segunda-feira, 30 de novembro de 2015

ENQUANTO OS FILHOS NÃO TEM VIDA PRÓPRIA

Arte de Roberto Matta

Aproveite a infância de seus filhos. Aproveite enquanto são pequenos. Não deixe o trabalho ou os amores tomaram todo o seu tempo. Brinque muito com eles porque não será brincadeira depois. Não adie o final de semana que é reservado para eles. Não falte ao almoço ou a janta que combinou. Não cancele o cinema ou a praça ou a piscina confiando que poderá recuperar mais adiante. Não faça corpo mole. Não dê desculpas. 

Quando eles ficarem adolescentes, você não encontrará a mesma facilidade. Não existirá mais um mês consecutivo de praia - pois não vão querer viajar em função de um passeio com os amigos. Não existirá aquele sábado ou domingo que planejou sair - pois terão uma festa imperdível da escola. Não servirá para nada aquela folga que tirou para curti-los - pois já começaram a namorar e passarão a tarde inteira na casa dos sogros. Você receberá não e não e não já que eles estarão ocupados com as próprias turmas. 

Antes estar com eles era automático, contínuo, não podiam escolher, agora não, agora precisará se contentar com as migalhas dos compromissos de suas crianças crescidas. 

Se foi um pai presente, a adolescência dos filhos será saudade. Se foi um pai ausente, a adolescência dos filhos será ressentimento. 

Ouça meu comentário na Itapema FM RS, na tarde dessa segunda-feira (30/11), às 13h, apresentação de Denise Cruz:

domingo, 29 de novembro de 2015

FIADOR DA DESGRAÇA



O que eu já vi de pessoas que não amam mais acabarem se envolvendo em projetos duradouros como casamento e filhos. Ensaiam o discurso do fim e alteram bruscamente a rota quando confrontados.

Em vez de recuar, apressam os passos. Em vez de soltar as amarras de uma relação problemática, apertam os laços. Em vez de sair, entram ainda mais dentro de casa. Em vez de dizer a verdade, prestam declarações eternas. Em vez de quitar os juros emocionais, realizam mais dívidas.

Estão a um triz da separação e compram anéis de noivado ou marcam igreja ou decidem ter uma criança.

Confundem a porta de saída com a de entrada, e se lançam com unhas e dentes para uma última e redentora chance, que não mudará em nada o desgaste de um longo isolamento a dois.

A boca desmente o desejo e complica o desenlace. A palavra expressa exatamente o inverso das verdadeiras intenções. Se era difícil largar, será impossível a partir de agora.

Sempre me chamou atenção o quanto existem casais caminhando ao contrário de suas decisões. Talvez por culpa. Talvez pela vergonha da solidão. Talvez pela ilusão de se ver mais responsável pela felicidade do outro do que pela própria felicidade. Talvez por comodismo. Talvez para evitar a decepção de quebrar uma promessa. Talvez pela necessidade de ser melhor do que realmente é. Talvez por não admitir que fracassou. Talvez por faltar forças para recomeçar. Talvez por entender o tempo como investimento e achar que se dedicou excessivamente para jogar tudo fora. Talvez por supor que o ruim é, ao menos, conhecido.

Qualquer que seja o motivo, o melindre de decepcionar e desagradar impulsiona os maiores erros. O receio é de quê? Que no fundo ela ou ele fale mal de você? Mas não tem como controlar os pensamentos alheios nem dentro da convivência, muito menos fora.

Trata-se de uma atitude fóbica, parecida com a vertigem: é tanto o medo de cair que a vontade é cair mesmo para terminar logo com o medo.

Você percebe o esgotamento da rotina e assume pendências para os próximos cinco anos. Pretende ir embora e começa uma reforma sem precedentes. Pretende ir embora e adquire um cachorro. Pretende ir embora e interrompe o anticoncepcional.

Não há limites para o boicote. Você se afoga nas lágrimas e nada em direção a uma dor maior. Você tenta disfarçar o que sente fazendo o oposto, e aumenta as expectativas e engrossa as mentiras.

Na vida amorosa, o “não” vive se escondendo perigosamente no “sim”. Até terminar do pior jeito, deixando alguém plantado no altar ou com uma criança no colo.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.56
Porto Alegre (RS),  29/11/2015 Edição N°18370

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

DESGOVERNADO

Arte de Joan Erbe

Meu amigo foi convidado para uma festa traje esporte. Por pouco, ele não despontou fardado para jogar futebol com os amigos. Apareceu de bermuda e camiseta polo. Diante dos outros homens com blazer e casaco, a impressão é que estava num baile de carnaval. Faltava apenas o colar de flores do Havaí. Não tinha como recuar e voltar atrás. O azar é que vivia uma fase solteira e não compareceu acompanhado de nenhuma mulher para evitar a gafe. A mulher é o anti-vírus dos vexames masculinos.

Levou a recomendação do convite ao pé da letra. Pé descalço da letra. Se fosse traje passeio, ele iria como se estivesse passeando: de calça jeans e tênis, condenado a suportar os colegas de terno escuro e gravata. Se fosse passeio completo, não duvido que surgiria de novo com jeans e tênis, acrescido agora de uma mochila. Um quero-quero em meio aos pinguins de smoking e gravata borboleta. Passeio completo para o homem é dormir fora de casa. Fora da casinha, na verdade.

Ouça meu comentário na manhã desta sexta-feira (27/11), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


terça-feira, 24 de novembro de 2015

O OLHO GRANDE



A gula estraga o almoço e a janta. Transforma o que era bom em ruim, a comida sonhada em pesadelo, a paixão dos sabores em escravidão digestiva.

Estamos satisfeitos, comemos bem, mas o olho grande não abandona o prato. Mas o olho grande vai dizendo sim para mais uma porção. Mas o olho grande jura que é o fim do mundo. Mas o olho grande é um cachorro brigando pelo osso. Mas o olho grande continua repetindo. Mas o olho grande avança nas bandejas para não sobrar para ninguém. Mas o olho grande é egoísta e já trata qualquer familiar ou amigo como adversário. Mas o olho grande não come o necessário, come três vezes o necessário, ele nos faz acreditar que não teremos uma nova chance daquele banquete e que precisamos aproveitar.

O olho grande é um pobre dentro de nossos pensamentos, um chinelão, um mendigo, um vândalo, um ladrão.

Eu me sentia feliz até aquela garfada, em seguida ficarei triste, bovino e pesado.

Experimento um porre a seco, um porre alimentar, atravessei o meu limite, a ressaca é inevitável.

Por que me saboto? Custava parar um pouquinho antes. Sei o momento de desistir, é quando não baixei ainda a cabeça, é quando ainda converso, é quando ainda me mantenho sociável e amável. Em minutos, mudarei a minha personalidade. O doce virará veneno. É empunhar novamente a faca e corto também a fruição, forçando a boca a acompanhar a mente insaciável.

Serei agressivo, antissocial, depressivo, suicida. Não suporto nem mais encarar as pessoas na minha frente. Quase grito: “Vão embora, me deixem em paz!”.

Não aprendo com a reincidência. Ainda mais quando reencontro pela frente as minhas favoritas iguarias lasanha, pizza e massa quatro queijos.

Na semana passada, voltei a um dos meus restaurantes prediletos, o Café Colonial em Marques de Souza (RS), só que comi cinco bifes na chapa, cinco salsichas bock, três porções de feijão com banha e duas fritas.

Não conseguia respirar depois. Fui correndo nadar no borbulhante sal de frutas. Passei o dia enjoado, encalhado, inútil, arrotando, acenando para uma Samu do inconsciente.

Não devemos parar de comer o que gostamos, o que devemos é apenas controlar. O ideal é sair com um pouquinho de fome da mesa, despistar a gana reservando um espaço imaginário para a sobremesa.

O exagero mata o prazer. O exagero mata os melhores cozinheiros.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  24/11/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18365

AMOR TRAVESTI

Arte de Liliam Cuenca

Você está solteiro e procura alguém: tem alguém idealizado dentro de você, a mulher perfeita para o resto dos seus dias. É capaz de desenhar e estabelecer pré-requisitos: desde altura, peso, cabelos até cor dos olhos. Se alguém pedisse um retrato falado da mulher dos seus sonhos, você não teria dificuldades em descrever.

Toda pretendente passa pela triagem de suas pretensões. Você repara na profissão, estuda afinidades, avalia o jeito que se comporta nas fotos. Descarta qualquer interessada com alguma dificuldade, ou com uma visão de mundo diferente da sua.

Você faz exigências, que seja assim, que goste disso, que goste daquilo, que acompanhe em suas atividades, que seja paciente e amorosa.

Esta pessoa que você espera é você. Você vestido de mulher. Você está querendo um traveco. Você quer casar consigo mesmo.

O amor não é se repetir. O amor não é encontrar o que esperamos, vem quando encontramos aquilo que não esperamos, aquilo que modifica a nossa personalidade, que altera a nossa vida, que bagunça as nossas crenças.

Se odeia cachorro, vai amar uma mulher com cachorro. Se odeia criança, vai amar uma mulher com filhos pequenos. Se odeia sertanejo, vai amar uma mulher que tem todos os CDs de Jorge & Mateus.

Amor não é espelho, é vidraça. E vidraça quebrada.

Ouça meu comentário na manhã dessa terça-feira (24/11), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

CHATICES

Arte de Carlo Carrà

O chato no amor é aquele que não faz outra coisa a não ser forçar o amor eterno.

O chato é o que pensa que qualquer um precisa estar à disposição 24h.

Não trabalha, não tem amigos, não tem distrações.

É um falso preocupado: no fundo é possessivo. É um falso romântico: no fundo é pegajoso

É um psicopata da relação. Todo psicopata é um desocupado. Todo psicopata é um ocioso.

É o cara que não tem intimidade e já determina o que farão no sábado durante a manhã de segunda-feira. É o cara que acabou de sair do primeiro encontro e manda mensagens madrugada adentro dizendo o quanto a noite foi inesquecível e linda. É o cara que não tem limites e não realiza mais nada na vida a não ser persegui-la. É o cara que telefona quando lhe vê online. É o cara que comenta todas as suas postagens no Facebook e no Instagram. É o cara que não espera a resposta e decide pelos dois.

Amor depende da saudade e de um tempo longe para vingar.

O chato é o aborto do amor.

Ouça meu comentário na Itapema FM RS, na tarde dessa segunda-feira (23/11), às 13h, apresentação de Denise Cruz:

domingo, 22 de novembro de 2015

VIAGRA NATURAL



O maior afrodisíaco do homem é se sentir desejado. É de menos a beleza e a aparência, por mais que soe cabotino de minha parte, o homem se apaixona quando vê que é desejado. Muito desejado. A descrição aumenta o prazer, a antecipação reforça a vontade.

É irrelevante se a mulher é alta ou baixa, loira ou morena, feia ou miss, com quilos a mais ou a menos, o que adiciona coragem no homem é o discurso arrebatado, a volúpia e a excitação de sua companhia.

A dúvida alimenta o imaginário feminino, por sua vez é a certeza que impulsiona o homem. A convicção. O filme precisa ser legendado e dublado ao mesmo tempo. Qualquer desconfiança do objeto amoroso desencadeia desvalia e ressentimento.

Quando a mulher desenha, diz o quanto o quer, quando promete e anuncia o que fará, quando explica o motivo dele ser o eleito, o homem pira de felicidade.

Ele joga melhor com a vantagem no placar. Odeia ser humilhado e constrangido – é um carente, é uma criança emocional, busca reconhecimento no sexo e no amor. Ele se afastará do relacionamento que subestime o seu desempenho ou o critique em demasia. Não é maduro o suficiente para rebater as ofensas e seguir adiante.

Excitação masculina é elogio, é declaração de exclusividade, é manifesto de virilidade. Facilmente influenciável, folgadamente impressionável, depende do retorno efusivo, da resposta para definir se está agradando. Pode bajular que ele não se importa, pode exagerar que oferece um desconto.
Todo homem é um político na cama, refém do Ibope, das pesquisas de opinião, da crença do voto. Não vive sem o panfleto, o folder de suas realizações e de sua propaganda eleitoral.

Sua alegria é tributária dos enredos e das fantasias, das mensagens picantes e áudios fora de hora, das insinuações ao telefone. Ele gosta da preparação, do aviso, de alguém que se renda aos códigos e dialetos da intimidade.

Pois ser procurado ou procurar é para o casal que transa pouco e não se provoca ao longo do dia, é problema de quem não está conectado sexualmente.

Mas não se deve confundir desejo com submissão. A submissão é broxante, envolve desagradável imposição e ausência de livre-arbítrio. O que ele anseia é ser escolhido pela mulher, adorado pela mulher, que ela confesse a plena excitação em seus ouvidos, que o beijo, o gemido e a palavra venham sempre misturados.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.52
Porto Alegre (RS),  22/11/2015 Edição N°18363

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

UM POUQUINHO?

Arte de Dorothea Tanning

Quando a mulher diz que vai pintar um pouquinho o cabelo, voltará absolutamente modificada.

O que sugere um retoque é o surgimento de uma nova personalidade.

Se queria ficar levemente acobreada, ficará vermelho sangue. Se queria ficar loira, ficará platinada. Se queria ficar morena, ficará azul.

O tingimento sempre foge do controle. Só restarão as sobrancelhas para contar a história e recordar do passado.

Pintar um pouquinho provocará um maremoto de selfies, todas devidamente apagadas. Nenhuma mulher é feliz depois de pintar o cabelo. Ela apenas se conforma - não tem mais o que fazer nos próximos meses.

A cor desejada na caixa ou na cabeça de uma modelo na revista jamais se repete. A cor do seu cabelo não combinará nem com o seu tom de pele muito menos com a sua personalidade, combinará apenas com o cabelo.

Colocar um tonalizante é uma aventura radical. O só pouquinho é muito.

O só pouquinho da mulher no salão é o só o pouquinho do homem no sexo.

Ouça meu comentário na manhã dessa sexta-feira (20/11), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

terça-feira, 17 de novembro de 2015

ELA SABE DE TUDO



Você pensa que a sua mulher não enxerga suas mentiras, você pensa que ela não percebe o quanto não atende às ligações sempre depois do almoço e depois dá um retorno com aquela voz risonha de culpado, você pensa que ela não conferiu a ausência de perfume quando volta para casa de noite (estranho para quem borrifou no pescoço, no pulso e no peito), você pensa que ela não notou que jamais desgruda do aparelho e não deixa que ela chegue perto para visualizar as mensagens, você pensa que ela é boba e idiota, que você pinta e borda, que é invisível e realiza o que quer e quando quer, você pensa que ela não identificou o seu cansaço excessivo de noite e o seu conformismo, que nem reclama pela falta de sexo (homem quando não reclama ou morreu ou está aprontando), você pensa que ela não testa as suas contradições com as perguntas mais simples, você pensa que ela não fez as mesmas perguntas para os seus melhores amigos, você pensa que ela se contenta com as suas respostas decoradas porque não discute, você pensa que ela não olha que o banco do passageiro ao seu lado está sempre reclinado quando anda sozinho, você pensa que ela já não telefonou para o seu emprego e cruzou as informações de reuniões que nunca aconteceram, você pensa que ela não levantou os nomes comuns e incomuns que adicionou no Facebook, você pensa que é capaz de enganar a sua mulher? Você pensa, mas uma mulher só é enganada se ela deseja se enganar.

Você pensa que ela não registra as suas mudanças sutis de humor, o seu nervosismo de abrir a porta da geladeira sem buscar coisa alguma, a sua ansiedade dobrando as mangas da camisa. Ela o conhece de cor: quando sincero, você é lacônico, quando trapaceia, explica demais. Você somente é paciente para conversar quando tem algo para esconder.

Ela o observa há quanto tempo? Acha que algo passaria despercebido? Tira o cavalinho da chuva. Você pensa que mulher não tem intuição, sexto sentido, atenção aos detalhes. Por exemplo, por que de repente começou a usar Halls preto? Você pensa que não é visto, que nunca será pego, que para tudo há uma explicação, desde que nunca entregue os pontos. Você pensa que a sua distração com os talheres não vem cortando o silêncio, você pensa que a verdade é ter álibi, você pensa, continue pensando.

Ela apenas não falou nada porque pretende descobrir até onde vai com a sua farsa. Mas é questão de tempo. O que lhe posso assegurar é que não existe impunidade no amor.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  17/11/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18358

MULTIPLICAÇÃO DOS PILAS

Arte de Bridget Bate Tichenor

Tenho um amigo artista de rua. Ele se apresenta nas estações de metrô das principais cidades do mundo. Toca violão e canta só Música Popular Brasileira. Já esteve na França, Holanda, Espanha, Portugal. Ele me contou que, no começo da carreira, ninguém colocava dinheiro em seu chapéu preto. Depois de horas de exibição e aplausos sinceros, não arrecadava coisa alguma. Ele via que agradava, mas ninguém mexia no bolso e na carteira.

Até que decidiu largar o próprio dinheiro no chapéu. Antes mesmo de começar, já põe algumas notas altas para despertar a confiança do público. É uma isca de tubarão. E funcionou: quando o espectador enxerga o chapéu cheio fica mais disposto a colaborar, não se sente sozinho e idiota (- Pô, o cara é bom, olha quanta grana já tem em seu chapéu).

No Brasil, ele larga três notas de cinquenta e sempre sai com um bom cofrinho de seus shows a céu aberto. As cédulas se multiplicam naturalmente.

Meu amigo mostra que o artista precisa investir em si mesmo.

Ouça meu comentário na manhã dessa terça-feira (17/11), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: