domingo, 10 de fevereiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

"O MARIDO FUGIU COM MINHA IRMÃ"

Arte de Salvador Dali

“Sou casada há 18 anos e tenho quatro filhos. Minha irmã mais velha é casada há 25 e tem três filhos. De uns tempos pra cá, notei que ela e meu marido estavam muito próximos. Ele trabalhava no restaurante dela, voltava pouco pra casa, praticamente abandonou a família. Desconfiei do caso, mas minhas amigas disseram que era loucura, que minha irmã jamais faria isso. Não aguentei e joguei verde com meu marido, disse que sabia tudo. Ele ficou desesperado, saiu de casa, os dois abandonaram as famílias e fugiram juntos. Não sei onde eles estão. O que eu faço? Um abraço, Liége”

Querida Liége,
 
Pode me chamar de moralista. Sou moralista. Hoje é um crime ter moral. Parece que é uma virtude não possuir valores e aceitar qualquer coisa.
 
Careço de capacidade para banalizar a intimidade. Surpreendo-me com a tristeza. Meu pessimismo é sempre inédito.
 
O que aconteceu com você, Liége, foi uma dupla covardia. Ele traiu pelas costas e ainda fugiu. Não honrou a palavra dentro e fora de casa. Tornou-se um impostor mais do que um mentiroso.
 
O que machuca é acabar sendo a última a desvendar a trama, é ser alvo de fofocas, é ser motivo de pena entre os parentes e os amigos. É pertencer a uma história secreta no bairro, e ficar vulnerável à maldade dos vizinhos. É pressentir a tragédia e suportar a alcunha de louca. É dar inúmeras chances para a confissão do caso, e ele não aproveitar nenhuma delas.
 
Se vai trair, conta antes, conta logo. Assume o desejo. Nomeia o desejo. Abraça o desejo. Explica que se apaixonou, não finge normalidade quando as evidências gritam o contrário.
 
Há uma tendência da infidelidade de deixar acontecer para depois decidir. É como se o infiel precisasse provar para optar. Ou se enredar tanto nas mentiras até ser descoberto.
 
Homem não decide, homem estraga sua vida para assim ser obrigado a mudar.
 
Não custava confessar a insegurança e a confusão emocional quando sentiu a atração. Seria trágico, mas contornável. Seria horrível, mas superável.
 
O que ele aprontou é exemplo da falta de exemplo num macho.
 
Não respeitou sua relação com a irmã.
 
Não respeitou dois casamentos longos.
 
Não respeitou os próprios filhos e os sobrinhos.
 
Não respeitou o ambiente profissional e misturou sexo com serviço.
 
Não respeitou o passado e o futuro ao recusar o dever da despedida.
 
Portanto, querida, não faça nada, tudo já está feito.
 
Lamento mesmo é a inveja monumental da irmã. Ela queria sua vida, mas nunca terá sua dignidade.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 7
Porto Alegre (RS), 10/02/2013 Edição N° 17339
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

AMIZADE CINZA

Arte de Edward Wadsworth

Agora existem aplicativos no Facebook para transar com amigos. Dois novos serviços foram lançados no Brasil: Vai Pegar? (vaipegar.com) e Pegava Fácil (pegavafacil.com.br)
 
O usuário escolhe de sua lista de contatos com quem gostaria de fazer sexo. Se outro revelar a mesma vontade, ambos recebem mensagens de sinal verde do provedor.
 
De cupido, o Facebook assim vai se transformar em cafetão.

Era o que faltava: usar o amigo para segundas intenções, explorar a compreensão do amigo, banalizar a ternura do amigo, brincar com os sentimentos do amigo.
 
Tratar o amigo como encosto da carência, estepe sexual, suplente da cama, prostituta digital.
 
É a supremacia da indiferença e da preguiça. Uma enorme crueldade com quem deveria ser o nosso confidente.
 
Esses sites revelam perigoso desinteresse pela convivência. Ninguém mais se dispõe a perder tempo seduzindo, ninguém quer se esforçar para conquistar, ninguém deseja sair de casa e se decepcionar.
 
É o elogio ao sexo fácil, discreto e vazio. É o fim do romantismo, do olho no olho, do nervosismo delicioso.
 
Amar é de menos, os relacionamentos são compras virtuais, privilegiando a comodidade e a segurança.
 
Estão transformando a amizade em um mercado livre.
 
Para transar, é necessário apenas uma mensagem automática. Nada pessoal. Nenhuma conversa. Nenhum charme. Nenhum agrado.
 
Toda a responsabilidade da união é repassada ao Facebook.
 
Nos anos 60, amizade colorida. Hoje, amizade cinza.



Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (8/2) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Daniel Scola e Jocimar Farina:

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A MÁQUINA RECEBE JEAN WYLLYS

Em meu programa A Máquina, da TV Gazeta, o deputado federal pelo PSOL-RJ e vencedor do Big Brother Brasil 2005 Jean Wyllys lembrou a sua infância em Alagoinhas (BA), confessou suas tristezas amorosas e não mediu a lábia para caracterizar José Sarney ("um fóssil").

O encontro foi exibido na noite de terça-feira (5/2).

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

AFRODISÍACO

O quadril se entrega com uma rima? Os seios se rendem a um estribilho?

Meu quadro DRnaTV discute se a poesia é fiadora do sexo.

O programa da TVCOM foi exibido na noite de terça (5/2), com mediação de Sara Bodowsky e produção de Fernando Muniz.

UMA BEM DADA, E ACABOU

Arte de Eduardo Nasi




Se você quer uma, duas ou três numa noite, procure um adolescente, um jovem de menos de 30 anos.

Não eu. Não vou mentir que sou herói da volúpia. Minha fase epilética e vulcânica acabou. Tive meus momentos de aplicar a tríplice vacina e conservo a carteirinha de saúde com ternura.
O homem quando completa quatro décadas adere ao período performático.

Larga o passado velocista para economizar o fôlego. Não irá se expor a piques desnecessários.

Seu diferencial é o alto aproveitamento das raras chances de gol.

É uma bem dada, e acabou. Talvez enfrente morte súbita ou decisão de pênaltis em jogos decisivos, mas representam exceções, não leve em conta.

1 a 0 já são três pontos. Não competirá com a amante, ou humilhará os adversários com goleada.

É uma bem dada, o resto põe na conta dos espasmos, encenações, contrações.

Homem com quatro décadas é um ator da intimidade. Pisca para a câmera, tira a roupa com lentidão, discute o relacionamento, geme alto, finge ápices.

É o sexo com estilo. Mais caprichado, mais cênico.

É o sexo pensado, retórico.

É o sexo catimbeiro, com espiadelas no espelho e conversas laterais.

É o sexo reflexivo, com gentilezas e intervalos para pegar água gelada.

É o sexo intensivo, com massagens, preliminar e cafuné.

Homem de quarenta anos muda sua visão da cama. Incorpora o temperamento roleta-russa. Coloca uma bala no tambor, mira com firmeza e apenas atira com a certeza do tombo.

O quarentão não vai correr como louco, tem como virtude o posicionamento na pequena área. Está sempre em condições privilegiadas para receber e finalizar.

Aprendeu a controlar o orgasmo, e a se poupar ao orgasmo.

Ele acelera o clímax pelo desaforo, reduz com o elogio. Seu dom é a fala, mistura putaria com poesia ao ouvido:

— Minha vadia, sua respiração segue o ritmo da música ambiente. Não existe pele mais afinada.

A atitude é acrobática. Lembra um trapezista dos travesseiros, um domador de edredons.

Não é selvagem, aquilo de penetrar de pé e ejacular de susto, mas tampouco é desligado e indiferente. Dedica-se a obedecer ao ritmo feminino, a honrar os altos e baixos da montaria.

Seus pulos são calculados, profissionais, nunca cedendo ao risco de cãibras e torções.

Rebola com acento, beija com ênfase, prende o jogo, não tem pressa nenhuma. Desenvolve o pescoço e não cansa do bailado de barco.

O que ele deseja é gozar depois dela. Muito depois. Como um favor. Após tremenda súplica.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

NÃO DESISTAM DE VIVER

Arte de Lasar Segall

A vontade é de abandonar o trabalho, não acordar mais, definhar abraçado ao travesseiro, encolher-se no canto e não erguer nem mais o braço para atender a porta e pedir ajuda.
 
Nada tem mais sentido, e ordem.
 
A vontade é de não ter mais vontade.
 
Os filhos morreram, os irmãos morreram, os colegas morreram.
 
Eu entendo.
 
Entendo que vocês levantarão, sobressaltados, às duas horas de todas as madrugadas de suas existências, que haverá sempre uma sirene abrindo as ruas do sangue, que será insuportável raciocinar diante de um alarme dos bombeiros ou de ambulância lá fora.
 
Entendo que a casa está vazia, como a cidade está vazia, como o corpo está vazio.
 
Mas não podemos chorar a morte dos familiares se não valorizarmos nossa vida.
 
Entendo que não será mais a vida idealizada, não será mais a vida planejada, não será mais a vida que merecíamos.
 
Mas ainda que seja uma vida desesperada, uma vida atormentada, uma vida traumatizada, ainda é a nossa vida.
 
Ainda é a vida que ficou.
 
Ainda a vida que temos que cuidar.
 
Ainda é a vida que temos que salvar.
 
Afinal, nossa vida era tudo o que a gente pretendia assegurar para eles que se foram na boate Kiss.
 
Gostaríamos que os duzentos e trinta e sete jovens estivessem com a gente, então não podemos nos jogar fora. Não podemos esnobar a chance de estar aqui.
 
Continuar a viver é preservá-los.
 
Continuar a viver é sabedoria.
 
Continuar a viver é fé.
 
Continuar a viver é humildade.
 
Continuar a viver é respeito: é não ser mais vítima do que as vítimas, por mais que doa doer o dia inteiro.
 
É imperioso cortar o cordão umbilical da Rua dos Andradas, abolir as hipóteses: se eu tivesse proibido meu filho de sair, se eu tivesse viajado com a família, se eu tivesse telefonado antes, se eu tivesse sido mais rigoroso...
 
O “se” não devolve o que perdemos, nem diminui o sofrimento.
 
A culpa não deve abafar a justiça, o medo não deve sufocar a esperança.
 
Não há como controlar o destino. A tragédia não aconteceu porque vocês falharam. Vocês, familiares, não teriam como evitá-la.
 
O que sobra é amar a si para explicar o que é amor, para explicar o que é saudade.
 
O que nos resta é a responsabilidade de lembrá-los com garra. De lavar as escadarias das igrejas com flores. De ir adiante para que esse incêndio criminoso nunca mais se repita em nenhum lugar do mundo deste Brasil.
 
Que nossos filhos de Santa Maria jamais morram para a História.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 05/02/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17334

MÁGICO COTONETE


Compro e compro e sempre acaba.

O cotonete.

Levo três mil cotonetes. Um capacete de cotonetes. Um baú de cotonetes. Um pavilhão de cotonetes. Quando vou usar, não tem mais nada. Saio do banheiro pingando de raiva, com a orelha molhada.

Questiono a família e ninguém foi tomado de nenhuma urgência.

Em um mês, os cotonetes desapareceram. Calculando quatro por dia X quatro pessoas de casa, o resultado é 496 cotonetes.

Não há lógica no gasto de três mil cotonetes.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (05/02) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Daniel Scola e Jocimar Farina:
 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

VALE A PENA VER DE NOVO
Arte de Paul Delvaux

“Querido Fabrício! Amor tem reprise? Vale a pena ver de novo? Estou apaixonada pelo ex. Depois de três anos longe e muitos relacionamentos de ambos, nos reencontramos há dois meses numa festa. O beijo foi da primeira vez, uma loucura! Porque não tivemos recaídas antes, jamais tínhamos ficado. Agora a paixão veio com tudo, acrescidas das neuras que fizeram o término da união. O que fazer? Beijo Catherine”

Querida Catherine,
 
Há uma morte separando vocês. Uma morte emocional. Por isso você o chamou de fantasma. Para uma relação funcionar pela segunda vez, é necessário absorver o que falhou na primeira vez.
 
Uma possível reaproximação reeditará as brigas e os ressentimentos. É voltar a ficar junto que os vícios da relação retornam com o dobro de força. O ciúme de antes crescerá em possessividade. A preguiça de antes resultará em marasmo. A distância agrava os defeitos, como se ambos houvessem traído o romance neste intervalo todo. Não menospreze as represálias dos órfãos amorosos.
 
Temos uma profunda dificuldade para perdoar divórcios e abandonos. Não procuramos o amor, mas a perfeição.
 
Não entendemos que um deslize não abole aquilo que foi bom no passado. Não é porque a pessoa errou num momento que errou sempre. Não é porque mentiu de repente que mentirá sempre.
 
Somos justiceiros mais do que compreensivos. A gente não perdoa para se mostrar superior. Você acha que o credor quer que o endividado pague sua pendência? Não, ele deseja humilhá-lo. Deseja torturá-lo. É seu canal de catarse.
 
O único modo de dar certo seu amor pelo ex é destruir a intimidade anterior, quebrar os modelos, os moldes. Jamais dizer “eu te conheço”. Não conhece mais, não. Depois de uma separação, todos se transformam. Uns ficam mais amargos, outros mais humildes. Os dois passaram por namoros, adquiriram hábitos diferentes, amadureceram a sexualidade, cicatrizaram lembranças.
 
Deve começar a relação do zero. O que é quase impossível, a situação pede uma paciência de desconhecidos. Do zero mesmo. Sem cobrança. Sem fiadores. Retomar pelas perguntas mais triviais: o que ele assiste, vê, lê, faz. Não reprisar filmes e rever fotografias dos tempos felizes. Não repetir viagens e lugares prediletos. Não reutilizar os apelidos mimosos e os beiços.
 
Esquece que você sabe o que ele gosta. Não compara, não cruza informações. O pior que pode acontecer é testá-lo: para ver se ele mudou ou continua igual. Estará daí analisando, jamais experimentando.
 
Existe um grande risco de trai-lo com ele de três anos atrás. Raciocine que é um novo beijo, um novo livro. E com novos autores também.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 03/02/2013 Edição N° 17332
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O QUE FAZ O HOMEM PERDER A CARTEIRA DO CTG?




Arte de Vasco Prado

— Quando sua mala pesa mais de 20 quilos, já é mala de mulher.

— Quando você lê cardápio em churrascaria.

— Quando você usa álcool ou secador de cabelo para fazer churrasco.

— Quando você tem uma necessàire de creminhos.

— Quando fica horas no telefone com amigos. Telefone para macho é somente para dar recado.

— Quando você toma banho com sabonete líquido.

— Quando você pega a manta emprestada da mulher.

— Quando você põe piercing no umbigo.

— Quando você combina o sapato com o cinto.

— Quando você depila os peitos. Quando você fala os peitos em vez de peito.

— Quando você arruma as sobrancelhas.

— Quando sua esposa pede para você comprar primer e não pergunta o que é.

— Quando você chora assistindo a reprise de O Casamento de Meu Melhor Amigo.

— Quando você troca pneu com luva.

— Quando você toma caipirinha com canudo.

— Quando você usa você, não mais tu.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (1º/2) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: