quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

LUTO

Não procure ser mais resistente do que o sofrimento. Aconselhável respeitar os nossos limites e confessar as fraquezas. Bancar o forte custa muito caro.

É a dica do meu programa DRnaTV, da TVCOM, exibido na noite de terça-feira (30/1).

 A mediação é de Sara Bodowsky e a produção de Fernando Muniz.

PELO PREÇO DE UM


Arte de Eduardo Nasi
 
O pedreiro é o bagaceiro, o feirante é o galanteador.

São duas formas emblemáticas de aproximação.

O pedreiro não está seduzindo: grosseiro, tosco, impulsivo. Desabafa apenas o desejo da hora. Interrompe sua atividade e grita de onde estiver, do muro, do andaime, do fundo do prédio. Abandona o martelo, a britadeira e a pá para exercer alguns minutos de ofensa social.

A cidade inteira vira para acompanhar seu teatro. Não é um movimento discreto. Assobia e berra ao rabo de saia com o alcance de uma buzina. Tão agressivo que não pode ser sério. Está mais se exibindo para seus colegas do que se colocando à disposição.

É molecagem mesmo, cão latindo.

Expõe sua virilidade no trabalho para que ninguém duvide que gosta de mulher. Simples assim. O grito deve aparecer na carteira de trabalho.

O feirante é de uma outra escola, realmente conquista, usa sua voz para criar suspense e atrair atenção da freguesa. Chama para perto favorecendo seu talento de malabarista.

Nunca trata a interessada sem olhar nos olhos. É senhora ou senhorita, altamente cerimonioso. Explica as promoções, questiona a vida fazendo brincadeiras e interagindo com os produtos na mão.

A cantada da construção civil é muito diferente da abordagem da feira.

O pedreiro joga a pedra, o feirante lapida.

O pedreiro atropela, o feirante oferece carona.

O pedreiro buzina, o feirante rumina.

O pedreiro despreza informações extracampo: não pergunta se a mulher tem família, marido, filhos. Atua com a desfaçatez de líder de torcida organizada.

Já o verdureiro não queimará seu filme, tem noção de que ela virá na próxima semana de novo, suas frases sondam o estado civil, os hábitos, onde mora, sempre com cuidado e delicadeza.

Se o pedreiro procura destruir a relação antes de começar, o feirante busca firmar o reencontro.  É o malandro do bem. Oferece lascas de abacaxi, tira vantagem da intimidade interpretando as vozes das frutas. Não é ele, são as frutas.

— Vê que suculenta?

— Prova, é um pedacinho do paraíso.

— Basta chupar uma vez que dá vontade de morder.

Produz claras alusões ao sexo, mas dentro de um contexto impossível de ser incriminado.

O feirante nunca vai falar que sua cliente é tesuda, bem gíria de pedreiro. Dirá:

— Que saúde, patroa!

Ele cumpre a façanha de elogiar o corpo feminino jamais ofendendo. É uma indireta espirituosa. Nenhum advogado poderá acusá-lo de assédio. Saúde significa seios fartos e bunda voluptuosa. Mas pode ser pulmão limpo e cuidados alimentares. E serve para qualquer faixa etária e gênero.

Na dúvida, o melhor é rir e levar um melão maduro.
 




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

QUANDO ESTAMOS ENGASGADOS COM AS PALAVRAS...

... O POEMA É O COPO D`ÁGUA
 

Veja minha participação no programa Encontro com Fátima Bernardes na manhã de terça-feira (29/1), na Rede Globo.
 

FÁTIMA BERNARDES INTERPRETA MINHA CRÔNICA


No programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, a apresentadora interpretou meu texto sobre a tragédia de Santa Maria. O encontro aconteceu na manhã de terça-feira (29/1) .
 

A PAIXÃO ACONTECE

Arte de Marc Chagall

Se você recusou sua rotina, deixou de fazer aquilo que mais gostava em nome de alguém, torrou seus bens, abandonou os amigos e os prazeres mais fundamentais, isso não é amor, é paixão.

A paixão é uma fatalidade, o amor é uma escolha.

A paixão é egoísta, o amor é generoso.

A paixão é renúncia, o amor é recomeço.

A paixão arrebenta, o amor adapta.

A paixão é confinamento, o amor é abrigo.

Não há paixão pequena, paixão simbólica, paixão discreta: é grandiosa no início e escandalosa no final.

Não recomendo, muito menos desaconselho: é experiência para os fortes.

Nada do que viveu antes terá sentido, nada do que possa viver depois terá sentido. Conjugará interminavelmente o presente do indicativo.

Atingirá um extremo emocional perigoso: você passa a ser do outro em tempo integral. Conhecerá sua pior crise de nervos, seu mais fundo estresse emocional, seu mais absurdo esgotamento da memória, sua mais humilhante falência financeira.

Uma vez apaixonado, você rejuvenesce 10 anos em 10 horas. Mas, uma vez desapaixonado, você envelhece 10 anos em 10 horas.

A paixão ou é imensa, ou não é. Ela não pede desculpa, não negocia: equivale a uma dependência química em seu estado mais selvagem.

É o equivalente ao sequestro de uma vida. A própria vida. Você é o sequestrador e o refém ao mesmo tempo.

Não há desconto, adiamentos, pechincha. A paixão exige pagamento à vista, execução sumária.

Nunca vi nenhum apaixonado transferir compromisso para o dia seguinte, ele somente antecipa.

Não é que a paixão seja rápida, é devastadora, não sobra coisa alguma para continuar.

O apaixonado não abre negócios, mas fecha portas. Não areja a cabeça, não tem grandes ideias, não combate preconceitos, emburrece progressivamente, a ponto de só ter um número para ligar e um lugar para ir.

Ele não tem sangue-frio, não raciocina, não elabora planos, não arruma álibis.

A paixão é um crime malfeito, facilmente descoberto.

Os envolvidos desprezam o mundo, não se importam se estão sendo vistos, se beijam em público, se são casados, noivos ou recém-viúvos, se serão criticados pelos vizinhos e familiares.

O apaixonado joga tudo para o alto e não fica para segurar nada.

Ele não tem discernimento, não lê jornal, perde sua capacidade de decidir sobre a trajetória.  Apresenta a superstição de um velho, a intuição de uma criança.

É um idiota sábio. Idiota porque não se defende da tristeza, sábio porque não se protege da alegria.

Não existe mais bom e ruim, certo e errado, esquerda e direita. Não tem sentido julgar. Não tem como se orgulhar do que foi realizado, muito menos se arrepender.

Você muda de personalidade, larga trabalho, descuida da família para se dedicar inteiramente a não pensar e somente sentir.

Não podemos nem dizer se a paixão ajuda ou atrapalha, ela acontece. É uma sorte azarada.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 29/1/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17327

DESRESPEITO VIRTUAL É REAL

Arte de Peter Blake
 
Sou contra a censura, mas deveria ter proibições contra quem faz piada sobre tragédias.
 
É de uma insensibilidade criminosa. Virou moda na web falar de tudo e de qualquer jeito.
 
Reconheço liberdade desde que seja responsabilidade. Desprezo liberdade que é inconsequência.
 
Após a tragédia em Santa Maria, circulava comentários sinistros no Facebook ou no twitter.
 
Como pode? Adolescentes - da mesma idade dos adolescentes que morreram - relacionando o incêndio a churrasco de domingo.
 
Ou reclamando que não terão Planeta Atlântida, que é injusto, já que os mortos tiveram sua festa.
 
Ou comentando que a boate Kiss era a mais quente do país.
 
Não compreendo a total falta de empatia, a total falta de solidariedade, a total falta de compaixão.
 
Como alguém pode ver centenas de caixões num Ginásio e não se emocionar e ainda chacotar?
 
São arruaceiros virtuais. Eu fechava o FB dessa pessoa, eu fechava o twitter dessa pessoa, eu proibia de usar computador até que ela aprendesse a conviver.
 
Gente sem noção, gente tirando sarro, alheio ao sofrimento de milhares de famílias.
 
Gente cuspindo no luto. Gente que só precisava ficar em silêncio e mais nada.
 
Tem assuntos que não são para rir. Tem assuntos que são para chorar.
 
Respeito é bom e eu gosto.
  
Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (29/1) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A VOZ DA CRÔNICA

O ator Paulo Betti interpretou minha crônica "A Maior Tragédia de Nossas Vidas" no programa Estúdio i, da Globo News, na tarde desta segunda (28/01).

Assista aqui.

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

O PAVOR DE SE DECLARAR
Arte de Jim Dine

“Olá, Fabrício, tudo certo? Eu gostaria de saber por que é tão difícil falar para uma pessoa que tu gosta dela. Quando está sozinho, pensa em falar diversas coisas e se encoraja todo, mas na frente da pessoa tu fica completamente diferente, fica tenso, fica até pensando “será que gosto mesmo dela?”. Acho que é coisa da minha cabeça, eu não gosto dela tanto assim, acho que estou exagerando, mas aí tu volta pra casa e fica o dia inteiro pensando nela e morrendo de amores. Por que é tão difícil, mesmo sabendo que a pessoa também está interessada? Abraços! Melanie”

Querida Melanie,
 
Tenho um teste para as românticas. Entre os contos de fadas de amor da Disney:
 
Qual é o animal que somente aparece na Branca de Neve?
Qual é o que só desponta na Cinderela?
Qual é o que surge unicamente na Bela Adormecida?
 
Caso souber as três respostas, está na categoria das apaixonadas inveteradas. Sua vida será sempre tramar suposições do que pode acontecer. Vive um passo a mais de suas próprias pernas.
 
O que você sofre qualquer um sofre. É a expectativa de agradar a si mesma e corresponder também aos desejos do outro. Sozinha, está confortável, tem tempo de errar e consertar as frases. O espelho não pede resposta e não faz pressão.
 
Já com ele o negócio é terrível. A realidade não escuta até o fim e nos interrompe com novas necessidades.
 
Como não consegue se declarar, cria a hipótese de que nem ama realmente, que o romance é uma ilusão.
 
Não caia nessa bobagem. Sempre que somos verdadeiros, queremos nos boicotar. Sempre que somos falsos, apressamos nossa entrega.
 
Quando amamos de verdade, nos dificultamos. Quando amamos de mentira, nos facilitamos. Sou defensor da ideia de que a timidez demonstra a autenticidade do sentimento.
 
Quem não sente um pouco de vergonha na hora de tirar a roupa não ama. Quem não sente um pouco de retração na hora de abraçar não ama.
 
O pudor é o Inmetro do amor. Vem para expressar cuidado e respeito. Vem para sugerir o quanto é valiosa aquela cena. Vem para evitar possíveis estragos.
 
Deduzir que não tem interesse por ele é uma forma de perdoar sua covardia. Claro que ama e com veemência.
 
Adota atitude conspiratória contra seu relacionamento pelo receio de ser rejeitada. Prefere se manter calada, na defensiva.
 
Até se engana tentando se convencer que ele não é seu tipo ideal. Mas, na ausência, experimenta o pavor de perdê-lo, a sensação de extraviar a chance de firmar o namoro.
 
A saudade é a prova dos nove. A saudade é uma memória atrasada. A saudade é o que deveríamos ter feito.
 
Relaxa. Qualquer palavra quando se ama é a certa, pois ela só vai abrir passagem para o beijo. O beijo corrige todo tropeço.

a)Pombas; b)Cachorro; c) Coruja
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 27/01/2013 Edição N° 17325
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS

 
Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.
 
A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.
 
Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.
 
A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.
 
As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.
 
Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.
 
Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.
 
Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.
 
Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.
 
Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.
 
Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?
 
O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.
 
A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e quarenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.
 
As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.
 
Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido.

sábado, 26 de janeiro de 2013

EXCEÇÕES


 
Pipoca e refrigerante não combinam com filmes como "O Impossível" (família vítima de tsunami na Tailândia) ou "Amor" (casal de velhos morrendo sozinhos).
 
Sou contra vizinhos crocantes em filmes trágicos.

Ouça meu comentário no sábado (26/1) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Jocimar Farina e Andressa Xavier: