terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O QUE VOCÊ NÃO DEVE DIZER PARA SEU NAMORADO

Arte de Moholy-Nagy
— Deixa isso, é muito pesado, você não aguenta carregar.
— Você é parecido com meu pai. Ou pior: você é parecido com minha mãe.
— A menstruação está atrasada. 
— Nossa, que pança, hein? (Homem tampouco gosta de ser chamado de gordo)
— Você não faz nada mesmo! (Homem odeia ser chamado de vadio)
— Não tem roupa melhor? (É avacalhar o estilo de vida do sujeito)
— Já gozou? (Será que ela não percebeu? Então, não é uma pergunta, é uma censura)
O QUE TAMBÉM IRRITA DEMAIS...

— Quando ela diz que pegaria fácil um ator de novela.
— Quando ela avisa que, na primeira vez que lhe viu, pensava que era gay.
— Quando ela tira uma camisinha da gaveta, e a camisinha é Extra Grande. Só resta arrumar a bainha.
— Quando ela confessa que já teve relacionamento com mais de um homem ao mesmo tempo. 
— Quando ela chama o zelador para trocar a lâmpada de sua casa.
— Quando ela não larga anel ou colar dado pelo ex.
— Quando ela tenta desmoralizar seu melhor amigo.
— Quando ela confessa que deseja vários filhos com você.
— Quando ela é vulgar e fala que largou um barro no banheiro e não é para entrar.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (8/1) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:


domingo, 6 de janeiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar


MEU NAMORADO VÊ BASTANTE PORNOGRAFIA. DEVO TERMINAR?


Arte de Paul Delvaux
 
“Namoro há mais de dois anos e ultimamente ele anda vendo bastante pornografia no computador. Isso me incomoda e já conversei, mas parece que ele não se importa. Fico pensando que ele não gosta mais de mim. O que devo fazer: deixar assim e pensar que todo homem faz isso ou terminar? Muito obrigada pela atenção. Beijo, Joelma”
 
Querida Joelma,
 
Não vejo nenhum problema no namorado olhar pornografia. Todo homem olha. Eu olho, e o hábito não me torna menos poeta.
 
A pornografia representa a escola masculina da sedução: a porta de acesso na adolescência para capturar a dinâmica do sexo, a ópera da malandragem e evitar fiascos por desinformação.
 
É natural na vida do homem como editorial de moda em revistas femininas. Faz parte da nossa solidão e da nossa curiosidade.
 
Você vem tratando o assunto como um crime, um atentado violento ao pudor. Não há sentido para tamanha seriedade e culpa.
 
Diante do filme pornô, quem diz que ele não imagina que lhe satisfaz na tela? Sim, absolutamente, seu namorado deve projetar vocês nas performances dos protagonistas. Nem é uma infidelidade ou vontade de se relacionar com uma atriz específica – é uma transposição do que ele vive mais corriqueiramente.
 
O material pornô é um facilitador da intimidade, não é para ser levado ao pé da letra. Sua censura acabará atrapalhando a confidência e a liberdade de expressão do namorado, que não deixará de ver ou consultar os sites, mas passará a fazer escondido e torcerá para ficar menos tempo ao seu lado.
 
O tabu da pornografia é o mesmo da masturbação no casamento. Persiste a mentalidade de que numa relação fixa as pessoas não podem se masturbar, que é falta de interesse ou isolamento. Pois é o contrário: quanto melhor o sexo, maior o desejo de se masturbar. Masturbação não é uma suplência do sexo. Ambas as opções coexistem em casais saudáveis. Vamos desfazer, portanto, mal-entendidos sobre o tema:
 
Não significa que você não sacia os gostos e as fantasias dele.
 
Não significa que ele está entediado e que procura diversificar a oferta.
 
Não significa que ele está carente, disposto a qualquer coisa.
 
Não significa que ele é um criminoso sexual em potencial.
 
Não significa que ele contrata serviços de acompanhante.
 
Não significa que ele será menos romântico na rotina a dois.
 
Não significa que irá exigir poses e acrobacias comprometedoras.
 
Não significa que ele está interessado em outras ou que está a um passo de trair.
 
Você está temerosa à toa. Pornografia não é uma concorrente, mas uma auxiliar do desejo.

 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 9
Porto Alegre (RS), 06/01/2013 Edição N° 17304
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

NÃO É NÃO

Arte de Yves Klein

"Não" é não.
 
Se sua namorada não quer transar é "não".
 
Ela não está flertando, não vem lançando charme, não é joguinho de sedução, não demonstra resistência para excitá-lo.
 
"Não" é não.
 
"Não" não é talvez, não é "estou em dúvida", não é "vem que eu quero na marra".
 
"Não" é absolutamente não. É soberanamente não.
 
Se sua mulher não deseja, acabou. Vai dormir. Vai tomar um banho. Vai assistir a novela. Vai esperar o dia seguinte.
 
"Não" não é um sim disfarçado, um sim camuflado, um sim procurando insistência. É "não" e ponto final.
 
Se ela reclama de dor de cabeça, de indisposição, se ela não se interessa naquela hora é não. Não importa a desculpa: "não" é não.
 
Não venha com a fantasia da imposição, do convencimento.
 
Macho é o que aceita o "não", jamais o que insiste pela força.
 
Aquele que impõe sua vontade é um covarde, tem que pagar pelo estupro, sendo namorado ou marido. Nenhum namoro ou certidão de casamento serve de atenuante e alivia o crime. 
 
"Não" é não, meu amigo.
 
Temos que parar de pôr a culpa no vestido curto, nos decotes, na bebida.
 
Não é que ela deu mole, não é que ela facilitou, não é que ela ficou provocando.
 
"Não" é não. Aceite. Não venha com a conversa de que lê pensamento, de que ela diz algo e pensa em outra coisa.
 
“Não” é não.
 
Ela poderia estar a fim antes e mudou de ideia. Obedeça: "não" é não.
 
"Não" é respeitar o desejo dela, o temperamento dela, a escolha dela. Ninguém tem obrigação de fazer sexo só porque está junto. Ninguém precisa aceitar tudo só porque ama.
 
Não é não.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (4/1) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
 
 


_____________________________________ Aderi à campanha "Não é não", de Alessandra Siedschlag

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

PARA COLECIONAR



A partir de hoje, inicio uma nova versão da minha série "Amar eh...", com desenhos de Eduardo Nasi. Os cartuns serão semanais. Pode começar o álbum.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

SAUDADE DO SIMPLES

Arte de Eduardo Nasi  
 
O homem sempre é atrasado para amadurecer. Na escola, a menina anseia namorar e ele pensa unicamente em futebol. A menina de doze anos formou seu corpo e pisou na adolescência e o guri da mesma idade ainda está imberbe e não tem nenhum interesse em largar as briguinhas com os colegas.
 
Temos um retardo de três anos em relação ao time feminino.

Na vida adulta seguimos levando surra. A revolução sexual chegou muito antes para elas.

O macho agora que se deslumbrou em fazer sexo oral, por exemplo. É emblemática sua necessidade de posar como moderno. Não abdica da preliminar. Sua primeira atitude na transa é se dedicar a chupar sua parceira. Nem tirou a roupa e está chupando.

Cheio de boas intenções, ele se perde. Confunde o oral com maratona. A mulher ou dorme ou cansa de esperar a penetração.

Homem, quando busca agradar, exagera. E o exagero é broxante, pois ultrapassa a linha do prazer para desembocar na compaixão.

Obcecado em se tornar inesquecível, não equaciona o recado: a mulher não quer massagem, mas sexo.

Um dos seus erros é se ressentir do papai-mamãe. Acha que é um modelo antiquado, anacrônico, que lembra seus avós.

Adota variadas acrobacias, menos papai-mamãe. Para não ser acusado de conservador e machista, não desce mais da gangorra.

O homem vem sofrendo um medo tremendo de ser homem.

Um pouco mais e o papai-mamãe será extinto, injustamente.

É a posição mais romântica, mais sincera, mais transparente que existe.

É feita para quem ama de verdade.

O papai-mamãe é olhar nos olhos, é oferecer o peso do corpo, é confessar o pulmão.

São as pernas firmemente entrelaçadas. São os seios comprimidos no peito. São os braços estendidos em oferta.

Complica para qualquer um fingir orgasmo, complica para qualquer um fugir com a imaginação.

É o encaixe perfeito para arranhar as costas, morder o pescoço, cochichar aos ouvidos.

Movimento obsceno e messiânico, rude e suave.

No papai-mamãe, você pode ciscar um beijo enquanto o outro estiver gemendo, você pode observar o outro gozando, você pode segurar a mão para mostrar que não há desigualdade no grito.

Aliás, só no papai-mamãe as pessoas andam de mãos dadas também na cama.
 

 





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

COMODISMO

Arte de Moholy-Nagy
 
Não se vanglorie do próprio amor, o risco é se isolar na vaidade e achar que sempre agrada.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (1/1/13) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Daniel Scola e Jocimar Farina:


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

FALO EU TE AMO FÁCIL, FÁCIL

Arte de Marc Chagall

Nada acontece por acaso.

Em tudo há um porquê.

Era para a gente se encontrar.

Apague essas frases, largue o curso preparatório de noivos.

Amor não é uma fatalidade, é algo que inventamos, é a responsabilidade de definir, de assinar, de honrar a letra.

Colocamos a culpa no destino para não assumirmos o controle, tampouco sustentarmos nossas experiências e explicarmos nossas falhas.

Amar é oferecer nossas decisões para o outro decidir junto, é alcançar o nosso passado para o outro lembrar junto, mas jamais significa se anular.

É vulnerabilidade consciente. É fraqueza avisada.

É entregar nossa solidão ciente de que é irreversível, podendo nos ferir feio, podendo nos machucar fundo.

Não existe nada mais horrível e mais lindo.

Ninguém nos mandou estar ali, ninguém nos obrigou a nos aproximar daquela pessoa, ninguém nos determinou a começar uma relação.

Não teve um chefão, um mafioso, um tirano, um ditador nos ordenando namorar.

Foi você que optou. Assuma até o fim que é sua obra, inclusive o fim. Assuma que sua companhia é resultado direto do seu gosto, sendo canalha ou santa. Não adianta se iludir e tirar o pé. Não vale fingir e mentir freios.

Amor não é hipnose, passe, incorporação. É você querendo o melhor ou pior para sua vida. É você roteirizando e dirigindo as cenas.

Aquele que tem receio de se declarar não se deu conta de que é o próprio diretor do filme, e que a tela vai mostrar o sucesso e o fracasso de sua imaginação.

Por isso, não tenho medo de dizer “eu te amo” desde o início. O amor aumenta para quem diz “eu te amo”.

Se vou errar, eu é que errei. Se vou acertar, sou eu que acertei. Se vou me danar, o inferno será meu.

Falo “eu te amo” já no segundo encontro. Já para assustar. Já para avisar quem manda. Já para estabelecer as regras do jogo.

Falo no calor da hora ou no moletom do entardecer. Amor não surge do além, amor se cria da insistência.

A precipitação é uma farsa. Não há como me adiantar e me atrasar em sentimento que eu mesmo realizo. É bobagem negacear prazos, esperar amadurecer limites.

Exponho minha paixão fácil, fácil. Nem precisa perguntar.

Aprendo a amar amando, para entender que a maior declaração ainda não é o “eu te amo”. É quando alguém confessa: “Não consigo mais viver sem você”.

Mas isso não é amor, é coragem.
 




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 31/12/2012 e 1/01/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17299

domingo, 30 de dezembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

TALIBÃ DO AMOR

Arte de Fatturi

“Estava namorando um cara havia quatro meses. Ele tinha no perfil dele 150 amigos, sendo que mais de 100 eram mulheres. De repente ele adicionou uma que comecei a perceber que não parava de segui-lo em todas as postagens. Tudo ela curtia, comentava e mandava beijos. Ele me disse que não a conhecia pessoalmente, tampouco falava com ela. Até que a adicionei, ela aceitou, conversamos por mensagem, e ela me contou que conversam sempre, mas não têm vínculo. Fiquei braba, pedi para ele excluí-la e ele não aceitou. Terminamos. Estou louca? Uma mulher dá em cima do meu namorado e ele não faz nada. Estou desnorteada. Um abraço, Rafaela.”

Querida Rafaela!
 
As rupturas acontecem por picuinhas. Por brigas tolas. Jamais por assuntos sérios e de interesse maior.
 
É um ciuminho que se transforma em intolerância, é uma descortesia ingênua de tarde que migra para a difamação ao final da noite.
 
Com os desentendimentos menores, não imaginamos que vamos nos separar e desprezamos as reservas. Atacamos com ênfase, despreocupados, e passamos dos limites.
 
Com as discussões sérias, antevemos a gravidade do encontro e cuidamos de uma por uma das palavras. Temos mais paciência e flexibilidade.
 
Julgo mais fácil se separar por não lavar a louça do que por infidelidade.
 
Vejo que você chamou atenção para a importância da amiga dele – de flerte alçado à ameaça.  Curiosamente toda mulher ou homem escolhe a sucessora ou o sucessor pelo ciúme. O ciúme faz a transferência da coroa e do cetro. Aponta quem é perigoso e com condições de ocupar o papel principal nos próximos capítulos da novela.
 
A amiga poderia se deleitar em ações platônicas: curtir, postar, comentar a página de seu namorado, desde que ficasse isolada na admiração. Seriam iniciativas inofensivas. O problema é que você não conteve a irritação e exagerou na dose. Quis mostrar quem mandava e contra-atacou. Nem pelo medo de perdê-lo, e sim para testar sua influência. O amor sempre fracassa quando vira disputa de poder. O amor é despoder, confiar e não cobrar provas. Pena que realizou o contrário, solicitando demonstrações visíveis de dependência e respostas imediatas.
 
Travou uma guerra extremista desnecessária: ou ela ou eu. Supervalorizou a figura dela, a ponto de colocá-la no mesmo patamar de intimidade. Pôs uma completa desconhecida como rival ao adicioná-la, trocar mensagens e xeretear possíveis laços.
 
Não está louca, tampouco está certa. A mulher deu em cima, porém excluir ou rejeitar um contato superficial é promovê-lo.
 
Também tomaria cuidado com as restrições que se assemelham falsamente a prevenções. Prevenir não é limitar, prevenir é conversar e aceitar a escolha do outro. Não devemos mandar ou ordenar em nome do amor.
 
Sua estratégia não foi inteligente. Se ele não cumprisse o que desejava, já não servia. Não tinha saída negociável, não gerou conscientização gradual e consistente, tratava-se de um ultimato.
 
No namoro, as proibições são insaciáveis e nada recomendáveis. É excluir nomes no Facebook, depois excluir nomes no celular, depois excluir nomes da lista de festa, depois excluir nomes entre os amigos, até que não exista mais ninguém para pedir colo e nos consolar pelo fim do namoro.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 30/12/2012 Edição N° 17298
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

RONCO DO CHIMARRÃO

 
Arte de Moholy-Nagy

O homem roncando é um incompreendido. Um injustiçado. Um perseguido pela vida amorosa. Nunca é valorizado pela mulher, que sempre o enxerga como um animal perigoso, condicionado a passear de focinheira e coleira.
 
E não é verdade.
 
Um homem roncando dá a sensação de casa cheia. Com apenas um homem roncando, todos os quartos ficam ocupados.
 
Um homem roncando é a única forma de quebrar a lei do silêncio do prédio e não receber multa.
 
Um homem roncando é aula de música, é Modernismo, é Stravinski, é uma orquestra formada por oito trompas e trinta e oito instrumentos de sopro.
 
Um homem roncando presta homenagem à invenção dos eletrodomésticos: o aspirador, o liquidificador, a batedeira, o processador multiuso.
 
Um homem roncando é um retorno à vida rural: é ter um relâmpago de estimação, é ter relinchos perto dos ouvidos.
 
Um homem roncando é sinal de saúde. É a certeza de que o sujeito está vivo.
 
Um homem roncando traz segurança ao lar. É ter um cão dentro do quarto. Ninguém assaltará sua casa. Não necessita instalar alarme ou pagar serviço de vigilância.
 
Um homem roncando serve como crucifixo. Afasta vampiros, bruxaria, mau olhado, demônios e fantasmas.
 
Um homem roncando impulsiona o crescimento feminino: a mulher lê mais, assiste mais filmes, ouve mais música, não perde tempo com sono.
 
Um homem roncando é a prova de que ele confia em você. Ele dorme pesado, sem nenhuma desconfiança.
 
Um homem roncando mostra a satisfação sexual do macho. O ronco é uma mistura de gemido com risada.
 
Homem é como chimarrão: se não roncar, é falta de respeito.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (28/12) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Daniel Scola e Jocimar Farina:

 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

MONALISO


Arte de Eduardo Nasi

Por insistência dos amigos, Gabriel desmanchou seu penteado de bibliotecário.

Mas não esperava que ficasse tão bonito. A franja lhe devolveu cinco anos e retirou dois quilos de seu rosto.
 
O fim dos chumaços rendeu benefícios de uma lipo. Arrependeu-se de não ter feito antes.

Levantou-se, radiante, da cadeira branca. Procurava se refletir nos retrovisores do carro, nas vitrines, nos óculos dos passantes.

Orgulhava-se do formato da cabeça, pela primeira vez na vida.

Dormiu feliz na moldura dos travesseiros, com a impressão de ter posado para Leonardo da Vinci.
 

* * *
 
No dia seguinte, descobriu que nada do que foi será. Surgiu o redemoinho. Tentou reimprimir o desenho das mechas. Os fios não se moldavam à escova. Gastou cremes e dedos. Consumiu a fé dos hidratantes e a esperança da água.

Esqueceu alguma recomendação do profissional? Não prestou atenção suficiente em suas dicas para conservar o alinhamento? Como baixar o volume?

Desejava manter, todo o dia, o corte exatamente do jeito que deixou o salão.

Telefonou para o cabeleireiro.
 

* * *
 
Devo pentear para o lado esquerdo ou direito?

— Esquerdo.

Meia hora depois, voltou a interromper o cabeleireiro.

— Você usou qual escova?

— A Térmica Anti-Estática.

Uma hora depois, teimou novamente:

— Tenho que botar spray?

— Para não ficar com aparência de cabelo duro, sim.

— Qual?

— Recomendo Charming Gloss.

Na quarta ligação consecutiva, o cabeleireiro desabafou:

— Eu preciso trabalhar, querido. Não posso oferecer assistência técnica 24h.
 

* * *
 
A fragilidade súbita de Gabriel revela como o homem emburrece na paixão.

Ele se torna refém de uma mudança feliz, destrói os referenciais da rotina e experimenta período de insegurança máxima. Dependerá agora da aprovação de uma outra pessoa para seguir vivendo.
 

* * *
 

O apaixonado não fará mais nada sozinho. É uma criança adulta.

Vacila ao definir suas roupas, determinar o que gosta de comer, o que adora ouvir, o que prefere ler.

Tem medo de melindrar, decepcionar, estragar o início perfeito.

Tem receio de perder o encantamento que vem de sua companhia.

Pede opinião à sua namorada para qualquer assunto.

Não existe ninguém mais vulnerável. Mais influenciável. Mais patético. Mais sublime.

O apaixonado é o corte de cabelo perfeito. E irrepetível.
 

 




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira