sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

DESCANSO BAGUAL


Enquanto todo mundo que ir para Punta, eu sou apaixonado pelo litoral gaúcho. E gosto do jeito que é. Dizem que nossas praias são feias, retilíneas, sem atrativos.

Bobagem: nossas praias combinam com a resistência gaudéria.

Imagina se aqui fosse Angra? Não daria certo.

Beleza demais me deixa preguiçoso, terei que fazer montanhismo, caminhadas pelos morros, descer dunas. É tanta coisa para olhar que acabarei não descansando.

Água transparente não é uma maravilha, gera incômodo, lembrarei que não cortei as unhas dos pés.

No mar achocolatado do sul, posso perder a sunga e não serei preso por atentado violento ao pudor. Temos um vidro fumê de graça, que conserva a privacidade do mergulho. Em Copacabana, uma bunda branca já seria manchete. Nossa praia não causa escândalo.

É parar e pensar como o Nordestão vem sendo uma dádiva. Ocasionou a melhor arquitetura do guarda-sol do país. Ninguém coloca um guarda-sol como a gente. É fundo, firme, intransponível, existe uma técnica militar apuradíssima capaz de enfrentar e amansar ventos automobilísticos.

Nossos salva-vidas não são broncos, e sim artistas. Modelam castelos na frente das guaritas.

Nossos surfistas têm humildade, não desprezam nenhuma onda. São imbatíveis nas finais dos campeonatos, íntimos das marolas.

O protetor solar aqui recebe uma fina camada de areia que impede a entrada do raio ultra-violeta. Temos muito menos risco de câncer.

Nosso forte repuxo é uma fisioterapia. As pernas aparecem torneadas de ir e voltar de um banho. Já observei jogador de futebol se recuperar de lesões sérias. Entra mancando e volta correndo.

Nos dias de chuva, formamos campeões de pôquer e canastra.

Na ausência de lazer, criamos passeios para analisar as residências dos outros. A curiosidade nos permite ampliar os conhecimentos de decoração.

Não nos interessa unicamente a vista paradisíaca. O que vale é a interação com os vizinhos, reunir a família, reencontrar colegas.

Como nossa praia não é linda de morrer, continuamos vivendo, graças a Deus.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (11/1) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

DEPOIS DA DATA


Presente atrasado para aproveitar o desconto é muita mesquinharia. 

Assista como foi o meu quadro DRnaTV, da TVCOM, exibido na terça-feira (8/1).

A mediação é de Sara Bodowsky e a produção de Fernando Muniz.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O ÚLTIMO TANGO DE MARADONA

Arte de Eduardo Nasi
 
O amor não permite avareza. É a regra elementar.

Quem é avarento não ama. Assim como políticos que enriquecem durante seu mandato roubam, os casados que prosperam não se gostam mais. O casal apaixonado está mais preocupado com o prazer da companhia do que enriquecer. Vai comprar uma tevê que o orçamento não autoriza, uma geladeira maior do que o salário e depois encontra um modo de pagar.
Quem ama parcela. E a perder de vista, no mínimo em 48x para ficar mais tempo junto.

Homem devoto é mão aberta. Oferece o que não tem. Privilegia o arrebatamento. Não conta centavos, divide conta e cobra juros.

O namorado/marido que é mesquinho é um falso admirador.


* * *

Vivian concordaria comigo.

Namorava Nei há três anos.

Ela: jornalista, 37 anos. Ele: engenheiro, 42 anos.

No Dia dos Namorados, armou viagem para Buenos Aires. Meticulosa, intensa, reservou um apartamento na Recoleta.

No mês que antecedeu a data, escolheu os presentes a partir de cuidadosa observação. Lembrou que o hobby predileto dele na infância era jogar futebol de mesa. Encomendou, portanto, um time de botão em madrepérola com as cores do tricolor. Achou um fabricante das peças em Pelotas. Sairia uma nota, mas azar. Também foi atrás da obra completa de Iron Maiden dentro de uma caveira. Custaria 500 dólares. Não tinha condições, porém arrumou um trabalho complementar de revisão de livros na madrugada e descolou a quantia.

* * *


Na Argentina, Vivian desembrulharia o sonho.  Quando os dois estavam a sós no quarto, ela se antecipou com os presentes.

— Tchantchantchan!

— O quê?

Ele chorou de emoção. As gotas pesaram nos cílios, e rolaram até os lábios.


* * *

Dali em diante, houve vinte minutos confusos de silêncio. Vivian aguardava a sua vez. Sentada, tímida, na ponta da cama.

Ele colocou a música no laptop, enfileirou os jogadores na escrivaninha e…

…nenhuma menção de lembrança para Vivian.

Vivian não falava mais. Com a alegria engasgada. “Será que ele me esqueceu?” — pensou.

Nei farejou tragédia no ar e gritou:

— Ah, tenho algo para ti!

Ela não se conteve e bateu palmas, como uma criança surpreendida em seu pensamento mais carente. O engenheiro abriu a mala e pegou, do fundo, um envelope pardo.

“Envelope pardo? O que será? Nunca vi notícia de presente em envelope pardo, só propina” ­— ela raciocinou, com medo.

Ao abrir, retirou uma fotografia de Diego Maradona.

Olhou para Nei, embasbacada: o que significava aquilo? Ele sabia que ela não se interessava por futebol.

Deu um voto de confiança e virou a foto, para ver se havia alguma coisa escrita: o autógrafo do craque ou a explicação da brincadeira.

O verso resplandecia em branco.

— Eu comprei uma para ti e outra para mim, não é legal? — ele ainda explicou.
 

* * *
 
Ela terminou o namoro naquele lance.

Quem ama não economiza.
 

 




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ESQUECIDO, MAS FELIZ


Arte de Cy Twombly

Eu posso esquecer a receita do minestrone da avó.

Eu posso esquecer a loja em que comprei a calça preta favorita.

Eu posso esquecer o restaurante que escolhemos para passar a virada do ano e o coquetel flamejante que bebemos, desculpa, fumamos (era a nossa piada).

Eu posso esquecer o autor do verso “nunca me perdi de vista: detestei-me, adorei-me, depois envelhecemos juntos”.

Eu posso esquecer o esconderijo dos óculos de sol.

Eu posso esquecer que toalha de crochê tem um lado certo.

Eu posso esquecer de desligar o alarme do celular, agendado na manhã anterior.

Eu posso esquecer que o carnê do carro vence no dia 7.

Eu posso esquecer a melhor marca de azeite.

Eu posso esquecer o diretor do filme em que um casal está perdido em Tóquio.

Eu posso esquecer os aniversários dos sobrinhos.

Eu posso esquecer que você odeia aspargos, mas gosta de palmito (o inverso de mim).

Eu posso esquecer de deixar a luz acesa no corredor, já que tem medo de atravessá-lo durante a madrugada.

Eu posso esquecer minha mania de enfiar os chinelos debaixo da cama e procurar o par pela casa inteira.

Eu posso esquecer qual é a rua do sapateiro para salvar a sola dos meus sapatos.

Eu posso esquecer o que significa tramela.

Eu posso esquecer as diferenças entre o jasmineiro e o jacarandá.

Eu posso esquecer se desliguei a cafeteira ou fechei a porta.

Eu posso esquecer o nome de nossos vizinhos.

Eu posso esquecer de temperar o bife.

Eu posso esquecer a capital de El Salvador.

Eu posso esquecer de colocar protetor ao jogar futebol.

Eu posso esquecer daquele perfume de figo que você usa, adquirido na Itália.

Eu posso esquecer de levar meus casacos à lavanderia.

Eu posso esquecer de responder e-mails de pedidos de entrevista.

Eu posso esquecer de fazer a cópia da chave da correspondência.

Eu posso esquecer da revisão do carro a cada 10 mil quilômetros.

Eu posso esquecer a lista dos anjos que decorei na infância ou como se chama a cobra que morde o rabo.

Eu posso esquecer de ajeitar a unha do pé direito, que dói ao caminhar muito.

Eu posso esquecer as exceções da crase.


Não morro de inveja de quem lembra de tudo, e esqueceu de amar.

Tenho amor, não tenho memória.

Posso esquecer tudo, menos de você que me acompanha desde sempre. Você me lembra do que vivo esquecendo.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 8/1/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17306

O QUE VOCÊ NÃO DEVE DIZER PARA SEU NAMORADO

Arte de Moholy-Nagy
— Deixa isso, é muito pesado, você não aguenta carregar.
— Você é parecido com meu pai. Ou pior: você é parecido com minha mãe.
— A menstruação está atrasada. 
— Nossa, que pança, hein? (Homem tampouco gosta de ser chamado de gordo)
— Você não faz nada mesmo! (Homem odeia ser chamado de vadio)
— Não tem roupa melhor? (É avacalhar o estilo de vida do sujeito)
— Já gozou? (Será que ela não percebeu? Então, não é uma pergunta, é uma censura)
O QUE TAMBÉM IRRITA DEMAIS...

— Quando ela diz que pegaria fácil um ator de novela.
— Quando ela avisa que, na primeira vez que lhe viu, pensava que era gay.
— Quando ela tira uma camisinha da gaveta, e a camisinha é Extra Grande. Só resta arrumar a bainha.
— Quando ela confessa que já teve relacionamento com mais de um homem ao mesmo tempo. 
— Quando ela chama o zelador para trocar a lâmpada de sua casa.
— Quando ela não larga anel ou colar dado pelo ex.
— Quando ela tenta desmoralizar seu melhor amigo.
— Quando ela confessa que deseja vários filhos com você.
— Quando ela é vulgar e fala que largou um barro no banheiro e não é para entrar.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (8/1) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:


domingo, 6 de janeiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar


MEU NAMORADO VÊ BASTANTE PORNOGRAFIA. DEVO TERMINAR?


Arte de Paul Delvaux
 
“Namoro há mais de dois anos e ultimamente ele anda vendo bastante pornografia no computador. Isso me incomoda e já conversei, mas parece que ele não se importa. Fico pensando que ele não gosta mais de mim. O que devo fazer: deixar assim e pensar que todo homem faz isso ou terminar? Muito obrigada pela atenção. Beijo, Joelma”
 
Querida Joelma,
 
Não vejo nenhum problema no namorado olhar pornografia. Todo homem olha. Eu olho, e o hábito não me torna menos poeta.
 
A pornografia representa a escola masculina da sedução: a porta de acesso na adolescência para capturar a dinâmica do sexo, a ópera da malandragem e evitar fiascos por desinformação.
 
É natural na vida do homem como editorial de moda em revistas femininas. Faz parte da nossa solidão e da nossa curiosidade.
 
Você vem tratando o assunto como um crime, um atentado violento ao pudor. Não há sentido para tamanha seriedade e culpa.
 
Diante do filme pornô, quem diz que ele não imagina que lhe satisfaz na tela? Sim, absolutamente, seu namorado deve projetar vocês nas performances dos protagonistas. Nem é uma infidelidade ou vontade de se relacionar com uma atriz específica – é uma transposição do que ele vive mais corriqueiramente.
 
O material pornô é um facilitador da intimidade, não é para ser levado ao pé da letra. Sua censura acabará atrapalhando a confidência e a liberdade de expressão do namorado, que não deixará de ver ou consultar os sites, mas passará a fazer escondido e torcerá para ficar menos tempo ao seu lado.
 
O tabu da pornografia é o mesmo da masturbação no casamento. Persiste a mentalidade de que numa relação fixa as pessoas não podem se masturbar, que é falta de interesse ou isolamento. Pois é o contrário: quanto melhor o sexo, maior o desejo de se masturbar. Masturbação não é uma suplência do sexo. Ambas as opções coexistem em casais saudáveis. Vamos desfazer, portanto, mal-entendidos sobre o tema:
 
Não significa que você não sacia os gostos e as fantasias dele.
 
Não significa que ele está entediado e que procura diversificar a oferta.
 
Não significa que ele está carente, disposto a qualquer coisa.
 
Não significa que ele é um criminoso sexual em potencial.
 
Não significa que ele contrata serviços de acompanhante.
 
Não significa que ele será menos romântico na rotina a dois.
 
Não significa que irá exigir poses e acrobacias comprometedoras.
 
Não significa que ele está interessado em outras ou que está a um passo de trair.
 
Você está temerosa à toa. Pornografia não é uma concorrente, mas uma auxiliar do desejo.

 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 9
Porto Alegre (RS), 06/01/2013 Edição N° 17304
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

NÃO É NÃO

Arte de Yves Klein

"Não" é não.
 
Se sua namorada não quer transar é "não".
 
Ela não está flertando, não vem lançando charme, não é joguinho de sedução, não demonstra resistência para excitá-lo.
 
"Não" é não.
 
"Não" não é talvez, não é "estou em dúvida", não é "vem que eu quero na marra".
 
"Não" é absolutamente não. É soberanamente não.
 
Se sua mulher não deseja, acabou. Vai dormir. Vai tomar um banho. Vai assistir a novela. Vai esperar o dia seguinte.
 
"Não" não é um sim disfarçado, um sim camuflado, um sim procurando insistência. É "não" e ponto final.
 
Se ela reclama de dor de cabeça, de indisposição, se ela não se interessa naquela hora é não. Não importa a desculpa: "não" é não.
 
Não venha com a fantasia da imposição, do convencimento.
 
Macho é o que aceita o "não", jamais o que insiste pela força.
 
Aquele que impõe sua vontade é um covarde, tem que pagar pelo estupro, sendo namorado ou marido. Nenhum namoro ou certidão de casamento serve de atenuante e alivia o crime. 
 
"Não" é não, meu amigo.
 
Temos que parar de pôr a culpa no vestido curto, nos decotes, na bebida.
 
Não é que ela deu mole, não é que ela facilitou, não é que ela ficou provocando.
 
"Não" é não. Aceite. Não venha com a conversa de que lê pensamento, de que ela diz algo e pensa em outra coisa.
 
“Não” é não.
 
Ela poderia estar a fim antes e mudou de ideia. Obedeça: "não" é não.
 
"Não" é respeitar o desejo dela, o temperamento dela, a escolha dela. Ninguém tem obrigação de fazer sexo só porque está junto. Ninguém precisa aceitar tudo só porque ama.
 
Não é não.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (4/1) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
 
 


_____________________________________ Aderi à campanha "Não é não", de Alessandra Siedschlag

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

PARA COLECIONAR



A partir de hoje, inicio uma nova versão da minha série "Amar eh...", com desenhos de Eduardo Nasi. Os cartuns serão semanais. Pode começar o álbum.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

SAUDADE DO SIMPLES

Arte de Eduardo Nasi  
 
O homem sempre é atrasado para amadurecer. Na escola, a menina anseia namorar e ele pensa unicamente em futebol. A menina de doze anos formou seu corpo e pisou na adolescência e o guri da mesma idade ainda está imberbe e não tem nenhum interesse em largar as briguinhas com os colegas.
 
Temos um retardo de três anos em relação ao time feminino.

Na vida adulta seguimos levando surra. A revolução sexual chegou muito antes para elas.

O macho agora que se deslumbrou em fazer sexo oral, por exemplo. É emblemática sua necessidade de posar como moderno. Não abdica da preliminar. Sua primeira atitude na transa é se dedicar a chupar sua parceira. Nem tirou a roupa e está chupando.

Cheio de boas intenções, ele se perde. Confunde o oral com maratona. A mulher ou dorme ou cansa de esperar a penetração.

Homem, quando busca agradar, exagera. E o exagero é broxante, pois ultrapassa a linha do prazer para desembocar na compaixão.

Obcecado em se tornar inesquecível, não equaciona o recado: a mulher não quer massagem, mas sexo.

Um dos seus erros é se ressentir do papai-mamãe. Acha que é um modelo antiquado, anacrônico, que lembra seus avós.

Adota variadas acrobacias, menos papai-mamãe. Para não ser acusado de conservador e machista, não desce mais da gangorra.

O homem vem sofrendo um medo tremendo de ser homem.

Um pouco mais e o papai-mamãe será extinto, injustamente.

É a posição mais romântica, mais sincera, mais transparente que existe.

É feita para quem ama de verdade.

O papai-mamãe é olhar nos olhos, é oferecer o peso do corpo, é confessar o pulmão.

São as pernas firmemente entrelaçadas. São os seios comprimidos no peito. São os braços estendidos em oferta.

Complica para qualquer um fingir orgasmo, complica para qualquer um fugir com a imaginação.

É o encaixe perfeito para arranhar as costas, morder o pescoço, cochichar aos ouvidos.

Movimento obsceno e messiânico, rude e suave.

No papai-mamãe, você pode ciscar um beijo enquanto o outro estiver gemendo, você pode observar o outro gozando, você pode segurar a mão para mostrar que não há desigualdade no grito.

Aliás, só no papai-mamãe as pessoas andam de mãos dadas também na cama.
 

 





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

COMODISMO

Arte de Moholy-Nagy
 
Não se vanglorie do próprio amor, o risco é se isolar na vaidade e achar que sempre agrada.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (1/1/13) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Daniel Scola e Jocimar Farina: