sábado, 22 de outubro de 2011

FANÁTICOS POR BOCHA

A paixão pelo jogo do treinador da seleção brasileira de bocha Valmir contagiou o filho Pietro e outros familiares. Fotos de Jean Schwarz.

A bocha é o esporte mais democrático que existe. Permite barriguinha de cerveja, pode ser feito depois do almoço, ajuda a digestão, integra famílias, não tem restrições a sexo, idade e condicionamento, serve para duelos e disputas em equipes, é barato e recomendado para prevenir problemas de memória (superior, inclusive, às palavras cruzadas).

Carlos Barbosa, a 97 quilômetros da capital gaúcha, é a que tem melhor aproveitado seus efeitos curativos com 40 canchas espalhadas pela cidade. Ao lado do futebol de salão, o jogo vem dividindo a preferência dos 24 mil moradores.

O município serrano é a terra do treinador da seleção brasileira de bocha, Valmir Danieli, 51 anos, que recruta atletas de Mato Grosso a Santa Catarina, em viagens trimestrais pelo país.

– Vejo quais são os jogadores de ponta e trago para se preparar na minha cidade – diz Valmir.

Carlos Barbosa também foi sede em outubro do 8º Mundial de Bocha, que reuniu 15 clubes de 14 paí-ses durante uma semana (de 9 a 16 de outubro), no bairro Santo Antonio de Castro. O campeonato recebeu público fervoroso de 11 mil pessoas e teve transmissão das finais pela RAI. Mesmo sem conquistar o primeiro lugar, que ficou com os italianos de Treviso (Clube Monastier), os gaúchos fizeram bonito com o segundo degrau do pódio, alcançado pelo Clube Três Lagoas de Garibaldi, e o terceiro degrau, destinado à equipe barbosense de Valmir, Associação Braço Forte.

Valmir encarna o espírito bocheiro no Estado. Não pensa em outro trabalho que não tenha a dimensão de 27 metros de comprimento e quatro metros de largura. Contagiou a parentada inteira a participar da obsessão. Um dos seus filhos, Pietro Daniel, 14 anos, é vice-campeão mundial na categoria infanto-juvenil, em decisão que ocorreu neste ano em Ancara, na Turquia. Sua mulher, Mariza, é campeã gaúcha de duplas. O pai, Honório, obteve o segundo lugar do Estadual em 1972 e continua a bochar com talento e sabedoria, aos 81 anos. Todos atuam juntos no final de semana. As brigas e diferenças são resolvidas no bolim.

– É o esporte de maior longevidade do mundo, para ser praticado dos nove aos 90 anos. Não é como o futebol, que tem vida curta, de duas décadas e meia no máximo – explica Valmir.

– Minha aposentadoria será a morte – exagera Pietro, que treina quatro horas por dia.

O agricultor Dorvalino Zarpelon, 69 anos, o Canhoto, partilha o fanatismo pelos corredores de carpete. Corpulento, bigodudo, é um bochófilo típico. Ou está jogando ou opinando sobre o jogo dos outros. Dono do cetro regional dos veteranos, iniciou cedo a vocação. Ainda piá, antes da escola, fugia da lavoura para exercitar a força de seus arremessos com pedras.

– Não sei se minha vida melhorou com a bocha, sei que ela não piorou – ri.

Composta apenas de três movimentos básicos (ponto, bate e raffa), a bocha é o equivalente a um xadrez em terceira dimensão, talhado a quem tem sangue-frio e talento conspiratório.

– Ninguém pretende sair jogando, porque o placar consiste em desfazer o que o adversário construiu. Em nenhum outro lugar tem tanto sentido a expressão “Calcanhar de Aquiles”, o negócio é descobrir e cutucar a fraqueza alheia – explica Valmir.

Além da aparência de roda animada, na intimidade das regras, é uma competição de malícia e intriga, de alta precisão e raciocínio rápido.

– A amizade necessita suportar as inúmeras traições do oponente. É um golpe de Estado atrás do outro. Exige concentração e astúcia, e não desistir e não se intimidar com a desvantagem.

O treinador percebe que a cancha converte os sentimentos ruins em graça e brincadeira.

– Aceita-se a condição provisória de um lance, por mais espetacular que seja. A vida segue com seus defeitos e dificuldades, entende?

Eduardo Mattuela, 17 anos, integrante do selecionado juvenil, realmente entendeu o recado. Deixou de reclamar do isolamento em casa e aderiu à embriaguez coletiva.

– Meu pai nunca estava perto, a bocha era uma espécie de bar. Passei a jogar para estar com ele. Hoje, tutto bene, sou viciado igual.





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 32, 22/10/2011
Porto Alegre, Edição N° 16863
Conheça Carlos Barbosa, a sede mundial da bocha.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

QUER NAMORAR?

Arte de Raoul Hausmann

A melhor agência de namoro é comprar uma passagem para bem longe.

Quanto mais longe, maior a chance de ser feliz. Não precisa usar o bilhete, é adquirir, pôr no bolso e andar com aquele olhar irresistível de janela redonda de avião.

Sempre repercute: todo mundo sente que vamos embora e ganhamos importância amorosa. Mais imbatível do que usar aliança, do que borrifar perfume de boto, do que afogar estátua de Santo Antônio.

Quer se apaixonar? Invente uma viagem. Mas tem que pagar para fazer efeito. O destino confere os depósitos bancários.

A despedida é um afrodisíaco veemente. Ficamos abertos e receptivos ao acaso.

Durante os veraneios da adolescência, em Rainha do Mar, eu me ligava na menina no último dia de férias, quando era condenado a voltar para a Capital. Amiga do Interior confessava que me amava um pouco antes de entrar no carro cheio de malas e tralhas. Dava um selinho, corria em direção aos pais e trocávamos cartas ansiosas pelo reencontro ao longo do ano.

É ter um compromisso certo e inadiável para arrumar uma paixão. Sem antítese, não há dialética, não se chega à síntese.

Adoramos uma encruzilhada, confusão, dúvidas. Adoramos a ambiguidade do aceno, que pode ser um oi e um tchau.

Ao tomar um caminho, surge outra opção até então invisível. É programar um intercâmbio no Exterior, que nos envolveremos na noite anterior ao embarque. É realizar sonho profissional de trabalhar na Europa, que antigo amor vem suplicar reconciliação.

O aeroporto e a rodoviária são altares, cupidos, balcões de suspiros.

Se você é solteiro, não entre em chats, não crie perfis falsos, não perca tempo.

As mulheres são alucinadas por homens com malas. Os homens são alucinados por mulheres atravessando o detector de metais.

Se não consegue namorado/namorada, gire o globo, pare um país com o dedo e arrebate passagens.

A distância influencia a longevidade da relação. Menos de 200 quilômetros não traz cócegas. O arrebatamento é proporcional à quilometragem. Viajar a Espumoso produzirá um rápido olhar 43, Santo Ângelo resultará em flerte, Rio de Janeiro ocasionará um caso, Natal renderá breve namoro, deslocamento ao Acre talvez pinte noivado.

Mas, para casar com véu e grinalda, aposte alto e compre passagem de ida (somente de ida!) a Bangladesh.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 18/10/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16859

sábado, 15 de outubro de 2011

MINHA HOMENAGEM AO ÚLTIMO PAYADOR

A cidade visitada na edição de hoje é São Luiz Gonzaga, terra de 34,5 mil habitantes, distante 465 quilômetros de Porto Alegre, berço do músico Pedro Ortaça, lenda da trova missioneira. Fotos de Rogério Sartori.

Põe o cavalo a correr.
Se é fiel, ele volta.
Se é triste, ele morre.
Se é vento, ele sonha.
Enche o pulmão para ler
e não se afogar na neblina.
Depois de Jayme Caetano Braun,
Noel Guarani e Cenair Maíca,
o único que está vivo
é Pedro Ortaça, um dos quatro
troncos do protesto, arisco,
febril, nosso estado pelo avesso.
Pedro Ortaça não é um nome,
mas uma condição missioneira.
Payador, bruxo solto, árvore
à sombra das catedrais jesuíticas.
Pedro Ortaça é uma joia da ofensa,
sessenta e nove anos de bem com a maldade,
quando canta sua voz é outra, tão diversa
da sua, usa a aspa do cavanhaque
a traduzir o Rio Uruguai.
Baixa em si o espírito dos Sete Povos,
pomba-gira é Sepé Tiaraju,
índio de secreto mundo
exorcizando massacres sem fim.
A terra colorada é o poncho que cobre a ave
de São Luiz Gonzaga. Por favor, com licença,
Pedro Ortaça é a cidade reunida na estância,
aquece os olhos como quem serve o mate:
não deixa esfriar a raiva,
o coração sempre está além
daquilo que se entende,
só pede perdão lutando.
O maior riso surge do desespero,
a dor brilha mais do que ferro puro,
mais do que carência de espelho,
mais do que dente de ouro.
Pedro Ortaça não é flor que se cheire,
é pedra andando, campo encilhado,
desarruma o pago e os limites
tocando violão com arames das cercas.
Ostenta o bigode afiado
contando aflições antigas
de um jeito alto, desaforado,
próprio do galpão de amigos.
Não foi fácil desatar o grito,
montar guarda em centenas de letras.
Recebeu de um pescador sua faca;
do avô Quintino, o acordeão;
da mãe Cândida, as modinhas fraseadas;
e do pai Alberto, a fome de pirão e pão.
Os nervos custaram a desmanchar
na carne dura, magra, cigana.
Por mais que se monte banda,
por mais que se apresse o dom,
a montanha demora a devolver o som.
Vendeu sangue para conseguir viagem,
quatrocentos gramas de veia
foram seus bilhetes de trem.
Ele bem sabe, o verso faz história.
Pedro Ortaça é uma figura esguia,
de origem ilusória, mínima,
brincava para esquecer a falta de comida.
Passava acordado de madrugada
espiando o baile dos adultos.
Mais do que o café do medo,
não dormia pela beleza dos timbres.
Tirou a morte a dançar, mascou todo gengibre.
Não teve cadeira de letrado,
não botou sua honra no penhor,
não procurou nada emprestado,
não disse amém ao senhor.


Ortaça, feito de taipas e relâmpagos,
transforma as ruínas em tambores,
veste crepúsculos, manto guarani aos ombros,
suas mãos escrevem galopes.
Ortaça, Ortaça, a chuva não cala o fogo.
Quem inventa nunca chega atrasado
na lembrança. A guitarra é campo santo,
não terminam os ouvidos de pampear.
Quem inventa nunca chega atrasado
no parto. A rédea é aceno do canto,
não terminam os ouvidos de guerrear.
Ortaça, Ortaça, Ortaça já viu o demo,
o redemoinho, no meio da colheita:
nuvens negras de gafanhotos
roubaram sua infância.
Ninguém mais assusta Pedro Ortaça,
ele jamais duvidou do instinto
que vem do passado cancioneiro.
Não desistiu de ser bicho,
da valentia de sua gente,
de brigar por improviso, matreiro.
Pois aquele que nada tem, nada deve,
nada teme, vive por inteiro.






Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 32, 15/10/2011
Porto Alegre, Edição N° 16856
Pedro Ortaça canta como quem duela. Veja o vídeo feito em São Luiz Gonzaga.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

PEDRA DE TOQUE


Confira minha entrevista ao Pedra de Toque - A Poesia Contemporânea Brasileira, no Portal do Itaú Cultural. Conversa conduzida pelo ficcionista Eduardo Baszczyn. Ouça aqui.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

NÃO RECLAME DO HOMEM RONCANDO

Arte de Joseph Cornell

A esposa reclamava do meu ronco. Dizia que desrespeitava a lei de silêncio do prédio. Ainda mais quando estava absolutamente cansado, naquele estado vegetativo de quem não dorme, porém desmaia.

Capotava de barriga para cima, as pernas esparramadas pela cama inteira.

Ao fechar os olhos, abria a matraca. Não respirava, e sim uivava. Meu inconsciente brincava de língua de sogra. Sorte que adormecia fundo, o necessário para não ouvir minha respiração galopante. Ruim é ter sono leve e ser acordado pelo próprio barulho cavernoso.

Reservava toda a audição da sinfonia para Cínthya. Minha mulher odiava a cortesia e recorria a métodos diversos para me calar.

Inicialmente, ela me ajeitava e massageava o rosto com carinhos. Como não desligava a britadeira, a ternura logo desandou em tortura. Optou pelas ações drásticas: sacudia os braços, comprimia o queixo, apertava o nariz. Em seguida, comprou tapador de ouvidos, touca térmica, fita isolante de sequestrador.

Exausta das tentativas inúteis, veio protestar de manhã:

– Não consigo dormir. Para piorar, seu ronco é ida e volta, lança o ar e engole de novo.

Ensaiei resistência, só que me envergonhei do defeito e fui procurar ajuda. Eu me internei durante três dias no campanário do mosteiro de Três Coroas, conversei por Skype com Dalai Lama, parei de fumar, iniciei ioga, retornei à natação.

Depois de dois meses, não regurgitava mais com o nariz, surdina enfim consertada. Livrei-me do escapamento e das ameaças. Já era um travesseiro de penas de ganso, macio e confiável.

Mas Cínthya continuou a me cutucar de madrugada.

– Ei, ei, ei?
– Que foi amor?
– Tô com insônia, sinto falta de seu ronco, fico com medo de que tenha morrido ao meu lado.

Por obrigação matrimonial, voltei a roncar. Não sou cemitério para descansar em paz. E faço defesa do criativo chiado musical, cheio de tambores e trovões.

Um homem roncando é sinal de saúde. Todos em casa sabem que ele está vivo. Um homem roncando traz segurança ao lar. É ter um cão dentro do quarto. Ninguém assaltará sua casa. Não necessitará pagar alarme ou serviço de vigilância.

Um homem roncando serve como crucifixo. Afasta vampiros, bruxaria, mau olhado, demônios e fantasmas.

Um homem roncando revela satisfação sexual. O ronco é o casamento escondido da risada com o gemido.

Por favor, não seja precipitada, não critique mais seu marido, antes que você se torne sonâmbula da saudade.

Homem é como chimarrão: se não roncar, é falta de respeito.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 11/10/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16852

sábado, 8 de outubro de 2011

LÍNGUA VIVA DE UM PAÍS MORTO

Casados há cinco décadas, Álida e Arno só conversam no idioma pomerano. Fotos de Nauro Júnior.

Pomerânia não está pintada de azul no mapa mundi.

Era um país eslavo, na fronteira entre a Alemanha e a Polônia, reduzido a ducado no século 11, apequenado em província no século 18 e que deixou de existir de vez com o fim da II Guerra Mundial, em 1945 (85% do território foi incorporado pelos poloneses e 15% acabou sob domínio dos alemães).

Mas seu idioma áspero ainda é falado no Rio Grande do Sul.

Em São Lourenço do Sul, cidade de 43 mil habitantes, a 195 quilômetros da Capital, famílias mantêm viva a língua de uma região extinta. Para não sofrer boicote, as lojas são condicionadas a contratar funcionários que respeitem a tradição.

O agricultor Arno Bubolz, 76 anos, defende a bandeira com unhas, dentes e enxada. Bisneto de um dos primeiros imigrantes da Pomerânia a desembarcar no Rio Grande do Sul (Fritz desceu no Porto da Lagoa dos Patos, em 1868), não abre mão da origem. Conversa exclusivamente em pomerano com os parentes.

– É o nosso código de amor – afirma Álida Bubolz, 74 anos, sua mulher há cinco décadas.

– Ela me diz cada coisa no ouvido que apenas eu entendo e não posso traduzir – reage Arno.

– Meu marido adora xingar no idioma dos avós. Mas não xinga de ruim, para amaldiçoar, xinga de faceiro, de orgulho – completa Álida.


De largo chapéu de palha e inseparáveis tamancos, Arno é simpatia pura. Álida aproveita a vulnerabilidade de seu riso para beliscar as faces rosadas.

– Até seu beijo é pomerano. Ele transmite sua felicidade pelos lábios – confidencia a esposa.

– Temos uma paixão pelo som. Em vez dos olhos, observamos a boca para ver se a pessoa está mentindo – argumenta Arno.

O dialeto tem uma pronúncia semelhante ao alemão. Resiste apenas como língua oral no Estado, sem representações por escrito.

– Fui entender português tardiamente, aos sete anos, na escola – esclarece Hilmar, 46 anos, um dos seis filhos do casal.

Ao longo das bodas de ouro, o par honrou os rituais dos antepassados da costa do Mar Báltico. Preservou hábitos diferentes, a princípio estranhos para seus vizinhos gaudérios. Um deles é o vestido negro da noiva.

– Matrimônio é luto para mulher. Significa abdicar da proteção dos pais – explica Arno.

O casório é permeado de regras especiais. Não é permitido convite impresso. A cultura estabelece a figura do convidador: um padrinho – de preferência de fígado forte – que visita a comunidade convocando os amigos para a festa. Ele é obrigado a beber um gole de maischnaps, cachaça típica feita com 32 ervas, em cada residência.

– Certo que volta embriagado da missão, e não lembra quem realmente convidou. Depois a cerimônia enche de penetras – ri Arno.

Outro ritual é colocar o primogênito de castigo na hipótese de o caçula casar antes.

– São castigos divertidos. O filho encalhado é condenado a passar uma tarde inteira sentado no fogão, para aprender a não ser mais bobo – pontua Hilmar.

Arno e Álida já são os professores de pomerano dos 13 netos, criançada que lota todo o galpão da fazenda na Estrada da Divisa.

– Não seremos o último capítulo do idioma. O livro não termina com o fim.

The End. Ou, para os íntimos dos antigos celtas, Yho.








Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 32, 8/10/2011
Porto Alegre, Edição N° 16850
Veja hábitos de pomeranos e vídeos de São Lourenço do Sul.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O GRANDE MENTECAPTO

Foto de Alexandra Martins

Pensava que seria protagonista, cheguei de manhã no set de filmagens e virei coadjuvante. De tarde, já era figurante. No final, terminei como ponta. Essa foi a minha história no divertido comercial da Nextel.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

PREENCHA A LINHA PONTILHADA

Arte de Victor Brauner

No aeroporto, vinha um segurança gigantesco em minha direção. Uma porta fardada. Com roupa azul e frisos amarelos nas mangas. O coldre enviesado indicava seu trabalho de vigilância. Seu andar anabolizava a atenção das mesas da Praça de Alimentação.

Ele se aproximava lentamente, tinha um rosto malvado, duro, tenso. Os bandidos deveriam temê-lo, lembrava o Falcon de minha infância; a barba rala e a cicatriz na testa.

Quando ele passou por mim, eu vi seu crachá e sua maldade desapareceu no ato, foi substituída por uma candura de carrossel, de pônei pintado e música de ninar.

Estava escrito no crachá: EM TREINAMENTO.

Constrangedor fazê-lo prestar serviço com o claro aviso do período probatório. É desarmá-lo moralmente.

O ideal é que seja treinado para depois entrar em atividade. Não entrar em atividade para ser debochado.

Por que não colocar uma tabuleta no pescoço ou prendê-lo no picadeiro?

O estrago é igual. Não havia mais como levá-lo a sério. Emanou uma compaixão reservada aos passarinhos de asa pisada, que correm em círculos pelo jardim.

Coitado, pensei; projetar é recuperar no outro a própria memória, lembrei meu início profissional. Aguentava as provocações do chefe pela esperança de ser efetivado (aquilo não era esperança, mas perpétuo adiamento).

Em treinamento é dizer que o guarda não merece a identidade, que sequer recebe o FGTS, que é uma versão envelhecida de um estagiário.

É um sadismo das empresas estabelecer o sofrimento como critério para merecer o emprego. Mania absurda de considerar sacrifício e renúncia requisitos de um bom trabalhador.

Já não foi provado de que o purgatório não existe, de que é uma invenção da Igreja Católica?

Novatos terminam atrás do balcão com advertência macabra EM TESTE. A tarja no bolso da camisa é um carro colorido de autoescola: mantenha distância. As letras surgem em caixa alta, para não deixar dúvida da ausência de competência.

Com o crachá de aprendiz, os erros de atendimento serão condenados antes do julgamento. Diante do primeiro impasse, os candidatos ao emprego fixo vão se tornar garotos de recado e ouvir sempre o mesmo apelo:

- Por favor, chame o gerente!

Dinheiro é arrogância, os clientes não toleram iniciantes, reclamam da inexperiência, maltratam os novatos.

A identificação temporária difere pouco dos patrões que zombam de seus funcionários ao exigir que usem roupas típicas para atrair consumidores. Expor-se como coelho da páscoa, papai noel e caipira não vale o carimbo da carteira de trabalho.

Fantasia é uma escolha pessoal, torna-se crime quando imposta. Assim como ninguém pode tirar o direito que cada um tem de se humilhar.

Ser provisório é uma ofensa definitiva.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

FALSO BRILHANTE

Arte de Leonardo da Vinci

Há o condicionamento de que amor mesmo, de verdade, é gastar metade do salário para a esquadrilha da fumaça assinar o nome da namorada pelos céus de Porto Alegre.

Temos uma noção de que amor mesmo, de verdade, é exibicionista. Depende de surpresas públicas de afeto como serenata na janela, carro de som, anúncios na TV, outdoors com pedido de casamento.

Mulheres e homens se desesperam por um amor público, encantado, de estádio cheio, e cobram provas mirabolantes de seus parceiros. Reclamam da rotina, da previsibilidade, e exigem declarações barulhentas para despertar a inveja do próximo.

O amor espalhafatoso recebe a fama, mas o amor contido é o mais profundo.

Ao procurar o amor empresarial, desprezamos o amor funcionário público, que atende às ligações e escreve nossos memorandos.

Ao perseguir o amor de cinema, desdenhamos o amor de teatro, de quem encena a peça todo dia ao nosso lado, sempre com uma interpretação nova a partir das falas iguais.

Ao cobiçar o amor sensual de lareira e restaurante, apagamos a delícia de comer direto nas panelas, sem pratos, sem medo do garçom.

Ao perseguir a aventura, negamos a permanência.

Preocupados em ser reconhecidos mais do que amar, esquecemos a verdade pessoal e despojada do nosso relacionamento. Recusamos o amor constante, o amor cúmplice.

Não valorizamos a passionalidade silenciosa, a passionalidade humilde, a passionalidade generosa, a passionalidade tímida, a passionalidade artesanal.

O passional pode ser discreto na aparência e prático na ternura.

O amor mais contundente é o que não precisa ser visto para existir. E continuará sendo feito apesar de não ser reparado.

O amor real é secreto. É conservar um pouco de amor platônico dentro do amor correspondido. É reservar as gavetas do armário mais acessíveis para as roupas dela, é deixar que sua mulher tome a última fatia da pizza que você mais gosta, é separar as roupas de noite para não acordá-la de manhã. E nunca falar que isso aconteceu. E não jogar na cara qualquer ação. E não se vangloriar das próprias delicadezas.

Buscá-la no trabalho é o equivalente a oferecer um par de brilhantes. Esperá-la com comida pronta é o equivalente a acolhê-la com um buquê de rosas vermelhas.

São demonstrações sutis, que não dá para contar para os outros, mas que contam muito na hora de acordar para enfrentar a vida.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 04/10/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16846