segunda-feira, 25 de março de 2019

NÃO SABEMOS NOS DESPEDIR

Guardamos a sensação de que não nos despedimos direito daqueles que amamos e que se foram. É como se não tivéssemos dito tudo, ou que precisávamos nos preparar melhor para o desenlace.

O abraço deveria ter sido mais apertado; as frases de efeito mais contundentes; o olhar mais banhado de lágrimas.

A impressão é que faltou um maior tempo, uma maior disposição, mas é natural se atrapalhar mesmo. Não estamos diante de um espelho, e sim de um rosto de verdade. Existe carência e incompetência em ambos os lados, no lado que fica morrendo de saudade e no lado que vai, morrendo de medo do desconhecido.

Amar é enfrentar a insuficiência no leito do hospital do parente ou do afeto. Significa a pior provação de nossa frágil condição: estabelecer um diálogo com sentido quando nada tem sentido.

A esperança nos faz engasgar. Como achar normal não mais enxergar aquela pessoa? Nenhum exercício mental é capaz de conter o tumulto do coração. O coração sai da boca, sai correndo do quarto para não sofrer, e o corpo permanece ali, na aparência, embasbacado, sentado na cadeira, não entendendo nada, não respeitando os limites e a mortalidade injusta de cada um.

Estamos tão assustados com a morte iminente que todo murmúrio parece ser insignificante. É uma impotência emocional difícil de se superar.

Como reduzir uma amizade em brevíssimos instantes? Como elaborar um epíteto?

E mais dói o fim quando, em vez de ampararmos quem está sofrendo, o doente é que nos consola dizendo para não nos entristecermos. Neste instante é que desabamos: com a surpreendente generosidade do nosso ente, mais preocupado conosco do que com ele.
Eu perdi a minha avó Elisa quando eu tinha sete anos. Muito cedo para uma criança formular o desaparecimento físico. Nenhuma história dos pais me satisfazia. Eu só consegui entregar um desenho para ela. E ela me perguntou quem era ela na ilustração: eu apontei para a árvore, para a casa, para os pássaros, para o chão, para as nuvens, para o sol, menos para ela desenhada ao lado de minha mãe. Porque ela era tudo para mim. Estaria sempre dentro de tudo para mim.

Publicado em Donna ZH em 08/7/2018

ADEUS ILUSÃO

Não é um jogo perdido, são quatro anos.

Quatro anos para montar um time, esperar, desacreditar, acreditar de novo.

Quatro anos mordendo a bandeira, escondendo-se das piadas, redundando a fé, secando as lágrimas, rindo torto.

Quatro anos da vida de cada brasileiro, quatro anos de gaveta para a camiseta amarela. Nenhuma outra estrela será bordada sob o escudo.

Quatro anos de campeonatos nacionais, competições internacionais, para definir quem pode surgir e fazer diferença.

Quatro anos rezando para que Neymar não envelheça, que Gabriel Jesus amadureça, que Philippe Coutinho, mantenha a sua timidez selvagem, que Willian exploda de verdade, que Douglas Costa e Firmino segurem o seu fôlego.

Quatro anos sem mais nenhuma chance de Paulinho beijar a taça, de Thiago Silva levantar a Copa do Mundo, uma geração se despede na derrota contra a Bélgica.

Quatro anos para um país onde o futebol é tudo, que não deveria ser assim, mas ultimamente não tem mais nada para se orgulhar. Agora é voltar para as balas perdidas, voltar para as greves, voltar para a recessão, voltar para a impunidade, voltar para a crise, voltar para a incógnita das eleições. As ilusões são mais breves do que os sonhos.

Não são quatro anos, minto, já são dezesseis anos. A idade de meu filho.

Crônica lida no programa Encontro com Fátima Bernardes da Rede Globo em 06/7/2018

O FRANGO

Não poderia ter frango em Copa. Deveria ser proibido pelo regulamento. Frango é várzea, Liga Amadora, pelada, campo de terra batida com calombo e morrinho artilheiro.

O que aconteceu com o bom goleiro uruguaio, que determinou a desclassificação da Celeste para a França, foi de uma melancolia romântica, digna da pena de Victor Hugo (e seu fatídico prazer de estar triste).

O chute de Griezmann, de fora da área, no meio do gol, era um suspiro. Uma tentativa fracassada. Um tiro morno e bisonho. Fato insignificante para a emissora trocar de câmera e ir para o lance seguinte.

Tudo bem que Muslera espalmasse, jogasse vôlei, deixasse rebote. Mas a bola se transformou num pião em suas luvas, num redemoinho e seguiu, devagar, para as redes. Até a bola ficou constrangida na hora de entrar.

O arqueiro entrou em parafuso entre rebater e segurar, o braço direito não concordou com o esquerdo e houve um malabarismo atrapalhado de semáforo.

Antoine Griezmann deu exemplo. Não comemorou o gol, seu olhar só pedia desculpa. Baixou a cabeça e seguiu em frente, apesar do estardalhaço de seus compatriotas, como se nada não tivesse acontecido. Quis abafar o escândalo.

Frango merecia ser anulado. É tão vergonhoso para todos os jogadores que desqualifica a vitória.

Crônica publicada em 06/7/2018

QUEM SÃO OS MEUS PAIS?

Os pais podem mudar de opinião. Aliás, eles mudam de opinião. Suas palavras não são eternas. Os filhos não aceitam as transformações dos pais porque percebem qualquer juízo de ambos como um mandamento inviolável.

Eles teriam que manter a mesma posição por toda a trajetória?

É impossível. Nem tudo que vem da boca deles é conselho, nem tudo é tábua de salvação.

Se um dia falaram que não gostam de tal coisa, parece que a ideia será para sempre. Não é, não há como ser.

Eles apresentam restrições, cometem preconceitos, mas melhoram. Abrem a cabeça, abrem o coração. São humanos, como os próprios filhos, em constante transformação. Erram, vacilam, enganam-se, são enganados, levam fora, tropeçam em vexame e se reerguem. Alguns são arrogantes, depois se mostram humildes e compreensivos. Alguns são carinhosos, depois se isolam na mais completa indiferença.

Não são fechados, embalados para presente.

Aqueles mesmos pais que não queriam que você tivesse animais na sua infância são capazes de adotar cachorros na velhice. E ainda chamam os cachorros de filhinhos (ou seja, ganhou irmãos). Os cachorros dormem na cama deles, algo inacreditável diante da antiga fobia.

Coerência é mudar, não ficar parado sem ser modificado pelo tempo.

Conhecemos os pais pelas funções. O Pai. A Mãe. Como entidades. Nunca chamamos pelos nomes, e sim pelas funções: meu pai, minha mãe. O que devemos perguntar, antes que seja tarde, quem são eles? Você pode passar a vida sem conhecer realmente os seus pais. Pois há pessoas dentro do Pai e da Mãe. Pessoas ansiosas, pessoas esperançosas, pessoas sofrendo com a realidade, pessoas com os seus sonhos não realizados e o igual medo de não ser amado.

Os pais aprendem a vida dos filhos de cor e salteado, mas os filhos não param para perguntar o passado deles. Como foi a infância e adolescência dos dois, de que são feitas as suas escolhas, por que eles pensam desse jeito?

Amar depende da permanente curiosidade. Nunca pensar que conhece realmente alguém, para assim nunca parar de se conhecer.

Qual será a sua surpresa ao descobrir que você é mais parecido com os seus pais do que imagina?

E, de repente, descobrindo que os pais mudam, pode estranhamente mudar de opinião sobre eles.

Crônica publicada em 05/7/2018

POR QUE É TÃO DIFÍCIL PEDIR DESCULPA?

Quando alguém pede desculpa, você deve aceitar ou não. Simples assim. Mais nada. Sim ou não são as únicas opções.

Pedido de desculpa não é prova dissertativa, mas de múltipla escolha.

Só que ninguém aguenta apenas acatar a confissão e acaba humilhando e constrangendo quem tenta reparar a sua falha. Logo vem as perguntas: Por que fez isso? Coloque-se no meu lugar, por que mentiu? Você não confia em mim?

E um etc interminável que transforma o arrependimento em discussão de relacionamento e disputa de vaidades.

Você ainda quer testar a sinceridade e passa a interrogar aquele que se encontra fragilizado e vulnerável em uma posição de humildade.

Não percebe o quanto é difícil vencer o orgulho, e não ajuda no processo de conscientização com a objetividade.

Pensa unicamente em quanto está magoado e se vinga rebaixando o seu par, para que ele se sinta a pior criatura do universo.

A absolvição é dada sempre sob tortura, ironicamente com a demonstração de que a atitude é imperdoável.

Devido à nossa péssima receptividade, o pedido de desculpa é pouco praticado.

Ninguém aceita a solicitação na hora. Com a brecha aberta em sua companhia, aproveita-se para atacar. Ao descobrir que tem razão, abusa da autoridade a ponto de se transformar num tirano.

A retratação, mesmo quando realizada rapidamente, não elimina a sua brabeza e o seu mal-estar. Não desaparece com a sua vontade de brigar. E você recebe a desculpa e acaba dando sermão mesmo quando o outro já admitiu o erro. Não tem sentido continuar com a conversa, mas não admite seguir adiante sem estabelecer uma pena.

O que atrapalha o perdão é que queremos infringir um castigo naquele que cometeu um engano, partimos do princípio de que ele deve pagar pelos seus erros, para que não ocorra uma reincidência.

No amor, é necessário escolher entre a compaixão e a justiça, entre a empatia e o papel de inquisidor. Os dois não têm como coexistirem.

Quem desculpa muda de assunto. Não fica batendo na mesma tecla até quebrar a linguagem.

Publicado em O Globo em 04/7/2018

PICKFORD

Já temos a maior defesa da Copa do Mundo: quando o goleiro inglês Jordan Lee Pickford buscou a bola no ângulo, em chute surpreendente e salteado do colombiano Uribe, da intermediária. Não era previsível o arremate. Uribe mandou um canhão, em reencarnação atômica de Nelinho, de Dirceu Lopes, de Rivelino.

O goleiro do Everton não somente se esticou, ele se desesperou no ar, ele se desintegrou ao vento, ele se arrebentou inumanamente, numa impulsão aquilina. Dos seus 1,85, cobriu os 2,44 da trave e espalmou com a mão canhota para escanteio. Foi uma coreografia encantadora de explosão e elasticidade.

Não sei o que acontece, de modo alquímico, com os goleiros da Inglaterra na Copa do Mundo. O título de defesa do século está, até então, de posse do também inglês Gordon Banks, que apanhou a cabeçada impossível de beija-flor de Pelé em 1970, no México.

Crônica publicada em 03/7/2018

O MEDO DO TÉCNICO DIANTE DO PÊNALTI

Decisão de pênaltis é loteria. O melhor time pode perder, o pior pode ganhar. Apaga-se o histórico dos 120 minutos. É como se fosse um outro dia. Não há mal e bem, certo e errado, é um novo jogo, uma partida essencialmente mental, em que a precisão acaba sendo destruída pela emoção.

Marcou-me no confronto de penalidades entre Inglaterra e Colômbia a postura do técnico argentino José Néstor Pékerman. O maduro homem de 68 anos, de fartos cabelos grisalhos, responsável pela seleção colombiana, figura tarimbada do futebol latino-americano, transformou-se de repente num menino assustado. Da sapiência exemplar dos esquemas táticos, regrediu aos seus medos mais primitivos. Simplesmente fechou os olhos para não ver as cobranças.

Não se conteve diante das câmeras: com a cabeça baixa, vendou a si mesmo. Rezava dentro do escuro de seus pensamentos.

Não seria capaz de suportar o suspense de uma desclassificação por milímetros. Não seria capaz de testemunhar a esperança indo e voltando tresloucadamente. Não seria capaz de aguentar o rodízio sádico entre vitória e derrota, desespero e alívio.

Avaliava cada avanço ou recuo pela comemoração externa. Mesmo com o corpo preso ao campo, abstraía-se, negava a sua presença, ouvia somente o rádio da torcida.

Por mais que já tivesse experimentado várias finais iguais e trepidantes, era uma criança espiando, pelas frestas do dedos, o filme de terror de sua vida.

Crônica publicada em 03/7/2018

A PUREZA DOS JAPONESES

Não há espaço no mundo para a ingenuidade.

Os ingênuos sempre são excluídos.

Eu sofri com a saída do Japão da Copa. Porque os seus jogadores foram inocentes, como nunca se viu num mata-mata.

Não usaram da malandragem e da cena para conquistar a vaga. O time não fingiu lesão, não recorreu à cera, o goleiro não demorou na reposição, o técnico não empregou substituições para assegurar alguns minutos de paralisação.

Venciam de 2 a 0 e os atletas continuaram atacando a Bélgica. Venciam de 2 a 1 e continuaram atacando. Cederam o empate em cinco minutos e continuaram atacando. O jogo estava ganho na metade do segundo tempo, e não recuaram, não mudaram o esquema tático, não criaram um bloqueio, não protagonizaram o anti-futebol pelo resultado.

Samurais da teimosia, não abriam mão do espetáculo ofensivo, da katana do drible e da técnica, alheios à competitividade. Atuavam pelo prazer da emoção e, acima de tudo, pelo gosto de viver os seus princípios de retidão e caráter.

Prevalecia o heroísmo da bondade do Ultraman, do Pokémon, do National Kid.

No fim dos acréscimos, quando já estourava o cronômetro para a prorrogação, tinham um escanteio a seu favor. Bastava prender a bola em triangulação no canto do campo e provocar faltas. Qualquer seleção faria isso, menos o Japão, o incorruptível Japão, o suicida Japão, o encantador e puro Japão, que continuou atacando, preferiu tentar o gol mais uma vez, permitindo o contra-ataque letal da Bélgica.

Estavam mais dispostos a jogar do que a vencer. Assistimos a uma demonstração única e rara do futebol de antigamente. Foi uma viagem ao túnel do tempo dos anos 50.

A derrota prolongou o encanto: futebol não é feito de justiça.

Crônica publicada em 03/7/2018

A CABEÇA DA AGULHA

Tinha que pregar um botão em minha camisa. Já tinha definido a roupa para o aniversário da tia de Beatriz. Estava atrasado. Não queria olhar de novo todo o guarda-roupa para uma nova escolha. Deduzi que seria menos trabalhoso repor o botão, já que a calça combinava com a estampa que combinava com o casaco que combinava com os sapatos.

Sofria para atravessar o algodão na cabeça da agulha. Ia pelos cantos, jamais por dentro. Como um gol falso festejado pela torcida, quando a bola vai pelo lado de fora da rede.

Apelei para o meu filho:

- Você pode pôr a linha para mim? Tem olhos melhores que os meus.

Ele colocou sem muito esforço. Atingiu o alvo até com humilhante facilidade.

Sem querer, eu reencenava com o meu filho o gesto e as palavras de minha mãe comigo na infância. Iguaizinhos. O flashback foi assustador. Eu me revi pequeno na cozinha, e a mãe me confiando à missão: “Seus olhos são melhores que os meus!”.

Eu me achava útil costurando a rara fragilidade ocular de minha mãe; ela, que parecia não apresentar defeitos.

Dificilmente ela pedia ajuda, mania dos pais. Ela já havia tentado em vão seguir sozinha, molhando a ponta do fio com a saliva, sem resultados imediatos. Ladeava o aço, com a visão embaralhada e um quê de ansiedade.

O ato de encilhar a linha na agulha demonstrava ser mais grandioso do que eu imaginava. Três gerações - avó, pai e filho - se juntavam numa mesma mão, atravessando três décadas. O tempo corre, mas a família permanece se ajudando.

Quantas afirmações de minha mãe, inconscientes e preciosas, ainda existem em mim para serem repetidas?
Havia tanto amor envolvido naquela banalidade doméstica: a esperança de costurar as próprias roupas, a decência do pouco, o cuidado com aquilo que se tem

e também a felicidade de realizar uma tarefa a dois, que poderia vir a ser de uma solidão ingrata.

Na cabeça da agulha, três cabeças pensavam simultaneamente, três cabeças se amavam. O nó da garganta selava a nossa sincronicidade.

O que me leva a parafrasear, generosamente, a Bíblia: é mais fácil passar o filho pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus.

Publicado em Jornal Zero Hora em 03/7/2018

QUANDO CAÍA A LUZ

Era fundamental, há duas décadas, ter uma gaveta em casa com velas e lanterna. Todo mundo conhecia o paradeiro de emergência na hora em que faltava luz. E faltava luz com muita regularidade.

Não contávamos com as luzinhas do celular e recursos tecnológicos. Tratava-se de artigos necessários para manter a segurança. Quase como uma malinha de primeiros-socorros.

Aprendíamos a apalpar os móveis. Treinávamos os movimentos no escuro. Dançávamos de olhos fechados pelos corredores. Driblávamos as quinas das mesas e as pernas das cadeiras.

O mais encantador da queda de energia vinha a ser o silêncio.

Somos tão olhos que não reparamos na barulheira que nos cerca e que não nos permite em nos fixar em quem está próximo.

Os aparelhos desapareciam e nos reencontrávamos com a quietude. Começávamos uma busca pelo outro pela respiração. Significava uma trégua de grande intimidade com os pais. Sem a visão, queríamos estar perto deles, não desejávamos fugir para outros lugares e tarefas.

- Onde está? Fique aí que vou lhe resgatar.

Sentávamos no sofá, abraçados, amontoados, com as velas bruxuleando ao redor. Precisávamos nos ocupar com histórias. Não sofríamos com a concorrência de passatempos e distrações.

Predominava uma imprevisível exclusividade. Realmente prestávamos atenção no pai e na mãe, nas nossas lembranças de pequeno, nos causos e nas brigas engraçadas, nos nossos pequenos poderes. A mãe recordava que a Carla já sabia ler com três anos, de que o Miguel acreditava que poderia voar de super-homem segurando-se nos varais, de que o Rodrigo devorava a enciclopédia como se fosse uma história com início-meio-fim e que eu, um dia, me escondi numa cova aberta de cemitério de Caxias e me fingi de morto para dar susto nos outros como se estivesse ressuscitando.

E nos sentíamos especiais, amados, admirados, guardados. Eu me orgulhava de meus irmãos: havia esquecido de como eles eram legais.

Gritávamos de felicidade:

- Contem mais!

Ríamos alto, batíamos palmas, enquanto os pais nos devolviam as nossas vidas, testemunhas privilegiadas de nosso crescimento.

Na hora em que voltava a luz, estranhamente, parecia que saíamos de um transe de ternura e cada um retornava para a sua solidão.

Mas ainda guardo a certeza de que o apagão nos ressarcia a luz própria. Iluminávamo-nos pelas nossas vozes. E esperávamos, ansiosamente, pelo próximo escuro para nos dar as mãos de novo.

Publicado em Donna ZH em 01/7/2018

CASAR É PARA GENTE GRANDE

Casar é coisa séria, para gente grande.

Você transformará os seus hábitos. Não poderá mais se mostrar disponível, assanhado e aberto a risos e flertes. Isso não significa que será mal-humorado e assumirá uma carranca dali por diante. Não haverá alteração em termos de ternura e acolhimento para os amigos.

A postura muda com quem não conhece. Terá que ser direto sobre o seu estado civil, jamais evasivo, para não transmitir a imagem falsa de disponível e interessado.

Frustrará diálogos engraçadinhos, cortará insinuações e indiretas, colocará os pingos nos is, freará as segundas intenções, não avançará em perguntas só para ver até onde vai.

Precisará ser econômico com as dificuldades da relação - brigas pontuais não devem ser confidenciadas a terceiros sob o risco de entender que é infeliz e que o matrimônio está por um fio. Uma confissão pode levar a fofoca e logo expor a sua mulher às maldades e constrangimento público.

Resolverá as diferenças dentro do seu casamento, nunca fora. A cada ameaça do passado ou contato com ex, cabe descrever o que aconteceu na hora, não depois, não aos poucos, com mentiras parciais. Seja simples: a fulana me ligou, a fulana me mandou mensagem.

Não poderá se escandalizar com qualquer acesso da esposa as suas redes como se fosse invasão de privacidade. O celular ou o laptop não são cofres de intimidade, mas aparelhos, somente aparelhos, de uso comum.

Na web e aplicativos, não poderá manter um comportamento diferente das suas abordagens reais. Você e seu avatar continuam sendo o mesmo sujeito com aliança no dedo. Permanece casado na esfera virtual, o que requer controle na emissão de likes e comentários. Não saia atirando emojis para todos os lados. Crie um padrão, reserve um código de linguagem exclusivo a quem ama e outro para os demais, assim evitará o ciúme. Por exemplo, destine olhos de coração apenas para a sua esposa.

Grosseria é pressa. Dispense tempo sendo educado no dia-a-dia. Não é porque a pessoa mora com você que lhe dá o direito de atalhar conversas. Encontre paciência para se explicar, narrar os seus pensamentos, já que a sua companhia não tem ideia do que passa em sua cabeça.

Pensará as refeições a dois, as férias a dois, as folgas a dois, as contas a dois, as adversidades a dois, sem a possibilidade de resolver tudo sozinho, pois interfere na condição alheia.

Não entenda a reserva e a discrição como privação e censura. Casamento não é prisão. Você assumiu um compromisso consciente e toda a escolha traz alguma renúncia - não há como acumular modos de vida.

Amar alguém não é perder a liberdade, mas partilhar responsabilidades. Bem-vindo ao mundo adulto do amor.

Crônica publicada em 01/7/2018

A NOSSA RECEITA

Nunca discuto com Beatriz. Nunca brigo com Beatriz. Quando um não concorda com algo, deixamos para ver quem tem razão no dia seguinte. Damos 24h para cada um pensar, escolher as melhores palavras e provar ou desistir de seu argumento. Às vezes nem conversa tem, só o pedido de desculpa de uma das partes. O perdão vem com aquele beijo que desfaz a birra por completo. Não sei se é perdão, talvez seja saudade. A saudade é o voto de desempate entre duas pessoas.

O romance deve ser civilizado. Até porque ela tem todo o direito de pensar e sentir diferente. A falta de consenso não pode destruir o nosso amor.

Em alguns momentos, eu vejo que ela faz o que quero mesmo sem vontade. Ela também sabe que eu faço o que ela quer mesmo sem convicção, e a felicidade dissolve o egoísmo. Não nos prendemos em cobranças. Somos inteiros ainda com desejos parciais. Não há caderninho de fiado para apontar quem realizou mais ou menos. O que ela me oferece já é muito para mim e somente tenho a agradecer.

A química é consequência direta de nosso começo. Antes de ficar, deflagramos uma guerra de mensagens. Não nos entendíamos, possuídos em impor as nossas vontades. Dizíamos o que queríamos da vida, não escondemos os nossos planos, apresentamos nossos defeitos e piores manias. Oferecemos motivos suficientes para o outro desistir enquanto havia tempo. Ela me chamava de insuportável, eu a achava esnobe.

Mas não é que derrubamos os medos com tamanha sinceridade? Chegou um momento em que ríamos das brigas, e nem mais nos defendíamos, ofendidos, dos ataques.

E o riso dela é tão bonito que perco o fio dos pensamentos mesmo, só para rir junto e voar perto de sua boca.

Tudo o que era para ser resolvido aconteceu antes da relação, não durante a relação. Sem enfrentamentos no início, o risco é se casar com um estranho e somente descobrir a verdade desagradável no meio da convivência.

Não querer se incomodar durante a paixão é comprometer a lealdade tempo depois.

Por isso, o mar é uma ilustração de nossos afetos. As ondas são violentas no raso de propósito, para nos preparar ao mergulho. Vencendo a rebentação, as águas se tornam calmas e plenas.

Amar foi uma decisão madura, minha e de Beatriz, após longo namoro de ideias e sonhos.

Crônica publicada em 29/6/2018

O MAIOR AMOR DA VIDA

Ele queria descobrir qual foi o maior amor de sua vida.

O Destino lhe deu a chance de um encontro.

Deveria se dirigir à entrada da Floresta, no domingo, às 14h. E que não se atrasasse.

Talvez aparecesse um antigo relacionamento do passado. Talvez um novo nome do futuro.

Quem terá sido?, ele devaneava, repassando as suas namoradas e romances desde a sua adolescência.

Quem poderá ser?, ele desenhava, no pensamento, o retrato-falado da pessoa ideal, com as características que mais gostava nos outros.

Logo que chegou ao local, com ansiosa antecedência, o celular parou de funcionar e o relógio engasgou os seus ponteiros.

Aflito com o horário marcado, viu uma raposa por perto e perguntou:

- Que horas são?

A raposa encolheu os ombros:

- Não existe tempo para mim, só o agora.

O sol baixava rapidamente e ele já estava angustiado, até que enxergou um castor mexendo nas folhagens e também perguntou que horas eram.

- Não existe tempo para mim, só o agora - respondeu o castor, que continuou a cavar o seu túnel.

Anoiteceu, e o homem se consumia em dúvidas e frustrações. Errou o dia, o lugar, o horário?

Neste momento de sombra, passou voando uma coruja e ele se aproximou da desconfiada ave.

- Sabe que horas são?

- Não existe tempo para mim, só o agora.

E foi quando entendeu que ele ainda não tinha conhecido o grande amor de sua vida.

Preso ao passado e preocupado com o futuro, absolutamente não vivia o agora para encontrar alguém de verdade.

Crônica publicada em 28/6/2018

SOU DE ERRAR MUITO

Sou de errar muito, com vontade. Exploro todas as possibilidades à exaustão. Abandono um laço com a consciência limpa, o coração lavado. Melhor do que viver em realidades paralelas, com pessoas paralelas e afetos educadamente interrompidos.

Não me rogo por vencido. Não quero guardar alguma dúvida de que seria diferente e que poderia ser diferente se tivesse feito algo a mais, dito algo a mais.

Levo o amor comigo até o constrangimento, até o vexame, até ver que não tem volta. Uso as palavras necessárias e as desnecessárias, ofereço gestos importantes de agradecimento e gratuitos de raiva. Insisto por todos os lados para descobrir a verdade.

Ando pelas afirmações e, na ausência de saída, queimo as perguntas.

Voo, caminho, rastejo. Saio de cena só quando morre a esperança.

Mas não deixo o medo levar parte de minha vida.

Quem erra pouco também tentou pouco.

Crônica publicada em 27/6/2018

PARECIDO COM OS MEUS PAIS

Numa discussão, a minha filha tentou me diminuir:

- Você está igualzinho aos seus pais!

Eu emudeci por instantes, para entender a comparação e pensar quem realmente são os meus pais.

Meus pais me ensinaram a andar, a falar, a pedalar, a nadar, a conviver. Meus pais pagaram o meu estudo e me deram a liberdade de ser jornalista, jamais amaldiçoaram a minha escolha, completamente diferente da profissão deles.

Meus pais apostaram em mim quando o meu rendimento estava abaixo da média e festejavam quando alcançava as notas.

Meus pais trabalhavam dois turnos e encontravam forças para cozinhar de noite e deixar pronto o almoço do outro dia.

Meus pais me disciplinaram a ser educado nas adversidades e a ser gentil até com quem não merecia - bons modos independem de como sou tratado.

Meus pais são honestos, dedicados, carinhosos, esforçados. Nunca roubaram. Nunca burlaram a lei.

Meus pais foram sinceros mesmo quando eu não sabia ouvir, foram compreensivos mesmo quando eu não sabia falar.

Meus pais admitiram as mais estranhas namoradas dentro de casa. Eles me incentivaram a sair de noite com os amigos, apesar do medo e da vigília, apesar de suspirarem somente quando eu colocava a chave na porta.

Meus pais me inspiraram a viajar e não ser menor do que o medo do desconhecido.

Sou mesmo filhinho do papai. Sou mesmo filhinho da mamãe.

Isso não é insulto, é elogio, minha filha. Eu me pareço com eles, eu sou igual a eles, cada vez mais.

Tomara que você possa se parecer também com os seus avós.

Crônica publicada em 26/7/2018

NO TEMPO EM QUE OS CARROS TINHAM CAPÔ

Uma das grandes alegrias de meu pai e de minha mãe era colocar os quatro filhos no capô da Belina.

Eu me recordo da sensação feliz de sentar no aço quente do motor, eu me esticava até o para-brisa, com os pés estirados. Cabia a turma inteira na foto.

Prosperava um sentido de liberdade inigualável naquele rápido recreio da família, com a brisa agigantando os cabelos.

Vinha a ser o momento de admirar a paisagem da Serra durante trégua da viagem até a casa de meus avós, em Guaporé. Parávamos meia hora em algum belvedere, diante da calmaria das montanhas, para lanchar cuca com as mãos e apontar para o voo dos pássaros.

A idílica cena deve soar absurda em nossa época. Hoje, os capôs não servem como sofá para as crianças. Os carros são frágeis, com outra textura, quase de plástico. Se alguém sentar no capô, amassa tudo.

Além de o desenho fabril ter seguindo a linha abaulada. Todos os veículos atualmente têm complexo de Kombi. A frente é curva, mais para um escorregador do que para um jardim.

Os carros na minha infância ostentavam um canteiro quadrado que permitia a interação e o piquenique. No Galaxy, dava para jogar amarelinha. No Opala, eu girava pião sem arranhar. Na Veraneio, podia montar um palco e dançar chula em cima. O Corcel oferecia estrutura de pôquer para distribuir o baralho e jogar às ganhas.

E ainda havia o Corcel, o Chevette, o Dodge, o Maverick com uma infinita área de lazer. Só o Fusca se diferenciava no contexto da reunião da parentela, costumava ser automóvel de solteiro ou de casal recente.

Mas os carros grandes também contribuíam para os desfiles. Assisti à passagem da miss Rio Grande do Sul pela Avenida Osvaldo Aranha. Ela acenava sentada no capô, poderosa, com os reflexos do sol na lataria e na sua coroa. Na Semana Farroupilha, as prendas também ocupavam o destaque na carroceria, com o vestido espalhado em suas várias dobras e camadas de renda, qual vitória-régia.

O capô já foi uma mesa familiar, o nosso mirante, o nosso ponto favorito de encontro, em que enxergávamos os problemas e desavenças de cima, muito menores do que realmente são.

Publicado em Jornal Zero Hora em 26/7/2018

CARTA AOS MEUS FILHOS ADOLESCENTES

Nossa relação mudará, não se assustem, continuo amando absurdamente cada um de vocês. Estarei sempre de plantão, para o que der e vier. Do mesmo jeito, com a mesma vontade de ajudar.

É uma fase necessária: uma aparência de indiferença recairá em nossos laços, uma casca de tédio grudará em nossos olhares.

Mas não durará a vida inteira, posso garantir.

Nossa comunicação não será tão fácil como antes. A adolescência altera a percepção dos pais; virei o chato.

Perdi o favoritismo, não adianta surgir quicando uma bola e convidá-los para jogar - não verão graça nenhuma. A bola só trará preguiça. Seguirão com as suas conversas no celular e seus afazeres. Levarei várias negativas em meus convites para piscina, cinema, teatro e jantares.

Prometo não levar para o lado pessoal, não ficarei ofendido por ser posto em segundo plano.

Eu me preparei para a desimportância, guardei estoque de cartõezinhos e cartas de vocês pequenos, colecionei na memória as declarações de “eu te amo” da última década, ciente de que não ouvirei nenhuma jura por um longo tempo.

A rotina será mais árida, mais constrangedora, mais lacônica. É um período de estranheza, porém essencial e corajoso. Todos experimentam isso, em qualquer família, não tem como adiar ou fugir.

Serei obrigado agora a bater no quarto de vocês e aguardar uma licença. Existe uma casa chaveada no interior de nossa casa. Não desfruto de chave, senha, passaporte. Não posso aparecer abrindo a porta de repente. A educação aumentará a minha ansiedade, desesperará a minha saudade. Às vezes mandarei um WhatsApp apenas para saber onde estão, mesmo quando estiverem dentro do apartamento. Passarei essa vergonha.

Perguntarei como estão e ganharei monossílabos de presente. Talvez um ok. Talvez a sorte de um tudo bem. As confissões não acontecerão espontaneamente.

Nem tenho como arrumar a bagunça da escrivaninha e as roupas pelo chão. Irei me conter para não mexer em nada. Que difícil ser pai e não interferir. É uma profunda reeducação, doloroso aprendizado.

Não há mais como aparecer mandando, tudo o que eu falar receberá uma resposta irônica, e exigirá uma explicação de minha parte.

Durante a infância, vocês aceitavam qualquer parada. Eu é que me mostrava o difícil, o ocupado pelo trabalho. Puxavam a manga de minha camisa para largar o computador e cumprir as promessas. A situação se inverteu. Hoje sou o mendigo pela atenção de vocês.

Não haverá alegria para passear comigo pela rua. O sol é capaz de aborrecê-los. O prato do almoço vai esfriar na mesa - óbvio que me avisarão que querem dormir e comer mais tarde, de preferência sozinhos.

“Me deixe em paz” despontará como refrão diante de qualquer cobrança.

Precisarei ser mais persuasivo. Nem alcanço alguma ideia de como, para mim também é uma experiência nova, tampouco sei agir. Os namoros e os amigos assumirão as suas prioridades.

Verei vocês somente saindo ou chegando, desprovido de convergência para um abraço demorado.

Serei o velho de vocês. As minhas piadas serão velhas. O meu vocabulário será velho. As minhas implicâncias serão velhas. As minhas ordens serão velhas. Os meus programas serão de velho.

Já não me acharão um máximo, já não sou grande coisa. Perceberam os meus pontos fracos, decoraram os meus defeitos, não acreditam mais em minhas histórias, não sou a única versão de vocês. Qualquer informação que digo, vão checar no Google.

Mas vamos sobreviver: o meu amor é imenso para resistir ao teste da diferença de idade e de geração. Espero vocês do outro lado da ternura, quando tiverem a minha idade.

Publicado em O Globo em 25/6/2018

VOCÊ JURA

Quando você sofre por amor pensa que o outro vem sofrendo igual. Sem comunicação desde à separação, sem troca de mensagens, ainda acredita que está casado na dor.

Se não come, também jura que o outro iniciou greve de fome. Se não sai, também jura que o outro se trancou em casa. Se não toma banho, também jura que o outro é um mendigo. Se chora, também jura que o outro derrama lágrimas pelos cantos. Se só escuta as músicas da relação, também jura que o outro fica repetindo as trilhas ininterruptamente. Se não conversa com ninguém, também jura que o outro se mantém distante dos amigos. Se revisa as fotos felizes do casal, também jura que o outro não larga os álbuns prediletos. Se dorme com o celular no travesseiro, também jura que o outro aguarda a sua ligação.

Até que, cansado da esperança, depois de semanas, decide espiar as redes sociais da antiga companhia e se espanta com a retrospectiva de viagens, festas, sorrisos e disposição física. Até descobrir o quanto se enganou à toa com a telepatia. Até se sentir traído mais uma vez, agora pela falta de correspondência no luto.

Separação por fora é, infelizmente, separação por dentro.

Crônica publicada em 25/6/2018

OS SINAIS DE QUE SE ENVOLVEU COM UM LOUCO

Na paixão você só quer ver o que acredita. Os olhos são guardados no estojo dos óculos.

É comum não enxergar os sinais de que se envolveu com um perseguidor. Todo perseguidor simbolicamente mija no poste para demarcar território. Não quis reparar por educação, tão dedicado a acreditar na história de amor e idealizar o encontro.

Ninguém se envolve com um louco sem receber avisos. E não são poucas as advertências. O erro é fazer de conta que é uma exceção ou, mais grave, entender tudo ao contrário.

Se no primeiro encontro, a pessoa lhe morde, banca o Drácula em seu pescoço, deixa um chupão onde o colarinho da camisa não tapa, não significa que o sexo foi selvagem, não ache que é bonito, não são medalhas da paixão, não corresponde a uma entrega total de um animal no cio, não sinta orgulho da noite virada em claro, é o indício de que se envolveu com alguém histérico e ciumento.

É um stalker dando as suas primeiras demonstrações de desequilíbrio e de alternância de humor. Ao admitir as marcas e até se orgulhar, assumirá o papel de incentivador da possessividade.

Qualquer exagero sem intimidade prova uma carência descomunal e perigosa.

Quem arranha a pele arranhará o seu carro numa despedida. As unhas serão pontas das chaves depois em sua lataria.

Os ataques sadomasoquistas somente se agravam com a progressão da convivência, a ponto de normalizar discussões e barracos.

Se o par amoroso tem o costume de se irritar quando visualiza as mensagens e não responde em breves minutos, não compreenda como sintoma da saudade, ele será capaz de persegui-lo pelas ruas no rompimento da relação.

Se ele não gosta quando sai com decotes ou com corpo mais à mostra, não aceite como preocupação pertinente ao seu modo de vestir, pois tratará de insultar a cada foto acompanhada de um colega de trabalho.

Se ele não suporta likes de amigos e comentários engraçados em suas redes sociais, não veja como vigília bem-intencionada contra prováveis críticas, é mais um trailer do filme de terror, inventará fakes para inferniza-lo no fim do namoro.

Há tipos que não acolhem a contrariedade e a recusa, e se debruçam sobre a missão suicida de explodir com as suas conexões sociais. Mergulham no ressentimento puro e escolhem a vingança como uma forma de continuar amando. Não desejam a sua felicidade, mas dominá-lo a ponto de não ter mais ninguém por perto.

A polidez no início da relação e o receio de falar a verdade permitem a criação de monstros. Eles não crescem desprovidos de sua concordância e de seu carinho na cabeça.

Corte o mal pela raiz antes de ser obrigado a morder os frutos envenenados da obsessão.

Publicado em Donna ZH em 24/6/2018

RATOS

Eles dizem gostar de mulher, mas são misóginos.

Trocam putarias no celular, expõem partes do corpo feminino como se não existisse o todo, alardeiam a sua virilidade, realizam a competição de quem come mais e de quem mente mais. Contam vantagem entre amigos, apenas entre amigos, porque desejam unicamente a aprovação de um outro homem, não sabem enfrentar uma mulher.

Eles odeiam a mulher. Eles temem a mulher. Eles morrem de receio da mulher.

São covardes. Aproveitam-se de uma mulher só quando está desacompanhada, bêbada, desacordada. Só quando ela não entende o idioma.

Exploram as boas intenções de uma estrangeira para cantar em coro desaforos e fazê-la de idiota.

Idiotas são eles, roedores de restos.

Acham engraçada a violência, pois não possuem educação para se destacar. Guincham. Absolutamente guincham dentro de suas gargalhadas.

São os assediadores compulsivos, os estupradores do inconsciente.

Aqueles que pingam Boa-noite Cinderela no copo de desavisadas, já que conversando não têm chance nenhuma.

Aqueles que forçam um relacionamento, forçam sexo e não escutam as vogais de um não.

Aqueles que juram que dinheiro compra amor, compra silêncio, compra impunidade.

Eles perderam o direito de ter uma mãe. Perderam a chance de ter uma mãe. Perderam a decência de ter uma mãe. Saíram de um esgoto, não de um ventre.

Constrangem e humilham sempre em bando. Sozinhos, acabam sendo medrosos.

São capazes das maiores brutalidades para soar engraçados, para ganhar a simpatia do seu circo de colegas.

Não são homens, mas ratos.

Crônica publicada em 21/6/2018