terça-feira, 13 de outubro de 2015

CHEGOU O MEU DIA

Arte de John Tunnard

Perdi a minha mulher para a geladeira nova.

Antes a nossa geladeira nanica enchia com facilidade, agora para lotar exige contracheque de muitos dígitos.

A minha mulher não sai da cozinha preparando potes e querendo tudo o que é produto para forrar as suas prateleiras.

Ela não vai mais para o quarto e para a sala.

Não tenho como competir com a geladeira: é um armário. Mais forte e musculosa do que eu. 1,83 cm por 80 cm.

Nestes dias, vi a minha mulher abraçada na geladeira.

E a geladeira tem Bluetooth, um botão férias, um botão turbo freezer, um botão festas, um botão drinques, um botão compras.

Não conto com tamanha tecnologia. O que me resta é admitir que fui substituído. Chame o Mensageiros da Caridade para me levar.


Ouça meu comentário na Rádio Itapema na tarde dessa quarta-feira (13/10), às 13h, apresentação de Denise Cruz:



DESENCARNANDO



As roupas existem para nos ajudar a desencarnar e encarnar.

É uma lição espírita.

Saber o momento em que foram úteis e também definir a hora em que não mais precisamos delas e de que outros precisam.

Amá-las enquanto história e recordação, para fazer memória de nossas emoções – a memória é o que importa em nossa trajetória –, e depois deixar que novos moradores dos tecidos sigam produzindo suas lembranças.

Oferecer a roupa é uma escola de despedida, é se desligar um pouco da pele, gradativamente, para encontrar a alma e não sofrer tanto com a própria morte. Aceitamos o fim de um ciclo para festejar o seguinte.

Dê a roupa, primeiro, para os familiares, irmãos, filhos e pais, aprendendo a dividir a herança do afeto. Em seguida, escolha algumas peças para presentear os amigos como prova de importância.

Exercite o desapego em família, assim estará maduro para estender o hábito aos desconhecidos, a todos que enfrentam inundações e tragédias, perdas repentinas e acidentes.

Um casaco pode servir a várias vidas. Um vestido pode atender vários recomeços. Uma calça pode ser uma centopeia de homens.

Os cabides são inúteis para abraços, pontiagudos, vazios, não substituirão o peso acolhedor dos ombros. Os cabides não compreendem o calor da generosidade, o afago do braço estendido. Os cabides são burros de madeira e ferro, insensíveis de plástico, jamais agradecem.

Não espere o agasalho esfriar como pedra, não alcance apenas o que já não deseja ou o que está gasto e rasgado, mas o que não tem posto no corpo há tempo. Os bens são provisórios e o egoísmo é eterno.

Não queira ser exclusivo dos objetos, seja único para você mesmo.

A roupa é o nosso primeiro corpo. Não devemos trancá-la na vaidade e na posse, abandoná-la no armário e na velhice, escondê-la aguardando ocasiões especiais que nunca vão acontecer.

Roupa é para estar em movimento. Parada, termina adoecendo as nossas virtudes.

Não tenha medo do prejuízo. O valor do caráter cobre sempre o preço da etiqueta.

Repasse adiante o seu coração de linho, o seu pulmão de lã, o seu rim de seda, ajudando aqueles que carecem de frio e de desassossego. A moda muda conforme as estações, o estilo vem do despojamento.

A roupa é a nossa possibilidade de vestir a verdade mais do que a beleza. Doe antes para não doer no futuro.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  13/10/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18323

ESCALA MASCULINA DE IMPORTÂNCIA

Mario Carreño Morales

Se o homem convida a mulher para sair de um dia para o outro, ela é a sua prioridade. Não duvido que não tenha se apaixonado, ainda mais se é final de semana.

Se o homem convida de manhã para sair à noite, ela é uma de suas primeiras opções, mas não a única.

Se o homem convida de tarde para sair à noite, ela faz parte do segundo escalão do Facebook, ainda é importante, um CC de respeito, mas não foi a primeira a ser chamada.

Se o homem convida de noite para sair de noite, ela é do terceiro escalão, CC do CC da beleza. Ela pode supor que é improviso, só que a verdade é que ele tentou muita gente antes.

Se o homem convida de madrugada para se ver de madrugada, faz favor de não atender, é carência. Não achou ninguém e somente quer transar.

A mulher odeia compromisso em cima da hora. Não abre mão do tempo para se arrumar e se preparar ao encontro. Aceitará apenas se também estiver desesperada.

Ouça meu comentário na manhã desta terça-feira (13/10) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:



domingo, 11 de outubro de 2015

A SOLIDARIEDADE COM A TRISTEZA DO OUTRO


Ceder é transcender.

Não tenho mais nenhum interesse na vida de mandar no relacionamento: eu me respeito e respeito o outro.

Não planejo nada além de dois dias. Trata-se de um prazo razoável. Porque nunca sei das inconstâncias de meu humor e o de minha mulher e de meus filhos.

Não faço mais arrastão, aquilo de marcar uma saída e não aceitar qualquer mudança de plano.

A onipotência (a ânsia de controlar a tudo e a todos) é um risco altíssimo para o casal. Sou mais de acordar com calma e ver como estão as coisas.

Desagradável é a disputa de poder no final de semana. Agendar um passeio e descobrir na hora de se arrumar que a mulher não está mais a fim. Ou porque sofre de enxaqueca ou não dormiu bem ou resta trabalho inacabado, motivos que não existiam antes da promessa.

O que pode acontecer?

Primeira hipótese: você teimar em manter o compromisso e chantagear a esposa para acompanhá-lo pelo simples argumento de que já estava combinado há tempo. Ela poderá ir, absolutamente contrariada, e passará o passeio inteiro com a cara emburrada, desprovida de qualquer vontade de sorrir.

Assim como você comprou briga para sair, agora comprará nova refrega, já que ela não se encontra do modo como imaginou. Não parece nem um pouco disposta.

Ficará furioso que ela não colabora, não ajuda, não se esforça para tornar agradável. Mas ela já havia dito que não tinha nenhuma vontade, você que não foi compreensivo. Não há como funcionar. O que deseja é praticamente o impossível, que a felicidade seja um feitiço e acenda a luz dos olhos dela com uma salva de palmas. A alegria jamais será obrigação, e sim estado de espírito.

Não é que ela não quer ser feliz, não conta com inspiração para ser feliz. Felicidade é contexto, atmosfera, disposição. Não adiantou seguir com o roteiro. Discutirão sem parar, apesar do sol e da comida maravilhosa do restaurante.

Segunda hipótese: também pode colocar tudo a perder permanecendo em casa como provocação. Desmarca, finge que aceita o desânimo dela, porém emburrece e faz qualquer movimento de mau-humor. Não acolhe o impedimento como natural, seu interesse é boicotar as mínimas atitudes dali por diante e mostrar que ela estragou o seu final de semana.

Aponta o egoísmo da tristeza dela e não percebe que o seu contentamento ainda é mais egoísta.

Não custa mudar de opinião e oferecer um voto de confiança. Entender que a nossa companhia não vem partilhando da mesma frequência. Representa um momento, não é para sempre.

Forçar o entusiasmo provocará apenas culpa.

Aproveite a folga para ler, ver filme, conversar com os amigos.

Milagrosamente é somente sair de perto, dar espaço para a solidão, não pressionar, que ela virá depois disposta a passear.

Quem cede sempre é recompensado com amor.

A desobrigação gera a escolha. A escolha é liberdade.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.40
Porto Alegre (RS),  11/10/2015 Edição N°18321

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

PROFECIA DO FRACASSO

Arte de Giorgio de Chirico

Pensar demais é exigir demais de si e dos outros.

Pensar demais é analisar todas as hipóteses para não correr riscos.

Pensar é bom, desde que não vire angústia, sofrimento, deserção do mundo.

O excesso de pensamento tende a virar imobilidade.

Todo o pessimista é prepotente. Não se repete porque ele já sabe de tudo. Saber de tudo é morrer para a experiência.

Ele critica antes de enxergar, critica antes de ouvir, critica antes de provar.

Quem pensa demais procura ter somente benefícios sem a contrapartida dos sacrifícios.

Quem pensa demais encontra mais problemas do que soluções. É mais prevenido do que real, é mais cauteloso do que verdadeiro.

Não vai, não quer, não deseja, pois já conhece os resultados. Não arrisca. Não ousa. É um profeta do fracasso.

Arruma sempre uma desculpa para não comparecer. Afinal, quem pensa demais não quer perder tempo e assim perde a esperança de mudar de ideia e de vida e de participar de qualquer coisa.

O intelecto não pode apagar o prazer da simplicidade. É saudável ser idiota um pouco por dia.

Não há motivo para jogar futebol entre os amigos a não ser o  hábito de reviver a infância.

Não há motivo para dedicar uma tarde inteira de churrasco e ouvir as piadas antológicas a não ser o hábito de rir em família.

Felicidade não é racional. Felicidade é continuar acreditando mesmo depois de ter sido infeliz uma vez.

Ouça o comentário na manhã dessa sexta-feira (9/10), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

NÃO VISITE A NOSSA COZINHA, ÁREA DE GUERRA


Arte de Eduardo Nasi

Tenho os meus panos de cozinha.

Panos velhos, manchados, esgarçados, com os desenhos de uvas e flores apagados, mas que secam e limpam que é uma beleza.

Formam um conjunto de paninhos idosos, com a preferência de sentar em minhas mãos. Nem entram em fila de espera. São curingas que servem para diferentes atividades: lustrar móvel, desinfetar, sugar a aguaceira das superfícies.

A vida era simples até a minha mulher profissionalizar a nossa área de limpeza.

Ela anda querendo tirá-los de circulação. Um caso evidente e abominável de extermínio.

Não posso mais largar um de meus panos de prato à mostra no balcão, dar bobeira, que ela pega e põe no lixo sem piedade, sem perguntar, sem remorso da história e da dedicação daquelas peças.

E não tenho como comprar panos velhos. É como o tênis usado que fica bom, entende? É quando o tênis perde aquele branco constrangedor e passa a ser humano. O mesmo ocorre com meus paninhos. Os paninhos são a minha gente, ora bolas, são a minha família.

Mas ela decidiu de terceirizar o espaço, não há mais como misturar mais nada: comprou um pano amarelo para o fogão, o perflex para uso exclusivo da cozinha, um de prato que não posso empregar para mais nada a não ser secar, um pano para cera, um pano para esfregar o chão, um pano para a privada e o banheiro.

Agora é um exército de panos inéditos que me confunde: penso muito para definir qual é o tipo de quê. Antes apenas limpava. Hoje é decoreba, hoje me revejo memorizando a tabuada com palitinhos de fósforos.

Para não perder tempo, comecei a esconder os meus panos afetivos da chacina do lar.

A cozinha transformou-se em disputa pelo domínio do morro.

Guardo meus panos no alto da secadora, lá no fundo, em uma caixinha de papelão. Ela não tem como enxergar. Um outro esconderijo é na gaveta junto dos meus calçados excêntricos, que ela não gosta, onde mantenho o par de sapatos de Bozo, como ela mesmo define.

Não entregarei os pontos.

Sou eu e os meus paninhos contra a modernização do serviço doméstico.

O fim é certo, o que me resta é adiá-lo.

O homem pode virar o rei da cozinha, mas jamais terá a coroa. Por enquanto, e somente por enquanto, escondo o meu manto para não ser irremediavelmente deposto.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 07/10/2015

terça-feira, 6 de outubro de 2015

QUEM VAI SUBIR NO TELHADO PARA ARRUMAR A ANTENA?



Não havia canais por assinatura, somente televisão aberta.

Não havia sequer controle remoto, ligávamos e desligávamos a TV girando um botão no aparelho.

Na infância, antes de a preguiça nascer, a televisão dependia de uma antena no telhado e de uma antena em cima da tevê.

A imagem chuviscava, dobrava, encurtava, piscava dependendo do vento. Um deus nos acuda quando o sinal desaparecia de repente no meio do noticiário ou numa cena de beijo.

Em alguns momentos, um Bombril nas pontas da anteninha interna resolvia a tremedeira. Em outros, era preciso criar uma operação de guerra. Alguém tinha que subir no telhado e mexer na antena externa. Na minha família, costumava ser o pai. Mesmo gordo, o pai recebia a missão de homem da casa. Mas seu trabalho exigia uma equipe de apoio, de no mínimo mais duas pessoas.

O pai pegava a escada, apoiava-se nas calhas, pisava cautelosamente nas juntas e tentava deslocar as pontas de metal, infinitamente, com o objetivo de localizar o ponto exato da definição do canal. Só que ele não estava na frente da televisão – estava já em cima, às cegas.

Um irmão, posicionado na sala, narrava o andamento de cada intervenção:

– Ainda ruim, melhorou, assim, não mexe, volta volta, ótimo!

Mais um, de guarda no pátio, controlava a gesticulação da figura paterna e traduzia o que estava sendo dito do fundo da residência:

– Mais para a esquerda, mais para a direita!

A mãe, desesperada, implorava para o pai não cair. Rezava e gritava ao mesmo tempo:

– Desce daí, Ave Maria cheia de graça, você vai morrer, o Senhor é convosco, não seja estúpido, bendita sois Vós entre as mulheres...

Não se ouvia ninguém direito, numa gritaria sem tamanho.

Naquela época, consertar a TV custava malabarismo e a própria vida.

Mexe pra cá, mexe pra lá, a aventura poderia demorar duas horas. Um movimento brusco, inexato, botava tudo a perder.

O pai não desistia enquanto não recuperava a fixação da imagem. Usava os dedos como pinças, empurrando delicadamente as hastes, em concentração apurada de ladrão de cofre.

Assim que descia, com o retorno da nitidez do aparelho, tornava-se o herói familiar, o nosso bombeiro, o nosso salvador dos programas dominicais, abraçado por todos, ovacionado por declarações de amor.

Ele fingia humildade:

– Não fiz nada além do meu dever.

Pena que sua fama duraria pouco, até a próxima tempestade, quando a mãe lhe culparia pela porção de goteiras.

– Com seu peso, quebrou as nossas telhas. Você não presta.

Encontrávamos um final feliz unicamente nas novelas.








Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  06/10/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18316

GENE KELLY

Arte de John Tunnard

O carregador do celular é o novo guarda-chuva.

Antes o que mais perdia na vida era guarda-chuva. Devo ter extraviado mais de quarenta ao longo da vida, numa média de um por ano. Mudava o tempo, desaparecia a água das nuvens, e o deixava no restaurante, no ônibus, na escola, na universidade, no consultório. Lembrava somente dele na hora de sair para a rua no próximo temporal. Cansei de comprar, de roubar dos outros, e me molho de propósito, sou o Gene Kelly das poças gaúchas.

Agora sofro da maldição do carregador. Por mais que me concentre, esqueço no aeroporto, na casa de amigos, no trabalho, no bar. Como a bateria dura pouco e o celular centraliza o e-mail, as redes sociais e os contatos profissionais, sou obrigado a adquirir mais um carregador antes de recuperar o antigo de volta. Não há tempo hábil para o resgate.

O carregador é infiel como o guarda-chuva. Vive me trocando. Ele me abandona sempre para ficar beijando a tomada.

Ouça comentário na manhã dessa terça-feira (6/10), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antônio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O PASSADO GUARDADO DENTRO DO FUTURO

Arte de Hannah Höch

Você deve ter algum objeto do ex em casa.

Uma caneca, uma roupa, um livro com dedicatória, um cd, qualquer coisa que não jogou fora.

Qualquer coisa que você pensou que era mais seu do que do ex.

Qualquer coisa que escapou da fogueira, da Inquisição, do ódio.

Qualquer coisa que resta no purgatório sentimental.

Qualquer coisa que esqueceu ou não sentiu necessidade de jogar fora.

Você apagou as fotos no Facebook, quebrou os porta-retratos, limpou o guarda-roupa, abandonou grande parte dos presentes, você deixou que ele levasse embora tudo o que  lembrava.

Mas algo ficou, sempre fica, por mais atento que seja.

A verdade é que, consciente ou inconscientemente, não conseguimos descartar uma existência por completo.

Porque somos sensíveis, porque somos bobos, porque somos humanos, apesar do sofrimento e da cicatriz.

Fracassamos, temos compaixão, preservamos uma relíquia para dizer que o relacionamento não foi em vão.

Escolhemos sem querer uma prova de que não foi loucura de nossa parte, de que não foi alucinação, de que o amor tem provas materiais e realmente existiu.

Ouça meu comentário na Rádio Itapema na tarde dessa segunda (05/10), às 13h, apresentação de Denise Cruz:

domingo, 4 de outubro de 2015

BANHO SEMPRE JUNTOS


Um casal de amigos toma banho juntos todo dia.

Não é exagero: todo santo ou maldito dia. Ambos não abdicam do hábito.

Não se unem para sexo ou transas aquáticas, não se abraçam para sedução ou selvagerias líquidas.

Nenhuma pornografia como é possível imaginar. Pois casa não é motel, é refúgio do tumulto do mundo. Os espelhos não estão no teto, mas nos próprios olhos.

É banho para a ternura, para a transparência.

É banho para conversar e se atualizar, lavar o silêncio, acalmar a ansiedade.

É banho para chorar quando necessário, brincar de espuma, rir dos perigos e organizar os desmandos do trabalho.

É banho de amizade, de cumplicidade auditiva, de intimidade da pele, para saber como foram a manhã e a tarde de cada um e preparar a barca dos sonhos.

É banho em que os joelhos e os cotovelos são lembrados, em que as axilas e as costas são esfregadas.

É banho de açúcar, melhor do que o sal grosso para espantar o mau olhado.

Dividem o xampu e a esperança. Enquanto um se ensaboa, o outro se enxagua. O revezamento é perfeito como uma dança, como uma coreografia.

Estão nus, sem reservas, sem receios, sem caretas e poses, sem mentiras e distorções, com a humildade de se colocar à disposição.

Como Adão e Eva antes da maçã. Antes da amargura.

Adultos que escolheram a água como o refúgio infantil, puro, um confessionário onde nenhum filho abrirá a porta com novas urgências.

O box é uma piscina vertical, o box é uma hidromassagem de pé.

O box é uma varanda fechada, uma Veneza em miniatura.

O box é uma chuva particular, em que vão chapinhando nas poças e as vozes buscam alguma música brega para distrair as dificuldades.

E se um já tomou banho antes repetirá a operação para não perder a parceria. Mesmo que isso signifique tirar o pijama e deixar o calor da cama.

Não passam um dia sem tomar banho lado a lado. Descobriram que a lealdade é abrir um espaço fixo para a palavra.

Os casais devem tirar um momento de sua rotina para estarem absolutamente entregues. Um momento apenas de atenção integral, para renovar o ímã da felicidade.

Pode ser o café da manhã, o almoço, uma horinha de chimarrão no entardecer, uma caminhada pela praça, a leitura de jornais, o colo de uma novela.

É dividindo a solidão que os dois serão um só pela vida inteira.




Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.40
Porto Alegre (RS),  04/10/2015 Edição N°18314