quinta-feira, 8 de novembro de 2012
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
RELINCHOS E LATIDOS
A PRIMEIRA NOITE DE QUEM AMA
Arte de Eduardo Nasi
Na primeira noite, o casal que se vê amando não dormirá de conchinha. A nudez não entregará o sono. Os pés não se cumprimentarão ao final. As janelas não avisarão das horas. Os cabelos não irão boiar nos travesseiros até o amanhecer.
A primeira noite de amor, quando os dois percebem que podem realmente se querer, termina de repente.
Alguém terá que ir embora. Terá que cortar as frases inteiriças. Terá que oferecer uma desculpa furada. Terá que alegar que é tarde e que precisa trabalhar cedo. Terá que chamar o táxi de pé com uma objetividade perturbadora.
Quem se despede será grosseiro. Não esconderá o desconforto. A resposta física é que tudo deu errado, que o prazer não vingou na pele.
O que ficará sozinho na cama acreditará que o outro que se prontificou a se despedir no meio da madrugada se arrependeu do enlace e jamais manterá contato.
Mas o apaixonado e o indiferente são parecidos na primeira noite. O apaixonado se manda porque não suportou tanta beleza, encontrou-se atordoado, dependente, comovido, incerto, vacilante, receoso do seu futuro.
Não se preparou para viajar tão longe em seu desejo, estava vestido para atravessar apenas o tempo de uma noite. Não arrumou as malas de sua memória, partiu desprotegido com a roupa do trabalho.
Quando nos descobrimos amando, a primeira noite é terrível. Se você estava bêbado, logo recupera a lucidez — o amor é a mais cruel sobriedade.
Há uma instabilidade de escuta, uma confusão de conversa, um caos sinfônico. É como recuar um passo após um salto. Perde-se por completo o domínio do próprio gosto, vem a culpa de necessitar ainda mais do desconhecido e a curiosidade de adivinhar o que o sexo esconde em sua violência.
O homem de sua vida ou a mulher de sua vida não vai se apaziguar ao seu corpo e acordar junto na primeira noite. Isso é para os seguros de si, os confortáveis em seus sentimentos, os canalhas, os cafajestes, os sedutores.
Já aquele que pressente um amor de verdade, uma fé de verdade dentro do amor de verdade, abusará das mentiras para escapar do destino. Fugirá derrubando os olhos pelo corredor. Formará um amontoado de frases sem sentido, criará um depoimento qualquer para não alimentar esperanças, jurará com a mão errada sobre a Bíblia.
A primeira noite é própria da transformação covarde, é lua cheia ao lobisomem, é manhã radiosa ao vampiro.
O ímpeto é sair do quarto rapidamente, largar a cena prontamente, abandonar o casaco, a carteira, o que for, mas correr desse inferno que é se apaixonar e esperar uma notícia a cada meia hora. Afastar-se loucamente do cheiro poderoso do pescoço e da boca, da química prodigiosa que nos excita e nos corrompe de delicadeza.
Quem ama não ama na primeira noite. Assusta-se de amor.
A primeira noite de amor, quando os dois percebem que podem realmente se querer, termina de repente.
Alguém terá que ir embora. Terá que cortar as frases inteiriças. Terá que oferecer uma desculpa furada. Terá que alegar que é tarde e que precisa trabalhar cedo. Terá que chamar o táxi de pé com uma objetividade perturbadora.
Quem se despede será grosseiro. Não esconderá o desconforto. A resposta física é que tudo deu errado, que o prazer não vingou na pele.
O que ficará sozinho na cama acreditará que o outro que se prontificou a se despedir no meio da madrugada se arrependeu do enlace e jamais manterá contato.
Mas o apaixonado e o indiferente são parecidos na primeira noite. O apaixonado se manda porque não suportou tanta beleza, encontrou-se atordoado, dependente, comovido, incerto, vacilante, receoso do seu futuro.
Não se preparou para viajar tão longe em seu desejo, estava vestido para atravessar apenas o tempo de uma noite. Não arrumou as malas de sua memória, partiu desprotegido com a roupa do trabalho.
Quando nos descobrimos amando, a primeira noite é terrível. Se você estava bêbado, logo recupera a lucidez — o amor é a mais cruel sobriedade.
Há uma instabilidade de escuta, uma confusão de conversa, um caos sinfônico. É como recuar um passo após um salto. Perde-se por completo o domínio do próprio gosto, vem a culpa de necessitar ainda mais do desconhecido e a curiosidade de adivinhar o que o sexo esconde em sua violência.
O homem de sua vida ou a mulher de sua vida não vai se apaziguar ao seu corpo e acordar junto na primeira noite. Isso é para os seguros de si, os confortáveis em seus sentimentos, os canalhas, os cafajestes, os sedutores.
Já aquele que pressente um amor de verdade, uma fé de verdade dentro do amor de verdade, abusará das mentiras para escapar do destino. Fugirá derrubando os olhos pelo corredor. Formará um amontoado de frases sem sentido, criará um depoimento qualquer para não alimentar esperanças, jurará com a mão errada sobre a Bíblia.
A primeira noite é própria da transformação covarde, é lua cheia ao lobisomem, é manhã radiosa ao vampiro.
O ímpeto é sair do quarto rapidamente, largar a cena prontamente, abandonar o casaco, a carteira, o que for, mas correr desse inferno que é se apaixonar e esperar uma notícia a cada meia hora. Afastar-se loucamente do cheiro poderoso do pescoço e da boca, da química prodigiosa que nos excita e nos corrompe de delicadeza.
Quem ama não ama na primeira noite. Assusta-se de amor.
Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
terça-feira, 6 de novembro de 2012
O QUE SEPAROU A FAMÍLIA BRASILEIRA
Arte de Tom Wesselmann
Eu sei o que desuniu a família brasileira.
O momento em que ela abandonou o tradicional almoço em casa e procurou a rapidez do restaurante a quilo.
Quando ela se desinteressou por completo da residência. Quando trocou a diarista pela faxineira duas vezes por semana.
Quando começou a comprar comida congelada e economizar com os talheres. Quando abdicou do pãozinho da padaria do final da tarde.
Quando as saídas ao supermercado tornaram-se frequentes. Quando o intervalo do trabalho diminuiu consideravelmente.
Quando a vassoura sumiu de trás da porta. Quando o avental desapareceu do seu gancho.
Quando ter uma horta passou a ser irrelevante. Quando o pai não mais visitou sua oficina de marcenaria na garagem.
Quando a tabuleta de bem-vindo acabou dispensada. Quando o capacho se divorciou da porta.
Quando a mãe adiou o jardim. Quando a vista de fora superou o carinho da decoração.
Eu sei eu sei eu sei o instante exato da transformação. Foi na hora em que a gente parou de vestir o botijão de gás.
Aquele ato mudou a mentalidade da classe média.
Cuidar do botijão significava zelar pelos detalhes, pela aparência e ordem doméstica. Mostrava uma preocupação com o olhar das visitas. Um carinho com os coadjuvantes da rotina. Um capricho com as gavetas e despensas e forros e fundos e cantos e quinas.
Não se podia deixar o gás daquele jeito sujo e engraxado no coração de azulejos da cozinha. Correspondia a um ultraje, a falta de educação, a ausência de asseio.
Ele precisava estar agasalhado. Todos os objetos do mundo mereciam uma capa: os cadernos de aula, o filtro de barro, o liquidificador, os ternos no armário, os carros na garagem.
Os objetos tinham que durar: geladeira era para a vida inteira, o fogão era para a vida inteira, máquina de lavar era para a vida inteira. Não se pensava em trocar, não se guardava o certificado de garantia, absolutamente dispensável.
Minha mãe não largava os pedais da Singer nos finais da tarde, elaborava tampas coloridas para as compotas de doces ou revestimentos para penduricalhos.
É óbvio que costurava, mensalmente, uma saia de renda para o gás, aproveitando sobras dos tecidos da cortina.
Eu achava que o botijão fosse uma irmã.
Meu irmão caçula já considerava um menino e chamava sua roupa de poncho.
– Mas é floreado! – eu dizia. – Não existe poncho floreado.
Vestir o botijão revelava o quanto nos importávamos com o desnecessário.
O quanto tínhamos tempo livre para amar.
Tempo livre para amar a família.
Tempo livre.

Porto Alegre (RS), Edição N° 17245
ELEVADOR SOCIAL
Foto: Júnior Aragão
QUARTA, 7/11, 17h30 – Porto Alegre (RS)
58º Feira do Livro de POA
O humor na literatura
Com Juan Pablo Villalobos e Cíntia Moscovich
Local: Sala dos Jacarandás - Memorial do RS
QUARTA e QUINTA, 7 e 8/11, 19h às 21h – Porto Alegre (RS)
58º Feira do Livro de POA
Ó de casa – oficina de crônicas familiares
Local: Sala A2B2 - Casa de Cultura Mario Quintana
QUINTA, dia 8, 9h30 - Porto Alegre (RS)
Palestra
SAL - Semana de Arte e Literatura
Local: CAMAR (Colégio Adventista Marechal Rondon)
SEXTA, 9/11, 19h – Porto Alegre (RS)
58º Feira do Livro de POA
Sessão de Autógrafos de "Ai Meu Deus, Ai Meu Jesus"
Local: Pavilhão Central
SÁBADO, 10/11, 16h – Araxá (MG)
I Fliaraxá - Festival Literário de Araxá
Estação Literária: Cônica e Poesia na Literatura
Local: Fundação Cultural Calmon Barreto (Praça Arthur Bernardes, nº 10, Centro)
TERÇA, 13/11, 9h – Porto Alegre (RS)
Fronteiras do Pensamento - Geração Z
Local: Araújo Viana (Avenida Osvaldo Aranha, Bom Fim)
SÁBADO, 17/11, 20h – Pelotas (RS)
40º Feira do Livro de Pelotas
Debate com Paulo Scott e Xico Sá, mediação de Pablo Rodrigues
Local: Praça Coronel Pedro Osório – Tenda Cultural
QUINTA, 22/11, 19h30 - Garanhuns (PE)
IIª Mostra de Literatura Luzinette Laporte
Local: Salão de Eventos do SESC
SÁBADO, 24/11, 17h – Ouro Preto (MG)
7º Forum das Letras
Palestra
Local: GLTA (Grêmio Literário Tristão de Ataíde)
QUINTA, 29/11, 17h – Campos dos Goytacazes (RJ)
7ª Bienal de Campos dos Goytacazes
Botequim Literário
Local: Praça São Salvador
PÉROLAS DA RUA
Arte de Michelangelo
Sabe quando você quer falar algo, conhece a palavra pelo som e diz uma besteira? Quando você confunde expressões parecidas e emprega o sentido errado?
Reuni algumas gafes que ouvi na vida. Incríveis, mas reais. Não foram frases de crianças, e sim de adultos convictos, como "Ronaldo, O Fenômeno, está gordo porque tomou asteróides". Asteróides?
Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (6/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
MÁQUINA RECEBE ZECA BALEIRO
Zeca Baleiro, de unhas pintadas como eu, não foi nada fresco.
Meteu pau nos comentaristas de futebol, no QI da música brasileira e na falta de ousadia dos compositores.
O encontro aconteceu na noite de terça-feira (30/10).
domingo, 4 de novembro de 2012
QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar
VIUVEZ POR ALGUÉM VIVO
Arte por De Chirico
“Tive um relacionamento que começou em 2004 e terminou em 2011. Foram muitas idas e vindas, quase enlouqueci. Terapias, remédios, emagrecimento e distúrbio hormonal fizeram parte da minha vida. No último término, decidi ficar bem, deixar a vida me levar, mas não está sendo fácil. Engordei dez quilos, me sinto cada dia mais infeliz. No próximo mês, faz um ano que estou solteira. Conheci pessoas que me fizeram balançar e se uma delas quisesse me levar a sério eu não estaria tão mal. Mas o amor esta banalizado, o carinho e o respeito com o próximo não existem mais. Abraços! Jane”
Querida Jane,
Você é fiel ao relacionamento mesmo separada.
