quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

CASAMENTO COM A CARTEIRA ASSINADA

Arte de Osvalter

Se o marido desfrutasse de carteira assinada, teria uma sobrevida. Não seria despejado de uma hora para outra.

Como técnico de futebol, receberia o indulto de mais uma partida. Ganharia um final de semana para se redimir das sucessivas derrotas. Sua esposa suportaria mais uma gafe, um erro, um tropeço antes de mandá-lo embora em definitivo.

Ela tomaria uma ducha fria, deixaria a despedida para depois e esqueceria o trauma. Contrabalançaria que seu companheiro assa um churrasco delicioso, é um bom pai e de vez em quando até acerta na cama. Concederia uma segunda chance, apesar da insatisfação da torcida. A trabalheira para arrumar um substituto surgiria como argumento decisivo para a manutenção da rotina.

Mas o homem não conta com repescagem. É logo posto na parede, constrangido em arrumar seus pertences e levar suas roupas em sacolas plásticas. Porque a mala, inclusive, é dela! (não encontraremos humilhação mais severa do que sair de casa com sacolas de supermercado — até os sacos de lixo são mais elegantes).

Na verdade, ambos — marido e mulher — precisariam de carteira assinada. Não me refiro a um 13º salário e pagamento de multa na demissão.

O modelo pode ser inspirado na empregada doméstica. O Vaticano somente não bancou a receita pelo conservadorismo de suas posições. Sem dúvida, é a saída messiânica. A indústria do divórcio iria falir.

A empregada tem o corpo fechado pela lei. Não é simples despedi-la. Após três meses ensinando tudo sobre a residência, começar do zero chega a ser um disparate. É perda de tempo. E tempo é dinheiro.

Minha empregada queimou uma camisa exclusiva de Ronaldo Fraga, comprada há duas semanas em seis prestações. Usei uma única vez e demorei a lavar de propósito (não podia pôr na máquina). Se eu fosse baleado, o estrago no tecido apareceria menor.

Ela não se desculpou, é óbvio, empregada não se desculpa, diz que não sabe de nada e continua suas tarefas. Juízo Final é a reunião de todas as empregadas do mundo, organizadas em escadinha num coro, para gritar: — Fui eu!

O diálogo é platônico. Ela se faz de louca e me puxa para sua loucura.

— Minha camisa está torrada?
— É mesmo, que horror, como aconteceu?
— Não sei, é você que passa a roupa.
— Eu não sei de nada, doutor.

Nem há como resolver o mistério da destruição, incrível o descuido, como que não percebeu a malha diferente, a estampa especial com histórias e bordados, a estranheza do vestuário? É o mesmo que confundir carnaval com procissão de Corpus Christi.

Acha que eu a demiti? Claro que não. Quando encontraria uma cozinheira capaz de repetir a lasanha de minha infância?

Ela também quebrou um vaso etrusco, a única lembrança que recebi do inventário da avó. Talvez tenha sido a cauda jurássica do aspirador. Mas entrei em casa e não vi o objeto na mesa. Estranhei, considerei uma mudança sutil na decoração. Procurei pelos quartos, varanda, banheiro e nenhum sinal do vaso de meio metro. Isso é a segunda característica marcante das empregadas: não avisam o que quebrou, somos condenados a descobrir.

Tentei puxar uma conversa, controlado, naquele tom familiar de rótulo de amaciante:

— O que aconteceu com o vaso?
— Foi o vento, patrão, a janela ficou aberta e ele caiu.
— Mas a janela sempre fica aberta, há dez anos fica aberta, e ele nunca caiu.
— Pois é, patrão, sempre tem a primeira vez.

Anuncio que vou enxotá-la para os filhos, menos para ela. Mastigo a raiva e não a demito novamente. Quando encontraria uma cozinheira capaz de preparar o bolo de fubá de minha infância?

A inversão de valores é drástica. Eu me arrependo depois de dois dias. Invento um passado para justificar minha covardia, ajusto a ocorrência, contemporizo que não foi tão grave assim; afinal, qualquer avó é capaz de ressuscitar, já contratar uma empregada exige muitas vidas. Torno-me o agressor e ela, a vítima. Puxo seu saco de pó e dou um aumento salarial para que esqueça os acessos de fúria. Um dom da empregada é criar a dúvida a partir do silêncio carente, da reticência envergonhada. Faz com que a gente sinta culpa por falar a verdade.

O casamento deveria assinar a carteira. Não dispensaríamos quem amamos com facilidade. Não existiria separação pelo jogo de futebol com amigos ou por não descer o lixo ou por não lavar a louça ou pelas distrações involuntárias. Seríamos perdoados em nome de nossas virtudes, ainda que poucas, ainda que raras. No momento da briga, não pensaríamos no pior de nossa companhia, mas pescaríamos um motivo qualquer, um motivo remoto, para a insistência. Mesmo que o estômago seja obrigado a cumprir o papel do coração.





Crônica publicada no site Vida Breve

25 comentários:

¨ disse...

eu utilizaria facilmente o estômago no lugar do coração! o negócio meu caro, é achar um par livre o suficiente para saber se enrolar, que esteja nesta sintonia, aquele para quem cujo amor está para além da compreensão racional. ah... como eu queria. quero! E você também... e mais um tanto de seres humanos perambulantes por esse planetinha azul... será que esse ritual de "ano novo" traz umas boas surpresas pra quem gosta de imaginar o melhor? só não quero os modelos... nem contratos. livres de mãos-dadas... a gente cria asas.

flores pros teus dias...

solfirmino disse...

E, tendo carteira assinada, aguardaria ansiosamente pelas férias. Quem sabe o casamento não seria renovado? Mas cada um teria que ir pra um lado.
Sabe que no meu primeiro casamento fui pra lua de mel sozinha? Ele não queria ver ruína na Grécia... O casamento não durou 1 ano...

Maitan disse...

Poxa!, mas o que seria de um relacionamento se tudo fosse flores? A ira, a raiva, o tremelique, a chatiçe, tudo iria cheirar a rosas porque o contrato diz que o amor deve ser uma eterna primavera... Não! É bom demais trepar depois de uma briga. Até parece que o sexo melhorou. É tudo verão, e só é verão porque existe o inverno...

De qualquer forma, leio-te sem cansar. Mas porque blogspot? O wordpress é tão mais legal. Bisóia meu brog: http://criator.wordpress.com

(eu sou aquele rapaz que se declarou, contando um sonho, para o Marcelino Freire, num sarau no sesc pinheiros. lembra?)

Beijabraços!

Mariana Botelho disse...

casamento é definitivamente uma coisa muito complicada. devia ser ao menos leve. carteira assinada me faz pensar em bater ponto, cumprir horário, metas, etc. Claro, cada um vê as coisas com os olhos que tem: casamento, pra mim, teria que ter, antes de tudo, confiança e cumplicidade. sem isso não é nada mais do que cumprir o contrato.

Maitan disse...

Não, pois é, agora que eu to vendo, o blogspot é legal também... Tudo bem, um blog aqui, outro ali, o que importa é o que nele tem.

Só outra pergunta, Carpinejar: Esse treco do twitter aí ao lado é do blogspot ou do twitter? Se do twitter, como eu pego um desse pra colar no meu blog?

Beijo, bom ano.

Priscila Zavagli disse...

Meu coração sempre ferra meu estômago..

Mona Gadelha disse...

Mando beijos saudosos daqui da terra alencarina, onde encontro minha "praia lírica", que em breve espero poder te enviar.
Mona Gadelha

Valdeline Barros. disse...

Fantástica essa analogia, Fabrício! Adorei.

Clara Marcília disse...

Caramba... isso é a cara de meu digníssimo amor.
-Qual sua profissão?
-Marido.
-Não. quero dizer, o que vc trabalha..
-Marido, eu já respondi.
-???
-é marido, vivo para amar e ser amado, para acordar de manhã e receber meu café numa bandeja, para chegar em casa a noite e receber um a massagem nos pés. Ah, tb vivo para ser cheirado, beijado e agarrado por minha preciosa. Legal né?

Luana Gabriela disse...

"Liberdade na vida é ter um amor pra se prender" - Frase linda pra estampar o novo blog.

Seja bem- vindo ao blogspot.


e Feliz 2010!

Bjos

AL-Chaer disse...

Grande Carpinejar, o Fabro!

Passei para dar boas-vindas ao blog de casa nova (com o coração e a empregada antigos, sempre renovando a leitura de quem passa por aqui).

AL-Braços
AL-Chaer

Sadi disse...

Aí, amigo! Muitas poesias e crônicas neste novo espaço teu.

Ainda estou em Pernambuco curtindo aa férias. hehhe

Um ótimo 2010 pra ti.

Abraços com saudade!!!

Sadi

* Vanessa * disse...

No início a gente insiste. Se apega àquilo que um dia vimos naquela pessoa, tentando encontrar algum resquício do que um dia foi o sentimento. Acreditamos piamente que vamos conseguir. Mas depois de muito tempo, jogamos a toalha, morremos na praia. Daí acontece de novo, e de novo, e outra vez mais. E então já não passamos tanto tempo insistindo.

Feliz 2010, e obrigada pela excelente leitura!

Almeri Souza disse...

Querido Fabro! Estou na praia...heheheheh...Muitos beijos, muitos abraços, muitas alegrias, e que esta tua veia sacana continue em 2010 e sempre!!!
Beijos
Almeri

Geraldo Filho disse...

Oi Fabrício, é incrível como consegue fazer até um saco de lixo virar poesia... Fantástico, já há algum tempo ganhou esse leitor, mas a cada nova leitura, mais encantado fico. Até um próximo encontro, meu caro.

sfelipejj disse...

Fabro, essa crônica foi providencial. Acordei tomando esporro porque me atrasei 20 minutos. Depois tomei esporro porque demorei no banho. Depois porque fui tomar café de toalha, isso para nao deixá-la esperando com a bandeja na mão e não tomar esporro também por causa disso. Aí, enquanto tomava café, ela explicou que não ajudo em nada, que sou criança, não um homem. Até aí eu seguiria sem taquicardia, mas ela repetiu tudo isso muitas, muitas vezes. Ela está no mês final de gestação, mas isso não diminuiu minha vontade de estrangulá-la. Em um certo momento, tive algumas ânsias de vômito. Deveria haver uma delegacia, uma vara especial para homens, pois passar o que passei está doendo até agora.

Ana E disse...

oi querido! adorei o blog novo. e fiquei com uma invejinha de ti por ter uma empregada silenciosa. a minha não para de falar um segundo, sempre na defensiva. e sou eu que cozinho pra ela, é mole? bjos e vou ligar pra vcs. feliz 2010 pro casal e sus hijos!

Daniella disse...

Essa veio a calhar... Há exatos 2 anos atrás, TUDO o que eu mais queria era o contrato.
O relacionamento acabou por causa de uma discussão com a família. O tempo passou, muita coisa mudou, mas ainda me renderia a esse contrato.

Você me faz chorar, mas pq me faz bem.

Saudade de vir aqui.

Vanessa disse...

Adorei o novo blog, espero ter minha história publicada...

Bjus Vanessa =D

* Feliz 2010!

Silvia Chueire disse...

Feliz 2010!

Abraços,

Silvia ( after a long while )

Projeto Palavra´s disse...

Querido Fabro...

Felicidades em 2010!
Que seu ano seja repleto de inspiração e transpiração.

Bjs concordienses para você.

Adélia Carvalho disse...

É, um casamento com carteira assinada implicaria em vários outros "direitos" e "deveres" que os cônjuges muitas vezes não dariam conta de suportar e aí, nessa caso, podiam até diminuir as demissões por justa causa, mas, certamente, haveria um crescimento considerável do número dos pedidos de demissões. E muitas vezes quem pede demissão sai sem direito a nada, nada... nem as sacolas plásticas dos supermecados...

"Galega" disse...

Quem inventou o casamento??

Não acredito que assinar carteira seria uma das melhores opções... o casamento em si já é frustrado ainda mais se for incluso "obrigações", tipo...

-Não lavou a cueca e eu vou descontar do seu pagamento.
-Foi ver o jogo e não "bateu o ponto" vai ser punido por isso.

Concordo com a Adélia quando ela diz que aumentariam os casos de pedidos de demissão...

O casamento em si já é um contrato com prazo de validade estipulado. O bom é amar, viver feliz e ser retribuído com o mesmo carinho e afeto que vc oferece à pessoa amada.

Mas pensando bem, a carteira facilitaria nos casos de traição:
-Justa causa, sem direito a nada inclusive sacolas plásticas dos supermercados.

obat herbal asam urat disse...

hello welcome blogger

Amauri Hirakawa disse...

Caro Fabrício (usei blog por não saber env/rec email,mas o q segue "É Tudo Verdade". ASSUNTO: A Aurora do Homem - de todas as cores),desvendei funcionamento do CÉREBRO HUMANO. Fv leia últm post: Ensaio Sobre o "Racismo" - e a origem das emoções humanas (blog cerebro selvagem).OBS: saiba pq o PRESENTE é ABSOLUTO,e como nosso cérebro cria a ilusão do TEMPO; Saiba como -ao evoluir a memória- nos tornamos humanos (Homo sentimentalis); Saiba como criamos o equivocado conceito de "raças diferentes".Obg