quarta-feira, 29 de maio de 2013

ME DÊ UM PAR


Arte de Eduardo Nasi

Quando a minha vó Elisa me mostrou sua aliança, eu fiquei hipnotizado.

Foi um pouco antes dela morrer. Era viúva há cinco anos.

Ela brincava:

— Leonidas pode me trair, já que está morto. Mas eu continuo viva e não tiro.

O símbolo me cativava pelo uso. Arranhado, com o ouro todo riscado.

Eu queria um igual. Para ser empregado com semelhante fúria. Para ser gasto. Testado. Lanhado.

Uma aliança com mecha envelhecida. Anciã.

Uma aliança como pedra de riacho. Arredondada.

Uma aliança teimosa, que jamais saiu do anular. Nem durante o banho. Muito menos ao longo da viuvez.

Uma aliança montaria da espuma, bambolê de frutas, relógio de unha.

Uma aliança fiel ao corpo, coração na árvore, bússola de besouros.

Uma aliança doída, torneada, esfolada no tanque de lavar, na pia, na mesa.

Uma aliança que é aldrava de janela, argola de brinco, que acalma nossa respiração.

Eu sou apaixonado por aliança que tenha bodas, experiência de vento, vontade vivida.

Já ouvi de casados que a aliança é um ímã de traição, que aumenta apenas o assédio.

Mas aliança não traz infidelidade, não é um escudo.

Ela não nos protege, nós que a protegemos.

Aliança não é o fim, e sim o começo incessante.

Não significa que estamos prontos, definidos, fechados.  É uma escolha renovada, é uma promessa incansável, um compromisso que se carrega na mão para ter gosto de apontar o caminho ao outro.

Aliança é o laço do balanço voando, é uma admiração por alguém estendida em nossa palma.

Ela não está só na mão. É tudo o que enxergo, tudo o que acredito. Olho para os cabelos cacheados de Juliana e vejo alianças. Olho para seus olhos mouros e vejo alianças. Olho para seus lábios soprando a neblina e vejo alianças. Olho para seus joelhos de patinação e vejo alianças.  Olho para suas pequenas orelhas e vejo alianças.

Conchas, círculos, esferas são ensaios de aliança. Desenhos de alianças. Garatujas cantantes, aliadas de minhas pupilas.

A aliança nunca será uma joia, será sempre uma palavra para duas bocas.

A aliança nunca será um anel, será sempre uma chave para duas portas.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 28 de maio de 2013

O AMOR TEM SONO LEVE

Eu, namorada Juliana e minha filha Mariana. Foto de Rodrigo Rocha

Só aprendi a amar uma mulher depois de ser pai.

Antes me amava mais do que amava o outro.

A paternidade mudou meu mundo. Pela primeira vez, me tornei invisível, desaparecia no interior da casa, alguém era mais importante do que eu.

Permanecia 24 horas cuidando de minha filha. Existia por ela, para ela. Passei a destacar o que não seria notícia, a me interessar pelos assuntos da praça, pelos cuidados médicos, por aquilo que havia dentro do armário do banheiro, dentro da despensa da cozinha, dentro de minha cabeça.

Só quando pai é que descobri a diferença dos detalhes, a reparar na gola da camisa desarrumada, no farelo do canto da boca, na remela nos olhos, na previsão meteorológica, na lista do mercado sonhando almoço e janta.

Antes amava a noite mais do que o dia.

Quando nasceu minha filha, me dediquei à ordem doméstica. Dispensei creche para assumir a rotina do nosso bebê.

Meu expediente consistia em acordar, dar comida, trocar fraldas, dispor brinquedos, arrumar bagunça, levar para passear, preparar o banho, contar histórias, fazer dormir. E repetir exatamente tudo igual pela semana.

Controlava os horários com rigor. O relógio entrou em meu sangue.

Era um tal estado de solidão e carência, que todo beijo parecia um abraço dos lábios. Era um tal estado de isolamento, que toda visita recebia o dobro de festa.

Tinha direito a três telefonemas, justamente no momento em que minha criança descansava.

Brilhava cada palavra vinda dos amigos, como se fosse um sopro benfazejo de praia no rosto.

A paternidade transformou meus ouvidos. Eu comecei a escutar a residência inteira, jamais dormi igual. Meu sono agora estava atento a qualquer ruído, generoso, preparado para a vigília.

Só aprendi a amar uma mulher depois de ser pai. Arrumando a merendeira, me importando se o uniforme da filha estaria seco, conservando a memória da banalidade.

Antes não me julgava romântico, antes não me via sensível, antes não compreendia vésperas.

Foi untando os dedos de hipoglós que valorizei o uso do perfume, foi juntando meus pedaços que me formei inteiro.

Só com a paternidade aprendi a esperar, aprendi a abandonar o egoísmo, aprendi a planejar presentes, aprendi a ser provisório e não mais idealizar encontros, aprendi a aproveitar o tempo que eu tinha e o tempo que podia, aprendi a não reclamar à toa, a não mais diferenciar a janela da porta e o amor do perdão.

Só aprendi a ficar de pé depois de ser pai, antes minha fé apenas engatinhava.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 28/05/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17446

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A MÁQUINA RECEBE SÔNIA ABRÃO

A jornalista Sônia Abrão fala que o homem ainda é o atestado de existência de muitas mulheres.

Ela conta que, inicialmente, foi a destruidora de sonhos do pai.

A entrevista foi ao ar na noite de terça (21/5), em meu programa A Máquina, na TV Gazeta.

SUPORTANDO O FUXICO

As pessoas conseguem conviver com um romance secreto no trabalho?

Ou levam o caso a público e aguentam as consequências?

DRnaTV buscou casais em uma agência de Porto Alegre para saber qual o comportamento adotado pelos apaixonados.

A exibição aconteceu na terça (21/5), na TVCOM, com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.

domingo, 26 de maio de 2013

ESSE CARA NÃO SOU EU

Arte de Fraga

Sou eu e ela aproveitando os 10 minutos de tolerância do despertador para ficar ainda mais abraçados.

Sou eu e ela brindando com xícaras de café.

Sou eu e ela dividindo o espelho na hora de escovar os dentes.

Sou eu e ela perguntando se está frio ou quente na rua para escolher as roupas.

Sou eu e ela fazendo planos para o final de semana em plena segunda-feira.

Sou eu e ela de mãos dadas no cinema até formigar os braços.

Sou eu e ela criticando a cafonice de alguém na rua.

Sou eu e ela no banco da praça tomando chimarrão e jogando pipoca aos pássaros.

Sou eu e ela trocando cumprimentos de pernas debaixo da mesa.

Sou eu e ela se beijando devagar para respirar melhor dentro do beijo.

Sou eu e ela guardando as rolhas de nossos vinhos.

Sou eu e ela escondendo surpresas no armário da cozinha.

Sou eu e ela ouvindo os problemas sem jamais dizer que não é nada (é horrível ouvir que não é nada quando se sofre).

Sou eu e ela relatando as confusões do trabalho, e exagerando para soar engraçado.

Sou eu e ela disputando quem acessa primeiro a web.

Sou eu e ela arrumando a casa depois de festa.

Sou eu e ela colocando ao mesmo tempo nossas fotos no Facebook.

Sou eu e ela dançando com a cabeça voltada ao teto.

Sou eu e ela lendo o mesmo livro, um esperando o outro terminar o parágrafo para virar a página.

Sou eu e ela adivinhando o que significa certas palavras antes de consultar o dicionário.

Sou eu e ela em silêncio barulhento quando nos emocionamos com uma história.

Sou eu e ela mordendo os lábios no momento da excitação.

Sou eu e ela dividindo os moletons mais gastos.

Sou eu e ela atendendo ligações de madrugada dos amigos em fossa.

Sou eu e ela dando desculpas furadas para não sair no frio.

Sou eu e ela pedindo: por favor, coce minhas costas.

Sou eu e ela passando a roupa um pouquinho antes da festa.

Sou eu e ela atentos quando um dos dois levanta no meio da noite.

Sou eu e ela encardindo as meias pelos corredores do prédio.

Sou eu e ela confessando ciúmes com humor.

Sou eu e ela guardando as caixas de sapatos e as embalagens dos presentes.

Sou eu e ela mudando de canal sem parar sempre alegando que nunca tem programa bom.

Sou eu e ela conferindo se fechamos a porta.

Não sou o cara, mas melhor do que isso: sou um casal.


 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 26/05/2013 Edição N° 17444

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ASMA É AMOR


Arte de Eduardo Nasi

Viver é susto. Improviso já é um luxo, agradeça, é quando ainda podemos interferir na realidade.

Juliana tinha que acordar mais cedo que o costume. Pretendia estar 8h na agência de publicidade para dar conta de um projeto importante de mídia.

Precisava dormir cedo. Bem cedo.  Programou a rotina com antecedência, preveniu sobressaltos.

Mas sempre que a gente reserva algo importante de manhã, a noite é um inferno. Ou pelo excesso de expectativa ou porque simplesmente não controlamos a vida.

No caso, a vida era eu ao seu lado na cama. Sofri um ataque violento de asma. Fazia mais de dois anos que não tinha asma.

O problema da asma é que ninguém acredita que ela é física. Todos acham que é de fundo emocional.

Todos, na manhã seguinte, já perguntam: — Está preocupado? — Está tenso? — Está sofrendo? — O que foi?

Entende-se asma como uma ameaça psicológica. Na verdade, a asma é uma fragilidade respiratória, que se agrava com um dilema afetivo.

A preocupação é apenas uma faísca no corpo embebido de gasolina.

Tentei sair de mansinho da cama, sufocar a tosse, enganar o enjoo. Não pretendia despertar Juliana. Conservava a urgência de seu trabalho, como sei que a falta de sono é atalho da irritação.

O que esqueci foi o estardalhaço dos balidos do peito. No meu rosto barbudo de lobo, resistia uma ovelha negra perdida.

A asma acordou o prédio inteiro. Tanto que Ilton, o vizinho do andar de baixo, telefonou oferecendo carona ao médico.

Não havia como controlar o estrago. Minha panaceia consistia em dormir e fingir que nada aconteceu. Juliana, óbvio, não aceitava que permanecesse naquele pânico de boca, sem emergência.

A DR da saúde é um estágio obrigatório do casal.

O doente: — Logo passa!

A companhia: — Precisa confiar em mim! Temos que conferir no plantão.

Quinze minutos de prédicas: eu não desejando incomodar (quem deseja não incomodar incomoda o dobro), e ela morta de sono buscando ser terapêutica, não levantar a voz e me convencer que não iria me recuperar sozinho.

É uma arena delicada de papéis. Desde a infância, desde o fingimento da primeira febre.

Varei luas por filhos com dores na garganta e no ouvido, por pais em crise e por amigos em bebedeira.

Não existe amor que não seja condicionado a atravessar a doença da madrugada.

O que acho triste é que o acompanhante merecia um atestado médico. Até mais do que o próprio doente.




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 21 de maio de 2013

A ALMA DO PARA-CHOQUE

Arte de Roy Lichtenstein

Comprar carro é enfrentar o pânico de batê-lo no primeiro dia.

Saio da concessionária com o pé tremendo no acelerador, ligo o pisca-alerta 10 minutos antes do contorno. Ando realmente devagar como uma mula, tranco o sinal, recebo buzinadas.

Reedito um nervosismo de autoescola, erro as marchas, belisco o meio-fio, sequer mexo nos botões do painel para não me distrair.

Pelo impacto da emoção, desaprendo a dirigir.

Não é só comigo que ocorre. É a maldição do primeiro dia da compra. Todos temem arranhar o veículo na saída, estragar o investimento, manchar a reputação de motorista sério. Pode ser piloto de Fórmula Truck ou um adolescente filhinho de papai, o medo é contagioso e não escolhe as vítimas.

Quem não pegou a chave no salão encerado e vacilou em pensamento: “Como vou tirá-lo daqui com essa gente me olhando?”

Vem uma mendicância, uma desvalia, uma orfandade com carro novo.

Será uma humilhação acionar o seguro já nas horas iniciais. Imagina: nem mostramos para a família e a novidade está sequelada. Ficaremos com a sensação de que não merecemos o presente. É assinar o atestado de incompetência.

Carro novo deveria vir do estacionamento direto para a garagem. Sem risco de barbeiragem. Sem trânsito no meio do caminho.

Carro novo é carro emprestado ainda. Será nosso depois que desaparecer o cheiro de chiclete dos bancos.

Carro novo é o autêntico teste de balizas. Um magneto de desastres. Um ímã de inveja. Não tem como dissimular sua estreia, a lataria traz em si faróis de neblina.

Atravessamos as ruas como se estivéssemos nus. Indefesos.

Sabe aquela história da infância: quando tudo está perfeito alguma coisa de ruim acontece? Introjetamos essa máxima sádica dos avós e boicotamos nossa felicidade.

Acho que os outros motoristas se sentem incitados a nos testar. Não abrem passagem, não facilitam a troca de pista, motoqueiros surgem do nada, caminhões trancam as vias no cimo da ladeira.

É o equivalente adulto do sofrimento do tênis branco. Na escola, quando aparecia com conga novinho, os colegas se aproximavam maldosamente para me batizar. Sempre voltava da aula com o par sujo e emporcalhado. Impossível conservá-lo por 24h.

Quando compro carro, não me arrisco mais, não barateio a paz.

Entendo que a alegria é uma solidão. Nossa maior solidão.

Com um veículo brilhando em casa, passo a andar de ônibus por uma semana, até vencer o estágio probatório do acidente. Os filhos e a namorada juram que enlouqueci, mas não vou dar mole ao olho gordo. Só pego o carro quando ultrapassar a zona de risco de sete dias.

A superstição é meu para-choque.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 21/05/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17439

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A MÁQUINA RECEBE PC SIQUEIRA

O vlogueiro PC Siqueira parou de ir à escola aos sete anos.

Largou o estudo para ficar no estúdio.

A entrevista foi ao ar na noite de terça (14/5), em meu programa A Máquina, na TV Gazeta.

domingo, 19 de maio de 2013

DEPOIS DO TRABALHO, AINDA FALTA TRABALHAR A RELAÇÃO

Arte de Fraga


Amar não é suportar tudo. Aguentar qualquer coisa.

Não é porque você ama que o amor se faz sozinho.

Não é porque você conquistou quem desejava que deve relaxar.

Não é porque alcançou a independência financeira que já tem autonomia afetiva.

Quando chega em casa do trabalho, depois de oito horas de incômodo, da chuva de cobranças e prazos, cansado, estressado, faminto, não adianta afundar no sofá, esticar as pernas, esquentar algo e se apagar.

Não terá direito à solidão e ficar em paz. Não terá direito a não conversar. Não terá direito a não ser afetuoso. Não terá direito a assistir televisão sem ninguém por perto.

Se pretende se isolar, não ouse casar, não procure dividir o tempo e o abajur.

Quando regressa do serviço, acabou a vida profissional, porém começa a vida pessoal. E do zero.

Sua mulher não tem que tolerar seu desaparecimento, sua anulação, sua desistência pelos corredores.

Ela quer senti-lo, entendê-lo, percebê-lo.

A noite é manhã para o amor.

Quando retorna da rua, agora é o instante de trabalhar o relacionamento.

Da mesma forma em que seria demitido se ofendesse um colega, não desfruta de espaço para agressão e gritos. É a esfera da delicadeza, das pontas dos dedos no rosto, de emoldurar a confiança.

Controle-se, comporte-se, cuidado com o que diz, não se entregue ao cansaço.

Sua esposa nada tem a ver com aquilo que cumpriu à luz do sol. Não conta pontos sua dedicação no escritório.

É um novo turno, sem antecedentes, sem pré-história.

É a primeira vez durante o dia que trocará assunto com ela (que seja separando as melhores peripécias). É a primeira vez durante o dia que se dedicará a ouvi-la (que decore a intensidade das palavras). É a primeira vez durante o dia que passará as mãos em seus cabelos (que seja mais generoso do que a escova). É a primeira vez durante o dia que beijará sua boca (que seja com calma da janela). É a primeira vez durante o dia que presta atenção no que ela veste e como se veste (que seja com atenção de alfaiate).

Não há como trapacear. Não há como despistar, postergar para o final de semana.

É só você e ela.

Tome guaraná cerebral, emborque litros de café, triture amendoim com os dentes. Mas se mantenha acordado. Não se ganha um casamento empatando.

É o período de oferecer atenção integral - ela espera que confirme os motivos para estarem juntos.

Por mais absurdo que soe, assim que pousa sua pasta no chão da residência, inicia o expediente amoroso - todos que amam têm dupla jornada.

É acolher as dúvidas, abraçar demorado, preparar a janta, perguntar sobre os amigos, valorizar os apelidos, deitar próximo, não se distanciar do campo elétrico da pele.

Amar é muito mais grave do que uma profissão. Muito mais complicado. Não tem aposentadoria.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 19/05/2013 Edição N° 17437

quarta-feira, 15 de maio de 2013

BÊNÇÃO EM PESSOA

Qual é o papel da nona na família italiana?

Em qual idade a vó recebe esse título?

DRnaTV foi a Caxias do Sul para entender por que todo mundo vira criança perto dela.

A exibição aconteceu na terça (14/5), na TVCOM, com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.