sábado, 9 de março de 2013

PAIS DESATENTOS

Arte de Paul Klee

É triste a frase "Não tenho com quem deixar".
 
Quando uma mãe ou um pai fala "Não tenho com quem deixar meu filho" a um parente não pensa no peso dessa frase. Na carga negativa dessa frase. Nas consequências danosas dessa frase.
 
Ninguém diz por mal, eu sei, mas é uma expressão que dói na criança. O pai ou a mãe pretendem sair ou precisam trabalhar e lamentam a ausência de ajuda no cuidado do bebê.
 
Mas é fundamental criar outras palavras. O filho se sente um estorvo. Um embargo. Um incômodo. Um problema. Parece que ele está atrapalhando o ritmo de casa, a rotina da família.
 
"Não tenho com quem deixar" é um apelo infeliz, que revela que os pais querem fazer outra coisa que não cuidar ou estar com o filho.
 
Instala a culpa no pequeno. Ele se percebe rejeitado por quem mais ama.
 
Participa de uma tele-entrega fracassada.
 
O filho se vê passado adiante, escanteado.
É criar de repente um orfanato dentro de casa.
 
Se o filho escuta essa frase e fica depois com a babá, não duvide que ele inventará um inferno nas próximas horas. Vai se vingar com gritos, manhas e choradeira. Vai reagir ao golpe duro, vai se indispor a impressão de ser um objeto.

Ouça meu comentário na manhã de sábado (9/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Jocimar Farina e Andressa Xavier:
 

sexta-feira, 8 de março de 2013

AVISOS IGNORADOS

Arte de El Greco

Há sempre aquela frase fatal, véspera do vexame, que antecede nossos piores momentos. São sentenças que anunciam que você irá se ferrar. Jamais alguém se deu bem depois delas.
 
1) Quando você está na praia, após passar protetor em todos os filhos, de fincar o guarda-sol e montar o acampamento, você olha o céu e diz:
 
- É só uma nuvem!
 
Mais do que certo que vai cair o dilúvio da Arca de Noé.
 
2) Quando você está no engarrafamento, realiza uma manobra para direita, vê uma fresta entre dois carros e diz:
 
- Passa fácil!
 
Mais do que certo que você vai bater o carro ou levar o retrovisor do outro.
 
3) Quando você está numa festa de criança, aproxima-se da mesa de doces e diz:
 
- Vou comer apenas um!
 
Mais do que certo que você vai devorar a bandejinha e engordar dois quilos de culpa.
 
4) Quando você está saindo de um jantar com amigos e diz:
 
- Bebi só um pouquinho.
 
Mais do que certo que você não vai passar no teste do bafômetro.
 
5) Quando você está cozinhando e diz para alguém totalmente distraído da família:
 
- Cuida pra mim!
 
Mais do que certo que a comida vai queimar. 
 
6) Quando você começa uma relação e diz:
 
- Não vou me envolver!
 
Mais do que certo que você vai se apaixonar, perder a cabeça e sofrer de amor como nunca antes.
Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (8/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:
  

quarta-feira, 6 de março de 2013

BINGO!

Arte de Eduardo Nasi 
Meu amigo está deprimido.

Ele jamais dirá que está deprimido, mas chateado.

Chateado é seu maior desespero.

Homem é repleto de eufemismos, de atalhos, de contenções.

Meu amigo jamais chora. Ele funga.

Fungar é seu choro. Fungar é o choro de todo macho.

Fungar é mais veemente do que a lágrima. É uma lágrima madura, que virou respiração de novo.

Meu amigo não fala direto o que incomoda, ele reclama do time, do trabalho, do tempo, para confessar a verdadeira tristeza apenas no finalzinho da ligação, daí ele se despede.

Nunca mais tocaremos no assunto. Mas ele conseguiu falar. Conseguiu dizer, e é o que basta entre dois homens.

Dois homens são amigos sem explicar suas dores.

Dois amigos se curam mais bebendo junto do que solucionando os problemas.

Meu amigo está deprimido, ele lembrou da infância.  A infância é o esqueleto da voz.

Retornar à infância, boa ou ruim, é decisivo para qualquer homem.

Confirma o estado melancólico, é o pôr-do-sol da dicção do adulto.

Quando meu amigo evoca seus tempos de menino é que está derrubado.

Voltou a ser frágil, voltou a ser filho obediente do silêncio, voltou a chutar geada.

Ele me contou como entristeceu.

Estava jantando no refeitório da empresa, e passou a escolher os grãos de feijão quebrados para pôr na boca. Colocava os inteiros de lado, e devorava somente os amassados, murchos, quebrados.

Repetia gesto de criança, sua compaixão com o que era torto.

Ele me sussurrava ao telefone e fungava. Quando o homem fala baixo está gritando.

Ele recordou que ajudava a mãe a separar feijão no alguidar. E não descartava nenhuma das pedras. Nenhuma suficientemente defeituosa para o descarte. Porque as pedras pretas tinham um rosto.

Criança enxerga o rosto em tudo para ter companhia para chorar.

Ele me falava ao telefone e fungava. Suas pausas longas eram também palavras.

Depois jogava bingo com o feijão. A partida com os dois irmãos durava quarenta minutos. A mãe vinha e despejava o tabuleiro na panela.

Os mesmos grãos da brincadeira eram os grãos de sua fome.

Meu amigo passou a infância comendo sua sorte.

E, no fim, entendi que ele só estava com vontade de ganhar sua família de volta.




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
 

terça-feira, 5 de março de 2013

TODO CUIDADO É MUITO

Arte de Marcel Duchmap

Ela disse sim. Você somente tem que dirigir ao motel e não estragar a excitação.
 
Fica indeciso entre puxar ou não puxar conversa. Não fale nada mesmo. É um período tenso, minutos nos quais um beijo vale mais do que mil palavras.
 
Antes da transa, todo mundo é carente, sensível, atento, telepata. O remorso dorme no desejo e sofre de sono leve.
 
As respirações dentro do carro já estão cortadas, fatiadas. O negócio é segurar o clima até o quarto. Não se arrisque com frases de efeito e piadas. Faça um carinho, segure na mão, a pele é o único caminho seguro que existe depois do gemido.
 
Ela pode se arrepender, voltar atrás e pedir para que você a leve para casa. Não dê tempo para pensar. O pecado abomina pausas.
 
Controle ansiedade, procure o equilíbrio oriental (o todo, não a metade da metade que é cada oposto) e jamais, mas jamais, realize o jogo dos sete erros, uma série de atos altamente broxantes:
 
1) Não ligue o rádio, principalmente em AM, com as últimas notícias da ronda policial e das votações do Senado.
 
2) Não ponha suas músicas prediletas e cante alto. Ela não pediu para ir a um karaokê. É muita intimidade vê-lo gritar Joe Cocker de olhos fechados.
 
3) Fuja de engarrafamento. É fácil desistir preso na primeira e segunda marcha durante dois quilômetros. Ela baterá em seus ombros e comentará com compaixão: “Deixa para a próxima”. Saiba que não existe próxima. É um eufemismo para “nunca mais, querido”.
 
4) Não é hora de abastecer. Entrar em posto de gasolina mata o prazer. Ainda que seja gasolina aditivada. Melhor parar no acostamento com tanque vazio do que perder sua companhia. Frentista lembra família. Se um dos dois estiver traindo, não terá condições psicológicas de seguir em frente.
 
5) Não diga “só um minuto” para um pulinho na farmácia. Transar é como uma longa viagem, check-list deve ser feito com antecedência.
 
6) Não atenda telefone. Conversar com mãe ou filho na véspera do sexo não rende bons fluidos. Interrompe a saudável circulação das fantasias eróticas.
 
7) Não discuta com a atendente do motel sobre o acréscimo de R$ 20 entre um quarto com banheira de hidromassagem e outro sem. Não seja avarento. Tampouco é o momento de ouvir uma aula sobre as diferenças entre Super Luxo, Luxo, Suíte Tropical, Mini Suíte, Suíte Embaixador e Suíte Imperial. Escolha um quarto rápido. Para não errar, selecione umas das ofertas do meio da lista, nem suntuosa, nem ralé.
 
O portão abriu. Garantiu o sexo, isso se não apagar o carro ao estacionar na garagem.
 
 



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 05/03/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17362

DESAFIO FALSO

Arte de Marcel Duchamp

Se algum amigo me convida para uma partida de sinuca e fala que é craque, já sei que não joga nada.
 
Jogador bom não canta vitória antes. Esconde o dom, é um pouco tímido, envergonhado de sua habilidade.
 
Avisa que joga mais ou menos ou que dá para o gasto.
 
Não acredite em quem se elogia demais.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (5/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:


segunda-feira, 4 de março de 2013

A MÁQUINA RECEBE NEGRA LI

Liberdade é uma necessidade.
 
A cantora Negra Li conta como ganhou a rua e o palco em meu programa A Máquina, da TV Gazeta.
 
Confessa o quanto mudou depois de ser mãe e do que pretende com sua mutação musical, do hip hop à MPB.
 
A exibição aconteceu na noite de terça-feira (26/2).
 



domingo, 3 de março de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

"MEU AMIGO VEM SENDO CORNEADO, AVISO?"
Arte de Hannah Höch

“Tenho um amigo que namora uma menina um pouco fora dos padrões de beleza (ela pesa uns 120 quilos e mede 1m65cm). Acho que deves imaginar a figura! Mas o detalhe é que, mesmo desse tamanho, ela está traindo ele. Coitado, ele está feliz com ela. Acho que se ele descobrisse ficaria muito triste. Daí estou nesse dilema: não conto para ele e deixo ele viver essa felicidade. Ou conto e faço com que parem com as brincadeiras que fazem pelas costas do rapaz, dizendo que ele já tem vaga garantida no Rodeio de Barretos. Beijo, Bete”

Querida Bete,
 
Não há sentido em denunciar a infidelidade de amigos, seja contra, seja a favor.
 
É invasão de privacidade. Dificulta a reconciliação pois pressiona a tomada de uma punição social. O traído é condicionado a se separar para não ser taxado de idiota entre os familiares e conhecidos.
 
Perdoar ou não a traição é uma decisão pessoal corajosa. Não deve ser influenciada por fatores externos. Depende da história do casal, do envolvimento, do pacto de confiança e lealdade. O silêncio colabora para a cicatrização. Muitas vezes quem é traído já sabe e está elaborando uma maneira de abrir o jogo com a infiel. A intromissão alheia pode modificar as intenções. Cada um tem seu tempo, sua medida, sua tolerância.
 
Sob o pretexto de aliviar o colega da roubada, acentuará a tensão do julgamento.
 
Tampouco contaria para não perder a amizade. Ficará estigmatizada pela fofoca. Ele vai se afastar de você já que estará ligada a uma vergonha do passado. Todo mensageiro de infortúnio acaba recebendo a pecha de agourento. O hábito é se distanciar da pessoa como forma de se proteger do trauma.
 
Mas vejo que a raiz do dilema é outra. Ama seu amigo e torce pelo término da relação. Não está se controlando para entregar a moça e estragar a alegria da dupla.
 
Trabalha o caos como sua grande chance de investida amorosa. Quer transformar a tragédia em triunfo da esperança. Busca revelar o infortúnio, consolar e substituir a namorada. Mas a função de desmascarar jamais recebe recompensa masculina, apenas descrédito.
 
Nem consegue disfarçar o tamanho do seu sarcasmo (sarcasmo é felicidade do mal). Seu tom é de deboche, de ferrenho preconceito, como se ele não pudesse namorar alguém com 120 quilos e 1m65cm. Ataca a aparência dela gratuitamente. Ele já teria escolhido errado desde o princípio, experimentando uma cegueira dupla (de imagem e caráter). Manteria uma história com uma mulher feia, gorda, que não combina com sua personalidade. É o mesmo que desabafar:
 
– Eu sou muito melhor, por que ele não está comigo?
 
A inveja é ciúme. Avacalhando sua atual parceira reforça a disseminação das brincadeiras nas costas do coitado.
 
Se ele é um touro no Rodeio de Barretos, qual seria seu papel?
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 03/03/2013 Edição N° 17360
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sábado, 2 de março de 2013

LINDA E MALHADA, MÔNICA É DENTISTA E MELHOR AMIGA DE CEBOLINHA

Como seria a personagem de Maurício de Sousa aos cinquenta anos

Mônica Sousa é dentista e atende em seu consultório na Lapa, em São Paulo. Seus dentes alinhados desafiam sua infância, nem parece a menina dentuça, de vestido vermelho e que respirava de boca aberta.
 
Está separada após três casamentos. Viveu com um veterinário que cuidou da velhice do Bidu e Floquinho, depois se engraçou com um jogador de futebol do Juventus, time da Segunda Divisão Paulista e, por último, se apaixonou por um DJ.
 
Linda, malhada, seu único problema são os fios grossos e indóceis. O cabelo banana, escorregadio, que a incomoda desde pequena. O jeito foi mantê-lo curto para sempre.
 
No fim de semana, assiste às cinco temporadas de Mad Men, que se passa na agência de publicidade fictícia Sterling Cooper. Acompanha muitos dos episódios com Cebolinha (Carlos Alberto), ex-namorado da adolescência e seu melhor amigo, que assumiu ser gay aos trinta anos e se casou com Franjinha, engenheiro de computação. Mônica e Cebolinha são confidentes e trocam impressões sobre tudo (moda, relacionamentos, gastronomia).
 
Sua principal bandeira é a ONG Dalila, de proteção de cachorros. Ela recolhe animais maltratados na rua, cuida, castra e encontra famílias dispostas a adotá-los.
 
Folha de São Paulo
Ilustrada, P. 3
Domingo, 03/03/2013

ANTECIPAÇÃO FATAL

Arte de Marc Chagall

Na concepção de Danuza Leão, só faltava um detalhe para a igualdade dos sexos: a mulher pedir o homem em casamento.
 
Já acabou então, a mulher começou a encarar a tarefa. A última fronteira ruiu. Amigos sofreram o ataque amoroso, de surpresa, e me descreveram o relato.
 
O homem está ferrado. Não poderia ceder o espaço, passar o cetro adiante, renunciar o cargo. Porque a mulher pede com a lista de convidados pronta. Pede com a melhor aliança, de 18 quilates, na caixinha felpuda. Porque a mulher não economiza em nada na joalheria, não é avarenta no amor, não se engana com números e datas.
 
Pede, e não vai colocar o anel no uísque ou na cerveja para correr riscos desnecessários.  Pede armando o melhor enredo romântico. Pede com a festa pronta, com o vestido de noiva escolhido.  Pede com a igreja definida, com os amigos desordeiros do noivo barrados da cerimônia. Pede com os nomes dos padrinhos eleitos, com os nomes dos filhos sacramentados.
 
Não existe erro feminino. Elas têm domínio do assunto. Pedem com a certidão civil preenchida e ainda colocam um x para marcar onde devemos assinar.
 
A mulher aprendeu a pedir o homem em casamento. Agora só falta o homem aprender a dizer sim.

Ouça meu comentário na manhã de sábado (2/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Daniel Scola e Andressa Xavier:
 

sexta-feira, 1 de março de 2013

NECESSÁRIO DIZER

Arte de Antonio Pollaiuolo

Pretende ter um homem para chamar de seu? Renove seu vocabulário. Procure um sinônimo que não traga insegurança e medo da concorrência.

Homem é filho único do amor. Homem gosta de se se sentir necessário mais do que amado.

Não diga que é “melhor um pequeno brincalhão do que um grande bobalhão”, diga que seu equipamento é inesquecível.

Não diga que ele só pensa em trabalho, diga que ele é bem-sucedido.

Não diga que ele é grosseiro, diga que ele é selvagem.

Não diga que ele é tarado, diga que ele é saudável.

Não diga que ele complica, diga que ele exagera.

Não diga que ele é velho, diga que ele sabe tudo.

Não diga que ele é esquecido, diga que ele é distraído.

Não diga que ele é avarento, diga que ele é econômico.

Não diga que ele é um fracassado, diga que ele é humilde.

Não diga que ele é feio, diga que ele é sedutor.

Não diga que ele é simpático, diga que ele é charmoso.

Não diga que é prepotente, diga que ele é influente.

Não diga que ele é cafona, diga que ele tem estilo próprio.

Não diga que ele dirige mal, diga que ele é cauteloso.

Não diga que ele é chato, diga que ele não pára quieto.

E não diga nada durante o futebol, apenas durante o futebol.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (1º/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola: