terça-feira, 11 de dezembro de 2012

NÃO FACILITE A VIDA DOS ETs

 
O que devemos evitar para não ser capturado por extraterrestres. Ainda mais no verão, quando o céu fica vulnerável a ataques luminosos de madrugada.

Você tem grandes chances de ser abduzido, sequestrado por alienígenas se:
 
— Estiver assistindo a um jogo da Terceira Divisão.
— Estiver lendo Marimbondos de Fogo, de José Sarney.
— Ainda usa Boa-Noite para espantar mosquitos.
— Toma banho pelado em piscina de plástico.
— Não faz sexo há seis meses.
— Tem um Corcel 4 portas com peças originais ou um Chevett de primeiro dono.
— Mora perto de uma lavoura de milho, todo OVNI aparece em plantação de milho (acho que os discos voadores são movidos a polenta).
— Pensa que Elvis não morreu e mora no Rio Grande do Sul.
— Dorme com a tevê ligada.
— Bebe Keep Cooler sabor pêssego.
— Almoça e janta em postos de gasolina.
— Tem três cartões de crédito e não consegue pagar nenhum.
— É casado há cinco anos (o abduzido cairá em tentação e transará com ET).
— Conta com péssimo senso de localização e pensa que os pontos cardeais são cargos do Vaticano.
— Acredita que Lula não sabia nada do Mensalão.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (11/12) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
 

domingo, 9 de dezembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

BABÁ DE HOMEM

Arte de Sir John Everett Millais

"Fabrício, namoro há quase um ano. Meu namorado comprou um apartamento e vai morar só. O aniversário dele está se aproximando, e pensei em presenteá-lo com algo que ele vá utilizar na nova vida, já que terá que comprar. Adoro decoração e acho tudo lindo. Logo, tenho vontade de presenteá-lo com muitas coisas. Uma das maneiras que meu amor se manifesta é querendo que ele tenha um lugar bonito pra viver. Maaaaaas, tenho medo que ele pense que eu tô querendo morar com ele. Sou doida? Beijos Cissa"

Querida Cissa,

Sou favorável a falar direto o que se pensa, a fazer o que se sente. Sem firulas. Sem cerimônia.

Não sofrer por teorias e achismos. Seja sincera: apresente sua dúvida. Se desagradar, pelo menos teve boa intenção.

Tentar antecipar o que o outro quer é não deixá-lo mais querer. Ele fica condicionado a ouvir sua resposta para dar a resposta. Passa a desejar agradá-la mais do que se expressar.

É um cacoete feminino: ser porta-voz das vontades do casal.

Não vale a pena exercer o tom adivinhatório. É um desgaste. Uma ansiedade insaciável. Ele aponta o dedo e você já corre para decifrar sua intenção.

A perfeição cansa. Repare que nem pergunta o que ele gostaria, já busca adivinhar para mostrar intimidade e ganhar estrelinhas no caderno de ditados.

É nossa mania de fazer surpresa, de agradar, de ser inesquecível.

Mas, sem perguntar, nunca descobrirá o que ele realmente gosta para sempre impor o "que você acha que ele gosta".

Vem ocupando o papel de babá de seu homem. Levando aviãozinho de palavras para boca, mimando exageradamente os caprichos, trocando as fraldas dos pensamentos dele.

Evitar sofrimentos sempre traz constrangimentos.

Deixe ele responder, deixe ele errar, deixe ele confessar o que sonha de aniversário.

Chamo essa predisposição de falar pelo relacionamento de "treino fechado".

Times de futebol realizam escalações secretas esperando surpreender o adversário. Não abrem o coletivo para a imprensa e torcida.

Namorados também exageram nas maquinações sigilosas, escondem o jogo e depois lamentam que não correspondem às expectativas.

Sobre sua questão, serei o mais franco possível: você anseia presenteá-lo com algo para a casa nova porque deseja mesmo morar com ele.

Sua intenção é provar o próprio talento e tato para a decoração. Diz, nas entrelinhas:

— Comigo, seu apartamento estaria em ótimas mãos.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 09/12/2012 Edição N° 17278
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O QUE A MULHER DEVE FAZER PARA O HOMEM NÃO LIGAR NO DIA SEGUINTE

Arte de Canaletto

 
— Dizer que gostaria de ter um filho daquela noite.
 
— Falar que deseja casar até o final do ano.
 
— Avisar que detesta cinema porque a legenda passa muito rápido.
 
— Arrotar após um copo de Coca-Cola.
 
— Usar a escova de dentes dele.
 
— Deixar um recado de batom no espelho chamando o rapaz de fofo.
 
— Esquecer de propósito a calcinha nos lençóis.
 
— Descrever os problemas que teve com os ex-namorados.
 
— Tomar remédios tarja preta na frente dele. Ou beber mais do que ele.
 
— 15 minutos depois da despedida mandar um e-mail de 45 linhas para explicar o quanto ele é o amor de sua vida.
 
— Meia hora depois aparecer em seu Facebook com comentários de que o encontro foi lindo, foi quente, foi colorido, foi inesquecível.
 
— Criar um álbum de imagens do casal na página pessoal. Mudar o status de relacionamento.
 
— Mandar seus testes prediletos da revista Nova e pedir para que ele responda até o fim do dia.
 
— Monitorar os passos no twitter. Assim que ele colocar algo na rede, enviar um torpedo: “Acordou, meu bem?”
 
— Fazer uma montagem fotográfica de como vocês seriam bonitos juntos na velhice para circular entre todos os conhecidos.
 
— Ligar para o trabalho dele e conversar fiado com os colegas.
 
— Enviar um link astrológico provando que nasceram um para o outro.
 
Se você não quer que o sujeito lhe procure no dia seguinte, não permita que ele respire. Pior que o desinteresse é ser pegajoso. Pode ter certeza: ele vai desaparecer.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (7/12) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

CABEÇA DE CRISTAL

Visagismo é a leitura da personalidade pelo corte do cabelo.

Sua cabeça vale uma sentença para o cabeleireiro César Augusto, que me acompanhou em consultoria ao vivo pelas ruas de Porto Alegre.

Entenda se você passa a imagem que gostaria aos outros em meu programa DRnaTV, da TVCOM, exibido na noite de terça-feira (27/11), com mediação de Sara Bodowsky e produção de Fernando Muniz.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DESATINO ESSENCIAL DA PAIXÃO

Arte de Eduardo Nasi
 
A paixão é um porre.
 
Ninguém mantém suas atitudes, conserva suas latitudes.
 
A paixão é uma pane.
 
Só vai conquistá-la a partir de constrangimento público, chamando seu par para dividir um vexame.

Terá que convidá-la a dançar na rua sem som nenhum, ou gritar seu nome desesperadamente na parada do metrô, ou beijá-la no meio de um bar como se não houvesse gente alguma querendo passar pelos corredores.
 
É necessário escandalizar os passantes, é necessário um público incrédulo e invejoso que não entenda o que vocês estão fazendo.
 
Ambos andarão na contramão da hora e do espaço, isolados na própria alucinação, resguardados pela onipotência do desejo.
 
O desatino é o pedágio da conquista.
 
Você vai se ajoelhar numa faixa de segurança, pedir esmola para bancar o engraçado, criar diálogo de marionetes com cachorros-quentes.
 
É estranho concluir que nos habilitamos para o relacionamento sendo inconsequentes. O conservadorismo não tem chance. A caretice não merece sala.
 
No amor, podemos pedir a mão ao destino. Na paixão, pedimos a mão dela para mergulhar no abismo.
 
Será um rompante que sustentará o futuro, determinará o súbito endividamento do passado.
 
Você pode encarnar um tipo educado, culto, estável, sensível, nada disso contará a seu favor.
 
O que arrebata a mulher é o quanto pode enlouquecer por ela.
 
É um desvio de seus bons modos, uma coragem inusitada, um apelo à espontaneidade que definirá o namoro.
 
Você pode ser o mais retrógrado dos mortais, mas apaixonado sairá da linha e cometerá uma imprudência. Mesmo que seja a única de sua vida.
 
Todos os casais guardam o dia em que se decidiram um pelo outro. E é sempre uma sandice que será lembrada com orgulho, marcará o motivo de estarem juntos até hoje.
 
Representará a demonstração de seu desprendimento, um duelo onde a palavra venceu a aparência e a irreverência superou o julgamento moral.
 
Paixão é quando dissemos: dane-se o mundo, e sigamos com o nosso instinto. É uma breve e inesquecível alforria dos olhos.
 
Você nadará nu numa piscina, descerá as trilhas de uma floresta no escuro, cantará músicas francesas no muro do viaduto.
 
É o momento em que os dois provam que estão preparados para a maior loucura que um casal é capaz de experimentar dali para frente: dividir normalidades.
 
 

 




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

DESCOBERTA INTERIOR

Imagem de Emílio Pedroso

O escritor Fabrício Carpinejar autografa hoje o resultado de uma “viagem de descobrimento” personalíssima. Ao longo de 2011, ele percorreu 14.590 quilômetros pelo interior do Rio Grande do Sul perscrutando 52 cidades gaúchas com um olhar entre o poético e o maroto. A série, publicada semanalmente em Zero Hora com o nome de Beleza Interior, agora ganha edição em livro de mesmo nome (Arquipélago Editorial, 240 páginas, R$ 34,90) com autógrafos marcados para hoje, às 19h30min, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Túlio de Rose, 80). O autor falou sobre os bastidores da série:



ZH – Que história da série foi a mais marcante?
Carpinejar – Felicidade, a última protagonista das reportagens, moradora de Livramento. Nunca imaginei que terminaria todo o longo roteiro com uma lavadeira que é pura alegria, de 106 anos, despachada, independente, morando sozinha. Ela é um tapa na cara da preguiça. Um exemplo de como superar as adversidades e não se acomodar na vitimização da velhice.
 
ZH – Em que cidade você viveu a situação mais estranha ou engraçada?
Carpinejar – Fui expulso de um salão de beleza em Alegrete, por tentar fazer as unhas. O Nauro Júnior (fotógrafo de Zero Hora) pode testemunhar a meu favor. A dona do espaço disse que não faria unha de homem, isso não cheirava bem. Eu respondi que iria cheirar igual a acetona.
 
ZH – Há alguma cidade que você gostaria de ter ido mas não foi?
Carpinejar – Haveria cancha para mais quatro séries, no mínimo. Escrevi sobre 52, mas fizemos vídeos de mais de 70 cidades. Uruguaiana é uma delas. Victor Graeff, outra. O mapa do estado está dobrado em minha mesa como se fosse minha camisa predileta.
 
Mais da entrevista aqui: http://migre.me/ce8GC

Publicado no jornal Zero Hora
Segundo Caderno, p. 5
Porto Alegre (RS), 5/12/12, N° 17274

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

SAUDADE DA SOBREMESA NA GELADEIRA

Arte de Wayne Thiebaud
 
Onde está a sobremesa na geladeira?

Quem comeu?

Na minha infância, sempre havia uma sobremesa me esperando. Acho que eu só almoçava pela sobremesa. Acho que só estudava pela sobremesa. Só passei de ano pela sobremesa.

Era sagrado. Era profano.

Ou um sagu. Ou um arroz de leite. Ou uma ambrosia. Ou o maravilhoso pai de todos, o pudim de leite.

Quando eu via a fôrma no quarador, eu já festejava o doce sucedendo à refeição. Salivava segredos e repetia sessões da tarde.

Soprávamos o doce para esfriar rápido, como quem abana as unhas depois de esmalte.

Com o pudim, o cheiro do gelo vinha a ser outro. O cheiro da cozinha vinha a ser outro. O cheiro de nossa alegria vinha a ser outro.

O perfume adocicado chamava o nosso olfato a pecar.

Abríamos a geladeira como quem recebia a namorada.

Lutávamos para comer um pedacinho a mais do que os irmãos. A mão direita tinha o molde de uma espátula para ser rápida e não atrair concorrência.

Gemíamos rindo, a língua se maravilhava, os dentes se deliciavam, a fatia derretia no céu da boca.

Pais pareciam eternos. Tios pareciam afortunados. Eu seria astronauta quando crescesse e nada frustraria meus planos. Não havia desemprego e medo da morte.

Cada um aprendia a receita de um doce para se casar. E de um doce para se separar. Quem acertava a mão recebia comendas e elogios por semanas a fio.

A sobremesa acontecia nos dias úteis, de segunda a sexta, em horário comercial, certa como um suspiro na escadaria da igreja. Não dependia de datas comemorativas e de aniversários como agora.

Nem lembro de ter sido gordo devido à minha amizade com o açúcar e as festas das claras.

O mundo melhorou de saúde ou ficou neurótico?

Não vejo mais o hábito de reservar o sábado e domingo para preparar guloseimas.

As dietas mataram nossas sobremesas e o cafezinho de bandeja. Os regimes ditatoriais aniquilaram nossa alegria diária. As barras de cereais venceram o nosso contentamento lírico.

Privilegiamos a pressa do garfo e faca, renunciamos ao uso lúdico das colherinhas.

As mulheres de hoje não toleram calorias a mais, rejeitam tentações, repudiam o leite condensado.

Se elas não podem comer, nós devemos acompanhar. É um crime não ser solidário no emagrecimento. É um desrespeito e uma provocação.

A sobremesa morreu no interior de nossa cozinha. Surgiram invenções maravilhosas como a máquina de lavar louça, o micro-ondas, o multiprocessador, mas a sobremesa desapareceu, não pôde testemunhar os milagres da civilização.

Diminuiu nossa vontade de permanecer em casa, reduziu a gana de viver em família e de acordar de madrugada.

Onde está a sobremesa?

Quem não comeu?




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 04/12/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17273

ALIENAÇÃO AMOROSA

Arte de Oskar Kokoschka

O que mais me dói na categoria masculina são homens que abandonam os filhos em função de nova esposa ou namorada.
 
Homens que deixam de ver, visitar e conviver com filhos de outro casamento só para não desagradar a atual mulher.
 
Que não acham tempo para ficar com seus filhos, mas tem todo tempo do mundo para sair e badalar.
 
Homens que apagam sua memória quando trocam de relacionamento. Esquecem suas crianças. Viram tios distantes.
 
Homens que se calam diante de um mal-estar familiar, que não defendem seus pequenos dos constrangimentos na própria casa.
 
Homens irresponsáveis, levianos, que não falam nada para não estragar o romance, que não enfrentam a nova companheira, que não aprenderam nada com o divórcio.
 
Homens fracos, que não conseguem explicar que filho nada tem a ver com ciúme da ex-mulher.
 
Homens tolos que esquecem que filho é para sempre.
 
Homens abobados, frouxos, que concordam em se distanciar de suas crias.
 
Imperdoáveis sujeitos que negam o cuidado filial pela cegueira da paixão.
 
Pais que largam seus filhos enquanto eles esperam por uma visita durante meses, enquanto eles esperam um telefonema durante dias.
 
Filhos são eternos. Não podem ser adiados, trocados, substituídos.
 
Se minha namorada não gostar de meus filhos, não respeitar minha paternidade, não tem conversa, é o mínimo: adeus namorada.
 
Nem penso duas vezes. Não é opcional.
 
Amor que nos leva à alienação parental não é amor.
 
Amor que é amor nos orgulha do que somos e do que seremos com os filhos. 

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (4/12) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A MÁQUINA RECEBE ODILON WAGNER


São os menores papéis que fornecem a maior possibilidade de crescer numa novela.

Assista minha entrevista com o ator Odilon Wagner, o mordomo de "Salve Jorge".

Ele descreve as viagens de caminhão com o pai e sua juventude destemida, onde contracenava com Paulo Autran e Bibi Ferreira sem medo da gafe.

O programa A Máquina, da TV Gazeta, foi exibido na terça-feira (27/11).

domingo, 2 de dezembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

"CONHECI A AMANTE DE MEU NAMORADO"
Arte de Sir John Everett Millais
 
“Olá Fabrício! Acabei meu namoro ontem. Vivi quase dois anos com uma pessoa que hoje não tenho mais certeza de quem era de fato. Descobri uma traição. Mantive contato com a outra garota, que confirmou tudo. Descreveu detalhes que me fizeram ter certeza de que meu namorado (que mora comigo) aproveitava as tardes vagas para vê-la. Viajava 100 km unicamente para encontrá-la. Ele nega. Quero acreditar nele, só que as evidências são esfregadas na minha cara. Desde ontem tento me convencer de que faço muito drama por coisa pequena, mas aí me lembro que essa não foi a primeira vez. Então talvez seja menos drama, e mais verdade. Beijo Manoela”

Querida Manoela,
 
Você cometeu o erro clássico: encontrar-se com a amante dele. Não há maior humilhação. Deveria ter evitado. Deseja se reconciliar, mas vai fracassar. Não há como voltar a acreditar em seu namorado.
 
É comum o fim do relacionamento depois de conversa séria com a outra mulher.
 
Recebeu detalhes que vão fixar a cena da infidelidade a todo instante. Conheceu o rosto dela, o tipo físico, os hábitos, começará a fazer comparações, a reconstituir as desculpas furadas, a desconfiar daquilo que viveu de bom. Verá a triste e inconsolável queda do império amoroso. Não sabe quem ele foi, e pior: não sabe quem vocês foram juntos.
 
Toda a mentira contamina as demais verdades.
 
A dor, acrescida da paranoia, torna-se imbatível. Descobrir a traição é difícil, mas com versão esmiuçada das escapadelas atinge o nível extremo de tortura. Com o roteiro nas mãos, os olhos reprisam automaticamente o filme. Não tem como parar o projetor.
 
Enquanto não identificava cenários e personagens, restava a tênue possibilidade de seguir em frente e tentar de novo. Agora é impossível se enganar, dispõe de atas do romance, atolada em mágoas reais e curiosidades sórdidas. Como justificar 100 km do namorado por sexo? É mesmo para se sentir ultrajada.
 
Só que não caia na lorota da amante. Ela não é mais uma vítima da canalhice dele, disputando o papel de enganada com você. Não mergulhe no corporativismo do sofrimento. Ela possuía a exata consciência de suas ações e dos danos do envolvimento duplo. Aproximou-se com o claro objetivo de ferrar sua relação. Como talvez seu namorado deu um fim para a história paralela, cumpriu a chantagem de contar tudo. Criou aquele apocalipse: se não ficarei com ele, ninguém ficará.
 
Não seja ingênua. Ela veio jogar duro. Não realiza caridade ou procura alertá-la dos perigos da desonra.
 
Como último ato, explique para seu ex-namorado a diferença entre honestidade e desespero. Ele pode confundir os dois.
 
Honestidade é avisar na hora em que as coisas acontecem, já o desespero é avisar tarde demais quando não tem como esconder.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 01/12/2012 Edição N° 17271
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.