terça-feira, 30 de abril de 2013

SOU UM ASPIRADOR DE PÓ

Arte de Peter Blake

Se quiser me ofender, terá trabalho.

Não facilito a vida do agressor.

Ele vai suar frio, passar sufoco, esclarecer questões, explicar posicionamentos.

Não sairei de cena chorando logo que ganhar um desaforo. Não aceitarei o figurino de vítima. Não me farei de coitadinho. Não me trancarei no quarto. Não evitarei o convívio.

Sou muito escolado em bullying para acolher rapidamente desaforo. Só eu mesmo posso me ofender e me perdoar – mais ninguém.

É o que todos deveriam pensar antes de sofrer.

O debochado não tem repertório. Ele guarda uma ou duas tiradas engraçadas que podem ser rebatidas com a autocrítica e inteligência.

Não se veja derrotado no início do jogo, não se enxergue constrangido por antecedência.

No Ensino Fundamental, na abertura das aulas, Marquinhos, líder da bagunça e das baixarias, buscou me humilhar na frente dos colegas. Quando a professora abandonou a sala para repor o giz, aproveitou a ausência e se aproximou de minha mesa.

Ele me analisou, analisou e despejou o veredito:

– Você tem cara de “aspirador de pó”.

O novo apelido vinha do nariz avantajado. Era uma versão doméstica para tamanduá.

Pronto: a turma inteira gargalhava alto de mim. A investida sugeria uma desmoralização do nome e sobrenome dali por diante.

Mas engoli a vergonha como uma aspirina a seco. Respirei fundo. E, de modo inédito, diferente de todas as vezes que me tolhi e me escondi, que fechei meu rosto nos braços, decidi responder. Concordei com a observação.

– Sim, eu sou um aspirador de pó.

Ele não atinou o que desejava concordando, e completei:

– Sou mesmo um aspirador de pó, que bom que você descobriu. Vem trocar meu saco!

Ele se calou. A turma agora reagiu a meu favor, dobrou o volume das risadas. Foi uma histeria coletiva, cadernos voando, pés batendo no chão, palmas estalando.

É certo que ele não sabia o que retrucar. Comeu a língua. Patinou na palavra. Demorou a perceber o estrago. Ficou branco, pálido, lesma.

Não contava com uma reação bem-humorada. Uma resposta espirituosa. Quem agride não programa a tréplica. Planejava criar uma tristeza em mim e abandonar a vítima no chão.

Mas não deixaria por menos. Nunca mais.

Marquinhos desapareceu ao longo do tempo, como poeira ranzinza da classe. Não esperava que o aspirador de pó estivesse ligado.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 30/04/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17418

QUESTÃO DE HONRA


Arte de Peter Blake

Numa palestra, um adolescente me perguntou como deveria reagir às mudanças de comportamento. Relatava a inversão de papéis masculino e feminino, onde as posições mão estão mais definidas. Ele me questionava: "O que me recomenda fazer?"

Eu respondi de bate-pronto:

– Mijar de pé!

O homem só não pode perder o direito de mijar de pé. A decadência é irreversível quando aceita mijar sentado.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (30/4) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:


segunda-feira, 29 de abril de 2013

A MÁQUINA RECEBE JOÃO CARLOS MARTINS

O maestro João Carlos Martins decora as partituras. Acredita na divisão da mente entre o rítmico, o melódico e o balanço.

Passou madrugadas tentando controlar a distonia tocando em um piano mudo.

Confissões das notas em meu programa A Máquina, da TV Gazeta, exibido na noite de terça (23/4).

domingo, 28 de abril de 2013

POR QUE VOCÊ NÃO ARRUMA NAMORADO?


Arte de Fatturi

Você não entende como não começa um relacionamento, como não se apaixona novamente, como não muda de vida.

Reclama da ausência de opções. É bonita, inteligente, divertida.

Minha hipótese é que não abandonou o passado.

Mantém flertes com o ex indiferente, ou continua saindo com sujeito que jamais assumirá o romance.

Raciocina que, enquanto não vem o escolhido, o príncipe, pode se entreter com velhas paixões.

Mas todos pressentem quando uma mulher está enrolada, todos intuem o caso mal resolvido, e não se aproximam.

Não virá ninguém para espantar os corvos e dissolver essa atmosfera pesada de Prometeu.

É trabalho em vão soterrar o precipício. Mulher desinteressada é impossível.

Ninguém ousará quebrar o monopólio de sua dor.

Você cheira a encrenca, cheira fidelidade a um terceiro. Seus ouvidos estão lentos, sua boca paira em distante lugar, seus olhos se distraem seguidamente.

Não tem brilho na pele, porém tensão nos ombros.

Sua respiração é um poço de suspiros.

Vive ansiosa por notícias, por reatos, mensagens. Não presta atenção, não se entrega para as casualidades.

Quem enxerga fantasmas não vê os vivos.

Não dá para começar um novo amor sem abandonar os anteriores. Errada a regra que a gente somente esquece um amor antigo por um novo.

Está com o corpo fechado, costurado, mentindo que já não sofre mais com as cicatrizes.

Espera herança, não sai para trabalhar ternuras.

Mendiga retornos, não cria memória.

Sua nudez não responde ao pedido da curva. Nem balança com a música favorita.

Está tomada do carma, do veneno, do ressentimento.

Pensa que está bem, mas está em luto. Uma mulher em luto não permite arrebatamentos, afasta-se na primeira gentileza que receber, recusa a prosperidade das pálpebras piscando nos bares e restaurantes.

Você nunca vai encontrar seu namoro, seu casamento, sua paz, se não terminar de se arrepender.

É preciso guardar o máximo de ar, ir ao fundo, descer na tristeza e nadar para longe dela.

Não amará outro alguém sem solucionar pendências, sem recusar o homem que não a merece, o homem que não vai embora e tampouco fica.

Não amará outro alguém sem abandonar algumas horas de alívio em motéis.

Não amará outro alguém se não bloquear as recaídas, se insistir em ressuscitar as promessas.

Uma mulher nunca será inteira se mantém romances quebrados.

Nunca estará presente.

Nunca estará aqui.

Entenda, minha amiga, só ama quem está disposta a ser amada.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 28/04/2013 Edição N° 17416

quinta-feira, 25 de abril de 2013

FACA NA BOTA

Você cede?

Ou é teimoso e nunca recua?

Se acha o bom samaritano do relacionamento?

Confira se o orgulho é o veneno da relação no meu quadro DRnaTV, da TVCOM, com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.

A exibição aconteceu na noite de terça-feira (23/4).

BEM-VINDO, MEU AMOR



Bem-vindo, meu amor, nosso soluço não é mais do choro, agora é do riso, pelo excesso de alegria.

Deixe para trás os ossos dos homens que não souberam lhe amar. Os ossos não têm olhos.

Deixe as despedidas ingratas, a avareza dos outros.

Deixe o que não traz mais lembrança; mentiras jamais acalmam.

Não seremos prisioneiros da culpa e do remorso, não seremos reféns das incertezas.

Incertezas envelhecem, as dúvidas não.

Você cria mistérios, sou mais vivo porque me questiona, sou mais seu porque não para de me perguntar o que aconteceu.

Venha engolir vento comigo, inspirar o primeiro ar da manhã da estrada, lavar as mãos no solzinho tímido.

Vem comigo, amor, cheira meu pescoço. É cheirando meu pescoço que descobrirá se falo a verdade. O cheiro é minha confidência. Meu cheiro tem o seu cheiro. Transpiro o que leio em sua pele.

Amar só traz simplicidade.

Amar só traz humildade.

Amar antes só me trouxe para perto.

Para aqueles que pensam que caso e me separo com facilidade, você será minha contradição, a insistência da virtude, a volúpia dos sapatos.

E vamos rir de soluçar. Pois ninguém acreditou na gente, a não ser a gente. Temos a vantagem da intuição, amor.

Você dormiu colada em meu corpo desde o início. E não pedimos trégua, água, tempo.

Sua respiração me assobia, me canta, me compõe.

Você não escondeu nada de mim.

Você conversa comigo como se eu fosse seu próprio pensamento.

Você já fez minha barba para sentir o quanto custa ferir meu rosto.

Eu já penteei seus cabelos para sentir o quanto um nó puxa a cabeça para baixo.

Bem-vindo, amor, nosso passado é o nosso futuro.

Você escolhe a roupa na última meia hora de sono. Eu me visto de suas escolhas pelo resto do dia.

Bem-vindo, amor.

Brigaremos no supermercado para definir nossa janta. Faremos festa ao descobrir um pequeno aumento no salário. Puxaremos assunto com os garçons. Receberemos elogios de estranhos comovidos com nosso abraço e inveja dos casais mais antigos. Tocaremos os pés na madrugada e ficaremos com vontade de acordar. Encostaremos os braços nos filmes e ficaremos com vontade de dormir. Jamais trocaremos de lado na cama. Dividiremos o jornal de domingo. Gostaremos das mesmas coisas das vitrines. Seu número em meu telefone constará como um segundo nome. Seus anéis estarão dentro de meus livros. Minhas mãos estarão dentro de suas mãos.

Bem-vindo, amor.

Felicidade não é para ser vivida sozinha. Sozinha, ainda é segredo.

A felicidade é uma denúncia. Vou denunciá-la com um beijo.

Denunciá-la para minha eternidade.



Minha coluna na Revista IstoÉ Gente
São Paulo, abril de 2013, p. 80, Edição Nº 696

quarta-feira, 24 de abril de 2013

ATÉ O FIM


Arte de Eduardo Nasi

Nunca toque numa mulher por tédio. Nunca toque uma mulher por tocar. Nunca toque uma mulher para completar uma palavra ou ocupar um silêncio.

Nunca toque para apoiar os medos, cobrir mágoas, equilibrar a nudez.

Nunca toque uma mulher por vingança, por carência, por controle.

Não toque se não pode andar na imaginação, se não tem vontade de segurar sua mão enquanto arde, de emparedar a respiração com os olhos.

Não toque se não está disposto a sofrer, se não está disposto a curar o sofrimento.

Nunca toque uma mulher por imprecisa hospedagem, para breve visita das pálpebras.

Toque se quiser morar, se quiser naufragar pelas janelas, se quiser morrer de ansiedade.

Não toque se não deseja, se não assumiu a ponta dos lábios nos dedos.

Não acorde o corpo de uma mulher se não irá acalmá-lo depois. Não importune a mulher se não sonha em laminar o rosto em sua pele.

Não convoque os seios para despistá-los. Não prenda a cintura se não mergulhará no cheiro.

O toque é uma promessa. Não se esvazie na repetição.

Não toque se resta dúvida, não toque se vem desistindo da relação.

Não toque uma mulher por luxo, para experimentar uma fantasia, para justificar uma ideia.

Não toque uma mulher porque não tem nada a fazer, se pensava em outro lugar.

Não toque uma mulher por vaidade, para testá-la.

Não toque para apenas para se deleitar com o prazer do suspiro, pela glória de vê-la excitada.

Não toque uma mulher à toa, por brincadeira, por maldade.

Não desonre a suavidade com a falta de firmeza.

Não toque se não precisa, se não tem urgência. Até a preguiça tem urgência.

Não toque se não ficará mais tempo, se não pode conversar, se não há como gemer.

Não se sinta melhor do que o tato.

Não se aproxime se não busca deitar. Não deite se não busca acordar. Não mexa se não tem como enlouquecer.

Não finja que não chamou, não minta que não ouviu.

Não simule pergunta para fugir da resposta.

Não menospreze a frustração.

Não cumprimente se não abraçar, não abrace se não roçar.

Não toque numa mulher por obrigação, para mostrar virilidade. Não a incomode com os beijos se não pretender soprar os ouvidos.

Não desperte as contradições, os tremores, se não pretende seguir adiante.

Nunca provoque uma mulher se não vai comê-la.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 23 de abril de 2013

ERMENEGILDO


Fui comprar um terno. Tenho alguns, mas desejava adquirir uma opção para o inverno.

Acompanhado da namorada Juliana, entrei em loja do térreo do Shopping Iguatemi totalmente desavisado.

Era um espaço mais tradicional, conservador, de grife. Não custava olhar, apesar de não fazer meu gênero.

Girei pelos manequins à procura de um conjunto moderno em conta.

Nenhum casaco descia em meus ombros com exclusividade. Já estava com a cabeça fora dali, idealizando o nosso jantar.

Mas, na saída dos corredores, percebemos um terno lindo, preto, com corte diferente nas mangas.

Para quê? Experimentei e entrou como se a minha pele nascesse dele.

Não escondi o entusiasmo e questionei o preço para a vendedora.

Ela soletrou:

– R$ 4 8 9 6 5...

Já vibrei com o braço na frente do espelho, meditando que poderia pagar R$ 489.

Arrematei o cabide:

– Decidido, vou levar!

A atendente arrumou a barra com alfinetes, dancei Travolta com o novo visual, combinei a retirada na próxima tarde, e me dirigi ao pagamento.

Para me certificar, consultei o preço.

Ela reiterou pausadamente:

– R$ 4 8 9 6 5...

Juliana ficou perplexa. Não alcancei a confusão. Deduzi que fosse pela passionalidade da compra.

Ela abanava com as mãos em minha orelha:

– Mas é um Ermenegildo, Fabrício, Ermenegildo!

Tranquilizei:

– Vi, amor, um Ermenegildo mesmo, é barbada, né? Que sorte entrar aqui e pegar uma promoção.

Ela mordia os dedos.

Eu não tinha ideia de que a peça se tratava de Ermenegildo Zegna, pai dos ternos da Itália, Dom Corleone do tecido, mentor de Dolce Gabbana e Armani, figurino predileto do Oscar, stradivarius das golas.

Confesso que desconhecia Ermenegildo.

Na hora de passar o cartão, a caixa perguntou se eu desejava parcelar o valor.

Disse que não precisava, que poderia ser direto no débito. Em uma vez.

Juliana arregalou as sobrancelhas.

O cartão não autorizou. Reforcei que havia saldo. A caixa explicou que as financiadoras não aprovam compras em shoppings depois das 22h, para evitar sequestros.

Ela tentou driblar o controle e dividir o valor em dois cartões. Eu assobiava de feliz.

Neste momento, eu vi, eu enxerguei a verdade cósmica dos números no visor, o E=mc2 do meu consumo.

O valor da compra era de R$ 4.896,50.

A soletração sem vírgula da funcionária me confundiu.

O terno de Ermenegildo, em promoção, valia R$ 5 mil.

Reprisei as feições da namorada em sequência, e compadeci do seu desespero. Um pouco antes, no mercado, na frente dela, neguei uma gilete pelo acréscimo de R$ 0,50.

Não entendeu nada do que aconteceu. O meu surto. A minha surdez.

Quando descobri o engano, não encontrei coragem de contar a verdade e menti para a vendedora que voltaria no dia seguinte.

O terno continua me esperando, com as minhas medidas impressas na calça.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 23/04/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17411

UMA AUSÊNCIA INEXPLICÁVEL

Arte de Paul Klee

Não xingue o pai de seu filho usando o que ele foi como marido.  Não xingue a mãe de seu filho usando o que ela foi como esposa.

Ele pode ser um excelente pai e um péssimo marido. Ela pode ser uma excelente mãe e uma péssima esposa.

É preciso separar as duas condições.

Para evitar represálias, para evitar que a criança não fique traumatizada.

O que costuma acontecer: os pais desabafam para o filho tudo o que deu errado no casamento.

Expõem o ódio. Criticam o ex abertamente. Lavam a roupa em público.

A criança fica em pânico, não entende qual lado defender.

Jura que o pai e o marido são uma única pessoa.

Contaminamos a paternidade e a maternidade com ressentimentos do relacionamento.

Os filhos assistem as crises, as brigas e os motivos do divórcio. Mas ninguém diz para eles como foi o início feliz da história.

Por que os pais, mesmo separados, não contam como se conheceram, como ficaram juntos?

Por que omitem de seus filhos o começo de tudo? Por que não provam que seus filhos são frutos do desejo, não erros, não descuidos?

Não mostram que seus filhos foram queridos, planejados.

Como estão em outros casamentos e para não gerar ciúme nas atuais companhias, sonegam o princípio do romance. Não descrevem como um dia se amaram.

Se você não conta o melhor da história, como seus filhos vão acreditar no amor quando adultos? Como?

Eles não vão querer se relacionar, mas pensar que casamento é apenas ódio e rancor, disputa e confusão.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (23/4) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Andressa Xavier:

domingo, 21 de abril de 2013

NÃO ABANDONAMOS O QUARTO NO DOMINGO

Arte de Fatturi

Acordamos e não nos levantamos.

Desde que nos apaixonamos, a cama é o nosso acampamento.

Despertamos cedo e ficamos conversando, recapitulando a rotina, rindo à toa.

É um domingo inteiro assim, entre travesseiros, almofadas e edredom.

O quarto permanece trancado, as cortinas fechadas, o jornal empilhado na porta.

De vez em quando, um dos dois é sorteado como emissário da geladeira, para buscar frutas ou água. É uma visita rápida pelos demais aposentos, na ponta dos pés para não assustar as pálpebras.

Não é aconselhável demorar pela sala, para a claridade não quebrar o encanto e nos obrigar a sair à rua.

Somos sonâmbulos um do outro. Viciados um no outro. Intoxicados um do outro.

Passamos os dias no colchão travando histórias e revelando segredos.

A cama é o nosso hotel, nossa casa na serra, nossa residência de praia, nosso bunker, nosso pub, nossa água-furtada.

A cama é o que precisamos do mundo, o resto pode levar.

Reduzimos o universo àquele estrado de madeira, e nos divertimos com os problemas antigos, com as dores antigas, com aquilo que nos antecedeu e ainda não era a gente.

Na verdade, sinto que estudo para o vestibular de sua memória. Olho o teto coberto de fórmulas, fotos, cenas, equações e cálculos de sua vida.

Decoro suas sobrancelhas, seus suspiros, sou um mímico atento de seu rosto.

Faço perguntas despropositadas - nunca prevejo o que vai cair na prova do amor.

Interesso-me por qual lugar que sentava no colégio Champagnat. Me diz que era no fundo, com as costas coladas na janela.

E você me interroga a cor da minha térmica no jardim de infância do Santa Inês. Falo rápido que era azul.

Quem teria coragem de fazer essas questões senão quem ama? Mais: quem responderia com naturalidade essas questões senão quem ama?

Não nos assustamos com nenhuma gratuidade. Não estranhamos a curiosidade ou nos envergonhamos da loucura.

Intimidade é não temer o que será feito com nossas palavras.

Deitamos de lado, atravessados, você em meu peito, eu encaixado na moldura de seu pescoço. Giramos para esquerda, tonteamos para direita, argumentamos, confortamos, descrevemos nossos amigos, confessamos nossos pecados, sussurramos bobagens.

Os ouvidos se tornam rápidos como a boca. Falo e ouço na mesma hora.

Nossas mãos se beijam, nossos pés se beijam.

Tudo é intenso entre nós a ponto da lembrança criar a experiência. É como se nossos olhos fossem aquela máquina polaroid cuspindo fotos.

Os vizinhos devem suspeitar que já morremos, mas nunca estivemos tão vivos.


Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 21/04/2013 Edição N° 17409