Guardamos a sensação de que não nos despedimos direito daqueles que amamos e que se foram. É como se não tivéssemos dito tudo, ou que precisávamos nos preparar melhor para o desenlace.
O abraço deveria ter sido mais apertado; as frases de efeito mais contundentes; o olhar mais banhado de lágrimas.
A impressão é que faltou um maior tempo, uma maior disposição, mas é natural se atrapalhar mesmo. Não estamos diante de um espelho, e sim de um rosto de verdade. Existe carência e incompetência em ambos os lados, no lado que fica morrendo de saudade e no lado que vai, morrendo de medo do desconhecido.
Amar é enfrentar a insuficiência no leito do hospital do parente ou do afeto. Significa a pior provação de nossa frágil condição: estabelecer um diálogo com sentido quando nada tem sentido.
A esperança nos faz engasgar. Como achar normal não mais enxergar aquela pessoa? Nenhum exercício mental é capaz de conter o tumulto do coração. O coração sai da boca, sai correndo do quarto para não sofrer, e o corpo permanece ali, na aparência, embasbacado, sentado na cadeira, não entendendo nada, não respeitando os limites e a mortalidade injusta de cada um.
Estamos tão assustados com a morte iminente que todo murmúrio parece ser insignificante. É uma impotência emocional difícil de se superar.
Como reduzir uma amizade em brevíssimos instantes? Como elaborar um epíteto?
E mais dói o fim quando, em vez de ampararmos quem está sofrendo, o doente é que nos consola dizendo para não nos entristecermos. Neste instante é que desabamos: com a surpreendente generosidade do nosso ente, mais preocupado conosco do que com ele.
Eu perdi a minha avó Elisa quando eu tinha sete anos. Muito cedo para uma criança formular o desaparecimento físico. Nenhuma história dos pais me satisfazia. Eu só consegui entregar um desenho para ela. E ela me perguntou quem era ela na ilustração: eu apontei para a árvore, para a casa, para os pássaros, para o chão, para as nuvens, para o sol, menos para ela desenhada ao lado de minha mãe. Porque ela era tudo para mim. Estaria sempre dentro de tudo para mim.
Publicado em Donna ZH em 08/7/2018
segunda-feira, 25 de março de 2019
ADEUS ILUSÃO
Não é um jogo perdido, são quatro anos.
Quatro anos para montar um time, esperar, desacreditar, acreditar de novo.
Quatro anos mordendo a bandeira, escondendo-se das piadas, redundando a fé, secando as lágrimas, rindo torto.
Quatro anos da vida de cada brasileiro, quatro anos de gaveta para a camiseta amarela. Nenhuma outra estrela será bordada sob o escudo.
Quatro anos de campeonatos nacionais, competições internacionais, para definir quem pode surgir e fazer diferença.
Quatro anos rezando para que Neymar não envelheça, que Gabriel Jesus amadureça, que Philippe Coutinho, mantenha a sua timidez selvagem, que Willian exploda de verdade, que Douglas Costa e Firmino segurem o seu fôlego.
Quatro anos sem mais nenhuma chance de Paulinho beijar a taça, de Thiago Silva levantar a Copa do Mundo, uma geração se despede na derrota contra a Bélgica.
Quatro anos para um país onde o futebol é tudo, que não deveria ser assim, mas ultimamente não tem mais nada para se orgulhar. Agora é voltar para as balas perdidas, voltar para as greves, voltar para a recessão, voltar para a impunidade, voltar para a crise, voltar para a incógnita das eleições. As ilusões são mais breves do que os sonhos.
Não são quatro anos, minto, já são dezesseis anos. A idade de meu filho.
Crônica lida no programa Encontro com Fátima Bernardes da Rede Globo em 06/7/2018
Quatro anos para montar um time, esperar, desacreditar, acreditar de novo.
Quatro anos mordendo a bandeira, escondendo-se das piadas, redundando a fé, secando as lágrimas, rindo torto.
Quatro anos da vida de cada brasileiro, quatro anos de gaveta para a camiseta amarela. Nenhuma outra estrela será bordada sob o escudo.
Quatro anos de campeonatos nacionais, competições internacionais, para definir quem pode surgir e fazer diferença.
Quatro anos rezando para que Neymar não envelheça, que Gabriel Jesus amadureça, que Philippe Coutinho, mantenha a sua timidez selvagem, que Willian exploda de verdade, que Douglas Costa e Firmino segurem o seu fôlego.
Quatro anos sem mais nenhuma chance de Paulinho beijar a taça, de Thiago Silva levantar a Copa do Mundo, uma geração se despede na derrota contra a Bélgica.
Quatro anos para um país onde o futebol é tudo, que não deveria ser assim, mas ultimamente não tem mais nada para se orgulhar. Agora é voltar para as balas perdidas, voltar para as greves, voltar para a recessão, voltar para a impunidade, voltar para a crise, voltar para a incógnita das eleições. As ilusões são mais breves do que os sonhos.
Não são quatro anos, minto, já são dezesseis anos. A idade de meu filho.
Crônica lida no programa Encontro com Fátima Bernardes da Rede Globo em 06/7/2018
O FRANGO
Não poderia ter frango em Copa. Deveria ser proibido pelo regulamento. Frango é várzea, Liga Amadora, pelada, campo de terra batida com calombo e morrinho artilheiro.
O que aconteceu com o bom goleiro uruguaio, que determinou a desclassificação da Celeste para a França, foi de uma melancolia romântica, digna da pena de Victor Hugo (e seu fatídico prazer de estar triste).
O chute de Griezmann, de fora da área, no meio do gol, era um suspiro. Uma tentativa fracassada. Um tiro morno e bisonho. Fato insignificante para a emissora trocar de câmera e ir para o lance seguinte.
Tudo bem que Muslera espalmasse, jogasse vôlei, deixasse rebote. Mas a bola se transformou num pião em suas luvas, num redemoinho e seguiu, devagar, para as redes. Até a bola ficou constrangida na hora de entrar.
O arqueiro entrou em parafuso entre rebater e segurar, o braço direito não concordou com o esquerdo e houve um malabarismo atrapalhado de semáforo.
Antoine Griezmann deu exemplo. Não comemorou o gol, seu olhar só pedia desculpa. Baixou a cabeça e seguiu em frente, apesar do estardalhaço de seus compatriotas, como se nada não tivesse acontecido. Quis abafar o escândalo.
Frango merecia ser anulado. É tão vergonhoso para todos os jogadores que desqualifica a vitória.
Crônica publicada em 06/7/2018
O que aconteceu com o bom goleiro uruguaio, que determinou a desclassificação da Celeste para a França, foi de uma melancolia romântica, digna da pena de Victor Hugo (e seu fatídico prazer de estar triste).
O chute de Griezmann, de fora da área, no meio do gol, era um suspiro. Uma tentativa fracassada. Um tiro morno e bisonho. Fato insignificante para a emissora trocar de câmera e ir para o lance seguinte.
Tudo bem que Muslera espalmasse, jogasse vôlei, deixasse rebote. Mas a bola se transformou num pião em suas luvas, num redemoinho e seguiu, devagar, para as redes. Até a bola ficou constrangida na hora de entrar.
O arqueiro entrou em parafuso entre rebater e segurar, o braço direito não concordou com o esquerdo e houve um malabarismo atrapalhado de semáforo.
Antoine Griezmann deu exemplo. Não comemorou o gol, seu olhar só pedia desculpa. Baixou a cabeça e seguiu em frente, apesar do estardalhaço de seus compatriotas, como se nada não tivesse acontecido. Quis abafar o escândalo.
Frango merecia ser anulado. É tão vergonhoso para todos os jogadores que desqualifica a vitória.
Crônica publicada em 06/7/2018
QUEM SÃO OS MEUS PAIS?
Os pais podem mudar de opinião. Aliás, eles mudam de opinião. Suas palavras não são eternas. Os filhos não aceitam as transformações dos pais porque percebem qualquer juízo de ambos como um mandamento inviolável.
Eles teriam que manter a mesma posição por toda a trajetória?
É impossível. Nem tudo que vem da boca deles é conselho, nem tudo é tábua de salvação.
Se um dia falaram que não gostam de tal coisa, parece que a ideia será para sempre. Não é, não há como ser.
Eles apresentam restrições, cometem preconceitos, mas melhoram. Abrem a cabeça, abrem o coração. São humanos, como os próprios filhos, em constante transformação. Erram, vacilam, enganam-se, são enganados, levam fora, tropeçam em vexame e se reerguem. Alguns são arrogantes, depois se mostram humildes e compreensivos. Alguns são carinhosos, depois se isolam na mais completa indiferença.
Não são fechados, embalados para presente.
Aqueles mesmos pais que não queriam que você tivesse animais na sua infância são capazes de adotar cachorros na velhice. E ainda chamam os cachorros de filhinhos (ou seja, ganhou irmãos). Os cachorros dormem na cama deles, algo inacreditável diante da antiga fobia.
Coerência é mudar, não ficar parado sem ser modificado pelo tempo.
Conhecemos os pais pelas funções. O Pai. A Mãe. Como entidades. Nunca chamamos pelos nomes, e sim pelas funções: meu pai, minha mãe. O que devemos perguntar, antes que seja tarde, quem são eles? Você pode passar a vida sem conhecer realmente os seus pais. Pois há pessoas dentro do Pai e da Mãe. Pessoas ansiosas, pessoas esperançosas, pessoas sofrendo com a realidade, pessoas com os seus sonhos não realizados e o igual medo de não ser amado.
Os pais aprendem a vida dos filhos de cor e salteado, mas os filhos não param para perguntar o passado deles. Como foi a infância e adolescência dos dois, de que são feitas as suas escolhas, por que eles pensam desse jeito?
Amar depende da permanente curiosidade. Nunca pensar que conhece realmente alguém, para assim nunca parar de se conhecer.
Qual será a sua surpresa ao descobrir que você é mais parecido com os seus pais do que imagina?
E, de repente, descobrindo que os pais mudam, pode estranhamente mudar de opinião sobre eles.
Crônica publicada em 05/7/2018
Eles teriam que manter a mesma posição por toda a trajetória?
É impossível. Nem tudo que vem da boca deles é conselho, nem tudo é tábua de salvação.
Se um dia falaram que não gostam de tal coisa, parece que a ideia será para sempre. Não é, não há como ser.
Eles apresentam restrições, cometem preconceitos, mas melhoram. Abrem a cabeça, abrem o coração. São humanos, como os próprios filhos, em constante transformação. Erram, vacilam, enganam-se, são enganados, levam fora, tropeçam em vexame e se reerguem. Alguns são arrogantes, depois se mostram humildes e compreensivos. Alguns são carinhosos, depois se isolam na mais completa indiferença.
Não são fechados, embalados para presente.
Aqueles mesmos pais que não queriam que você tivesse animais na sua infância são capazes de adotar cachorros na velhice. E ainda chamam os cachorros de filhinhos (ou seja, ganhou irmãos). Os cachorros dormem na cama deles, algo inacreditável diante da antiga fobia.
Coerência é mudar, não ficar parado sem ser modificado pelo tempo.
Conhecemos os pais pelas funções. O Pai. A Mãe. Como entidades. Nunca chamamos pelos nomes, e sim pelas funções: meu pai, minha mãe. O que devemos perguntar, antes que seja tarde, quem são eles? Você pode passar a vida sem conhecer realmente os seus pais. Pois há pessoas dentro do Pai e da Mãe. Pessoas ansiosas, pessoas esperançosas, pessoas sofrendo com a realidade, pessoas com os seus sonhos não realizados e o igual medo de não ser amado.
Os pais aprendem a vida dos filhos de cor e salteado, mas os filhos não param para perguntar o passado deles. Como foi a infância e adolescência dos dois, de que são feitas as suas escolhas, por que eles pensam desse jeito?
Amar depende da permanente curiosidade. Nunca pensar que conhece realmente alguém, para assim nunca parar de se conhecer.
Qual será a sua surpresa ao descobrir que você é mais parecido com os seus pais do que imagina?
E, de repente, descobrindo que os pais mudam, pode estranhamente mudar de opinião sobre eles.
Crônica publicada em 05/7/2018
POR QUE É TÃO DIFÍCIL PEDIR DESCULPA?
Quando alguém pede desculpa, você deve aceitar ou não. Simples assim. Mais nada. Sim ou não são as únicas opções.
Pedido de desculpa não é prova dissertativa, mas de múltipla escolha.
Só que ninguém aguenta apenas acatar a confissão e acaba humilhando e constrangendo quem tenta reparar a sua falha. Logo vem as perguntas: Por que fez isso? Coloque-se no meu lugar, por que mentiu? Você não confia em mim?
E um etc interminável que transforma o arrependimento em discussão de relacionamento e disputa de vaidades.
Você ainda quer testar a sinceridade e passa a interrogar aquele que se encontra fragilizado e vulnerável em uma posição de humildade.
Não percebe o quanto é difícil vencer o orgulho, e não ajuda no processo de conscientização com a objetividade.
Pensa unicamente em quanto está magoado e se vinga rebaixando o seu par, para que ele se sinta a pior criatura do universo.
A absolvição é dada sempre sob tortura, ironicamente com a demonstração de que a atitude é imperdoável.
Devido à nossa péssima receptividade, o pedido de desculpa é pouco praticado.
Ninguém aceita a solicitação na hora. Com a brecha aberta em sua companhia, aproveita-se para atacar. Ao descobrir que tem razão, abusa da autoridade a ponto de se transformar num tirano.
A retratação, mesmo quando realizada rapidamente, não elimina a sua brabeza e o seu mal-estar. Não desaparece com a sua vontade de brigar. E você recebe a desculpa e acaba dando sermão mesmo quando o outro já admitiu o erro. Não tem sentido continuar com a conversa, mas não admite seguir adiante sem estabelecer uma pena.
O que atrapalha o perdão é que queremos infringir um castigo naquele que cometeu um engano, partimos do princípio de que ele deve pagar pelos seus erros, para que não ocorra uma reincidência.
No amor, é necessário escolher entre a compaixão e a justiça, entre a empatia e o papel de inquisidor. Os dois não têm como coexistirem.
Quem desculpa muda de assunto. Não fica batendo na mesma tecla até quebrar a linguagem.
Publicado em O Globo em 04/7/2018
Pedido de desculpa não é prova dissertativa, mas de múltipla escolha.
Só que ninguém aguenta apenas acatar a confissão e acaba humilhando e constrangendo quem tenta reparar a sua falha. Logo vem as perguntas: Por que fez isso? Coloque-se no meu lugar, por que mentiu? Você não confia em mim?
E um etc interminável que transforma o arrependimento em discussão de relacionamento e disputa de vaidades.
Você ainda quer testar a sinceridade e passa a interrogar aquele que se encontra fragilizado e vulnerável em uma posição de humildade.
Não percebe o quanto é difícil vencer o orgulho, e não ajuda no processo de conscientização com a objetividade.
Pensa unicamente em quanto está magoado e se vinga rebaixando o seu par, para que ele se sinta a pior criatura do universo.
A absolvição é dada sempre sob tortura, ironicamente com a demonstração de que a atitude é imperdoável.
Devido à nossa péssima receptividade, o pedido de desculpa é pouco praticado.
Ninguém aceita a solicitação na hora. Com a brecha aberta em sua companhia, aproveita-se para atacar. Ao descobrir que tem razão, abusa da autoridade a ponto de se transformar num tirano.
A retratação, mesmo quando realizada rapidamente, não elimina a sua brabeza e o seu mal-estar. Não desaparece com a sua vontade de brigar. E você recebe a desculpa e acaba dando sermão mesmo quando o outro já admitiu o erro. Não tem sentido continuar com a conversa, mas não admite seguir adiante sem estabelecer uma pena.
O que atrapalha o perdão é que queremos infringir um castigo naquele que cometeu um engano, partimos do princípio de que ele deve pagar pelos seus erros, para que não ocorra uma reincidência.
No amor, é necessário escolher entre a compaixão e a justiça, entre a empatia e o papel de inquisidor. Os dois não têm como coexistirem.
Quem desculpa muda de assunto. Não fica batendo na mesma tecla até quebrar a linguagem.
Publicado em O Globo em 04/7/2018
PICKFORD
Já temos a maior defesa da Copa do Mundo: quando o goleiro inglês Jordan Lee Pickford buscou a bola no ângulo, em chute surpreendente e salteado do colombiano Uribe, da intermediária. Não era previsível o arremate. Uribe mandou um canhão, em reencarnação atômica de Nelinho, de Dirceu Lopes, de Rivelino.
O goleiro do Everton não somente se esticou, ele se desesperou no ar, ele se desintegrou ao vento, ele se arrebentou inumanamente, numa impulsão aquilina. Dos seus 1,85, cobriu os 2,44 da trave e espalmou com a mão canhota para escanteio. Foi uma coreografia encantadora de explosão e elasticidade.
Não sei o que acontece, de modo alquímico, com os goleiros da Inglaterra na Copa do Mundo. O título de defesa do século está, até então, de posse do também inglês Gordon Banks, que apanhou a cabeçada impossível de beija-flor de Pelé em 1970, no México.
Crônica publicada em 03/7/2018
O goleiro do Everton não somente se esticou, ele se desesperou no ar, ele se desintegrou ao vento, ele se arrebentou inumanamente, numa impulsão aquilina. Dos seus 1,85, cobriu os 2,44 da trave e espalmou com a mão canhota para escanteio. Foi uma coreografia encantadora de explosão e elasticidade.
Não sei o que acontece, de modo alquímico, com os goleiros da Inglaterra na Copa do Mundo. O título de defesa do século está, até então, de posse do também inglês Gordon Banks, que apanhou a cabeçada impossível de beija-flor de Pelé em 1970, no México.
Crônica publicada em 03/7/2018
O MEDO DO TÉCNICO DIANTE DO PÊNALTI
Decisão de pênaltis é loteria. O melhor time pode perder, o pior pode ganhar. Apaga-se o histórico dos 120 minutos. É como se fosse um outro dia. Não há mal e bem, certo e errado, é um novo jogo, uma partida essencialmente mental, em que a precisão acaba sendo destruída pela emoção.
Marcou-me no confronto de penalidades entre Inglaterra e Colômbia a postura do técnico argentino José Néstor Pékerman. O maduro homem de 68 anos, de fartos cabelos grisalhos, responsável pela seleção colombiana, figura tarimbada do futebol latino-americano, transformou-se de repente num menino assustado. Da sapiência exemplar dos esquemas táticos, regrediu aos seus medos mais primitivos. Simplesmente fechou os olhos para não ver as cobranças.
Não se conteve diante das câmeras: com a cabeça baixa, vendou a si mesmo. Rezava dentro do escuro de seus pensamentos.
Não seria capaz de suportar o suspense de uma desclassificação por milímetros. Não seria capaz de testemunhar a esperança indo e voltando tresloucadamente. Não seria capaz de aguentar o rodízio sádico entre vitória e derrota, desespero e alívio.
Avaliava cada avanço ou recuo pela comemoração externa. Mesmo com o corpo preso ao campo, abstraía-se, negava a sua presença, ouvia somente o rádio da torcida.
Por mais que já tivesse experimentado várias finais iguais e trepidantes, era uma criança espiando, pelas frestas do dedos, o filme de terror de sua vida.
Crônica publicada em 03/7/2018
Marcou-me no confronto de penalidades entre Inglaterra e Colômbia a postura do técnico argentino José Néstor Pékerman. O maduro homem de 68 anos, de fartos cabelos grisalhos, responsável pela seleção colombiana, figura tarimbada do futebol latino-americano, transformou-se de repente num menino assustado. Da sapiência exemplar dos esquemas táticos, regrediu aos seus medos mais primitivos. Simplesmente fechou os olhos para não ver as cobranças.
Não se conteve diante das câmeras: com a cabeça baixa, vendou a si mesmo. Rezava dentro do escuro de seus pensamentos.
Não seria capaz de suportar o suspense de uma desclassificação por milímetros. Não seria capaz de testemunhar a esperança indo e voltando tresloucadamente. Não seria capaz de aguentar o rodízio sádico entre vitória e derrota, desespero e alívio.
Avaliava cada avanço ou recuo pela comemoração externa. Mesmo com o corpo preso ao campo, abstraía-se, negava a sua presença, ouvia somente o rádio da torcida.
Por mais que já tivesse experimentado várias finais iguais e trepidantes, era uma criança espiando, pelas frestas do dedos, o filme de terror de sua vida.
Crônica publicada em 03/7/2018
A PUREZA DOS JAPONESES
Não há espaço no mundo para a ingenuidade.
Os ingênuos sempre são excluídos.
Eu sofri com a saída do Japão da Copa. Porque os seus jogadores foram inocentes, como nunca se viu num mata-mata.
