sexta-feira, 30 de outubro de 2015

"A RESPONSABILIDADE É MINHA!"

Arte de Vicente Dopico Lerner

Quando você é solteiro não tem em quem colocar a culpa pela sua infelicidade.  Ou culpa por não conseguir fazer as coisas. Ou culpa por se atrasar ou por não dormir direito. É só você com você. Não há culpados: ninguém está perto para acusar.

A responsabilidade não muda com o casamento. Continuamos responsáveis pelas nossas escolhas e desejos, tristezas e mágoas.

Não culpe a sua companhia por aquilo que sempre existiu. O que não deu certo ainda é seu, por mais que seja uma tentação jogar a culpa no marido ou na esposa. Os defeitos ainda são seus. Os problemas ainda são seus. As limitações ainda são suas - exatamente igual como na vida de solteiro. Não foi inventada a partilha dos defeitos no matrimônio.

Não busque tirar o corpo e a alma fora. Não enrole como Homer Simpson: "A culpa é minha e eu boto em quem quiser!”.

Ser honesto é mais bonito do que ser perfeito.

Ouça meu comentário na manhã dessa sexta-feira (30/10) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

FILHOTE DE URUBU

Arte de Eduardo Nasi

Nada era mais importante do que não ir para aula.

Criança faz vodu, reza por tragédias, assina pacto com a preguiça. Tudo para não se levantar cedo e enfrentar cálculos e regras de português.

Quantas vezes torci pela paralisação do magistério, absolutamente indiferente às reivindicações mais que justas?

Os professores enfurecidos e eu absolutamente alegre. Os professores badalando sinetas na Praça da Matriz e eu com o badalo da língua em um sorvete italiano de máquina. Não tinha nenhum engajamento ou compaixão, apenas pensava em mim com o egoísmo puro de um Anticristo. Mentalizava para o Governo jamais atender o aumento salarial da categoria, resmungava ofensas, mais intransigente do que o Secretário da Fazenda. Acompanhava a votação no Gigantinho aguardando, fervorosamente, os braços estendidos da multidão de servidores. Como amava a greve! Azar que perderia as férias em seguida, que as aulas avançariam janeiro, eu me interessava pelo prazer imediato.

Festejava porque me permitiria assistir O Balão Mágico a manhã inteira. Não precisaria me preocupar em despertar, tomaria o meu Nescau tranquilamente, e ainda poderia jogar videogame com os amigos.

Estudante é bicho triste. Comemora doença, hecatombe, confusão em nome de uma folga e de um feriado imprevisto.

Minha mãe chorava com a morte do Papa João Paulo I numa quinta-feira e eu ria à toa devido ao luto e ao sábado e domingo de graça no meio da semana.

Não fui um menino bom, fui um urubu de pequeno, um corvo disfarçado de gente.

Quando faleceu Tancredo Neves, o primeiro presidente civil do Brasil depois de 20 anos de ditadura, eu dei um pulo de gol na sala. Um urra de contentamento. Um soco no ar de Pelé. Lembro do porta-voz da presidência, Antônio Britto, noticiar, com voz pesarosa, o fim prematuro do nosso líder político: “Lamento informar que o excelentíssimo senhor presidente da República Tancredo de Almeida Neves…”

A família inteira fungava, perplexa, no sofá da sala, e eu não pertencia àquele quadro de consternação. Enxergava o benefício pessoal do enterro e da comoção nacional.

Aconteceu na noite alta de um domingo, 21 de abril de 1985. Estava começando a revisar conteúdo para a prova de matemática. No momento do anúncio fúnebre, não me contive de entusiasmo, joguei o caderno para cima. Não haveria prova, não haveria escola aberta, não haveria nenhuma obrigação. O país parou e me deixou livre para brincar. Lembro de ter dito, baixinho: “Obrigado presidente, morreu bem na hora”.

Arrependimento só não mata criança.







Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 28/10/2015

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A BELA E A FERA


A mulher linda é a alma gêmea do homem feio.

Os dois são vítimas da aparência, com grandes dificuldades para demonstrar o que são por dentro.

Sou o feio de minha casa. Mas não enfrentei um bullying como o que aguentou a minha irmã Carla, uma boneca de tão formosa.

Eu fui debochado, chamado de ET, de monstro, de apelidos inimagináveis. Cansei de me envergonhar e de suportar os colegas rindo do meu jeito desengonçado. Porém mantenho o discernimento de que a Carla sofria mais: as pessoas por perto desconfiavam de sua inteligência. Não podia ser bonita e inteligente ao mesmo tempo.

A gozação era de outra ordem, caracterizada pelas indiretas.

No meu caso, o bullying era a gargalhada escancarada; no caso dela, era a conversa sussurrada.

No meu caso, o bullying era a ofensa gritada; no caso dela, era a suspeita silenciosa.

No meu caso, o bullying era a troça; no caso dela, era a fofoca.

No meu caso, o bullying era feito em minha presença; no caso dela, era construído em sua ausência.

Qualquer avanço precoce que ela alcançava na vida, pelos seus méritos e estudo, terminava creditado para a sua beleza. Os colegas insinuavam que encontrava facilidades por ser exuberante.

Não podiam admitir a sua genialidade, e suas proezas como a láurea na faculdade de Direito da UFRGS ou o primeiro lugar no concurso do Ministério Público.

Ela cresceu obrigada a se defender do senso comum, que não admitia que ela pudesse ser também competente, que conservava a mania de achar que toda a miss é burra, de que todo mulherão precisa seduzir para conseguir os seus objetivos.

Enquanto muitos deduziam que ela lesse O Pequeno Príncipe, ela conhecia O Príncipe, de Maquiavel, de cor e desbravava os clássicos da política e da literatura.

A beleza nunca a favorecia, apenas atrapalhava. Trabalhou o dobro para ser aceita, e o triplo para ser reconhecida.

A mulher linda é tratada somente pelo seu físico, esvaziada de personalidade. São um preconceito e um machismo invisíveis, traficados pelo elogio do corpo.

A agressão acontece de modo psicológico e sutil, e o isolamento torna-se quase certo. Tem que se desvencilhar de cantadas ininterruptamente. Há uma dificuldade para encontrar amigos e chefes desinteressados. Sair na rua é aturar os assobios da construção civil e os olhares pornográficos. Existirá a inveja das amigas que procurarão desmerecer o seu sucesso profissional. Professores esnobarão a sua imagem bem-vestida.

A mulher bonita corre sérios riscos de virar um alvo meramente sexual e jamais ser vista por inteiro.

Só ela entende o que o homem feio sente.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 6,  27/10/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18337

DESFILE

Arte de Eugenio Granell 

Homem não compreende quando sua mulher vem apresentar a sua lingerie nova.

Ele já quer tirar. Nem finge interesse. Ela gastou duzentos reais para nada.

Poderia existir sutiãs e calcinhas descartáveis, que daria igual trabalho.

O marido não memoriza quais são as peças recentes de sua esposa. Ela mostrará um conjunto que usa sempre e ele achará que foi comprado ontem.

Homem crê que a roupa de baixo não é para ser vista. Não entende o preço de um sutiã e de uma calcinha, ou a imensa paciência para escolher a ideal.

Olha como é complicado: a alça do sutiã deve ser centralizada nos ombros; quem possui seios menores, enchimento e push-up são uma ótima alternativa, quem possui seios maiores, o correto é optar por laterais e costas reforçadas; não convém alça de silicone ficar exposta, cuidado com a cor da pele não destoar demais do conjunto; quadril mais estreito tem o direito de abusar de calcinhas com alças finas, estampadas, com babados e laços nas laterais; já quem conta com um quadril avantajado é aconselhável calcinhas com cós mais alto e lateral mais larga, de preferência lisas ou com estampas pequenas.

Convenhamos, não é igual a selecionar uma cueca. É uma trabalheira sem fim.

O homem deveria ser mais solidário, aplaudir a caminhada que será feita na passarela do quarto e não querer ir direto ao finalmente.

O homem confunde desfile de lingerie com strip-tease. Não é a mesma coisa.

Ouça meu comentário na manhã dessa terça-feira (27/10) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

MALANDRO COM MALANDRA

Arte de Jorge Castillo

A gente supõe que um malandro quando casa com uma malandra desfrutará de uma relação livre, excitante, louca, só aventura, sem amarras, já que ambos amam festa, dançar, bagunçar.  

É um engano. Tem tudo para ser uma relação conservadora.

Quem aprontou muito sempre sofrerá o medo que alguém apronte com ele.

Quem muito passou para trás em seus namoros não anda olhando para frente, caminha de costas. Viverá com receio de ser castigado, de levar o troco, de ser o último a descobrir.

Como os dois fizeram o pior antes do relacionamento, ficarão delirando monstruosidades de seu par. Não permitirão a sua companhia sair em paz, passear, conhecer novas pessoas.

Serão paranoicos, prevenindo deslealdades e infidelidades a qualquer momento.

Serão ciumentos, possessivos, desconfiados.

Conhecem todos os macetes e as manhas para enganar e não deixarão nada passar em branco.

Vão sair da libertinagem para o convento, da boemia para a prisão.

Dois ex-malandros juntos é uma casamento quadrado, sem graça, infestado de regras e restrições.

Ouça meu comentário na Itapema FM RS, na tarde dessa segunda (26/10), às 13h, apresentação de Denise Cruz:

domingo, 25 de outubro de 2015

BRIGANDO DIREITO



Sou fã de seriados, venho assistindo três ao mesmo tempo: Elementary, Narcos e Newsroom.

Neste último, um dos personagens jornalistas diz para a sua colega de trabalho que vive se separando do namorado: “Vocês precisam aprender a brigar direito”.

É um conselho que deveria ser levado para o ouvido do noivo e da noiva ao pé do altar: aprender a brigar direito é reduzir os danos e evitar as rupturas (e desgastantes reconciliações).

Briga boa é discussão curta, sem tempo para envolver outras pessoas e com espaço reduzido para não produzir ressentimentos. É falar o que feriu, explicar o ponto de vista, ouvir o contraponto, acolher as desculpas e seguir em frente, sem o risco de retaliações e excessos. Dependendo do que aconteceu, um longo telefonema ou um chimarrão ao entardecer resolve a pendenga.

Briga boa é aquela que não sai de casa, permanece dentro do círculo do relacionamento, a portas fechadas. Não vira cobrança, sermão e dívida. Mágoa longa sempre gera fofocas e opiniões incontroláveis de terceiros.

Briga boa não deve ultrapassar 24h, pois o mal-estar faz vítimas rapidamente. Nem todos têm paciência para ruminar desentendimentos. O suspense pela paz desperta o pessimismo nas almas amorosas. É duro controlar a ansiedade. O tema só chegará ao terapeuta depois de passar pela comunidade inteira.

O ideal é ter simplicidade para falar o que incomoda, não dependendo de conversas sérias e avisos de despejo.

Saber brigar é solucionar o impasse procurando as palavras certas, respirando fundo, prevenindo-se das agressões gratuitas, cuidando para não recorrer a afastamentos.

Ao banalizar o término, estará abrindo caminho para chantagens cada vez mais pesadas.

Briga boa significa preservar o seu par de algumas ofensas. Ultimatos são perigosos e costumam ser aceitos no momento de raiva. Desaconselhável desafiar a sua companhia com o fim – apressando a chance de ela fazer as malas.

Afinal, na gritaria, é o orgulho que manda, jamais o amor.

Briga boa é manter o foco de tudo o que é vivido a dois, e não apenas sublimar um momento ruim. Acima de tudo, cabe a delicadeza de trazer o contexto do romance à tona, o dia anterior, a sequência da intimidade. Fica mais fácil compreender a falha diante do conjunto da obra.

Ninguém está livre do erro, do engano e da distração. Brigas são desabafos. Não distorça a sua natureza catártica para um desproporcional acerto de contas.

Briga boa é, depois de reclamar, devolver a esperança com um beijo e um abraço apertado.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.48
Porto Alegre (RS),  25/10/2015 Edição N°18335

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A MINHA TRISTEZA PASSA RÁPIDO

Arte de Cundo Bermudez

Hoje completo 43 anos.

No primeiro aniversário que fiz para a os amigos, ninguém foi.

Foi um vexame. Foi um desastre. Foi um mico.

Tinha sete anos, cursava a primeira série, a mãe inventou de fazer a minha festa num feriado. A minha primeira festa para os outros.

O convite era do Flash Gordon, meu herói predileto na época.

A mãe e as irmãs passaram a semana preparando brigadeiros, branquinhos e salgados.

Estava me sentindo muito importante.

Eu fiquei na frente da casa esperando os meus convidados. Vestido de macacão e gravata borboleta. Jamais repeti esta combinação maluca na vida.

Morava numa residência de esquina.

Todo mundo que subia a lomba da Rua Corte Real, eu pensava que era alguém que chegava para a minha festa.

Gritava para os irmãos: - Agora sim!

Mas me enganava, as pessoas seguiam reto para seus compromissos. Não era para mim. Nunca era para mim.

Fiquei mais de duas horas plantado na frente de casa controlando todos que se aproximavam. Tão plantado que devo ter dado frutos e pássaros pousaram em meus ombros.

Até que anoiteceu, até que o pai pediu que entrasse, até que acabou o meu sonho de receber presentes dos colegas da escola.

Quando vi a mesa posta, com docinhos, cachorro-quente e salgadinhos para um exército, me deu uma pena de mim. Depois vi a torta imensa e a cara triste da minha mãe, daí me deu uma pena imensa de minha mãe. Guardei a lágrima, mais preocupado com ela, e busquei consolá-la:

- A gente pode congelar a torta para o ano que vem, não fica triste, mãe.

Sempre a tristeza dos outros é mais importante do que a minha tristeza, por isso a minha tristeza passa rápido.

Ouça meu comentário na manhã desta sexta-feira (23/10) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

TORTURAS DO AMOR MENINO

Arte de Eduardo Nasi

Quando o homem começa a acertar no relacionamento, já sofreu muito.

Quando o homem começa a ganhar na paixão, já tem um histórico de derrotas no coração.

Quando o homem começa a ser feliz no romance, já apanhou bastante em sua infância.

Atravessou os piores sentimentos como a inveja, o ciúme, a desvalia e a saudade antes de experimentar o amor.

Como ele amadurece bem mais tarde do que a mulher, não tem igualdade de condições para arrebatar suas colegas de escola.

As gurias do fim do Primeiro Grau, na minha época, por exemplo, de 13 anos, só ficavam com os caras mais velhos, de 16 anos para cima.

A concorrência era desleal.

Nós, da mesma faixa etária, rascunhávamos bilhetes e jogávamos fora, ensaiávamos frases por dizer e gaguejávamos na hora de reproduzir o seu conteúdo arrebatado. Nossa interação resumia a dividir a pastelina e o refrigerante. Ou sonhar com uma aproximação durante o trabalho em grupos.

Mas bastava sair dos limites da escola que desaparecíamos. Não existíamos. Evaporávamos.

Vinham os forasteiros. Alguns na universidade, alguns de carro, alguns falando grosso, alguns de barba enquanto ainda exibíamos a penugem transparente de um bigodinho.

Sequestravam intelectualmente as nossas garotas. Para além da noite e dos nossos olhos.

