geral, o casamento aberto é um teatro onde as pessoas são os atores e o público.
 
Seu caso parece mais uma separação pela qual não quer pagar. É querer escolher sem ter perdas. Uma vida que não assumimos é uma vida pela metade.
 
Arrisco um palpite: você não sentiu ciúme de seu marido, mas gostou das novas conquistas e da possiblidade de ser desejada por outros homens.
 
Agora falta abrir a carteira e quitar as dívidas.
 
Beijos meus
Cinthya Verri

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 02/09/2012 Edição N° 17180

Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.
Nossos palpites amorosos não substituem consulta, terapia, exorcismo e qualquer tratamento técnico.
ESCREVA PARA colunaquaseperfeito@gmail.com

O AVESSO AMOROSO


Cautela ao fazer exigências sentimentais. O amor não respeita idealizações, desobedece condições climáticas.
 
O amor é tudo o que você não esperava que fosse amar numa pessoa.

Ouça meu comentário na manhã de sábado (1º/9) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Rafael Colling e Fernando Zanuzo: