sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

CALMANTE NÃO É SOLUÇÃO PARA TODAS AS HORAS

Arte de Lucien Freud

Viver é incomodar. A mosca na sopa não deixa de ser um tempero. Menos ansiolítico, mais verdade na tristeza. Confira meu comentário na manhã de sexta (10/2), no programa Gaúcha Hoje, na Rádio Gaúcha, acompanhado de Daniel Scola e Antonio Carlos Macedo:

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SEGURAR UMA MULHER É IGUAL A BATER

Arte de Oskar Kokoschka

O homem é violento.

Se você acredita que não é perigoso, é ainda mais selvagem. Sua raiva está reprimida, prestes a desaguar por um motivo banal.

Não brigamos intencionalmente, brigamos por soberba, quando nos julgamos imunes ao pior e terminamos pegos desprevenidos pelo monstro que somos.

Todo homem requer consciência de sua agressividade para nunca desrespeitar uma mulher.

Não deve confiar nas aparências, alegar que é educado, que é sensível, que é romântico – este é o caminho mais rápido à fatalidade.

Todo homem, apesar da feição civilizada, é um pugilista manso, um lutador amarrado, um arruaceiro contido.

A violência doméstica não é exclusividade dos outros, não é possessão do demônio.

Você é violento, não se sinta mal, não está sozinho nisso, eu sou violento, talvez mais violento do que um cão com raiva, do que um tigre magro, do que um leão levemente envelhecido.

É normal a coexistência da maldade e da bondade, do claro e do escuro, do divino e do bestial num só gesto.

Poeta, engenheiro, arquiteto, violinista, florista, não há profissão que nos salve do grito, dos punhos fechados e da ânsia de eliminar a resistência na base da força.

A questão é não permitir a ebulição da ira. Fugir das situações de descontrole, do deboche e da penúria do humor.

Evite se expor às ofensas por mais de duas horas – há uma cota de desaforo suportável pelo sangue.

O homem é Etna, é Fuji, é Vesúvio, um vulcão adormecido que pede vigilância perpétua.

Não batemos porque somos provocados. Batemos porque desejamos acabar com a crise de qualquer jeito. Batemos porque não nos conhecemos, e sempre deduzimos que uma agressão na adolescência representou uma exceção, que uma vez trocamos sopapos no trânsito para nos defender. Deliramos que o ato de jogar a cadeira na parede apenas traduziu um momento.

Nenhuma justificativa pode disfarçar o problema de fundo: somos naturalmente violentos. Ouça-me enquanto é cedo e não ameaça sua companhia.

Nenhuma explicação abafa o ódio. Reconstituição somente existe depois da morte, o inferno e o Presídio de Charqueadas estão lotados de desculpas.

Tatue a Maria da Penha nas pálpebras, tome as providências para não se achar imutável e maior do que a realidade.

Esmurrar a porta já é invasão. Arranhar a mulher já é soco. Empurrar a mulher já é espancamento. Não invente atenuantes.

E, por favor, não segure sua mulher, mesmo que seja para acalmá-la, mesmo que seja para contê-la, mesmo que seja para abraçá-la e dizer que a ama. Segurar num momento de tensão é igual a bater. Agredir sempre foi simples demais. A ternura que é trabalhosa, a ternura que não é de graça, a ternura que leva tempo.

Cuide de si para cuidar de sua esposa.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 7/02/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 16972

HÁ GENTE QUE NÃO ESPERA O PIOR, PLANEJA O PIOR

Arte de R. B. Kitaj

Os maiores desencontros acontecem pela ansiedade, não porque o casal não queria se encontrar, mas justo porque desejava se encontrar tanto.
Na minha primeira saída com a Cínthya, minha mulher, eu marquei no Cine Guion, às 19h. Cheguei 18h30. Mas fiquei tão ansioso que apareci cedo demais e fui dar uma volta para não entregar que estava a fim dela. Retornei 19h15. Mas a Cínthya surgiu 19h pontualmente, acreditou que não iria e foi dar uma volta. E não nos achamos naquela noite.
Ambos pensaram que um deu o fora no outro. E poderíamos ter ferrado a relação se não houvesse insistência.
A ansiedade faz com a gente se sinta desamado. Abandonado. É uma ilusão negativa.
A ansiedade é o início da paranóia. É um Juízo Final.
A ansiedade torce pelo pior para não ter que sofrer depois.
É o mesmo desencontro com o telefone. Quando a ligação cai, temos que esperar que aquele que ligou ligue de novo. Mas o que ocorre?
Eu ligo, ela liga, os dois se ligam ao mesmo tempo. E os dois telefones ficam ocupados. E nenhum dos dois consegue restabelecer a linha.
E aí entra o medo: ela não quer mais me atender? Eu falei algo de errado? Ela desligou o telefone na minha cara?
Não conheço ansiedade otimista, que pense coisas boas, que não antecipe decepções. Ansiedade é o medo de ser rejeitado. Ansiedade só antecipa tragédias no amor.
A ansiedade não ajuda a comunicação. Respire fundo e aguarde no lugar que você marcou na hora que você marcou.

Ouça meu comentário na Rádio Gaúcha na manhã de terça (7/2), programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

TRÁFICO VERBAL

Arte de Yves Tanguy

Quais as expressões mais irritantes que escutamos dos outros? E que podem traficar uma ofensa.

1) "Você está melhor do que antes"
Não significa que gostou. É uma frase malandra. O que eu posso entender? Antes a pessoa estava horrível, agora está apenas ruim.

2) "Você é meu braço direito"
Tomaria cuidado com esse falso elogio. Ainda mais se quem diz é canhoto.

3) "Veja bem"
É arrogante, uma aula forçada. Veja bem é o equivalente a dizer: Seu idiota, você nunca aprende nada.

4) "Eu iria fazer uma surpresa"
E por que não fez? É um atestado de preguiça, de falta de vontade, não quis ter trabalho e manter o suspense.

5) "Ok"
Ok é uma palavra fria no amor, que traduz desapontamento. Funciona apenas no trabalho. Fora dele, é algo como "Cala a boca, não desejo mais falar do assunto".

6) "Você parece mais jovem"
Sim, é uma forma de avisar que a pessoa já é velha, por mais que se esconda na aparência.

7) "Meio-irmão"
Existe meio-pai, meia-mãe? Irmão é ou não é. Triste reduzir pela metade aquele que vive conosco.

8) "Me dá um beijo"
Beijo é interpretação de um momento. Não pode ser feito por liminar, ordem, licença. Beijo não se dá, se rouba. O melhor beijo é o roubado. Tanto que o casamento é a condenação perpétua pelos beijos roubados.

Acompanhe meu comentário na Rádio Gaúcha de sexta (3/2), no Programa Gaúcha Hoje:

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A AMÉRICA É UMA GANGORRA


O Grêmio parou de ganhar Libertadores, o colorado passou a devorar títulos internacionais.

Rolo Compressor tem a resposta para mudança da dupla Gre-Nal.

"Desde Hugo de Léon, barbudo inacreditável, zagueiro no melhor estilo anjo exterminador, o Grêmio fracassou em integrar argentinos e uruguaios em seu time.
Há quase trinta anos, tenta transfusão e não obtém tipo sanguíneo compatível. Experimentou Loco Abreu (URU), Saja (ARG), Schiavi (ARG), Herrera (URU), Máxi Lopes (ARG), Escudero (ARG), Miralles (ARG), nenhum desponta, mostra personalidade, obtém desempenho persuassivo.
A lacuna explica a ausência de títulos continentais pelo tricolor."

Faca na bota!, leia aqui.

PINHAL


Sou patrono da XIV Feira do Livro do Balneário Pinhal, que acontece de 2 a 5 de fevereiro, no Parque Cidadão (Em frente a Prefeitura). Na quinta (2/2) , às 21h, faço a palestra "Amor sem igual, todo abraço é uma escrita". Entrada franca.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

EU JÁ SABIA

Arte de Wilfredo Lam

Teremos sempre gente nos julgando.

Os vizinhos, os parentes, os colegas de trabalho, da academia e do inglês, quem nos tirou no amigo-secreto, quem nos viu no cinema.

Chamados para opinar, vão demonstrar uma intimidade surpreendente.

Não é paranoia, todos só estão esperando que eu faça algo realmente grande para confessar que me conheciam.

E pode ser agradável e pode ser nocivo, não importa, as maçãs podres partilham a cesta com as frutas sadias, o joio e o trigo são irmãos gêmeos, a maldade e a bondade são mais parecidas entre si do que o amor e a amizade.

Diante de uma atitude boa, dirão que já sabiam que eu era sinônimo de retidão.

Diante de um fato ruim, também dirão que já sabiam que eu não prestava.

O sonho da maioria é desfraldar a faixa: “Eu já sabia, Galvão”.

O fofoqueiro deseja ser profeta, pretende dar a notícia em primeira mão seja lá qual for e como for.

Os conhecidos guardam meus antecedentes negativos e positivos numa pastinha na área de trabalho do Windows, prontos para a impressão.

Ao me tornar santo, não será complicado encontrar testemunhas dos meus milagres. Citarão coisas inacreditáveis. Quando pulei o muro de três metros da Escola Imperatriz Leopoldina aos 11 anos e fui suspenso, avisarão que nada me aconteceu porque meu corpo é protegido pelo Nosso Senhor Jesus e que a direção me castigava injustamente e não compreendia meu dom.

Ao me tornar louco, comentarão que o mesmo pulo já dava provas da possessão do demônio, que meu apelido Chuck indicava a liderança negativa na turma, que merecia expulsão da diretora.

De um lado da moeda, a santidade. De outro, a ausência de sanidade. Em ambos, a mesma efígie.

Somos influenciáveis. Há a ânsia em definir o próximo para nos poupar da encrenca de assumir as próprias ambiguidades.

Em caso de me converter num herói salvando criança de atropelamento, a opinião pública tecerá elogios de minha conduta familiar. Lembrará do amor incondicional aos filhos.

Na hipótese de atropelar alguém, o público me enxergará como uma máquina mortífera desde a infância. Desde quando andava de triciclo e amassava formigas. Puxarão os pontos da carteira de habilitação, e o zelador do meu prédio, Carlos, descreverá minhas dificuldades para tirar o carro de ré.

Teremos sempre gente nos condenando. Viver é uma execução sumária.

Certo que, um dia, termino no paredão.

Pelo menos, vou pintando os muros de meu fim. Verdes de esperança.

Mas não faltará amigo supondo que isso é ironia.



 



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 31/1/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 16964

RETRATO FALADO DO MENTIROSO


Arte de Jim Dine

Como sabemos que o homem está mentindo?

- O mentiroso é detalhista, responde aquilo que não foi perguntado, está tentando se convencer da história, perde-se em pormenores e curvas desnecessárias.

- O mentiroso fica romântico fora de hora, generoso de repente.

- O mentiroso baixa os olhos de vergonha e fala para os lados.

- O mentiroso somente desmente uma história quando há uma mentira maior para esconder.

- O mentiroso pede desculpa fácil (não se importa mesmo com aquilo que diz).

- O mentiroso ri de nervoso, ri antes da piada.

- O mentiroso é ambicioso: deseja uma mentira maior do que a anterior. Ele tropeça em seu próprio sucesso.

- O mentiroso nunca é evasivo, sempre tem certezas.

- O mentiroso se julga melhor do que os outros. Pensa que sairá impune, que ninguém é capaz de descobrir suas artimanhas.

- O mentiroso inventa tudo (que é um erro, o certo é contar algo falso a partir de algo verdadeiro).

- O mentiroso, tão preocupado consigo, não conversa. É um monólogo.

- O mentiroso sempre está se favorecendo com a trama, ou é a vítima ou é o azarado. Não há mentira que prejudique seu autor.

- O mentiroso acredita que escutar é acreditar e vai falando sem questionar nada.

- O mentiroso põe a culpa pelos atrasos nos amigos. Mas esquece de avisar os amigos.

E a mulher? O que ela faz?

Quando a mulher mente, conta a verdade. Como se fosse uma brincadeira.

Escute meu comentário na Rádio Gaúcha de terça (31/1), no Programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

SUPERANDO OBSTÁCULOS

Com a ajuda dos pais, crianças podem reverter distúrbios de desenvolvimento ou aprendizagem
Lívia Meimes
livia.meimes@zerohora.com.br


Em sua coluna de 17 de janeiro em Zero Hora, o escritor Fabrício Carpinejar conta como enfrentou sérias rejeições quando pequeno, que não conseguia ler e escrever, que a professora recomendou que desistissem de alfabetizá-lo e que o colocassem numa escola especial. O laudo de um neurologista recomendava tratamento, remédios e isolamento, já que ele não acompanharia colegas da faixa etária.

Apesar dos diagnósticos, Carpinejar relata como, com o amor e a insistência de sua mãe, venceu os obstáculos e se tornou um escritor de sucesso.


A coluna Retardado aos oito anos emocionou muitos pais e avós no Estado. Carpinejar recebeu cerca de cem mensagens de leitores com felicitações pelo texto, às vezes acompanhadas de depoimentos de gente que enfrentou ou está enfrentando as mesmas dificuldades (leia alguns relatos ilustrando a matéria).

Qualquer criança em idade escolar está sujeita a não processar as informações que recebe da maneira esperada, podendo apresentar problemas de leitura, escrita e pronúncia das palavras, ou ao prestar atenção em sala de aula. Isso não significa, porém, que ela precise conviver negativamente com o rótulo de portadora de distúrbios de desenvolvimento ou de aprendizagem.

Especialistas na área da educação atualizados com os parâmetros teóricos mais modernos concordam, contudo, que receber uma informação como essa de forma prematura, e, muitas vezes, de maneira equivocada, pode causar estragos para o resto da vida. Novos paradigmas apontam para a ideia de que ninguém é menos inteligente por tirar nota baixa em matemática, ou por não conseguir decorar a tabela periódica: o próprio conceito de inteligência está em mutação. Por isso, diante de uma situação em que um filho se encontra vulnerável, em vez de entrarem em pânico, perguntando-se o que fizeram de errado ou se ele é diferente dos outros, os pais devem entender que a solução pode passar por eles mesmos.


– A maneira como os pais vão lidar com um diagnóstico desse tipo está ligada à forma como eles representam seus filhos dentro de si, tornando-se decisivo na forma como a criança vai superar os problemas – define o psiquiatra Celso Gutfreind, ressaltando que, quando um pai acredita no filho acima de tudo e tem uma imagem positiva dele, transmite confiança, diminuindo o poder do diagnóstico, da “etiqueta” que colocaram na criança.

Um exemplo é a passagem da pré-escola para a primeira série. Nessa fase, algumas crianças estão mais preparadas do que outras para aprender a ler e a escrever. Ao se constatar dificuldades no aprendizado, deve-se prestar atenção para as mais simples alterações emocionais (como ansiedade e medo). A personalidade do aluno e situações mais complexas, como estar enfrentando problemas em casa – pais se separando, irmão nascendo ou bullying na escola – também devem ser considerados.


– Só porque uma pessoa não se encaixa em um padrão pré-determinado ou alguém é incapaz de compreendê-la não quer dizer que ela seja totalmente incapaz – justifica a psicóloga Lisiane Machado de Oliveira Menegotto, doutora em Psicologia do Desenvolvimento e coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Feevale.

DIAGNÓSTICOS NÃO SÃO SENTENÇAS

Décadas atrás, diagnósticos dados pelo setor pedagógico do colégio tornavam-se sentenças definitivas sobre a capacidade cognitiva do aluno, o que marcava para sempre a vida da criança.

– Isso ainda ocorre hoje, mas há um esforço cada vez maior em cuidar para não se rotular prematuramente uma criança – aponta a psicóloga Lisiane Machado de Oliveira Menegotto.

A psicóloga Andrea Rapoport, doutora em Psicologia do Desenvolvimento, explica que o caminho da educação é apostar em um olhar mais apurado sobre o que cada pessoa faz de melhor. Ela cita como exemplo a Teoria das Inteligências Múltiplas, criada por de Howard Gardner (1985), com uma visão de inteligência que aprecia os processos mentais e o potencial humano a partir do desempenho das pessoas em diferentes campos do saber. A teoria se opõe aos tradicionais testes de QI, que avaliam todos pelos mesmos parâmetros.

– Inteligência é a capacidade que nós temos de solucionar problemas, de criarmos dentro da sociedade. Se o sujeito não é bom em matemática, ele pode ser incrivelmente criativo para contar histórias, por exemplo – afirma Andrea.

COMO AGIR

- Para que escola e família não confundam uma dificuldade de aprendizagem passageira com um distúrbio mais sério de desenvolvimento, observe as atitudes da criança. Muitas vezes, o problema é emocional.

- Consulte profissionais com especialização em clínica infantil, para realizar uma avaliação e tratar da criança. O trabalho deve ser em conjunto com a escola e a família.

- Professores e pais devem cuidar ao máximo para não passar a imagem de que a criança é incapaz, inferior aos outros. Deve-se explicar que, sim, ela tem uma dificuldade, e trocar experiência com ela, ver o que que ela acha disso, mostrar que ela tem outras qualidades e que não é definida pela nota do colégio.

- Aposte no seu filho e confie nele. Afeto e otimismo em relação ao seu futuro farão com que ele ganhe confiança para superar os obstáculos.

Publicado no caderno Meu Filho
Jornal Zero Hora
30/01/2012
Edição N° 16963, Página Central

sábado, 28 de janeiro de 2012

CAINDO NA REAL

A cineasta Liliana Sulzbach registrou o percurso de meninos que tentam a sorte no futebol. O documentário foi exibido pela RBSTV no sábado (28/1/2012), às 12h30. Apareço como um dos entrevistados, defendendo o valor da teimosia. Confira outros episódios da série.