Não se permite trair o seu marido. Incorporou a personalidade dele a ponto de não saber mais qual é a própria.
É como viuvez de alguém que está vivo por aí. Não arranja ninguém porque não tolera a ideia de que o outro possa ser melhor e ocupar a majestade da ausência. Não aceita ter sofrido em vão por um sujeito que não merecia, então perdura o sofrimento para glorificar a perda (uma dívida feita somente de juros).
Quando um homem se aproxima, já arruma uma série de desculpas para evitar intimidade.
Ou porque é indiferente ou porque é grosseiro ou porque é apressado ou porque não tem bom hálito ou porque palita os dentes.
Nossa, é exigência em demasia. Não há como ser aprovado no concurso público de seu coração.
Permanece sabotando interessados sem perceber. É um boicote involuntário. Sempre encontra algum defeito no próximo pretendente, sempre acha alguma falha imperdoável que impede a relação, sempre cria restrições para não se apaixonar.
Não sai para valer, cria júris. É capaz de perdoar todos os problemas de personalidade do ex, mas jamais admitir qualquer escorregão de quem se aproxima.
A questão é que não pretende superar o luto. Transforma a ruptura na pior fase de sua vida (nem terapia, remédio, lugares diferentes, nada aplacou a vontade de reatar). Há um exagero emocional em seu depoimento: “quase enlouqueci, engordei dez quilos, quero sumir”.
É como se quisesse provar que tentou tudo e fracassou, que o amor antigo é mais forte do que sua força de vontade.
Mentira! Sequer batalhou um pouco, não começou a se arriscar, não abandonou o altar fúnebre, não largou a data do término. Vem contando os dias do divórcio tal viciado enumerando a abstinência. Desde o princípio, não enxerga a solteirice de forma positiva.
Censura sua felicidade. Prefere sofrer o conhecido a experimentar uma alegria inesperada.
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 04/11/2012 Edição N° 17243
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 04/11/2012 Edição N° 17243
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
ESCOLHER UM DOS LADOS
Arte de Paul Delvaux
Quando somos amigos de um casal, temos que escolher um dos lados para apoiar na separação.
É triste, mas é o que deve acontecer. É inevitável.
Não dá para continuar amigo dos dois. Precisamos assumir nossa amizade mais antiga. Não tem solução. Não tem conserto.
Não há como agradar os dois depois de uma briga.
Não há como confortar os dois depois de uma briga.
Não há como atender dois reis ao mesmo tempo e concordar com as duas versões.
Amigo não é juiz. Amigo não é mediador de conflitos. Amigo não é terapeuta. Amigo não é santo. Amigo que é amigo não senta em cima do muro.
Pode até gostar muito dos dois, mas terá que optar. Terá que definir o voto.
Senão termina levando e trazendo mensagens, senão vira motoboy de indiretas, senão perde a credibilidade dos conselhos, senão será vítima daquele concurso infantil de quem você gosta mais.
Aquele que brincar de voluntário da ONU só vai desagradar as duas partes.
É uma época de crise, de rancor, de roupa suja.
Os separados estão magoados, suscetíveis, desesperados. Dependem muito de um colo. De falar e falar mal, de chorar e chorar sem limite. Sobrará para qualquer um que se manter indeciso.
É uma das maiores dores do divórcio. Conviver com alguém muito tempo e ser obrigado a renunciar sua companhia de uma hora para outra.
Mas amor não é política, não aceita coligações, não faz acordos, não muda de partido.
Ouça meu comentário na manhã de sexta (2/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
PSICOPATAS AMOROSOS
Como definir se o namorado ou namorada é psicopata? Quando que o ciúme deixa de ser charmoso? Qual é o momento em que o controle passa do suportável e assume contornos dramáticos de perseguição?
Personagens emblemáticos em campus narram suas histórias de ciúme e posse em meu quadro DRnaTV, no programa Tudo+, da TVCOM.
A reportagem foi exibida na noite de terça-feira (30/10). A mediação é de Sara Bodowsky.
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