segunda-feira, 5 de novembro de 2012

MÁQUINA RECEBE ZECA BALEIRO

Zeca Baleiro, de unhas pintadas como eu, não foi nada fresco.

Meteu pau nos comentaristas de futebol, no QI da música brasileira e na falta de ousadia dos compositores.

Poeta, polêmico, montou no dragão de São Jorge para enfrentar meu programa A Máquina, na TV Gazeta.

O encontro aconteceu na noite de terça-feira (30/10).

domingo, 4 de novembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

VIUVEZ POR ALGUÉM VIVO
Arte por De Chirico

“Tive um relacionamento que começou em 2004 e terminou em 2011. Foram muitas idas e vindas, quase enlouqueci. Terapias, remédios, emagrecimento e distúrbio hormonal fizeram parte da minha vida. No último término, decidi ficar bem, deixar a vida me levar, mas não está sendo fácil. Engordei dez quilos, me sinto cada dia mais infeliz. No próximo mês, faz um ano que estou solteira. Conheci pessoas que me fizeram balançar e se uma delas quisesse me levar a sério eu não estaria tão mal. Mas o amor esta banalizado, o carinho e o respeito com o próximo não existem mais. Abraços! Jane”

Querida Jane,
 
Você é fiel ao relacionamento mesmo separada.
 
Não se permite trair o seu marido. Incorporou a personalidade dele a ponto de não saber mais qual é a própria.
 
É como viuvez de alguém que está vivo por aí. Não arranja ninguém porque não tolera a ideia de que o outro possa ser melhor e ocupar a majestade da ausência. Não aceita ter sofrido em vão por um sujeito que não merecia, então perdura o sofrimento para glorificar a perda (uma dívida feita somente de juros).
 
Quando um homem se aproxima, já arruma uma série de desculpas para evitar intimidade.
 
Ou porque é indiferente ou porque é grosseiro ou porque é apressado ou porque não tem bom hálito ou porque palita os dentes.
 
Nossa, é exigência em demasia. Não há como ser aprovado no concurso público de seu coração.
 
Permanece sabotando interessados sem perceber. É um boicote involuntário. Sempre encontra algum defeito no próximo pretendente, sempre acha alguma falha imperdoável que impede a relação, sempre cria restrições para não se apaixonar.
 
Não sai para valer, cria júris. É capaz de perdoar todos os problemas de personalidade do ex, mas jamais admitir qualquer escorregão de quem se aproxima.
 
A questão é que não pretende superar o luto. Transforma a ruptura na pior fase de sua vida (nem terapia, remédio, lugares diferentes, nada aplacou a vontade de reatar). Há um exagero emocional em seu depoimento: “quase enlouqueci, engordei dez quilos, quero sumir”.
 
É como se quisesse provar que tentou tudo e fracassou, que o amor antigo é mais forte do que sua força de vontade.

Mentira! Sequer batalhou um pouco, não começou a se arriscar, não abandonou o altar fúnebre, não largou a data do término. Vem contando os dias do divórcio tal viciado enumerando a abstinência. Desde o princípio, não enxerga a solteirice de forma positiva.

Censura sua felicidade. Prefere sofrer o conhecido a experimentar uma alegria inesperada.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 04/11/2012 Edição N° 17243
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

ESCOLHER UM DOS LADOS

Arte de Paul Delvaux

Quando somos amigos de um casal, temos que escolher um dos lados para apoiar na separação.
 
É triste, mas é o que deve acontecer. É inevitável.
 
Não dá para continuar amigo dos dois. Precisamos assumir nossa amizade mais antiga. Não tem solução. Não tem conserto.
 
Não há como agradar os dois depois de uma briga.
 
Não há como confortar os dois depois de uma briga.
 
Não há como atender dois reis ao mesmo tempo e concordar com as duas versões.
 
Amigo não é juiz. Amigo não é mediador de conflitos. Amigo não é terapeuta. Amigo não é santo.  Amigo que é amigo não senta em cima do muro.
 
Pode até gostar muito dos dois, mas terá que optar. Terá que definir o voto.
 
Senão termina levando e trazendo mensagens, senão vira motoboy de indiretas, senão perde a credibilidade dos conselhos, senão será vítima daquele concurso infantil de quem você gosta mais.
 
Aquele que brincar de voluntário da ONU só vai desagradar as duas partes.
 
É uma época de crise, de rancor, de roupa suja. 
 
Os separados estão magoados, suscetíveis, desesperados. Dependem muito de um colo. De falar e falar mal, de chorar e chorar sem limite. Sobrará para qualquer um que se manter indeciso.
 
É uma das maiores dores do divórcio. Conviver com alguém muito tempo e ser obrigado a renunciar sua companhia de uma hora para outra.
 
Mas amor não é política, não aceita coligações, não faz acordos, não muda de partido.

Ouça meu comentário na manhã de sexta (2/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

PSICOPATAS AMOROSOS


Como definir se o namorado ou namorada é psicopata? Quando que o ciúme deixa de ser charmoso? Qual é o momento em que o controle passa do suportável e assume contornos dramáticos de perseguição?
 
Personagens emblemáticos em campus narram suas histórias de ciúme e posse em meu quadro DRnaTV, no programa Tudo+, da TVCOM.
 
A reportagem foi exibida na noite de terça-feira (30/10). A mediação é de Sara Bodowsky.
 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

POLENTA BORBULHANTE

Arte de Eduardo Nasi
 
Meus cachorros da infância somente comiam polenta.
 
Não havia o hábito da alimentação especial, dos biscoitos coloridos e nutritivos, do acervo gastronômico das pet shops.
 
Gastar com cão só se ele estava à beira da morte ou coberto de sarna.

Cão não entrava no orçamento, na lista do rancho. Dormia no pátio, solto, e tomava banho mensalmente, à força, no tanque da lavanderia. Assim que escapava das garras da toalha, ele se esfregava novamente na terra e se reintegrava ao seu mundo de lobo.
 
Cão era cão. No inverno, recebia restos de cobertores e panos para se defender do frio. No verão, aproveitava o pelego secando ao sol.
 
Cão era cão, ele se virava, controlava o movimento no portão, tinha que latir e proteger a residência (hoje ele é o protegido da casa, o dono late em seu lugar).
 
Nos anos 80, minha mãe preparava a gororoba amarela durante a tarde de quarta-feira. Um panelaço de albergue, de rifa escolar. Sua colher de pau não descansava um minuto. Naquela hora, não atendia ninguém, desprezava telefone, campainha, Jesus, pedido de divórcio. A polenta não podia parar, senão endurecia.
 
O sofá cheirava a polenta. Os lençóis estendidos no varal cheiravam a polenta. Os vizinhos cheiravam a polenta.
 
Minha infância foi uma espécie de puxadinho de cantina.
 
Infelizes eram os dois cockers confinados a um mesmo cardápio, confinados a se embuchar eternamente do prato italiano.
 
A mãe amava a ansiedade — o ansioso finge que é prevenido. Se possível, antecipava o ano, a década, a vida inteira. Buscava se livrar daquela tarefa, resolver o mês canino de uma vez. Congelava a polenta e ia dando um pouco por dia. A polenta caía inteira, quadrada do pote congelado. Os cachorros não festejavam o almoço e a janta, sequer mexiam o rabo. Aproximavam-se da refeição com resignação. Deveriam estar enfarados do odor, do sabor e da falta de originalidade.
 
Meus cães sonhavam com a Turquia.
 
Com muito empenho, eu e os irmãos convencemos a mãe a acabar com a tortura que lotava o congelador, maltratava o estômago dos animais e enjoava a tripulação familiar. Reunimos nossas economias, quebramos os porquinhos e rateamos um saco gigante de ração.
 
Comemoramos a mudança da mentalidade com fotografia festiva: os bichanos no colo, os pratinhos de ração decorados na mesa e os nossos risos de polenta frita.
 
O pai surgiu depois do alvoroço elogiando a comidinha.
 
— Alguém está de aniversário? — gritou para a gente conversando na cozinha.
 
Viríamos descobrir que ele devorou toda a primeira ração como se fosse um novo tipo de salgadinho.
 






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 30 de outubro de 2012

UMA VIAGEM PELAS RUAS DE MINHA TATUAGEM

Seguindo o mapa de Porto Alegre das minhas costas feito pelo Edu Tattoo, fiz um passeio pelas ruas do Centro, acompanhado do amigo Manoel Soares.

Dicas de livros, visita a sebos, reflexões sobre a literatura.

O Jornal do Almoço, da RBSTV, foi exibido na manhã de terça-feira (30/10).

QUANTO MAIS..............PIOR

Arte de Andy Warhol 

Meu amigo Daniel superou 40 dias de luto da separação, aguentou no osso o divórcio, chorou horrores e debulhou suas lágrimas em copos de bourbon, parou de atender ao telefone e se trancou no quarto.

No 41º dia, ele ressuscitou. E voltou a sair e se divertir. Já estava esquecendo o quanto amava sua ex. Já estava esquecendo que foi amado pela ex.

Um homem somente apaga um amor no momento em que encontra outro. Daniel se enamorou por uma bancária. Badalou vários finais de semana com Heloísa, ria com a franqueza de um adolescente.

Apaixonado? Sim, mas seria o último a saber. Todo apaixonado é o último a saber que está apaixonado. O mundo inteiro sabe, menos o próprio apaixonado. Não adiantava contar a Daniel que ele estava apaixonado, ele jamais me escutaria. O apaixonado é surdo também.

Para comemorar a nova fase de sua vida, Daniel convidou Heloísa para almoço em restaurante francês nos fundos de um casarão.

Ele pediu cordeiro com purê de beterraba; ela, filé mignon com acompanhamentos silvestres.

Ele pediu um vinho chileno; ela avisou que não poderia beber (pois ainda iria trabalhar), e se contentou com uma Coca-Cola.

– Coca-Cola light?

– Não, senhora, só temos Zero – avisou o garçom.

– Ok, não vou me desesperar por um detalhe – replicou.

O casal soltou os braços sobre a toalha para diminuir a distância das cadeiras, ambos se olhavam firme e forte numa hipnose infindável, hipnose à moda antiga, de relógio de bolso balançando.

A mesa estava sobrando entre os dois. Ele se debruçava no prato para arrancar um beijo, ela se levantava para acariciar sua testa. Nada poderia estragar aquele bem-estar. Quase nada.

Mas quando a Coca pousou na mesa, Heloísa gelou, derrubou o arranjo de flores e fugiu para o banheiro soluçando a seco.

Ele olhou a Coca com calma: Será que tinha uma barata?

Não achou coisa alguma, até que leu um nome. A marca decidiu homenagear seus consumidores nas latinhas.

Era o nome de sua abominável ex: Carolina.

“Quanto mais CAROLINA melhor”

Heloísa não aguentou a provocação, ardia de ciúme do passado dele.

Quando um refrigerante faz uma campanha dessas, não cogita de que existem desafetos no mundo, ódio familiar, revolta interior, tristeza reprimida, viuvez, gente que levou o fora ou foi corneado ou enganado. Imagina apenas que todos se gostam e que todos vão adorar ver seu nome ou de sua namorada na embalagem.

Daniel amaldiçoou o azar, criou teorias da conspiração, não duvidou da perseguição da megera, cogitou a hipótese de ela subornar o garçom para trazer aquele refrigerante.

– Como, entre milhares de opções, surge em minha mesa logo o nome daquela vagabunda?

Não poderia responder. Heloísa recusou carona e seguiu sozinha para o emprego. Não havia mais felicidade para ser dividida.

Do copo dela, só ficou o limão.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 30/10/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17238

CHINELÃO PÉ 41

 
Tenho cadeira cativa na chinelagem. Às vezes banco o morto de fome e não controlo minha ansiedade. É uma síndrome de pobreza, que ataca quem sofreu privações na infância.
 
Sou o legítimo injeção na testa, participando de um grupo que não resiste a uma promoção, a um brinde e a uma oferta imperdível.
 
Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (30/10) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

MÁQUINA RECEBE ISABELLE TUCHBAND


Uma das mais requisitadas artistas plásticas da atualidade, Isabelle Tuchband dança quando pinta.

Suas pinceladas têm a força de castanholas.

A música é o ânimo de suas cores.

Em entrevista ao meu programa A Máquina, da TV Gazeta, ela confidencia que a tela branca é seu marido ideal.

A exibição aconteceu na noite de terça-feira (23/10).

domingo, 28 de outubro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

A GUILHOTINA É O IOIÔ DA TRAGÉDIA

Arte de Jean Arp

“Boa tarde! Há 4 meses me envolvi sexualmente com um homem comprometido, desde então tem sido um relacionamento ioiô, sempre peço um tempo pra ele quando vejo que meus sentimentos estão me dominando. Não me abro com ninguém a respeito disso. Agravantes: é meu chefe, 30 anos mais velho, meu primeiro envolvimento sexual foi com ele, trabalho com sua namorada. Grande abraço. Yasmin”

Querida Yasmin,

Quem dera fosse uma relação ioiô, seria um elogio, é um caso guilhotina, feita para sua cabeça rolar. Juntou todas as adversidades numa só pessoa, todas as proibições num único tirano.

Mistura a cena profissional com a amorosa, cria situações de chantagem (da parte dele, de sua parte), não se abre porque não tem ninguém como expor os personagens da novela, ainda convive com a namorada dele e vê o romance dos dois se desenrolar na sua frente.

Sua trama produz ciúme, inveja, prepotência e humilhação, o lado pantanoso do amor. Não há sentimentos nobres, destinados à escolha e à independência.

Como vai crescer numa relação dessas?

O inferno nem mais a cumprimenta: procurou alguém que pudesse ser seu pai (trinta anos mais velho), seu chefe, seu professor, anulando por completo seu discernimento crítico. É uma filha, uma escrava, uma aluna da tortura.

São tantos complexos que somente comprando um divã parcelado em suaves prestações.

Sofre um excesso de dependência que leva à paralisia. Você pede um tempo para não pressionar de propósito. Estabelece um falso limite, pois prevê o mais drástico dos desfechos.

O que deve ocorrer é perder o emprego, acabar sozinha e reduzir a pó seu grupo de amigos, já que seus colegas suspeitam de suas vantagens e benefícios pela proximidade com o patrão. Ainda que não fale nada do que vem ocorrendo, é o centro da mais famosa fofoca no expediente. Ao ganhar uma promoção, mesmo que mereça, será alvo de piadas e do descrédito. Nunca saberá se a namorada do amante descobriu o triângulo amoroso e puxa conversa por hipocrisia ou amizade.

O carimbo de sua carteira profissional é uma lágrima azul. Sua alegria é ser infeliz. Seu projeto de vida é acumular culpa. Nem percebeu que não deseja o melhor para sua vida, mas o pior.

Optou por ser leal a um ditador, apagar sua personalidade, frustrar planos de ascensão na carreira e no plano emocional.

Quem você deseja superar com tamanha tristeza? Sua mãe?

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 28/10/2012 Edição N° 17236
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.