Não usaram da malandragem e da cena para conquistar a vaga. O time não fingiu lesão, não recorreu à cera, o goleiro não demorou na reposição, o técnico não empregou substituições para assegurar alguns minutos de paralisação.
Venciam de 2 a 0 e os atletas continuaram atacando a Bélgica. Venciam de 2 a 1 e continuaram atacando. Cederam o empate em cinco minutos e continuaram atacando. O jogo estava ganho na metade do segundo tempo, e não recuaram, não mudaram o esquema tático, não criaram um bloqueio, não protagonizaram o anti-futebol pelo resultado.
Samurais da teimosia, não abriam mão do espetáculo ofensivo, da katana do drible e da técnica, alheios à competitividade. Atuavam pelo prazer da emoção e, acima de tudo, pelo gosto de viver os seus princípios de retidão e caráter.
Prevalecia o heroísmo da bondade do Ultraman, do Pokémon, do National Kid.
No fim dos acréscimos, quando já estourava o cronômetro para a prorrogação, tinham um escanteio a seu favor. Bastava prender a bola em triangulação no canto do campo e provocar faltas. Qualquer seleção faria isso, menos o Japão, o incorruptível Japão, o suicida Japão, o encantador e puro Japão, que continuou atacando, preferiu tentar o gol mais uma vez, permitindo o contra-ataque letal da Bélgica.
Estavam mais dispostos a jogar do que a vencer. Assistimos a uma demonstração única e rara do futebol de antigamente. Foi uma viagem ao túnel do tempo dos anos 50.
A derrota prolongou o encanto: futebol não é feito de justiça.
Crônica publicada em 03/7/2018
Os ingênuos sempre são excluídos.
Eu sofri com a saída do Japão da Copa. Porque os seus jogadores foram inocentes, como nunca se viu num mata-mata.
Não usaram da malandragem e da cena para conquistar a vaga. O time não fingiu lesão, não recorreu à cera, o goleiro não demorou na reposição, o técnico não empregou substituições para assegurar alguns minutos de paralisação.
Venciam de 2 a 0 e os atletas continuaram atacando a Bélgica. Venciam de 2 a 1 e continuaram atacando. Cederam o empate em cinco minutos e continuaram atacando. O jogo estava ganho na metade do segundo tempo, e não recuaram, não mudaram o esquema tático, não criaram um bloqueio, não protagonizaram o anti-futebol pelo resultado.
Samurais da teimosia, não abriam mão do espetáculo ofensivo, da katana do drible e da técnica, alheios à competitividade. Atuavam pelo prazer da emoção e, acima de tudo, pelo gosto de viver os seus princípios de retidão e caráter.
Prevalecia o heroísmo da bondade do Ultraman, do Pokémon, do National Kid.
No fim dos acréscimos, quando já estourava o cronômetro para a prorrogação, tinham um escanteio a seu favor. Bastava prender a bola em triangulação no canto do campo e provocar faltas. Qualquer seleção faria isso, menos o Japão, o incorruptível Japão, o suicida Japão, o encantador e puro Japão, que continuou atacando, preferiu tentar o gol mais uma vez, permitindo o contra-ataque letal da Bélgica.
Estavam mais dispostos a jogar do que a vencer. Assistimos a uma demonstração única e rara do futebol de antigamente. Foi uma viagem ao túnel do tempo dos anos 50.
A derrota prolongou o encanto: futebol não é feito de justiça.
Crônica publicada em 03/7/2018
A CABEÇA DA AGULHA
Tinha que pregar um botão em minha camisa. Já tinha definido a roupa para o aniversário da tia de Beatriz. Estava atrasado. Não queria olhar de novo todo o guarda-roupa para uma nova escolha. Deduzi que seria menos trabalhoso repor o botão, já que a calça combinava com a estampa que combinava com o casaco que combinava com os sapatos.
Sofria para atravessar o algodão na cabeça da agulha. Ia pelos cantos, jamais por dentro. Como um gol falso festejado pela torcida, quando a bola vai pelo lado de fora da rede.
Apelei para o meu filho:
- Você pode pôr a linha para mim? Tem olhos melhores que os meus.
Ele colocou sem muito esforço. Atingiu o alvo até com humilhante facilidade.
Sem querer, eu reencenava com o meu filho o gesto e as palavras de minha mãe comigo na infância. Iguaizinhos. O flashback foi assustador. Eu me revi pequeno na cozinha, e a mãe me confiando à missão: “Seus olhos são melhores que os meus!”.
Eu me achava útil costurando a rara fragilidade ocular de minha mãe; ela, que parecia não apresentar defeitos.
Dificilmente ela pedia ajuda, mania dos pais. Ela já havia tentado em vão seguir sozinha, molhando a ponta do fio com a saliva, sem resultados imediatos. Ladeava o aço, com a visão embaralhada e um quê de ansiedade.
O ato de encilhar a linha na agulha demonstrava ser mais grandioso do que eu imaginava. Três gerações - avó, pai e filho - se juntavam numa mesma mão, atravessando três décadas. O tempo corre, mas a família permanece se ajudando.
Quantas afirmações de minha mãe, inconscientes e preciosas, ainda existem em mim para serem repetidas?
Havia tanto amor envolvido naquela banalidade doméstica: a esperança de costurar as próprias roupas, a decência do pouco, o cuidado com aquilo que se tem
e também a felicidade de realizar uma tarefa a dois, que poderia vir a ser de uma solidão ingrata.
Na cabeça da agulha, três cabeças pensavam simultaneamente, três cabeças se amavam. O nó da garganta selava a nossa sincronicidade.
O que me leva a parafrasear, generosamente, a Bíblia: é mais fácil passar o filho pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus.
Publicado em Jornal Zero Hora em 03/7/2018
Sofria para atravessar o algodão na cabeça da agulha. Ia pelos cantos, jamais por dentro. Como um gol falso festejado pela torcida, quando a bola vai pelo lado de fora da rede.
Apelei para o meu filho:
- Você pode pôr a linha para mim? Tem olhos melhores que os meus.
Ele colocou sem muito esforço. Atingiu o alvo até com humilhante facilidade.
Sem querer, eu reencenava com o meu filho o gesto e as palavras de minha mãe comigo na infância. Iguaizinhos. O flashback foi assustador. Eu me revi pequeno na cozinha, e a mãe me confiando à missão: “Seus olhos são melhores que os meus!”.
Eu me achava útil costurando a rara fragilidade ocular de minha mãe; ela, que parecia não apresentar defeitos.
Dificilmente ela pedia ajuda, mania dos pais. Ela já havia tentado em vão seguir sozinha, molhando a ponta do fio com a saliva, sem resultados imediatos. Ladeava o aço, com a visão embaralhada e um quê de ansiedade.
O ato de encilhar a linha na agulha demonstrava ser mais grandioso do que eu imaginava. Três gerações - avó, pai e filho - se juntavam numa mesma mão, atravessando três décadas. O tempo corre, mas a família permanece se ajudando.
Quantas afirmações de minha mãe, inconscientes e preciosas, ainda existem em mim para serem repetidas?
Havia tanto amor envolvido naquela banalidade doméstica: a esperança de costurar as próprias roupas, a decência do pouco, o cuidado com aquilo que se tem
e também a felicidade de realizar uma tarefa a dois, que poderia vir a ser de uma solidão ingrata.
Na cabeça da agulha, três cabeças pensavam simultaneamente, três cabeças se amavam. O nó da garganta selava a nossa sincronicidade.
O que me leva a parafrasear, generosamente, a Bíblia: é mais fácil passar o filho pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus.
Publicado em Jornal Zero Hora em 03/7/2018
QUANDO CAÍA A LUZ
Era fundamental, há duas décadas, ter uma gaveta em casa com velas e lanterna. Todo mundo conhecia o paradeiro de emergência na hora em que faltava luz. E faltava luz com muita regularidade.
Não contávamos com as luzinhas do celular e recursos tecnológicos. Tratava-se de artigos necessários para manter a segurança. Quase como uma malinha de primeiros-socorros.
Aprendíamos a apalpar os móveis. Treinávamos os movimentos no escuro. Dançávamos de olhos fechados pelos corredores. Driblávamos as quinas das mesas e as pernas das cadeiras.
O mais encantador da queda de energia vinha a ser o silêncio.
Somos tão olhos que não reparamos na barulheira que nos cerca e que não nos permite em nos fixar em quem está próximo.