A maior parte delas namorava com os caras fora do nosso círculo. Não tínhamos chance. Representavam homens feitos, com quarto para namorar e dinheiro no bolso.

Além da desvantagem do tempo, havia uma injustiça na divisão dos recursos. Sem privacidade, seguíamos com uma rotina cigana, migrando da praça de alimentação dos shoppings para os bancos das praças, indo a pé da escola naquela vaga esperança de economizar a grana do ônibus. Impossível levar qualquer menina para casa, sofreríamos com o inquérito e espionagem da mãe.

Aspirávamos a primeira relação com elas, mas nem atingíamos o degrau do beijo. Não queriam saber dos piás, dos fedelhos, das crianças que voltavam suadas do recreio, com o gambito das pernas e as costas arqueadas.

Não desfrutávamos de peitoral e da simpatia bronzeada dos surfistas.

Quantas meninas amei sigilosamente no Ensino Fundamental e jamais me declarei? Por quantas meninas chorei em segredo?

Restava-me ser o melhor amigo delas, o confidente, o corno manso do amor platônico.

Por isso, faço questão de ser mais velho. Sempre adianto a minha idade. Para recuperar os três anos que perdi no princípio da adolescência.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 21/10/2015

terça-feira, 20 de outubro de 2015

GAVETA DOS MISTÉRIOS


Na cozinha, tenho a gaveta dos mistérios. Foi dessa forma poética que a minha mulher chamou a segunda gaveta do armário.

Uma gaveta das extravagâncias caseiras, com tudo o que eu não imaginava possuir, que não lembro de ter comprado ou recebido de presente.

É o Estreito de Bering dos meus objetos, onde as coisas mais estranhas se misturam e criam novas vidas, ajudando-me a ser menos primata.

São inutensílios mais do que utensílios.

Quando a minha esposa pergunta se contamos com algo, mesmo que não compreenda do que está falando, já assimilei que pode estar na gaveta dos mistérios.

“Dá uma olhada ali!” é a minha resposta mais adequada.

Foi assim com o esmagador de alho. Nem passava pela minha cabeça que alguém excêntrico e louco tivesse inventado um espremedor para não feder as mãos.

Foi assim com o fuê e seus cabelos metálicos para bater as claras. Dez contra um que ignorava o batismo dessa colher.

Foi assim com o almofariz, um delicado pilão, moedor de grãos, cujo formato desconhecia.

Foi assim com a mandolina. Quando a esposa questionou sua existência, pedi que repetisse três vezes. Achava que escutava errado a palavra. O incrível é que havia uma mandolina na gaveta dos mistérios. Como pode? Fui descobrir que é para ralar vegetais. Não prestei a devida atenção nas aulas de técnicas domésticas na escola.

Entre os conhecidos cutelo, concha, funil, espátula e saca-rolhas, a despensa convida habitantes irreais para se juntarem à mesa. Há sempre um nome difícil e de pronúncia misteriosa. Às vezes, penso que aquilo não é uma gaveta, mas um dicionário.

Não posso mentir que me deu medo no instante em que a mulher me pediu para passar o cuscuzeiro. Tudo tem limite. Vá lá que eu ache.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 6,  20/10/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18330

LAVAGEM CEREBRAL

Arte de William Baziotes

Homem tem a mania de não separar sua roupa na hora de colocar na máquina. Deixa tudo amontoado no cesto. É uma preguiça de infância que carrega para a vida adulta. É uma característica de filhinho da mamãe que não desapega.

Ele não se despe, ele se abandona.

Confunde seu figurino com um macacão eterno. É sempre uma peça única apesar de várias peças.

Pois a cueca está dentro da calça, as meias estão dentro da calça também, a camiseta está dentro do blusão. Isso quando não esquece o cinto junto.

Mais fácil pôr o homem inteiro na máquina de lavar.

Ouça meu comentário na manhã desta terça-feira (20/10) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: