quarta-feira, 31 de agosto de 2011

CACHORRADA

Arte de Cínthya Verri

Escova de dente é um item de higiene particular. Seguia na merendeira da escola, ao lado da toalhinha de rosto e avental bordados, com o nome do dono colado com durex. Poderia emprestar pente aos coleguinhas, escova nunca.

Mas vá explicar privacidade a um irmão.
° ° °
A mãe confundia a partilha, obcecada por harmonias invisíveis (combinava a tonalidade da esponja com os ladrilhos do banheiro ou da toalha com o sabonete).

Ela comprava quatro escovas azuis: turquesa, marinho, calcinha e petróleo. E avisava aos quatro filhos de igual forma:

— Sua escova é azul.
E deu! Sem nenhum parêntese, detalhamento, explicação das diferentes matizes.

Qual azul: a forte, a fortíssima, a fraca, a fraquíssima?

° ° °
Acabávamos descobrindo tarde demais que a nossa escova servia a dois senhores ao mesmo tempo, a dois homens, um marido e um amante. Havia indícios contundentes: na primeira escovação do dia, ela continuava úmida. No momento do almoço, surgia estranhamente no box do chuveiro. Não parava no lugar que deixávamos.
° ° °
Não me importava em dividir as cáries, não tinha nojo de mim, mas Rodrigo sim, até porque não usava aparelho como eu. Ele fazia careta quando guardava a minha dentadura de adolescente no estojo.

° ° °
Acho que tomei sua escova sem querer. Complicado definir o corno da história, e quanto tempo demorou o caso.
° ° °
Com as suspeitas, o mano pirou, a ponto de diversificar esconderijos e me perseguir. Eu entrava no banheiro e ele batia na porta, pedia para entrar; um inferno, sempre no meu pé, sempre me controlando, ferrando meus devaneios com as revistas eróticas.

° ° °
Sua vigilância se transformou em doença. Colocava pimenta, catchup e mostarda nas cerdas, tudo para me prejudicar por tabela. Desejava me pegar em flagrante e me denunciar aos pais.

° ° °
A guerra fria durou de 1980 a 1983.
° ° °
Não suportava seu ciúme. Com a mesada, adquiri uma escova vermelha para me diferenciar.

° ° °
Em seguida outras cores apareceram no copo terminando a ditadura materna.

° ° °
Tristeza é azar. Na hora de lavar o nosso cachorro e limpar sua boca, apanhei uma escova amarela, velha, guardada no fundo do armarinho.
° ° °
Não tinha como saber que aquela escova era do irmão, disfarçada de suja para prevenir meus ataques.

° ° °
Ele dividiu a escova com o cachorro por alguns meses.

° ° °
Meu irmão ainda me odeia por isso.
° ° °
Fui visitar sua casa no interior do estado. Ao procurar lenço de papel, encontrei uma gaveta inteira repleta de escovas de dente.

Mais de cinquenta, ele que não é dentista e não trabalha como representante comercial.

° ° °
Eu me senti todo culpado.







Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O MORTO ESCUTA

Arte de El Greco. Texto dedicado ao amigo Marcelo

Sou místico, acredito no sobrenatural, em Deus, em anjos, fantasmas, duendes, rezo ao entrar no carro, faço sinal da cruz ao passar por igreja, enxergo coincidências e sigo rituais.

Quando pequeno, queria ser santo. Hoje, percebo que é difícil ser apenas um homem honesto.

Fiquei abalado pela história real de uma enfermeira mineira. Foi a descoberta espiritual mais importante de minha vida. Não dormi por duas noites seguidas relembrando as verdades ditas por aqueles olhos azuis enormes.

Ela trabalhou por 30 anos na Santa Casa de Misericórdia, cuidando e socorrendo pacientes terminais.

Confessou que a pessoa morre como ela viveu.

Os mais alegres têm despedida leve, tranquila, independente da enfermidade. Vão daqui para o outro lado sonhando. Não realizam drama, tampouco articulam chantagem. Tamanha a suavidade, não dá para identificar o último suspiro. Aceitam o destino, agradecidos pelo amor recebido.

Já os que estavam acostumados a reclamar de qualquer coisa também definham contrariados. Atolados de culpas e dívidas, esbanjam esgares de sofrimento, protestam pelas dificuldades adquiridas na doença, gritam a cada arrepio, lamentam ausência de atenção; o hospital nunca é bom, a dor sempre é insuportável.

Eles falecem com o rosto contraído, fechado, apunhalado. De quem apanhou da morte. Uma feição tensa, de escultura inacabada.

Mas, então, a enfermeira revelou um hábito surpreendente de sua equipe: conversar com o defunto.

Diante do morto sofrido, refratário e penoso, ela cochichava conselhos em sua orelha. Pedia para que ele reconsiderasse sua raiva, que desistisse da cara amarrada e emburrada, que se arrumasse para o velório e abandonasse o ressentimento.

Explicava que os familiares esperavam com ansiedade para vê-lo, que ele precisava se despedir bonito, que os parentes mereciam seu perdão e não valia a pena comprar briga por orgulho e teimosia.

Com as palavras delicadas de incentivo, não é que o morto ia soltando os traços e transformava a aparência na hora: libertava as bochechas, alforriava a boca, relaxava por completo.

O morto incrivelmente escutava. Entendia a súplica da enfermeira mesmo depois do seu fim. Atendia ao pedido e desinchava a amargura e serenava o espírito.

Nossos ouvidos não terminam com a morte. Continuam ouvindo onde quer que estejamos.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 30/08/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16809

FILHO DA MÃE!


CONVERSA DE LIVRARIA AO VIVO
Com Maria Carpi e participação de Fabrício Carpinejar

Dia: 31 de agosto (quarta-feira)
Hora: 15h30
Local: Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo
(Rua dos Andradas, 1223, Porto Alegre)
Inscrições gratuitas: (51) 3226.7974
e-mail: secretaria@cccev.com.br

sábado, 27 de agosto de 2011

O MILAGRE DAS RAPADURAS

A estratégia é simples, mas funciona: vendendo cada doce a R$ 9, seguido Hilberto fica com o troco pela simpatia. Foto de Tadeu Vilani
A vida é dura como um pé de moleque, mas no fundo é doce.

Esta frase só tem sentido na boca de Hilberto Helvino Von Frühauf, 76 anos, morador de Victor Graeff, município de 3 mil habitantes, situado a 263 quilômetros da Capital.

Ele pagou a universidade de seis filhos vendendo rapadura de porta em porta. Desde 1975, acorda cedo, sai com uma cestinha verde cheia de confeitos feitos pela mulher Nelvi, caminha 200 metros de barro, embarca no ônibus da empresa Azul na Linha Jacuí e segue oferecendo o produto para quem encontrar pela frente em Carazinho, Passo Fundo e Não-Me-Toque, além de sua própria cidade.

O casal, que completa bodas de ouro em novembro, teve sete filhos; três já morreram: o químico Milton em acidente de carro em 1986; a professora Marilei ao cometer suicídio, inconsolável pelo fim precoce do irmão, em 1991; e Maristela, decorrente de complicações da paralisia cerebral, em 1993.

– Enterrar um filho é doer como bicho – desabafa.

Nelvi lembra que dobraram a produção caseira de rapadura para cobrir remédios tarjas preta de Maristela, que passou 19 anos na cama.

– Ela nunca deixou de ser meu bebê de colo, um bebê grande.

Com escolaridade até a 5ª série, Hilberto nem guarda ideia de como sustentou o ensino da prole.

– Eu lutei, não trabalhei. Trabalhar é fácil.

Sua aparência simples e pobre confirma o milagre. Toda manhã veste uma japona furada, o abrigo cinza com rasgo nos joelhos e as havaianas pretas.

– Juntei pobrezas para conseguir o estudo de minhas crianças.

Crianças? Mania de pai que não enxerga o filho adulto:

Márcia, 38 anos, é formada em Química e reside na praia de Cassino. Moacir, 43 anos, é graduado em Veterinária e Administração e mora em Salvador (BA). Marcos, 45 anos, é pós-graduado em Biologia e escolheu viver em Santa Cruz do Sul. Marize, 48 anos, cursou Filosofia e mora em Mogi das Cruzes (SP).

A saída de rapaduras depende exclusivamente do fôlego de maratonista de Hilberto, que não admite regressar para casa de mãos abanando.

– Questão de honra. Melhor voltar tarde, de madrugada, do que ver a cara triste de Nelvi, após horas cozinhando e embalando o material.

Hilberto comercializa 28 rapaduras de 660 gramas por dia, a R$ 9 cada. Foram 360 mil rapaduras vendidas ao longo de sua história. Isso que sofreu calotes em suas andanças, de clientes que pediram para anotar e desapareceram logo em seguida.

– Não tem problema, vou aceitando que é cortesia de Deus. Homem honesto não cobra o outro, cobra de si mesmo.

A memória fisionômica de Hilberto não perdoa nenhuma recusa. Lembrar quem comprou é o básico, ele tem refinamentos.

– Não esqueço mesmo de quem me disse não.

Um de seus métodos é contar piadas picantes diante da indecisão do cliente.

– Ou ele ri e compra ou ele odeia a gozação e também compra de vergonha para calar a minha matraca.

Sua carência charmosa ainda resulta em comissão de 10%. Afinal, ele é um garçom em permanente trânsito de sua cozinha às ruas.

– O troco é dele, para homenagear as covinhas do seu riso e seus olhos de Sinatra – brinca a bancária Juliana Ferreira, 29 anos, uma de suas freguesas em Victor Graeff.

Hilberto não sonha em ganhar na Mega Sena e se aposentar, muito menos delira com qualquer riqueza súbita.

– Se pudesse mudar algo hoje em sua vida, o que faria? – pergunto.
– Ficar mais novo para lutar mais – ele responde, sem pensar muito.

Sorte grande de seus nove netos.





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 33, 27/8/2011
Porto Alegre, Edição N° 16806
Veja vídeos de Hilberto

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

CASAL PROBLEMA

Arte de Cínthya Verri

Na discussão de relacionamento, as aparências enganam. Quem grita muito não deseja brigar. Quem fala baixo gosta de brigar. Mariano é do segundo grupo, adepto silencioso da rinha: suplica para a mulher se recompor e baixar o volume. Seu jogo é psicológico. Põe fogo no circo e senta para assistir o espetáculo da plateia.

A impressão é que a Selma grita sozinha: a voz dele nem aparece.

A falsa calma de Mariano irrita Selma. Mas a irritação de Selma passa da conta e apavora Mariano. Não há santo naquele lar. Ambos sabem que não estão certos, mas tramam um jeito de convencer o parceiro de que ele é que está errado.

Ele não descansa sem fazer as pazes. Ela odeia paz forçada. Nenhum cederá: os vizinhos é que sofrem.

Formam o famoso casal problema do prédio. Todo edifício tem um. A reunião de condomínio é dedicada às últimas peripécias do apartamento 201.

No início do ano, a vizinha de cima bateu à porta da dupla. Antes fosse para pedir sal ou açúcar.

— Desculpe incomodar, tenho uma filha pequena, não estamos dormindo de noite, vocês podem gemer mais baixo?
— Como? — Mariano atendeu.
— Dá para ouvir tudo pela nossa janela.
— O que sugere? Que use travesseiro no rosto? — ele ironizou.
— Não sei mais como explicar a minha filha, avisei que eram gatos no telhado.

Episódio mais grave ocorreu em maio. Mariano e Selma não são mesmo calmos. O que esperar do encontro de orgulhosos, ciumentos, temperamentais?

Óbvio que uma carta de notificação da imobiliária, ordem para se comportar senão seriam obrigados a pagar multa.

— Pô, Selma, não podemos transar nem brigar na própria casa.
— É o fim da liberdade, amor. E o síndico desrespeita a lei do silêncio no domingo para apressar a reforma do corredor, né?

E se abraçaram e viveram em paz mais três meses.

Na última semana, após troca de insultos, o interfone do 201 apita:

— Soldado Amauri, Brigada Militar…
— Vizinhos desgraçados… — desabafou Selma.

Duas viaturas estavam estacionadas na entrada do prédio.

Eles pararam de discutir na hora, cheios de cumplicidade.

— Quando roubaram o nosso carro na garagem, à mão armada, nenhum carro da Brigada Militar surgiu, Selma. Nenhum!
— Mas para apartar uma briguinha, a corporação envia não somente um veículo, mas dois, Mariano.
— Querem nos separar.
— Nunca vão nos separar!

Nada melhor do que uma injustiça para desencadear a reconciliação.

O casal desceu de mãos dadas, envolvido em longos e acalorados beijos. Os policiais ficaram constrangidos diante de tanto amor e se retiraram.





Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 23 de agosto de 2011

COMO DESMASCARAR O CHORO FALSO

Arte de Edward Munch

O choro é uma arte. Uma obra-prima. Uma Pietà de Michelangelo. Diante dela, nossos olhos se umedecem na hora, o batimento dispara e até nossa boca se ajoelha pedindo perdão pela nossa indiferença nas sinaleiras.

Mas, como toda escultura, é cheia de réplicas e falsificações.
 
E dá para entender o motivo. Desde bebê aprendemos a fazer manha para ganhar as coisas. Perdemos a autenticidade das lágrimas. A cobiça nos distanciou da verdadeira dor. Assim que descobrimos que os pais não aguentam choro por muito tempo, abusamos do recurso cênico e banalizamos o berro. Nossos sofrimentos são, na maior parte das vezes, reclamações. Os gritos não passam de resmungos. Poderiam ser evitados. Têm uma clara natureza forçada.

Desejando prevenir a população da ação dos impostores, estabeleço mandamentos para identificar e reprimir o estelionato emocional:

& O choro depende de soluço. É um engasgo precioso. Choro sem soluço é poço sem roldana. Trata-se de um motor respiratório para atravessar o vale de lágrimas. Numa visão gramática da tristeza, o soluço é a vírgula e o gemido é o ponto final. São pausas fundamentais que garantem o suspense: parece que o sofredor vai falar, mas ele se cala.

& O choro sincero é um miado. Não conseguiremos decifrar o que a pessoa disse. As palavras são completamente ilegíveis.

& O rosto ficará vermelho, inchado, como um ataque de abelhas-africanas.

& O sofredor não vai encarar o outro de modo nenhum, não se chora de cabeça levantada, isso é coisa de novela e de colírio. O choroso estará acovardado, de boca aberta, já que não consegue respirar.

& Não acredite no tipo que bate a porta do quarto para chorar, está chamando atenção, é carência, não choro, o choroso real desmorona onde estiver. Não é possível guardar o choro, criar um fundo de investimento de dor. O choro é pontual, surge no meio do trabalho, no meio da aula, relâmpago incontrolável.

& Em contato com o travesseiro, a choradeira irá atravessar a fronha e o lençol. Se não mofar o colchão, não é choro.

& No momento em que o homem chora, se a voz vem grossa, ele está fingindo: no choro, a voz sempre é fina, distorcida, de gás hélio.

& Mulher nunca chora sem estar pintada. É regra básica, para borrar feio e oferecer espetáculo. Mulher chorando de cara limpa é farsa.

& Se você usa lenço ou papel higiênico para limpar o nariz, está mentindo: quem sofre mesmo assoa o ranho na manga da camisa, e não se importa com os botões.

& O choro é como orgasmo. Não admite discurso depois. Aquele que aproveita o choro para passar sermão é apenas um chantagista.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 23/08/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16802

sábado, 20 de agosto de 2011

PREFEITO DOS MORTOS


Soares sabe de cabeça a localização das sepulturas, entre as quais chega a percorrer dois quilômetros por dia em vistorias e manutenção. Foto de Emílio Pedroso.
Quarenta e sete mil defuntos num único cemitério.

Quarenta e um mil moradores na cidade.

Há mais morto do que vivo em Rosário do Sul, município da fronteira oeste do Estado, situado a 386 quilômetros de Porto Alegre. A larga vantagem numérica soa como folclore, mas é verdade.

– Caso a arrecadação do IPTU fosse com quem faleceu, Rosário seria rica – diz Ivan Muniz Soares, 73 anos, pai de três filhos e casado há cinco décadas com Terezinha Rosado Soares, 69 anos, a quem chama carinhosamente de primeira-dama.

Soares é o administrador do cemitério desde 1995, um carismático prefeito dos finados. Finalizou a contagem da população em julho, a partir de média de sepulturas por quadra. Seu expediente se inicia às 7h30min e se encerra às 16h45min. Devido ao temperamento cantante e hiperativo, de modo nenhum se aquieta no escritório.

– Do alto dos muros brancos, eu me imagino comandante de um imenso exército, convocando os anjos e as estátuas a combater comigo.

Dono de um otimismo napoleônico, Soares revista as tropas tilintando o molho das chaves pendurado na calça:

– Meu Ministério de Guerra estaria fortemente aparelhado, temos enterrados diversos combatentes da Revolução de 1923. Elegeria como meu chefe de gabinete o morto mais ilustre do local, o tropeiro e general federalista Honório Lemes, o Leão de Caverá, autor da frase ´Queremos leis que governem os homens, não homens que governem leis´.

Se alguém não acha uma lápide, Soares sabe exatamente onde está. Gravou cada uma das fotos 3x4 dos obituários e decorou milhares de epitáfios. Chega a percorrer dois quilômetros por dia arrumando vasos, recolhendo flores secas, vistoriando rachaduras e as condições das lajes.

– Procuro a família Oliveira.
– É no fundo, segue sempre reto, à direita, ao lado de uma capela azul – indica ao visitante Luiz Carlos Oliveira, 48 anos, que veio prestar homenagem ao túmulo paterno.

E a tarefa de localização depende exclusivamente de sua memória. As ruas não exibem número e nome. Não existe nem o registro da data de origem do cemitério por parte da prefeitura: os arquivos começam a partir de 1904, sem nenhum dado conservado do século 19.

– Muita gente se perde por aqui, neste mar de recordações. Faço questão de permanecer visível, por perto. Oriento os pedreiros nos novos enterros e participo da maioria dos funerais.

Soares não teme assombração, sequer enxerga a morte com pesar e tristeza.

Defende a alegria do lugar, ponto de encontro para conversas animadas da velha guarda nos bancos de madeira, à sombra das árvores.

– Em vez de pensar que os mortos deveriam ter vivido mais, penso: que bom que eles viveram.

Seu entusiasmo toma o partido da transcendência. Destaca o lugar como um território curativo.

– Quando atravessa as duas figueiras do nosso portão, qualquer bêbado fica sóbrio no ato. Pode misturar cachaça, cerveja e uísque, não passará mal depois da visita. Pelo dom da graça, cemitério cura ressaca.

Rosário do Sul é toda cercada de rios e arroios, que compõem a bacia Santa Maria. De propósito, segundo Soares, para facilitar as baldeações das almas ao paraíso.






Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 36, 20/8/2011
Porto Alegre, Edição N° 16798
Veja vídeos de nossa visita pelo cemitério de Rosário do Sul

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

TAL PAI, TAL FILHA

Arte de Cínthya Verri

A paternidade nunca desfrutou de igualdade de condições com a maternidade. Havia uma larga desvantagem nos hábitos, além da gestação, amamentação e de todo o cuidado instintivo.

Não há mais. O Muro da Mauá caiu. Minha filha Mariana, 17 anos, empatou os dois papéis a partir de um singelo gesto. Rompeu o último reduto confessional.
Ela pega minhas roupas emprestadas na calada da noite. Assim como fazia com sua mãe.
Desde que ela veio morar comigo, realiza o anarquismo dos armários. Anseia eliminar os biombos, divisórias e formas de governo. Não preserva sequer conjunto novo. Corta etiqueta para usar pela primeira vez. Desrespeita os lacres e a sensação gostosa de estreia do dono.

Leva minha calça, minha camisa, meu terno, meu macacão. Anda furtando inclusive a coleção de camisetas de futebol, que eu julgava pessoal e intransferível como cueca.

Diz que é altamente autoritário esse papo de masculino e feminino.

Surgiu com a seguinte tirada no jantar: “Enquanto existir autoridade, não existirá liberdade”.

Não posso culpá-la. O homem deveria ter pensado um pouco mais antes de se declarar metrossexual.

Acordo e vou pegar um casaco: sumiu! Passo uma hora procurando entre os cabides, a cesta da lavanderia, o varal, e nenhum sinal. Reviso os últimos passos da roupa. Rezo o pai-nosso pela metade, questiono a mulher, enlouqueço a empregada, incrimino o esquecimento da velhice.

Sabe o que é escolher uma combinação inteira a partir de uma peça e ela desaparecer de repente? Um lampejo de harmonia posto fora? E a frustração? E o desejo reprimido? Você me entende, Laerte?

Desisto, e me dirijo ao trabalho com a sensação incômoda de que não mando mais em minha vida.

Quando Mariana volta da escola, percebo que ela carrega justamente a roupa extraviada. E parece mais dela do que minha.

Nostradamus ou mãe Diná não previu isso. Trate de se acostumar. Não reclame que sumiu, investigue direito, está em casa, no outro quarto.
Controlo o ranger de dentes. Demorei uma década para alcançar a guarda, não vale desperdiçar com picuinhas e egoísmo. Não custa nada renunciar às futilidades, preservar os valores e investir no caráter.

Afinal, é o internacionalismo dos botões, é a integração sociolibertária do vestuário, é a difusão global do figurino.

Hoje coloquei a calça de corações amarelos de minha filha. Não esperava que servisse. Entrou certinho. Quero só ver a cara dela ao descobrir.




Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 16 de agosto de 2011

MESA RESERVADA

Arte de Childe Hassam

Sandrinha ama meu filho Vicente, nove anos. Ela coordena a brigada de atendentes no restaurante Suzanne Marie, no Moinhos de Vento.

Amar meu filho é me amar duas vezes.

Não consigo ser pai com Sandrinha perto. Ela não deixa faltar nada. É o menino se acomodar na cadeira que já está cochichando planos mirabolantes em seu ouvido, por certo encomendando pratos especiais fora do cardápio, imagino que seja ovo estrelado em cima do arroz soltinho, bife e batata frita, algo irresistível para uma criança.

Molecagem de amigos, que aumenta porque não escuto a conversa. Identifico que o assunto é proibido pelas risadas e olhos chineses dos dois.

Com Sandrinha perto, Vicente vive um domingo eterno, do jeito que sonhara no ventre.

Eu brinco que ela leva meu filho em sua bandeja para cá e para lá, que mima demais o guri, que estraga a educação com excessiva ternura.

Na aparência, reclamo e faço cena; secretamente, admiro seus cuidados, sei que o amor conserva, não estraga ninguém.

De modo egoísta, a família torce para que não tire férias. Com ela longe, as fadas desaparecem, Debussy se cala, o suco da filha Mariana não vem, meu café enfraquece, o chá da esposa dorme no bolso do garçom.

Sandrinha é insubstituível. Uma monarca da simplicidade.

Tão aplicada e cuidadosa, que nunca a vi de cabelos soltos, sempre de coque. Deve ser bailarina de uma caixinha de música. Dança sem parar no espelho de nossos olhos, num vaivém incessante, destacando-se pela elegância – a sapatilha rosa da boca, as palavras na ponta dos pés, o pescoço erguido mesmo ao apanhar talheres do chão.

Vicente dá corda, eu dou corda, não queremos perdê-la de vista: exemplifica a delicadeza atenta do lugar, a comida curativa.

Mas Sandrinha hoje não poderá vir. Nem amanhã. Nem depois de amanhã. Vai demorar a voltar.

Recupera-se na UTI do Hospital de Gravataí. Foi vítima de um assalto ao descer do ônibus no sábado, no retorno do trabalho. Abordada por um ladrão, entrou em pânico, saiu correndo e caiu na rua. O assaltante atirou friamente em suas costas. Atirou quando ela estava deitada, indefesa, entregue.

Talvez ela não ande mais. Agora eu e Vicente iremos carregá-la no colo.

É hora de servi-la. E ainda explicaremos para Sandrinha que ela é magra, leve, não cansa os braços.







Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 16/08/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16794

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

BORRALHEIRO INDICADO


Publicado na revista Nova
Seção Agite&Use, "O Que Ler", p. 27
Edição de Agosto 2011, Ano 39, Número 8