quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A DOÇURA EMBRIAGANTE DA BIRRA

Arte de Eduardo Nasi

Não quero que a mulher seja equilibrada, constante, que perca suas esquisitices e rompantes, justamente o charme do gênero.

Mulher que não é estranha não é normal.

Fico lisonjeado, por exemplo, quando a mulher fica emburrada comigo.

Sou seguidor do feitiço da birra. É um transbordamento de sensualidade: a boca subitamente incha. Toda mulher emburrada é Angelina Jolie.

Os olhos se concentram, quase vesgos, absurdamente oblíquos, a ponto de faiscar. Não há olhar mais fatal do que aquele que vem do descontentamento. Ela deseja matá-lo. E sexo é a vontade de matar o outro – graças ao orgasmo perde-se a força antes de consumar o homicídio.

Mulher embirrada é insuportavelmente linda: uma grevista erótica, um líder sindical por melhores condições do amor.

Deveria se orgulhar como eu. Ela luta pela relação, guerreia pelo seu romance, arma passeata em nome de seus princípios.

A pele brilhará pela raiva, a cintura endurecerá de cólera: iluminada imediatamente pelo desaforo.

Horrível mesmo quando está distraída, desatenta, indiferente, não assim, há uma beleza sublime na respiração ofegante. Devota toda a sua atenção para desafiá-lo, para lhe provocar, para chamar atenção.

Tem a exclusividade dela uma vez na vida.

A birra é monopólio. Quando que terá essa disponibilidade novamente? Aproveite.

Ela é uma modelo-vivo, posando durante um dia inteiro para que aprenda a retratar suas sutilezas. O silêncio barulhento, a ironia atrevida, a contenção dos gestos: tudo é seu, para você.

É um espetáculo vê-la derrubar objetos, não falar nada, passar a toda hora com ares de ofendida, sair sem se despedir, bater forte a porta da casa, queimar pneu na saída da garagem e voltar em seguida porque esqueceu o celular.

É uma maravilha acompanhar a sua teimosia inteligente, não ser atendido ou ser vitima de um telefonema desligado na cara.

É uma tensão saborosa, porém com a certeza do final feliz. É apenas descobrir o momento certo para pedir desculpa e desfazer o mal-estar. Mas é um crime pedir desculpa rápido e extraviar a emoção da cena.

Mulher emburrada é uma carta de amor, envelopada para abrir aos poucos, com jeito, sem rasgar.

O beiço é excesso de paixão. O beiço feminino não é chatice, é uma oportunidade.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 30/09/2015

terça-feira, 29 de setembro de 2015

VOCÊ É VASSOURA OU RODO?


A vassoura e o rodo são figuras antagônicas em casa. Não têm igual temperamento.

Podemos distinguir as pessoas em dois grupos. Algumas varrem os problemas um pouco por vez; outras, unicamente limpam quando o piso está comprometido.

A vassoura é para quem cuida da sujeira um pouco por dia, o rodo é para quem deixa para socorrer o chão tarde demais.

A vassoura é filha do vento e do sol, o rodo é filho da água e da noite.

A vassoura é gentil, o rodo é abrupto.

A vassoura é casada com a pazinha, o rodo é solteiro.

A vassoura mima o tapete, o rodo esnoba o balde.

A vassoura sai para a rua e fala com os vizinhos, o rodo vive trancado e não gosta de conversa.

A vassoura solta os cabelos, o rodo esconde a calvície com o turbante.

A vassoura é supersticiosa, acredita em bruxas e simpatias, o rodo é ateu.

A vassoura procura mostrar o que está escondido debaixo do tapete em montinhos, o rodo joga tudo para o ralo.

A vassoura é véspera, o rodo é calamidade.

A vassoura é paz, o rodo é desespero.

A vassoura é controle, o rodo é descontrole.

A vassoura é chamada para qualquer hora, o rodo só é chamado em caso de alagamento.

A vassoura fica atrás da porta, o rodo apenas é visto em banheiros sem cortina.

A vassoura enfrenta degraus, o rodo aproveita declives e lombas.

A vassoura dança, o rodo não mexe o quadril.

A vassoura se molda ao mundo, o rodo é quadrado.

A vassoura se espalha, o rodo se isola.

A vassoura faz amizade com as folhas, o rodo manda embora.

A vassoura trabalha em equipe com a lixeira, o rodo trabalha sozinho.

A vassoura passeia em manhãs e tardes de sol, o rodo pisa em poças.

A vassoura solta os braços, o rodo tensiona os braços. Com a vassoura, erguemos o queixo; com o rodo, baixamos a cabeça.

A vassoura tem esperança de reencontrar brincos perdidos, o rodo empurra o que acha para o esgoto.

A vassoura pode ser de palha e queima, como toda paixão, o rodo tem borracha e não se mistura, como toda tristeza.

A vassoura se doa mais do que o rodo. O rodo reclama mais do que a vassoura.

A vassoura canta, o rodo grita.

A vassoura pede licença, o rodo é mal-educado.

A vassoura é feliz, o rodo é rabugento.

Apesar do mesmo corpo, as cabeças são totalmente diferentes.







Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  29/09/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18309

TANQUINHO

Arte de Robert Delaunay

Aparência é tudo. O homem não precisa de dieta, muito menos mudar seus hábitos para parecer mais magro. São pequenas atitudes que afinam rapidamente a sua imagem:

Tirar selfie tomando chimarrão. Ao sugar a bomba, as bochechas estarão esticadas.

Colocar sua mulher na frente em outras fotos. Aparecer abraçando sua patroa por trás, com o rosto no ombro dela.

Fazer a barba ou cortar o cabelo. Ambas as atitudes diminuem o volume e garantem a impressão de menos quilinhos.

Andar ao lado de amigos com mais de 100 quilos. Todo pançudinho depende da companhia de um rei Momo.

Usar bombacha. Cria uma confusão visual. Não é fácil definir o que é vento dentro do pano ou o que é gordura. Não existe tradicionalista gordo.

Preparar o PF oculto. Forrar o prato com verduras. Por baixo, estarão as fritas, o ovos e o bife.

Jamais se agachar e mostrar o cofrinho.

Ouça meu comentário na manhã desta terça-feira (29/9), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

FALSA ESPERANÇA

Arte de René Magritte 

Existe a questão metafísica se a mulher deve ou não transar no primeiro encontro ou se ela deve fazer tudo na primeira noite ou se guardar para as próximas saídas.

Ao homem, não resta alternativa. Ele não tem nada para economizar, nada para esconder, nada a deixar para depois, nenhuma arma secreta, nenhuma carta na manga, nenhum segredo de alcova, coisíssima alguma para prolongar o mistério e dilatar o suspense.

Ele sempre será exatamente o que foi na estreia.

Oferecerá serviço completo de cara. Há uma honestidade inadiável de sua parte.

Não tem direito ao pudor. Não tem condições de planejar estratégias e se preservar para mais adiante.

Não há níveis em seu joguinho.

O sexo não melhora com o tempo. A transa masculina não se aperfeiçoa com a intimidade.

Não mantenha esperança alguma da mudança do quadro. Se o sexo foi ruim de saída, continuará ruim no decorrer da relação.

Homem é regularidade. Homem é constância. Homem é um livro com a história escancarada na capa.

Ouça meu comentário na Rádio Itapema na tarde dessa segunda (28/9), às 13h, apresentação de Denise Cruz: 

domingo, 27 de setembro de 2015

A ALEGRIA VESTE A TRISTEZA


Tenho uma predileção por uma frase de Federico Fellini: para a sombra existir, o sol deve estar a pique na cabeça.

Sem a luz, o escuro não se forma. Sem o escuro, a luz não tem sentido.

O mesmo acontece com a alegria.

Dentro da alegria mais genuína, mais intensa, mora a sombra da tristeza. A tristeza só existe em função da alegria. É o medo de perder a felicidade que faz com que você se esforce para mantê-la.

Não há alegria inteira, nem tristeza pura, uma depende da outra. Podemos transpirar euforia, mas sobreviverá uma pontinha de melancolia lá no fundo de nosso riso. Porque mantemos a consciência de que a alegria, por mais duradoura que seja, vai passar. Que ela logo se transformará em nostalgia, e que não estaremos mais plenos como daquele jeito de novo – e isso não é ruim e nem é bom, é inevitável da experiência. A tristeza dentro da alegria nos permite pensar e entender o quanto aquele momento é importante e que precisamos aproveitá-lo enquanto dura.

A alegria é esta vontade de ser para sempre que termina. A tristeza vem nos consolar a aceitar que o fim de uma lembrança não significa o fim de nossa vida.

De igual forma, dentro da tristeza mais severa, da depressão mais aguda, é possível notar a presença de uma alegria discreta, retraída, tímida. Tudo pode soar péssimo, mas um abraço, um quindim, um filme, o telefonema insistente de um amigo é capaz de nos devolver a vontade de dar a volta por cima. A simplicidade é terapêutica, a banalidade nos cura dos grandes males da solidão. Haverá sempre o sol por detrás das nuvens escuras dos pensamentos suicidas. Na sombra mais espessa de nosso temperamento, coexistem os raios solares minúsculos do contentamento, das dádivas da rotina e dos pequenos prazeres. Estaremos desolados com o tempo fechado e chuvoso do rosto, não enxergando nenhuma saída, mas a alegria se conservará perto e nos mostrará que a tristeza também passará, que é uma fase e um ciclo para absorver separações, desentendimentos e traumas. A lágrima brilhará como uma vidraça limpa e iluminada.

Se a tristeza é saudade dentro da alegria, a alegria é esperança dentro da tristeza. Nenhum sentimento é definitivo e completo.

A luz veste a sombra, a sombra veste a luz. A alegria costura a tristeza, a tristeza costura a alegria. Alfaiates que se revezam no longo pano dos dias.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.72
Porto Alegre (RS),  27/09/2015 Edição N°18307

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O CANSAÇO MASCULINO É AFRODISÍACO

Arte de Otto Mueller

Não se arrisque a dizer que está cansado para a sua mulher de noite. Ela pode estar também demolida que testará o nosso fôlego. Inventará de fazer tudo de repente: sair para festa, assistir dez episódios de um seriado, conversar sobre a infância, encontrar amigos do casal, jantar degustação com cinco pratos em sequência, romancear até de madrugada.

Não sei o que acontece: mas o cansaço do homem dá um baita tesão na mulher. Ela fica extremamente excitada, alegre, feliz, disposta.

O efeito da palavra é como um energético.

Mulher enlouquece quando vê que seu homem está cansado.

Não entendo se ela pensa que estamos mentindo ou aprontando. Ou quer aproveitar que não ofereceremos resistência para abusar com vontade. Ou cisma em descobrir se ainda a amamos e deseja uma grande prova de nossa paixão. Ou todas as alternativas.

Certo é que não dormirá cedo. Cheia de ternura teimosa, ela vai criar um Porto Alegre em Cena em casa, um Festival de Cinema de Gramado em casa, uma programação infinita, uma gincana de eventos.

Mas não existe igualdade na regra. Não busque fazer o mesmo quando a mulher diz que está cansada porque realmente estará cansada. Apenas ofereça uma massagem nos pés. Ela não aceitará nenhuma provocação.

Ouça meu comentário na manhã desta sexta-feira (25/09), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O CAMINHO DA SANTIDADE

Arte de Eduardo Nasi

Não escute com os dois ouvidos o que uma mãe diz.

Eu realizava esta operação perigosa quando criança

Não obtive os melhores resultados.

A mãe sempre contava histórias dos santos antes de dormir.

A que eu mais me intrigava era a conversão de Francisco de Assis: quando ele entregou suas roupas ao pai Pietro Bernardone em praça pública, absolutamente nu, afirmando que não devia mais nada para ele e se oferecendo em absoluto a Deus e assumindo uma nova identidade (no ato, mudou o nome de Giovanni para Francisco).

Aquilo me marcou tanto que procurei imitá-lo.

Num domingo de Gre-Nal, com a família reunida na frente da televisão, aguardando a possibilidade do clássico ser transmitido ao vivo pelo canal 12, instantes antes da decisão do Campeonato Gaúcho de 1979, tirei os os meus trajes e me dirigi para a sala onde estava a família reunida (incluindo primos e tios).

Pelado, somente de botas (na minha visão, dependia das botas ortopédicas para chegar ao paraíso), entreguei a camiseta, a calça, a cueca e as meias ao pai. A sala parou para me ouvir. Foi um minuto de tenso silêncio, homenageando a minha morte social.

- Toma, sou filho de Deus!

O pai não compreendeu absolutamente coisa alguma. O que significava seu filho de seis anos em pelo na frente de todos repassando suas roupas?

- Estão sujas?, ele ensaiou diminuir o drama.

- Não, pai, suja está a minha alma. Toma, entrego os meus pertences e o meu sobrenome.

- O quê? Tá maluco. O jogo vai começar? Bota um agasalho, guri!

- Não me interesso por futebol, só em ajudar as pessoas.

- Está possuído pelo demônio! É o que faltava ter que chamar um exorcista…

Ele me pegou pelo braço e me trancou no quarto para refletir sobre o meu descomportamento. Ficaria de castigo até pedir desculpa. Eu juro que não absorvi a confusão dos acontecimentos. O que deu errado? Como que ele avisava que estava possuído pelo demônio se estava me santificando naquele instante?

Fracassei como cover de Francisco de Assis.

Ninguém jamais aceitou a minha atitude na família, ainda acham que sou um exibicionista desde pequeno, não entenderam o fundo de minha angústia, o tamanho de minha renúncia, de que eu seguia o caminho irreversível da santidade.








Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 23/09/2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

COMO UMA NOTA DE TRÊS REAIS



Elogio, quando sempre, vira bajulação. Ternura, quando excedida, vira cinismo. Concordância, quando constante, vira sarcasmo. Aceitação, quando submissa, é indiferença.

Amizade é medida (já o amor é perder a medida).

Percebo quem é falso pela ânsia de agradar a qualquer custo. É um torturador pelo afago. Alegria se transforma em histeria; a espontaneidade, em afetação.

Não é um contato natural, mas uma negociação: a impressão é de que o outro, que não para de me reverenciar, está vendendo algo que não sei, algo que não estou vendo. É muita simpatia para nada. É muita camaradagem gratuita. É esnobar com uma nota de R$ 3.

Mantenho um pé atrás com quem é abusivamente açucarado. Evito quem é dado ao léu, antes mesmo de estabelecer intimidade. Gritinhos no “oi” apressam o meu adeus. Diminutivos esgotam a minha paciência.

Quem se aproxima querido demais falará mal de mim pelas costas. A traição está insinuada na atração artificial.

Não tenho dúvida. Acúmulo de gentileza é véspera de maldade, de oportunismo, próprio daquele que pretende enganar. Desconfio de quem chega com mimimi, só exaltando as minhas virtudes, concordando com os meus comentários. É característica de personalidade maquiavélica, porque me faz relaxar, confessar as dificuldades e abrir a guarda para tirar vantagem.

Não levo a sério quem carrega nos adjetivos, superfatura nas exclamações, endeusa nos cumprimentos. Amigo que se gosta vive se provocando. O que adula é um inimigo disfarçado.

Hipocrisia vem do exagero do perfume. O tipo busca dissimular a carência de banho com borrifadas, procura abafar a maldade e a inveja com o comportamento contrário.

Temo mais a chuva de confetes do que os relâmpagos e dilúvios.

A afetação me põe ressabiado. Não aturo a fala dublada – a impressão é de que falta a opção do áudio original. Parece que a voz vem de um ventríloquo. Parece uma tia chata interpretando as vontades de um bebê.

A pessoa se comunica miando, ganindo, arrastando as vogais. Força empatia, ri sem nenhuma piada, é solene sem necessidade.

Gente falsa é o mesmo que conversar com alguém fingindo o orgasmo em todo momento. Não tem como acreditar que algum dia será para valer.

Autenticidade implica alternância e até um certo mau-humor. Prefiro o ferrão ao mel.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  22/09/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18302

ATRAENTE COMPLEXIDADE

Arte de Gino Severini

É preciso gostar muito de mulher para casar. Mas muito e muito.

Se gosta um pouquinho, nem tenta. Procure outra orientação sexual.

A mulher é complexa e fascinante.

Não é para iniciantes e amadores. Não é para diletantes e aventureiros.

Mulher investiga qualquer passo. Tudo gera reflexão.

Haverá decisões para toda a vida toda a noite. Sem folga.

Se não curte conversar ou opinar, não sobreviverá um semestre dentro de casa.

Ouvir apenas não basta, pois se permanecer calado o tempo inteiro ela achará que está aborrecido. E começará uma nova discussão sobre a natureza de seu silêncio.

Mulher pensa em voz alta, assim que se organiza.

Ela não é estável, ninguém que é intenso é estável. Sempre existirá uma dificuldade para resolver e perturbar o sono.

Ela pode estar brigada com a mãe e ou com alguma amiga ou criticando o pai e será o único assunto durante meses.

Não é fácil. Precisa gostar muito do negócio. Só quem curte encontra paciência.

Quer ver como não é fácil?

Não adianta amar o corpo de sua mulher se ela não está amando o próprio corpo.

Mesmo as mais lindas jamais estarão satisfeitas. Então, não é uma fase, não é um dia ruim, ela complicará com o peso ou a beleza uma vez por mês no mínimo.

Você poderá elogiar, dizer que ela está gostosa, que sente grande desejo, que se orgulha e não mudará uma vírgula do desânimo feminino.

O homem nunca será melhor do que o espelho.

Não procure censurar, oferecer conselhos e, principalmente, entender o que está acontecendo.

Mulher quando não ama o próprio corpo é o momento em que mais compra roupa. Busca ampliar suas opções.

Não tem como explicar racionalmente. Desista. Mulher é puro sentimento.

Ouça meu comentário na manhã desta terça-feira (22/09), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

domingo, 20 de setembro de 2015

PERDI 1 MILHÃO DE REAIS



Não festejei o meu primeiro milhão porque fumei o meu primeiro milhão.

Eu me dei conta de que se juntasse as minhas baforadas com as tragadas do cantor Renato Godá, amigo de vício e de faixa etária, já teríamos posto fora R$ 1 milhão. Nesta brincadeira existencialista e maldita, torramos um patrimônio difícil de obter. Participamos de um Big Brother às avessas: em vez de ganhar, gastamos a recompensa máxima do reality show.

Cada um fumou duas carteiras por dia durante 26 anos, o que resultaria em R$ 284.700. Se esse valor tivesse sido investido há três décadas em uma aplicação que rendesse 1% ao mês, sem considerar inflação e troca de moeda, o montante atualizado com juros seria de R$ 1.170.117.

Foram quarenta cigarros do amanhecer até o anoitecer desde os 17 anos. Apaguei no cinzeiro mais de 380 mil filtros. Encheria uma piscina olímpica com as minhas bitucas.

O resultado é assustador. Nenhuma morte seria tão cara. Fui um perdulário invisível. Não percebi o investimento porque identificava como um mero troco. Quem adquire cigarro não anota sua compra, e tampouco registra como gasto. Só que empenhei uma parcela fixa diária e interminável de quinze reais. Somadas ao longo de minha história, formam uma bagatela que paralisa os mais incrédulos, digna de prêmio dividido da Mega Sena.

Com tudo o que fumamos, poderíamos abrir uma grande empresa com forte capital de giro. Ou comprar à vista uma cobertura de 300 m2 no bairro Auxiliadora, em Porto Alegre. Ou levar cinco carros Santa Fé zero quilômetro para as nossas garagens. Acabaríamos ricos, com uma poupança redentora, não precisaríamos nos preocupar com a crise e muito menos em trabalhar duro todo o mês. Mas cedemos a nossa fortuna imaginária e os nossos pulmões reais para a indústria tabagista.

Não transformamos o nosso suor em sorte, em previdência, em títulos de capitalização, em economias para a universidade dos filhos, ele simplesmente virou fumaça.

Qualquer um é considerado maluco ao queimar dinheiro. Eu e o meu comparsa músico queimamos 1 milhão de reais com a boca.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.36
Porto Alegre (RS),  20/09/2015 Edição N°18300