Os aparelhos desapareciam e nos reencontrávamos com a quietude. Começávamos uma busca pelo outro pela respiração. Significava uma trégua de grande intimidade com os pais. Sem a visão, queríamos estar perto deles, não desejávamos fugir para outros lugares e tarefas.
- Onde está? Fique aí que vou lhe resgatar.
Sentávamos no sofá, abraçados, amontoados, com as velas bruxuleando ao redor. Precisávamos nos ocupar com histórias. Não sofríamos com a concorrência de passatempos e distrações.
Predominava uma imprevisível exclusividade. Realmente prestávamos atenção no pai e na mãe, nas nossas lembranças de pequeno, nos causos e nas brigas engraçadas, nos nossos pequenos poderes. A mãe recordava que a Carla já sabia ler com três anos, de que o Miguel acreditava que poderia voar de super-homem segurando-se nos varais, de que o Rodrigo devorava a enciclopédia como se fosse uma história com início-meio-fim e que eu, um dia, me escondi numa cova aberta de cemitério de Caxias e me fingi de morto para dar susto nos outros como se estivesse ressuscitando.
E nos sentíamos especiais, amados, admirados, guardados. Eu me orgulhava de meus irmãos: havia esquecido de como eles eram legais.
Gritávamos de felicidade:
- Contem mais!
Ríamos alto, batíamos palmas, enquanto os pais nos devolviam as nossas vidas, testemunhas privilegiadas de nosso crescimento.
Na hora em que voltava a luz, estranhamente, parecia que saíamos de um transe de ternura e cada um retornava para a sua solidão.
Mas ainda guardo a certeza de que o apagão nos ressarcia a luz própria. Iluminávamo-nos pelas nossas vozes. E esperávamos, ansiosamente, pelo próximo escuro para nos dar as mãos de novo.
Publicado em Donna ZH em 01/7/2018
Não contávamos com as luzinhas do celular e recursos tecnológicos. Tratava-se de artigos necessários para manter a segurança. Quase como uma malinha de primeiros-socorros.
Aprendíamos a apalpar os móveis. Treinávamos os movimentos no escuro. Dançávamos de olhos fechados pelos corredores. Driblávamos as quinas das mesas e as pernas das cadeiras.
O mais encantador da queda de energia vinha a ser o silêncio.
Somos tão olhos que não reparamos na barulheira que nos cerca e que não nos permite em nos fixar em quem está próximo.
Os aparelhos desapareciam e nos reencontrávamos com a quietude. Começávamos uma busca pelo outro pela respiração. Significava uma trégua de grande intimidade com os pais. Sem a visão, queríamos estar perto deles, não desejávamos fugir para outros lugares e tarefas.
- Onde está? Fique aí que vou lhe resgatar.
Sentávamos no sofá, abraçados, amontoados, com as velas bruxuleando ao redor. Precisávamos nos ocupar com histórias. Não sofríamos com a concorrência de passatempos e distrações.
Predominava uma imprevisível exclusividade. Realmente prestávamos atenção no pai e na mãe, nas nossas lembranças de pequeno, nos causos e nas brigas engraçadas, nos nossos pequenos poderes. A mãe recordava que a Carla já sabia ler com três anos, de que o Miguel acreditava que poderia voar de super-homem segurando-se nos varais, de que o Rodrigo devorava a enciclopédia como se fosse uma história com início-meio-fim e que eu, um dia, me escondi numa cova aberta de cemitério de Caxias e me fingi de morto para dar susto nos outros como se estivesse ressuscitando.
E nos sentíamos especiais, amados, admirados, guardados. Eu me orgulhava de meus irmãos: havia esquecido de como eles eram legais.
Gritávamos de felicidade:
- Contem mais!
Ríamos alto, batíamos palmas, enquanto os pais nos devolviam as nossas vidas, testemunhas privilegiadas de nosso crescimento.
Na hora em que voltava a luz, estranhamente, parecia que saíamos de um transe de ternura e cada um retornava para a sua solidão.
Mas ainda guardo a certeza de que o apagão nos ressarcia a luz própria. Iluminávamo-nos pelas nossas vozes. E esperávamos, ansiosamente, pelo próximo escuro para nos dar as mãos de novo.
Publicado em Donna ZH em 01/7/2018
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