sábado, 11 de maio de 2013

CONTA DE NOVO


Foto de Leonardo Brasiliense

Se sua mãe conta a mesma história, não é esquecimento, é orgulho de viver.

Se sua mãe conta a mesma história, não é que ela está velha, é que você ainda não entendeu a mensagem.

Se sua mãe conta a mesma história, não custa ouvir de novo. Afinal, quando criança você sempre pedia para ela repetir a leitura dos livros.

Não vou oferecer um par de brincos para minha mãe, vou oferecer meu par de ouvidos.

Ouça minha homenagem ao Dia das Mães em comentário na manhã de sábado (11/5) na Rádio Gaúcha,
programa Gaúcha Hoje, apresentado por Jocimar Farina e Andressa Xavier:

quinta-feira, 9 de maio de 2013

PAGANDO AS CONTAS

Você é chinelão ou chinelinho?

Você paga para estar junto?

Satisfaz a sua companhia?

DRnaTV mostra os dedos dos pés.

A exibição aconteceu na noite de terça (7/5), na TVCOM, com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

QUANDO A AMIZADE É PARA SEMPRE


Arte de Eduardo Nasi

Nunca determino a origem das amizades. Os melhores amigos parecem que estão comigo a vida inteira.

Não guardamos o aniversário de encontro. Não faremos bodas de ouro, nem cobraremos presentes ou lamentaremos injustiça por lapsos.

Não decoramos a data do primeiro abraço, do primeiro riso, do primeiro porre.

A amizade tem uma memória alforriada. Diferente do amor, onde tudo gira em torno de estreias e contagens comemorativas, do namoro ao casamento.

Casal que não recorda do início acelera seu final. Já o amigo não tem tabuada e nascimento, é a benção da tranquilidade. Jamais telefona para recriminar, ou cruza informações para testar o nosso amor.

Apesar do despojamento, conquistar uma amizade não é fácil. Passa a existir de verdade num momento específico. Antes, despontava como esperança de cumplicidade.

O amigo se realiza quando não nos abandona no perigo e na dificuldade. Quando ele demonstra a mesma lealdade da alegria durante a tristeza.

Atravessaremos um portal para consolidar a afinidade, compactuar o sangue, justificar o cuidado. Daquele instante em diante, nada mais será necessário provar.

É uma manifestação de absoluta sinceridade que alçará o amigo a partilhar o resto de nossos dias.

Não teremos mais como quebrar os laços e desfazer o companheirismo.

Mário Corso é um dos meus escudeiros prediletos. Desde a infância.

Somos unha e carne, mafiosos, inseparáveis. Desde uma tardezinha de novembro de 1979.

Um por todos, todos por um.

Não lembro quando começamos a nos falar, mas conservo a visão nítida de quando começamos a nos admirar.

Na infância, nosso hobby principal consistia em pular muros e portões e roubar frutas no bairro.

Eu participava da turma mais velha, espécie de nanico, de anão de jardim, de mascote dos guris mais velhos da quarta série. Recrutado como mão mecânica para colher os galhos mais longínquos (qualquer bando que se prezava admitia uma criança em seus quadros de molecagem para trabalhos especiais, devido ao tamanho e leveza).

Quando invadimos a casa da madre superiora do Colégio Santa Inês, para desfalcar as tangerinas do seu quintal, ela me apanhou de surpresa na árvore. A desgraçada me puxou para dentro da casa pela janela. Fui sugado pelas suas mãos frias e raivosas.

Para quê? Meus colegas desapareceram em segundos. Ao me flagrar preso, escaparam rapidamente.

Eu tremia, chorava, não raciocinava, imaginava castigo na escola, repreensão familiar, humilhação na igreja.

Antevia que iria apanhar de palmatória.

Fechei os olhos ao pior.

Na hora em que a madre veio puxar minhas orelhas, a campainha tocou.

Era Mário Corso, meu amigo ruivo.

Ele retornou da deserção, não suportou me largar sozinho.

— O que quer, menino? — ela gritou.

Ele colocou inocentemente seu cabelo suado para o lado direito e respondeu:

— Estamos juntos!

Essas duas palavras soldaram nossa amizade para sempre. Não há quem possa estragar.




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 7 de maio de 2013

SOLO SAGRADO DA AMIZADE

Arte de Toulose-Lautrec

Era um vizinho chato. Insuportável. Ranzinza.

Hilton.

Com nome de cigarro e de hotel.

Ao assumir o apartamento, fui brindado com uma carta de oito páginas por debaixo da porta, onde ele – o Hilton – explicava que não dormia devido à falta de mangueira do meu ar-condicionado.

Quanta solenidade. Por que não me chamou ou não mandou um bilhete? Oito páginas para relatar um pequeno incômodo é ócio, é carência espalhafatosa, é exercício literário.

Atendi ao pedido, e evitei a soberba de corrigir as vírgulas do texto.

Dois meses depois, ele reclamava do salto alto de madrugada usado pela minha esposa na época. Sim, qual é o problema? O problema seria se ela calçasse broxantes pantufas. Mas o pior é que não era minha mulher que incomodava, porém eu e as minhas botas argentinas.

Considerava o sujeito fresco demais, hipersensível, desocupado, com a tara de controlar os sons da casa dos outros. Com certeza, guardava uma vocação inata para síndico.

Não duvidava de mais nada. Em seguida, reclamaria que puxava a descarga forte, que tossia alto, que gemia estranho, que não deveria ligar o liquidificador antes das oito horas.

Cobrança excessiva gera paranoia, eu fazia questão de odiá-lo sem reservas e idealizava macumbas e unguentos pelo corredor do prédio.

Três meses depois, o encanamento de nosso rancor explodiu. Ele telefonou cobrando um vazamento no seu banheiro. Trocamos gritos e ofensas até descobrirmos a origem da infiltração longe de minha culpa e de sua responsabilidade – aconteceram avarias naturais da fachada externa do prédio.

Já não conseguia nem ser hipócrita e cumprimentá-lo no corredor. Não haveria conserto em nossa amizade. Jamais. Eu pensava nisso. Foi quando me apaixonei por Juliana em março.

Ela me disse que seu melhor amigo morava no segundo andar.

Que ironia.

Logo aquele insuportável.

Logo aquele ranzinza.

Ilton na verdade, sem o H, pois não era cigarro para tragar, muito menos hotel para oferecer hospedagem.

Minha namorada armou um jantar de reconciliação. Resisti, bati o pé com o salto argentino, terminei vencido.

Ilton mostrou-se educado e carinhoso. Um cavaleiro de rosto erguido. Se estivesse na Idade Média, seria um templário.

Não sofre com a espontaneidade. Abraça com força, chora e se emociona ao lembrar as reuniões dançantes com Keep Cooler. É engraçado e autêntico. Coleciona rolhas de vinhos como a gente, lê os mesmos livros, partilha medos iguais: quando pequeno temia mais perder a visão do que dormir no escuro.

Faltava-nos somente tempo para conversar – enfim via que somos parecidos, próximos, semelhantes. Eu o rejeitava por antecipação e cisma. Pela ideia de que vizinho irá nos incomodar um dia.

Ilton é hoje meu melhor amigo emprestado. Ele me deu um terço de presente com areia da Terra Santa. Veio com um bilhete:

– Pode pisar à vontade, é solo sagrado da amizade.

Vou rezar por mim. Para, na próxima vez, não ser tão preconceituoso.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 07/05/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17425

A POLIDEZ NÃO AJUDA A CONVERSA



Minha namorada Juliana me chamou atenção.  

Eu respondia “não precisa” em vez de “não quero”.  Era um cacoete cansativo. 

"Não precisa" sugere que você quer, mas não deseja incomodar. 

"Não precisa" é esconde-esconde, cabo de força. 

E o outro vai insistir. Vai oferecer de novo. Vai ficar sofrendo esperando confirmar sua vontade. 

Já o "não quero" é direto e não traz dúvidas. 

"Não precisa" repassa a decisão. "Não quero" decide. 

- Você gostaria de comer no restaurante japonês?
- Não precisa.

O que se entende? Que a pessoa está a fim, e depende de um empurrão, de um entusiasmo, de nossa alegre insistência. 

- Você gostaria de ajuda no trabalho?
- Não precisa.

"Não precisa" é quase um socorro, um pedido de ajuda, é um sim tímido. 

O "Não quero" desfaz incertezas, limpa a cena, 

- Você gostaria de comer no restaurante japonês?
- Não quero. 

Não há suspeita, não há incerteza. Acabou o assunto. 

- Você gostaria de ajuda no trabalho?
- Não precisa.

Melhor é usar o "não quero". Evita a teimosia chata, a incompreensão.

A polidez é a maior falta de educação.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (7/5) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A MÁQUINA RECEBE PAULO MARKUN

O jornalista Paulo Markun se ajoelhou na frente de Fernanda Montenegro em um aeroporto para convidá-la a participar do programa Roda Viva.

Hoje, ele deseja viver de escrever livros e fazer documentários.

A entrevista aconteceu na noite de terça (30/4) em A Máquina, da TV Gazeta

domingo, 5 de maio de 2013

PESCARIA COM A NAMORADA


Arte de Fraga

Deitado no sofá com a namorada Juliana, com as nossas pernas trançadas, fazia planos. Quando fingimos assistir televisão, é que conversamos sério.

– Vamos morar junto.

– Vamos casar na igreja.

– Vamos ter um filho.

– Vamos envelhecer lado a lado.

– Vamos pescar.

Neste momento, ela me interrompeu:

– Pescar? Por quê?

Juliana não estranhou nenhuma das minhas afirmações anteriores, bem mais sérias, para quem está namorando apenas há um mês. Aceitou com naturalidade comprometer sua vida comigo; o que achou esquisita foi a pescaria, numa completa inversão de expectativas.

Para os crédulos e os céticos, para os normais e comportados, pescar seria a única alternativa aceitável. As demais seriam vistas como ameaça, desatino, irresponsabilidade.

Demonstrar confiança na posteridade da relação é um gesto de pressão e sufocamento. É forçar a barra, anular a individualidade. Os passos afetivos devem ser miúdos e recalcados, se possível com o casal descendo as escadas segurando no corrimão.

Para a maioria, esse diálogo apressaria discussões, terminaria relacionamento e geraria debandadas de escovas de dente das canecas do banheiro.

Existe um pânico de ser espontâneo a favor do romance. Como se fosse uma maldição, como se o amor fosse uma promessa política vigiada pelos eleitores.

Muitos nem falam o que desejam para não serem cobrados no futuro. E perdem a chance de aprender a falar.

Juliana ofereceu um espetáculo de fé na gente. Suspirei e ri ao mesmo tempo, de feliz de dividir as sobrancelhas com alguém que não se amedronta em sonhar.

Porque não vejo problema algum em sentir medo da vida, mas sentir medo de sonhar é o cúmulo da covardia.

É a liberdade de querer, que ninguém pode nos tirar. Não planejar a relação para não sofrer só deixa o sofrimento mais despreparado.

Quando realmente amamos, nada é impossível. Nada é sobrenatural. Não resta o pânico da formalidade e do compromisso.

Não receamos firmar pactos, desenhar o futuro, elaborar viagens, confessar as fantasias dentro de casa.

Entre nós, o pudor não pode mandar. Quando tememos dizer algo, até o silêncio será incômodo.

A recompensa da convivência supera as fobias, e as aparências regradas.

Ainda vou convencê-la a pescar comigo.

Será difícil, porém consigo. Talvez leve uns dois anos.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 05/05/2013 Edição N° 17423

sexta-feira, 3 de maio de 2013

I WILL SURVIVE



Não gemer mais do que ela é o mínimo que deve fazer. É uma questão de decência. Uma etiqueta básica desde os visigodos. Uma gentileza inadiável.

No berço, o macho aprende a não ser espalhafatoso, a secundar o chocalho, a chorar baixinho, a não melindrar as cantigas dos móbiles.

É um mandamento inafiançável: durante a transa, não ultrapassar sua namorada na gritaria.

Controle-se. É uma regra cavalheiresca: puxar a cadeira, aguardar ela se servir e não fazer escândalo na cama.

O show é dela, amigo. Você é apenas um convidado, aquiete-se em seu lugar. Não se trata de disputa vocal, dueto, soletração.

Não há orgasmo que justifique exceção, que lhe garanta o direito de superá-la. Não se mexa muito, pois os braços chamam o canto. Mantenha a movimentação aeróbica básica (ou as pernas ou as mãos, evite a sincronia). Um pouco mais e estará cantando Gloria Gaynor.

Toda beldade entra em pânico quando o homem geme acima de 85 decibéis. Ela gela, acha que errou de quarto, de corpo, de época. Pira, surta, paralisa o vaivém para identificar o alarido invasor.

O susto desemboca em trauma amoroso, capaz de provocar frigidez e abstinência. O fenômeno é recente e os psicólogos não avaliaram os danos. Talvez ela saia correndo nua pela Paulista. Ou se converta para meditação de Osho.

A onda mecânica necessita ser discreta. Varão comportado geme na altura de micro-ondas, nunca de uma máquina de lavar e jamais de um aspirador de pó.

Não banque a estrela do aiaiai, a vedete do uiuiui, a Carmem Miranda da banana descascada. Não confunda ereção com seleção de musical da Broadway.

É grosseria ofuscá-la na intimidade, é falta de decoro erótico, é ciúme da vagina.

Ela pode usar cera quente, algemá-lo na cabeceira, recorrer ao fio-terra, chamar seus brinquedinhos para dançar, apontar uma lâmina em seu pescoço, lançar chicote em seu lombo, mas não se desespere. Morda a fronha se não aguentar, bata na madeira se o gozo irromper violento.

Vale apenas resmungar. Já latidos, miados e uivos estão na faixa de agressão ao ambiente - os vizinhos não toleram frescura e serão os primeiros a denunciar a poluição sonora ao zelador.

Mulher se excita ouvindo sua cadência melódica. O prazer dela cresce quando reverbera o timbre pelo espaço. A voz é seu espelho.

O papel masculino consiste em proteger a tranquilidade da audição, resguardar a diva dos impostores e atravessadores. Ela aguarda o eco do seu gemido, o retorno perfeito do palco.

Sexo a dois é ainda masturbação para a mulher. Ela não quer ninguém atrapalhando.




Minha coluna na Revista IstoÉ Gente
São Paulo, março de 2013, p. 68, Edição Nº 695

quinta-feira, 2 de maio de 2013

PALPITES SINCEROS

Bebemos as confissões da madrugada, a angústia sentimental dos insones e invadimos o consultório Quase Perfeito da Rádio Gaúcha.

Veja o DRnaTV  de terça (30/4), na TVCOM, diretamente dos bastidores do programa Brasil na Madrugada.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

BIBLIOTECA AMOROSA


Arte de Eduardo Nasi

Os adultos deveriam ler um pra o outro.

Antes de dormir, eu e Juliana não nos isolamos em nossos próprios livros. Não nos separamos em obras diferentes.

Pego um romance que interessa aos dois, ela deita em meu colo e vou lendo até que as páginas se transformem em cílios. Preciso adivinhar o momento em que ela apaga para continuar no dia seguinte. Marco um singelo colchete de lápis e sigo o passeio da paixão durante a semana.

Ela sonha com a minha voz, eu misturo o cheiro de sua pele ao papel. Ambos estão conectados em caso de pesadelo.

É o nosso rivotril, o nosso lexotan. A leitura acalma e organiza as experiências.

Não abdicamos do luxo da narração. A língua renova os dentes e as letras voam pelo quarto.

Depois de um livro lido a dois, todo casal dormirá abraçado o resto da madrugada, não se soltará, será íntimo do pensamento. É terapia de família, é natação dos olhos, é massagem nos ouvidos.

A leitura cuida da alma da voz. É uma transfusão de alma. Não nos defendemos. Não nos armaremos, estaremos disponíveis ao acaso do enredo e da intensidade do inesperado. Formamos a união feroz das nossas fragilidades.

Bonito quando ela pede para repetir, bonito quando alongo a pausa para espiar se ela cochilou, bonito que ela se emociona e perde o sono com alguns autores, bonito que me encabulo ao recitar trechos e a descrição se torna exageradamente embargada. Bonita que é bonita que é bonita a nossa cumplicidade.

A partir dos personagens, surgem observações sobre amigos, assuntos do trabalho, bagunças da memória, lembranças extraviadas. No fim, forramos os volumes com nossos desejos e nos conhecemos mais.

O livro é o nosso bar, nosso balcão, nosso restaurante.

O gesto cria arrebatado discernimento. Percebo o quanto a solidão fortalece o que aprendemos a dois.

Não é possível se conhecer para amar. É o contrário. Só posso me conhecer ao amar. Ela é que me ensina a me amar — não é algo que faria sozinho.

Eu me amo admirando seu amor por mim. Eu vou copiando o amor que ela me dá.

Avançamos trinta páginas por noite. Mas vários capítulos em nossa relação.

 



Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira