domingo, 13 de dezembro de 2015

ONDE ESTÃO OS OVOS?



Nunca vi nenhum homem no supermercado demonstrar preocupação com o destino da caixinha de ovos nas sacolas. Nunca vi nenhum homem controlar o seu lugar no carrinho. Nunca vi nenhum homem orientando o empacotador para não colocar nada pesado em cima da caixinha de ovos. Segue junto das garrafas de litro de cerveja e não se importa, segue debaixo da melancia e não sofre com o erro. Nunca vi nenhum homem monitorando a caixinha dos ovos na hora de pôr as compras no bagageiro. Nunca vi nenhum homem levando consigo a sacola da caixinha de ovos, tal bebê de colo. O homem despreza a integridade da dúzia, é apenas mais um item da lista. Larga para a mão de Deus ou culpa simplesmente o azar.

Já a mulher tem as fôrmas de papelão como o seu primeiro e o seu último pensamento no mercado. 
Dispara um alarme biológico, e não relaxa até guardar na geladeira.

Para o homem, são simplesmente ovos. Para a mulher, já são pintinhos indefesos. Agem como donas da granja, chocadeiras emprestadas.

A minha esposa não cansa de reiterar o cuidado, assim como a sua mãe, assim como a minha mãe, assim como a minha irmã, assim como a minha avó. Realizam uma hierarquia apurada do mais leve ao mais forte na distribuição dos produtos.

- Onde estão os ovos?, é a pergunta constante delas no momento do caixa.

O que denuncia a predisposição maternal feminina. A maternidade, ainda que não se revele em filhos, está no sangue. Está consolidada na visão de mundo. Está espalhada nos seus costumes. Está dentro da generosidade do seu olhar. Está no formato de cesto de seus braços.

A mulher desenvolve uma doçura inadiável diante de cenas de orfandade. Seu radar é incansável: seja com os ovos quebradiços, seja com uma criança sofrendo, seja com um cão maltratado, seja com uma injustiça a um idoso.

Jamais é indiferente ao pouco e ao fraco. Ela se fixa na fragilidade para proteger, acolhe o que é vulnerável, não abandona o que pode se quebrar, permanece atenta e firme dando colo para tudo o que carece de atenção.

A caixinha de ovos é banal para o homem - tanto faz. Para a mulher, é a prova de que não escolhe nada em vão nesta vida.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.59
Porto Alegre (RS),  13/12/2015 Edição N°18384

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

NINGUÉM MAIS FALA DE AMOR



Ninguém mais fala de um bicho de estimação fofo na praça, de um bebê nascendo na vizinhança, de um exibicionista nu na janela. Ninguém mais fala de esperança e da possibilidade de férias. Ninguém mais fala de amizade. Ninguém mais fala do fim do ano letivo dos alunos. Ninguém. O assunto é um só: o medo. Já morei na alegria do Petrópolis, moro atualmente no medo. A felicidade é alienação em minha rua.

Fui comprar couve na fruteira e a dona estava constrangida no balcão, perguntei qual o motivo da vergonha, Ju disse que seu irmão de 25 anos foi assassinado ao buscar sua namorada de carro e tentar fugir diante da ação dos assaltantes.

Suspirei. Não consegui resmungar nada. Engoli o meu bom-dia de volta. O riso emagreceu de doente.

Precisava passar na ferragem para trocar lâmpadas do corredor. As lâmpadas do corredor sempre queimam primeiro, estava pensando nesta coincidência, quando vi um tumulto entre os vendedores. A loja acabara de ser roubada. Dois homens armados renderem os clientes e os funcionários, esvaziaram o caixa e recolheram os pertences das pessoas. Engoli o meu boa-tarde de volta. Já me sentia espectador de meu velório. Começava a raciocinar que – por um triz – não estava lá dentro sendo dilapidado. A violência explode tão perto, que gasto os meus pensamentos me colocando como vítima das situações. Não há tempo para sorrir. É ranger os dentes e seguir em frente.

Meu celular toca e o amigo médico Bruno avisa que levaram seu celular e sua carteira, pede que eu passe números de nossos conhecidos em comum para repor a agenda, apenas repito “Que horror” e não lamento, esqueço de lamentar, procuro apressar o passo, não posso ficar distraído e fazer poemas caminhando, não existe trégua para devaneios, é guerra civil em meu bairro.

Encontro um outro amigo, o Marcelo, no supermercado e ele nem me cumprimenta, vem com a nova saudação porto-alegrense: “Não sabe o que aconteceu?”.

– O que aconteceu, Marcelo?

– Um amigo aproveitou que estava passeando com o cachorro e deu um pulo no escritório de sua esposa. Ladrões pegaram o casal, e ele viu sua mulher ser baleada em sua frente por represália, pois eles não carregavam dinheiro ou coisa alguma no bolso.

Você morre se mostra resistência. Você morre se não mostra resistência. Não há mais conduta de defesa.

Os carros marrons dos brigadianos correm de um lado para outro das nossas ruas como baratas tontas – são vários os chamados e a gasolina anda cara. Pulam de endereço a endereço, compulsivamente.

Meu filho entra em casa e conta que uma mãe de dois filhos recebeu 11 tiros em um ônibus em plena Protásio Alves – deve ser queima de arquivo. Engoli o meu boa-noite de volta.

Saudade das fofocas e dos vizinhos enxeridos, hoje somos notícias policiais.







Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  08/12/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18379

FALHA IMPERDOÁVEL

Arte de Clovis Trouille

Para mudar um rosto, existe algo melhor e mais barato do que a cirurgia plástica: só tirar as sobrancelhas.

As sobrancelhas são decorativas, mas fazem toda a diferença na construção da personalidade. Elas resumem a nossa expressão.

É pela sobrancelha franzida que definimos que alguém está brabo. É pela sobrancelha levantada que descobrimos que alguém está assustado. É pela sobrancelha caídas que antecipamos a tristeza do outro.

Por isso uma mulher fica furiosa quando erra a sobrancelha, muito mais do que quando erra a cor ou o corte do cabelo. No momento em que uma sobrancelha acaba falhada, não há reparação. O acidente custa caro. Dependendo da falha, pode demorar até um ano para crescer. Imagine aguentar a sobrancelha banguela por um ano. Não duvide das consequências: ela é capaz de sair do casamento, da cidade, do país.

Ouça o comentário na manhã desta terça-feira (8/12), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

AS CINCO FASES DO SEXO NA RELAÇÃO

Arte de Unica Zürn

A primeira: é a melhor. Quando os dois se olham e já tem vontade. Não é necessário dizer nada. É um abraço, é um beijo e eles já estão entrelaçados, presos, grudados. Período comum aos apaixonados. Média de quatro durante a semana. Dia sim, dia não.

A segunda: é quando o sexo depende de pretexto. Torna-se espaçado, e você começa a marcar horário ou preparar uma janta especial ou convidar para fazer um encontro romântico com segundas intenções. Média de uma por semana.

A terceira: é quando você já pergunta se a outra pessoa quer transar, pois não vê nenhum movimento, nenhum indício, nenhuma aproximação espontânea. É o momento de ouvir desculpas como "Excesso de trabalho", "Enxaqueca" e "Estresse" (os três ‘E’ do ‘sai de perto’). Média de uma por mês.

A quarta: é quando você não mais pergunta e passa a cobrar a ausência de sexo. Conta os dias de abstinência, troca acusações, reclama do distanciamento, já se sente morando com um amigo. Média de uma a cada três meses.

A quinta: é quando você não mais pergunta, muito menos cobra. Você esquece, você desiste de tentar, você se conforma de que a relação não tem mais conserto. Espera a ordem de despejo. É o fim pelo cansaço. Média? Não tem média nenhuma.

Ouça meu comentário na Itapema FM RS, na tarde dessa segunda-feira (7/12), às 13h, apresentação de Denise Cruz:


domingo, 6 de dezembro de 2015

MINHA AMANTE


Preciso confessar, amor: tenho uma amante. Você deve ter percebido. Não há como esconder mais. Antes você reclamava, agora cansou diante das excessivas evidências irrefutáveis. O escândalo de seu silêncio me fez admitir. O silêncio é o último estágio da briga. Entendo que nunca me tratará da mesma forma, que estraguei a lealdade, sofrerei os efeitos colaterais da verdade. Sim, a verdade cura mas somente depois de muita dor e medicação.

Os amigos são contrários à minha franqueza, adeptos de mentir até o fim, mesmo depois do fim. Mas não consigo, pois lhe devo lealdade, eu lhe amo mais do que me amo.

Eu tenho uma amante. Há tempo. Desde antes de nossa relação. É uma amante vitalícia, uma amante estável, um caso antigo.

Você já identificou o dia. É toda a noite de segunda-feira. Sumo por duas horas, não atendo o celular por nada desse mundo. Quando retorno, estou podre de cansado, suor seco, pele lívida. Não demonstro vontade para mais nada, nem para o nosso sexo. Mal converso, a culpa não me ajuda. Vou direto ao banho, ponho bermuda e camiseta, aqueço o que acho na geladeira e deito cedo, sem direito à repescagem das histórias de nosso trabalho. Eu me encontro morto após a escapada, a amante me exige demais. Ela é gulosa, possessiva, autoritária. Desejava que eu me separasse, não aceitei, não me vejo longe de você. Desejava que ampliasse os dias da semana, recusei também, seria ostensivo e chamaria atenção.

Eu tenho uma amante, duro desabafar, fui fraco por errar e por revelar, não aguentei sustentar a minha hipocrisia.

Está explicado por que volto cheio de arranhões, hematomas, machucados. Fico com receio de permanecer nu em sua frente, venho cobrindo as pernas e o dorso quando me visto no quarto. Tenta se aproximar, e me afasto. Não há como justificar a herança da violência em minha pele. Disfarço como posso, com pomadas e cremes. Nunca cicatriza ou desaparece rapidamente, gerando angústia da delação. Pedi que ela não me batesse mais, só que não muda sua natureza violenta - me agarra e me puxa e me derruba no chão.

Tenho uma amante. No momento em que sou chamado por ela, saio de perto para atender o celular. São várias ligações pela manhã, antes do nosso encontro. Converso baixinho, envergonhado com a confusão sentimental. Apago o sinal sonoro do WhatsApp e as mensagens da tela. Sofro tentando sufocar os sinais, despistando e me mantendo alegre e solícito para não entregar o nervosismo.

Compreendo que é uma falta de tato assumir que tenho uma amante publicamente. Dirá que é uma humilhação. Porém, não existe jeito fácil. Que, pelo menos, eu sirva de exemplo para outros homens com vida dupla, que tomem a coragem de expor seus segredos.

Tenho uma amante, amor, desculpa. Certamente perguntará quem é. Aposto que conhece e sabe o nome da destruidora de nosso lar: é e sempre foi o futebol.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.44
Porto Alegre (RS),  06/12/2015 Edição N°18377

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

NÃO EXISTE CONVERSA DE ADULTO

Arte de Pavel Tchelitchew

Não deixe de falar o que sente porque o seu filho é uma criança. Não deixe de tocar num assunto que incomoda porque o seu filho é uma criança. Não deixe de expressar as suas emoções e explicar principalmente as suas emoções.

Se está chorando, conte o motivo do choro. Não disfarce, não avise que não é nada. Não minta para a criança.  Mentir não é proteger, é confundir. O silêncio preocupa mais do que a voz.

Se está feliz, diga o motivo de sua felicidade. Faça com que ela participe de seus momentos bons e ruins.

Se está com raiva, traduza a sua irritação em palavras. Não mande calar a boca e sair de perto.

Criança é curiosa e deve entender o que está acontecendo para continuar entendendo a si mesma. Criança odeia ser enganada.

Tratamos os filhos pequenos como incapazes. Não existe conversa de adulto, o que existe é conversa sincera para qualquer idade.

Não espere a criança crescer. Pode ser tarde demais.

Criança não é idiota, criança não é boba, criança tem antenas nos cílios, criança tem gravador nos ouvidos, criança guarda tudo o que enxerga.

Criança entende melhor do que um adulto. Adulto costuma só pensar em si, criança pensa em como lhe ajudar.

Criança é o melhor confidente que existe. É um confidente puro, sem segundas intenções. Jamais erra. Ela sabe o que fazer. Vai abraçar quando precisa de um abraço, vai beijar seu rosto para acabar com as lágrimas.

Ouça meu comentário na manhã desta sexta-feira (04/12), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A CESTINHA



Minha irmã não queria usar a bicicleta. Havia uma única bicicleta para as quatro crianças da residência. Ela não ousava nem pedalar para ter o gostinho. Ficava furiosa quando eu insistia.

Os pais explicavam que seria muito caro uma bicicleta para cada irmão. Mas ela não se dava por vencida. Passou a infância guerreando pela sua, pedindo nos aniversários e Natais, escrevendo cartas para o Coelho e o Papai Noel. A conclusão dos pais é de que ela estava sendo egoísta e não pretendia dividir os brinquedos, que protagonizava um ataque de guria mimada – a menina da família! –, que seguia modinha entre as amigas e buscava se exibir com um produto de marca.

Não tinha nada a ver. Erramos o motivo da teimosia. Não significava nenhum motivo vinculado à vaidade. Ela desejava a cestinha. Uma bicicleta com cestinha. A bicicleta mudaria de sexo não com a cor rosa, mas com a cestinha. A bicicleta tornava-se feminina com a cestinha.

Na época, eu somente a achava trouxa, boba, pois bicicleta era tudo igual, precisava contar somente com as correias firmes que não caíssem com as descidas frenéticas das ladeiras.

Hoje, encontro justiça psicológica em sua luta. A bicicleta com a cestinha é a própria mulher. Faz completo sentido. A cestinha é a primeira bolsa, onde você sai para passear com os produtos de sua beleza. A cestinha é o primeiro ventre, em que você leva a boneca junto ao corpo e explica os caminhos e traduz o que está pensando e observando. A cestinha é a primeira responsabilidade, trazer de volta em segurança o que carregou. A cestinha é a primeira mochila de viagem, confirmação da vocação de nunca sair de casa sem estar preparada para ir longe ou se demorar. A cestinha é a formação dos segredos e mistérios. A cestinha é o namoro da gaveta do quarto com a rua. A cestinha é um banco de carona para a imaginação, para a sensibilidade, para o invisível. Diferente do banco de carona que leva alguém, na cestinha você leva os seus sonhos e as suas fantasias.

A cestinha se situa à frente do guidão como quem espera colher o melhor destino entre todas as direções. Quando Carla recebeu a bicicleta idealizada, aos 12 anos, depois de cinco anos insistindo, ela gritava sem parar, disparando a buzina da garganta. Foi uma felicidade louca. Não recordo bem o que mais brilhava: os seus dentes em riso largo ou os aros das rodas novas.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  01/12/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18372

ESCRITÓRIO

Arte de Piet Ouborg

O que você acharia de um escritório com o chão forrado de jornal?

O que você acharia de um escritório sem ar-condicionado, com as janelas abertas, num calorão de dezembro?

O que você acharia de um escritório em que o funcionário presta serviço de bermuda e camisa aberta?

Isso quando não está de chinelos.

O que você acharia de um escritório onde o responsável divide a atenção do cliente com a televisão ligada?

O que você acharia de um escritório em que o encarregado não para de mexer no celular?

O que você acharia de um escritório no qual não consegue conversar diante da música alta?

O que você acharia de um escritório em que o dono é grosseiro, impaciente e sempre xinga e reclama dos outros?

O que você acharia de um escritório com as poltronas gastas, papéis espalhados, cheiro de cigarro?

Recomendaria um escritório assim para os amigos e familiares?

Pois é o que devemos lembrar quando embarcamos em um táxi. Todo táxi é um escritório, todo taxista é o gerente de um escritório. Quando entramos no carro, estamos conhecendo o ambiente de trabalho daquele motorista. O valor da corrida prevê também as condições do veículo e o tratamento profissional.

Ouça meu comentário na manhã desta terça-feira (01/12), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

ENQUANTO OS FILHOS NÃO TEM VIDA PRÓPRIA

Arte de Roberto Matta

Aproveite a infância de seus filhos. Aproveite enquanto são pequenos. Não deixe o trabalho ou os amores tomaram todo o seu tempo. Brinque muito com eles porque não será brincadeira depois. Não adie o final de semana que é reservado para eles. Não falte ao almoço ou a janta que combinou. Não cancele o cinema ou a praça ou a piscina confiando que poderá recuperar mais adiante. Não faça corpo mole. Não dê desculpas. 

Quando eles ficarem adolescentes, você não encontrará a mesma facilidade. Não existirá mais um mês consecutivo de praia - pois não vão querer viajar em função de um passeio com os amigos. Não existirá aquele sábado ou domingo que planejou sair - pois terão uma festa imperdível da escola. Não servirá para nada aquela folga que tirou para curti-los - pois já começaram a namorar e passarão a tarde inteira na casa dos sogros. Você receberá não e não e não já que eles estarão ocupados com as próprias turmas. 

Antes estar com eles era automático, contínuo, não podiam escolher, agora não, agora precisará se contentar com as migalhas dos compromissos de suas crianças crescidas. 

Se foi um pai presente, a adolescência dos filhos será saudade. Se foi um pai ausente, a adolescência dos filhos será ressentimento. 

Ouça meu comentário na Itapema FM RS, na tarde dessa segunda-feira (30/11), às 13h, apresentação de Denise Cruz:

domingo, 29 de novembro de 2015

FIADOR DA DESGRAÇA



O que eu já vi de pessoas que não amam mais acabarem se envolvendo em projetos duradouros como casamento e filhos. Ensaiam o discurso do fim e alteram bruscamente a rota quando confrontados.

Em vez de recuar, apressam os passos. Em vez de soltar as amarras de uma relação problemática, apertam os laços. Em vez de sair, entram ainda mais dentro de casa. Em vez de dizer a verdade, prestam declarações eternas. Em vez de quitar os juros emocionais, realizam mais dívidas.

Estão a um triz da separação e compram anéis de noivado ou marcam igreja ou decidem ter uma criança.

Confundem a porta de saída com a de entrada, e se lançam com unhas e dentes para uma última e redentora chance, que não mudará em nada o desgaste de um longo isolamento a dois.

A boca desmente o desejo e complica o desenlace. A palavra expressa exatamente o inverso das verdadeiras intenções. Se era difícil largar, será impossível a partir de agora.

Sempre me chamou atenção o quanto existem casais caminhando ao contrário de suas decisões. Talvez por culpa. Talvez pela vergonha da solidão. Talvez pela ilusão de se ver mais responsável pela felicidade do outro do que pela própria felicidade. Talvez por comodismo. Talvez para evitar a decepção de quebrar uma promessa. Talvez pela necessidade de ser melhor do que realmente é. Talvez por não admitir que fracassou. Talvez por faltar forças para recomeçar. Talvez por entender o tempo como investimento e achar que se dedicou excessivamente para jogar tudo fora. Talvez por supor que o ruim é, ao menos, conhecido.

Qualquer que seja o motivo, o melindre de decepcionar e desagradar impulsiona os maiores erros. O receio é de quê? Que no fundo ela ou ele fale mal de você? Mas não tem como controlar os pensamentos alheios nem dentro da convivência, muito menos fora.

Trata-se de uma atitude fóbica, parecida com a vertigem: é tanto o medo de cair que a vontade é cair mesmo para terminar logo com o medo.

Você percebe o esgotamento da rotina e assume pendências para os próximos cinco anos. Pretende ir embora e começa uma reforma sem precedentes. Pretende ir embora e adquire um cachorro. Pretende ir embora e interrompe o anticoncepcional.

Não há limites para o boicote. Você se afoga nas lágrimas e nada em direção a uma dor maior. Você tenta disfarçar o que sente fazendo o oposto, e aumenta as expectativas e engrossa as mentiras.

Na vida amorosa, o “não” vive se escondendo perigosamente no “sim”. Até terminar do pior jeito, deixando alguém plantado no altar ou com uma criança no colo.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.56
Porto Alegre (RS),  29/11/2015 Edição N°18370