sábado, 6 de abril de 2013

O FUTEBOL E A HUMILDADE DO APELIDO




Meu amigo Francisco Bosco concluiu que o grande problema do atacante brasileiro hoje é a falta de apelido.

No passado, centroavante precisava de apelido curto, rápido, afetuoso. 

Ele se livrava da marcação já na nomeação. 

Bira, Pelé, Iuri, Dadá, Zico, Didi...

Agora a maior parte dos atacantes tem nome empresarial, nome artístico, composto.

Leandro Damião. Marcelo Moreno. Vitor Júnior. Rafael Moura... 

O nome composto era antes exclusividade de zagueiro, feito para assustar. Impor respeito. 

Mauro Galvão. Hugo de Léon.  

Coitado dos locutores.

Ouça o que falei na manhã de sábado (6/4) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Fernando Zanuzo e Alessandra Xavier:

sexta-feira, 5 de abril de 2013

RARO COMO O AMOR


Arte de Matisse

Amigo mesmo demora a ser descoberto. Sua permanência depende de seus conselhos.

Amigo mesmo é um irmão que também foi nosso pai e nossa mãe.

Amigo mesmo é tão raro quanto o amor.

Teremos um ou dois ou três em nossa longa estrada.

Amigo mesmo não é o que bebe junto, é o que permanece ao nosso lado depois da ressaca.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (5/4) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Fernando Zanuzo:

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A GINGA DO PENSAMENTO



Francisco Bosco é um cronista do ensaio. O melhor da nova geração. Um Manuel Bandeira da argumentação. Sempre está um passo atrás de sua época para poder enxergá-la. Sempre está um passo à frente de si mesmo para não acompanhar os preconceitos do seu tempo.

Lança sexta-feira, na Capital, o indiscutivelmente belo Alta Ajuda, que defende a força do pensamento negativo na solução de nossos problemas. Empreende uma campanha de ascese pessimista. Só podemos vencer os obstáculos e condicionamentos à base de muita fúria. A consolação apenas nos leva à resignação: esperar é não agir. Já o azedume rompe o muro. Ninguém discorda de um chato. A libertação pela chatice é uma jogada de irreverência inteligente. O chato é aquele que se desprende do medo dos outros. Do inferno sartreano de se submeter à vontade alheia.

Natural do Rio de Janeiro, poeta, compositor, colunista do jornal O Globo, Bosco, 37 anos, não tem nenhum traço antipático: é um sujeito carregado de carisma, descolado e erudito, com uma coragem jovem e uma curiosidade antiga. Paradoxal (contraditório nunca), transformou o ensaio em conversa de boteco. Faz grandes debates para pequenos temas. Para ele, não existe nada banal, o que existe é olhar preguiçoso. Espanta o hermetismo próprio do ensaio pela leveza solar da prosa bem escrita, articulada e humorada. Sua tática é manipular confissões. E acerta com sua intimidade didática. Prova que a reflexão deve se ajustar à emoção, e toda isenção é sinal de falsidade. Emoldura com análise minuciosas situações aparentemente simples, mas que se revelam complexas.

Todo texto começa com um comentário biográfico. A cilada se revela perspicaz, não tem como não ceder espaço para sua lábia. Ele une o testemunho com o testamento. O tom ameno sugere que é uma manifestação incômoda, de alguém que vai criticar a superficialidade das relações na web. Mas ele é um miniaturista do avesso. Aproveita sua incompetência digital para se surpreender e elogiar a forma sem conteúdo das redes sociais. Pois não precisa se cobrar por ser escritor, pode descansar do papel e também usufruir dos memes.

Alta Ajuda é uma ópera de supermercado, é Brecht da feira de frutas, é Lacan do estádio de futebol. O alto e o baixo se abraçam como irmãos de abismo. Como não acreditar em quem diz que gosta de gente depois das oito da noite e três cervejas? Ou que conclui que seus confidentes são aqueles com quem não precisa beber?

Estreia da nova editora Foz capitaneada por Isa Pessoa, o volume negro alarga a existência cotidiana por diferentes perspectivas. O autor carioca é um astuto do incômodo. É capaz de colocar numa mesa de igual para igual Freud e Noel Rosa. Minto, de igual para igual jamais, Noel Rosa ganhará o bate-papo. E o jogo da porrinha.

Serviço
Bate-papo Francisco Bosco e Fabrício Carpinejar
Autógrafos de Alta Ajuda
Sexta-feira (5/4), 19h30
Livraria Cultura de Porto Alegre
(Av. Túlio de Rose, 80)

Publicado no jornal Zero Hora
Segundo Caderno, p.6
Porto Alegre, 3/4/13

ALIENAÇÃO AMOROSA


Arte de Eduardo Nasi

Não aceite que um casal de apaixonados entre em seu restaurante.

Vete o ingresso. Permita apenas a reserva de quem tem mais de três meses de relação.

Coloque um anúncio no jornal. Crie uma campanha preventiva. Peça apoio do sindicato.

Um casal de apaixonados traz prejuízo para seu negócio. Arruína o delicado equilíbrio entre custo e benefício. Instala o pânico entre os manobristas.

Terá que pagar hora-extra aos funcionários, aguentar os resmungos do caixa, os desaforos do cozinheiro.

O casal apaixonado é o último a deixar o restaurante. Ele inclusive esquece que está num restaurante.

Entra no local lotado, com as mesas ocupadas e não repara que os vizinhos vão se despedindo e pedindo a conta.

A sensação dos dois é que experimentaram alguns instantes de conversa, mas ela já durou quatro horas.

O apaixonado demora um século para escolher a entrada, come a entrada e lembra do vinho, demora mais outro século para escolher o vinho, toma o vinho e lembra do prato principal, demora mais um outro século para escolher o prato principal, e mais séculos e séculos para sobremesa e café.

Com medo de desagradar, eles repassam generosamente a responsabilidade:

— Pode escolher.

— Não, pode escolher.

— Pode escolher.

— Não, escolhe você.

Não há como ter um orçamento participativo com apaixonados. Eles não decidem nada, apenas ficam rindo.

O lugar esvazia e o menu não evolui. É como um namoro entre Antonio Conselheiro e Jacobina Maurer, entre o transe e a alucinação.

O par será convidado indiretamente a sair, senão permaneceria no salão esperando o amanhecer. O crepúsculo é o único despertador do apaixonado.

O casal é anticomercial, é antiempresarial.

Mesmo com a pressão, as cadeiras subindo em cima da mesa, ele se beija e se dedica cochichos como se nada estivesse acontecendo de anormal.

A casa vira uma churrascaria, um rodízio de espetos invisíveis, com garçons aparecendo a cada cinco minutos e o duo nem se mexe.

Todo casal de apaixonados é alienado, destrambelhado e inoportuno.

E nem entendo o que ele faz em um restaurante. Casal de apaixonados não tem fome.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
 

terça-feira, 2 de abril de 2013

DANE-SE A FILA


Arte de Tristan Tzara

O que sou não deve ser regra de convivência. O que sou morre comigo.

Descobri que amar não é fazer com que o outro siga meu ritmo insano.

Isso é ditadura.

Amar não é puxar a namorada para o nosso fôlego, não é arrancá-la de seu temperamento e forçar semelhanças.

Isso é indiferença.

Amar não é punir atrasos e castigar descompassos.

Isso é tortura.

Amar não é ameaçar com frases egoístas como “A fila anda”. É o contrário: é perder o lugar na fila, é ceder seu lugar na fila, é regressar ao início da fila.

Amar é estranhamente recuar. É encurtar as pernas para melhor passear, alongar os braços para melhor entrelaçar os dedos.

O apaixonado não impõe seu temperamento, acostuma-se a caminhar diferente, olhando ao lado. O lado passa a ser a nossa frente. Quem nos ladeia é o nosso horizonte.

Surgirá um contratempo de sua companhia, uma dificuldade inesperada e se verá contrariando seus planos para ajudar – só tem pressa quem não tem urgência.

Amar é proteger mais do que avançar, é cuidar mais do que atingir objetivos, é apoiar mais do que se vangloriar da distância.

Foi a minha avó Mafalda que me explicou. Ficava muito irritado pelo seu trotear na Rua Corte Real. Era velhinha, manca e, além de tudo, distraída. Ela me obrigava a

participar de sua andança fisioterápica depois do almoço. Um quarteirão correspondia a queimar calorias de quatro quilômetros.

– Meu neto, é bom acompanhar um familiar doente, pois amar é ir aos poucos, é lentidão por fora e interesse por dentro – ela dizia.

Não fazia lógica para mim. Amar parecia voar, correr, atropelar. Amar significava velocidade, superação, afoiteza. Amar traduzia liberdade, transgressão, não se

intimidar com os limites.

Eu me enganei, vó.

Seu andar miúdo, pequeno, de bengala, pesando cada pé no chão, me ofereceu uma aula emocional.

Nenhum casal corre de mãos dadas.

Amar é aguardar se necessário, voltar atrás se preciso, criar um novo passo para atender os dois.

Se fui apressado para conquistar minha mulher, agora devo ser lento, estar com ela é meu destino.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 02/04/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17390

A MULHER CERTA


Arte de Francis Picabia

Você somente se apaixona pela mulher que lhe tira do sério.

Você somente se apaixona pela mulher que vive brigando.

Você somente se apaixona pela mulher que sabe provocá-lo.

Você somente se apaixona pela mulher que desafia sua opinião.

Você somente se apaixona pela mulher que leva desaforo para sua casa.

Você somente se apaixona pela mulher que não pode dominar ou convencer.

Você somente se apaixona pela mulher que faz tudo diferente de sua mãe.

Você somente se apaixona pela mulher que jamais entende, que é um mistério, que é motivo de metade da conversa com seu terapeuta. 

Você somente se apaixona pela mulher que teima com sua memória.

Você somente se apaixona pela mulher que tem a coragem de ser espontânea, não se acovarda com o que os outros vão pensar.

Você somente se apaixona pela mulher que derruba suas mentiras.  

Você somente se apaixona pela mulher que conhece todos os seus segredos. 

Você somente se apaixona pela mulher que cala sua boca com um beijo.

Você somente se apaixona pela mulher que não tem medo de criticá-lo.

Você somente se apaixona pela mulher que implica quando começa a beber e pede para ir embora quando a festa estava ficando boa.

Você somente se apaixona pela pessoa errada. 

A mulher de sua vida é a melhor de suas inimigas. Como não consegue vencê-la, traz para seu lado. 

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (2/4) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A MÁQUINA RECEBE CARLOS NASCIMENTO

O jornalista Carlos Nascimento é um homem de palavra.

Ele sentencia como o politicamente correto prejudica as piadas e nos torna mais preconceituosos.

A entrevista aconteceu no meu programa A Máquina, da TV Gazeta, na noite de terça-feira (26/3).


A MÁQUINA RECEBE BIRA

Ubirajara Penacho dos Reis, atua com seu baixo e sua risada no do Sexteto do Jô.

Tem 32 pinos de titânio no rosto e chora a saudade dos pais.

A Máquina é um poderoso divã.

O encontro aconteceu na noite de terça-feira (19/3), na TV Gazeta.

domingo, 31 de março de 2013

O OCEANO E UMA CONCHINHA

Arte de Fatturi


Encontrei uma senhora com sacolas de mercado subindo as escadas do hospital.

Perguntei se poderia ajudar. Minha mãe sempre me ensinou que não custa nada ser educado.

Carreguei as sacolas até o terceiro andar. Ela se despediu com um beijo em minha testa.

– Vá com Deus, meu anjo.

Fiquei levemente encabulado, minha testa estava úmida, e ela secou meu suor com seu beijo.

Içara, soube mais tarde, acompanhava seu marido André.

Ele tem câncer em estado avançado, metástase nos ossos. Situação grave.

Os dois partilham um casamento de 30 anos. São amigos de minha amiga Cíntia Moscovich.

Já testemunhei o casal abraçado, tomando vinho, comendo risoto, cantando músicas em bar no Moinhos de Vento.

Não lembrei de sua feição na hora. Quando ofereci ajuda, jurei que era uma estranha.

Mostrava-se toda abatida, acuada pela tristeza, as olheiras de coador de café.

Eu me desculpei quando a revi subindo a ladeira da Ramiro Barcelos. Expliquei que não a reconheci naquele dia.

Ela concordou comigo.

– Tampouco me reconheço, querido.

Sua simplicidade, sua humildade, sua honestidade me desarmaram.

Já não queria carregar suas sacolas, mas seus olhos.

Içara sofre monstruosidades. Sofre essa viuvez devagar. Essa viuvez vindo. Essa viuvez injusta informando seu coração pouco a pouco da tragédia.

Içara vive sendo enganada pela esperança e não desiste de acordar, dormir, acordar, dormir.

Com a fé exausta, me encarou profundamente. Colocou as mãos em meus ombros e pediu para que eu rezasse por uma coisa.

Uma única coisa. Nem era capaz de pedir para seu marido melhorar. Nem era capaz de suplicar o retorno da rotina.

Nem era doida de encomendar milagre, de que eles possam viajar para Grécia, admirar os afrescos da Itália, partilhar novamente de música, gastronomia e literatura.

Içara pede uma só coisa, uma só coisinha: dormir mais uma noite de conchinha com seu marido. Uma só noite soletrando a respiração do seu homem.

Uma só noite com as pernas entrelaçadas, as cabeças encostadas para igual horizonte. Uma só noite com a paz dos lençóis de casa e os travesseiros lavados. Uma só noite despertando ao mesmo tempo, com a mesma vontade de mate e varanda.

Só dormir de conchinha mais uma vez. Uma noite fora do hospital, do soro, do medo de morrer.

Uma noite absolutamente normal. A normalidade no amor é a perfeição.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 31/03/2013 Edição N° 17388

quinta-feira, 28 de março de 2013

PORTO DOS CASAIS

Como Porto Alegre ajuda o amor?

Qual o lugar da cidade que te faz querer beijar alguém?

Uma coisa é certa: o viaduto da Borges é o local ideal para gerar uma briga.

Confira as teorias porto-alegrenses em meu quadro DRnaTV, da TVCOM, com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.

A exibição ocorreu na noite de terça-feira (26/3).