terça-feira, 29 de novembro de 2016

SOMOS TODOS CHAPECOENSE

Divulgação

E quando uma cidade inteira morre? Uma cidade para no ar?

Quando uma cidade some e o sangue se transforma em vento?

Quando os relâmpagos emudecem. Quando as estrelas ficam envergonhadas de brilhar e o sol de aparecer.

Quando uma cidade perde as suas residências dentro de um avião? Porque cada homem era uma casa, uma família, uma esperança.

A queda da aeronave na Colômbia que levava o time do Chapecoense matou toda Chapecó na madrugada desta terça-feira (29/11). Porque Chapecó era o Chapecoense. Nunca vi uma torcida como aquela: pais, mães e filhos levantando bandeiras na Arena Condá.

As ruas se esvaziavam para ouvir melhor o coração do estádio.

Uma equipe movida pela alegria dos moradores que incentivaram com a loucura infantil do bairrismo e da gincana. Um viveiro de vozes, uma caixa de ressonância de gritos.

Uma equipe que veio de baixo, da mais simples e monocromática chuteira, da pobreza da grama em 43 anos de história, que subiu da série D para A em apenas seis anos em 2013, campeão catarinense por cinco vezes, que se manteve com prestígio na elite do futebol brasileiro e que disputaria a final da Copa Sul Americana na próxima quarta, o que seria seu maior título. Novatos no triunfo, mas veteranos na resiliência.

22 mil pessoas nas arquibancadas eram 210 mil pessoas na cidade. 74 mortos são 210 mil chapecoenses.

Não duvido que um país inteiro não tenha definhado junto em Rionegro, perto de Medellín, na Colômbia.

Jamais contaremos os mortos da tragédia. Jamais saberemos ao certo o número de mortos. Somos hoje todos desaparecidos.

PASTA DE COURO

É cada vez mais comum executivos com mochila. Homens engravatados carregando uma mochila, como se estivessem indo ou voltando da escola. Adultos feitos, mas com um toque infantil atrás das costas, tal asas de querubins.

Não levam nada nos bolsos da calça e do casaco, tudo segue nos ombros: documentos, celular, garrafinha d'água e algum agasalho na hipótese de uma esticada do emprego para a noite.

A mochila é o equivalente à bolsa feminina. Os varões se renderam à prevenção de um dia fora de casa.

E também é a herança de uma adolescência que não termina mais.


São outros homens de outros tempos. Não mais como os antigos funcionários de bancos, empresários e corretores que andavam com uma pasta de couro e precisavam de uma mesa inteira para abrir as suas verdades.

A pasta de couro está extinta, esta que já foi um grande símbolo da virilidade financeira. Quem tinha emprego importante exibia a sua pasta preta ou marrom. Ela era um cofre com senha e chave, havia espaço para papéis e canetas especiais. Muitas continham um fundo falso para ocultar documentos preciosos.

Os filhos esperavam o momento para espiar o seu conteúdo. Ficavam às voltas da chegada paterna para ver se ele abriria distraidamente a pasta. Sempre foi emocionante ouvir o claque da abertura dos dois lados. O suspense alterava o meu batimento cardíaco.

Lembro da seriedade do meu paizinho. Ele largava o pacote dos pãezinhos em cima do sofá para nos abraçar e eu me esforçava para me livrar dos beijos dele e acompanhar os movimentos da pequena maleta.

Além da pasta, ele pertencia ao time das carteiras de mão. Quando não estava a trabalho, caminhava segurando uma carteira imensa, algo como uma pochete longe do cinto. Naquela época, o cheque mandava no pagamento das contas.

Ninguém circulava com cartões de crédito, o que vigorava era o talão com espaço nobre na carteira, que permanecia esticado com duas tiras prendendo as suas pontas.

Não acho que o passado fosse melhor, eu apenas não consigo olhar qualquer coisa sem comparar. Ver é automaticamente retornar ao passado. Talvez esteja sempre comparando o que sou e não sou.

Ou comprei todas as lembranças de minha infância no fiado e só agora, depois dos 40 anos, vou pagando.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O QUÊ?

A velhice vem aos goles. Nunca se bebe o tempo num único sorvo.
A visão é a primeira a não corresponder inteiramente aos seus comandos. Você enxerga com dificuldade, mas não aceita e adivinha mais do que reconhece com rapidez. Assim tem os seus primeiros constrangimentos sociais. O neto exibe as fotos da visita ao
zoológico e você comenta: “Que araras azuis bonitas!”.

E o neto retruca que não são araras, mas macacos. Você acabou de demonstrar que é um analfabeto ecológico para a nova geração da família.
Sua teimosia em deduzir no lugar de enxergar vai lhe colocando em situações incômodas, como a de embarcar no ônibus errado, estacionar em vagas de portadores de necessidades especiais ou de realizar perguntas óbvias.
Depois é a memória que fraqueja e rasteja com esforço. Começa a brincar do jogo da forca com as lembranças.

O bonequinho recebe contornos a cada lapso e sempre termina com a cabeça a prêmio.
As palavras são apenas figuras. Ou seja, aparece a figura sem a palavra, o raciocínio é próprio de livro colorido para bebês.
O que lembrava instantaneamente custa a vir à tona. Sem wi-fi das ideias, retrocede à internet discada do pensamento. Esquece primeiro o nome das pessoas, os filhos são as cobaias prediletas. Troca os nomes dos guris, Pedro chama de Felipe, Felipe de Pedro e não acerta mais quem se aproxima. No início, dedica horas se explicando, argumenta que o filho confundido deve estar pensando em você, mas a
recorrência faz com que perca a credibilidade.

Em seguida, erra o nome trocando o sexo dos filhos, Felipe chama de Gabriela, Gabriela chama de Pedro, a confusão está instalada. Resta rir e levar os acidentes de gênero na brincadeira.
A caduquice cobra os juros. O pior se avizinha. Após falhar o nome das pessoas e não conciliar rosto com legenda, passa a tropeçar na identificação dos objetos. Liquidificador chama de secador, micro-ondas de máquina de lavar, televisão de aspirador de pó, até se contentar com o genérico Coisa: – “Liga a coisa!”, “Alcança a coisa!”, “Onde está a coisa?”.

Por fim, apaga o nome das ruas, das praças, das cidades, do país, até se tornar um cidadão do mundo. Do outro lado do mundo.

Publicado no Caderno Donna de Zero Hora
27.11.2016
Coluna Semanal

sábado, 26 de novembro de 2016

AMOR NÃO TEM DUAS CARAS



Texto Fabrício Carpinejar
Foto de Gilberto Perin

Amor virtual é também real.
Se você passa das fronteiras do verbo está traindo. Cantadas são traições. Não há desconto. Deslealdade é a infidelidade da palavra.
O que você imagina é o que você pensa e é o que você acredita. Insinuar é suspender o poder dos limites, profanar os segredos do casal e pagar o preço da confusão. Quem não se declara comprometido imediatamente está interessado em mentir.
Não existe ingenuidade retroativa.

Quem explica depois é que não foi intencionalmente claro antes.
Ninguém se apaixona no primeiro contato. Se aconteceu uma paixão fora do casamento é que permitiu inúmeras oportunidades de aproximação e sabia o que estava fazendo. Quantas chances teve de dizer não e ficou no talvez? Quantas cenas para recusar o envolvimento e seguiu adiante?
A casualidade é premeditada.
Por isso, diante da facilidade para estabelecer contatos, o romance moderno não tem mais o privilégio de duas caras.

De nada adianta sussurrar as palavras mais doces e surpreendentes a sós e não repeti-las nas redes sociais. Jurar casamento e descrever projetos dependem, ao mesmo tempo, da visibilidade cotidiana e do olhar de testemunhas.
O que você confessa a dois também precisa ser cantado. É a única garantia de autenticidade que se tem para não esbarrar em cafajestes e mitômanos.
Atualmente o amor se desdobra em dois movimentos simultâneos e complementares: amar para si e não se envergonhar de amar em nenhuma situação pública.

Nem é questão de preferir a privacidade. A defesa da relação está acima da retração e da timidez.
De nada adianta prometer dedicação eterna frente a frente e não mudar o status do facebook. É falso se comprometer privadamente e não contar com a capacidade de repetir a frase para os outros. Posts de amor devem conviver com os bilhetes dentro de casa.

Aquele que não se revela nos meios virtuais quer manter uma vida dupla. Cultiva paixões silenciosas, não se entrega de verdade e deixa a porta aberta para pendências e flertes.
Amor hoje ou é inteiro ou é falso.

Coluna Semanal
O Globo
25.11.2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

INFELICIDADE É



Texto Fabrício Carpinejar
Arte de Eduardo Nasi

Para ser infeliz, faça somente o que faz você feliz.
Se não tem nada no seu dia que não gosta será uma criança mimada, será um adolescente tirano, será um adulto estupidamente autoritário.
É preciso realizar aquilo que também não ama para ser diferente e abrir espaço dentro de si à compaixão e à tolerância.

Exercer unicamente o prazer consolida o egoísmo.
Guarde um pouco de antipatia em suas obrigações. Mantenha tarefas desagradáveis no trabalho e em casa. Assim não banalizará os momentos bons. Assim valorizará a resiliência diante dos momentos ruins.

Só suspira quem atravessa o desgosto. O suspiro é o riso do esforço.
O que seria do final de semana se estivesse de folga também de segunda a sexta? Como louvaria o domingo se não houvesse uma segunda-feira para detestar?
Arrume a cama mesmo sem nenhuma vontade, lave a louça mesmo bufando, estenda a roupa mesmo detestando a ordem dos prendedores.

Atenda aos chatos com simpatia, suporte os lentos com generosidade. A humildade depende do silêncio da superação.
Não gostar de algo é ter ainda algo para aprender, é uma reserva de sabedoria. Não deixe de fazer. Pode mudar e apreciar no futuro. Pode acabar transformado pela sinceridade da saudade.

Prove tudo o que não lhe agrada para não se privar de viver. Adore os defeitos para não se envaidecer das virtudes.
Repetir a felicidade é empobrecê-la. Felicidade é para ser uma exceção, não a regra. Quem só é feliz no fim é triste, pois não muda de estado de espírito para reconhecer o contentamento.

Publicado em Portal vida Breve
Coluna Semanal
23.11

terça-feira, 22 de novembro de 2016

MARAVILHAMENTO


Jurava que era um exagero romântico, uma idealização, uma declaração simpática e educada: aqueles que casavam e apregoavam que sofreram um baque olhando a noiva chegando.

Mas eu estava no altar e testemunhei. Eu casei no religioso e percebi a corrente sanguínea virando corrente elétrica. Deixei de ser homem por um momento para ser um relâmpago.

Quando a porta alta da igreja se abriu e enxerguei Beatriz de noiva, lindamente de branco, fui hipnotizado. Empalideci. Experimentava aquilo que os santos chamam de transcendência.

Nunca vi nada mais belo. Nunca. Não estava preparado e não tinha como pedir ajuda para ninguém. Era mais do que a emoção de uma criança mirando o mar pela primeira vez ou de um adolescente com a residência só para si, sem os pais durante o final de semana. Vinha, aos borbotões, todas as emoções inéditas juntas de independência correndo pela boca e eu balbuciava, não emitia nenhum som legível.

Beatriz caminhava, exuberante, o longo corredor vermelho. Eu a desposava lentamente, passo a passo miúdo que ela dava. Eu me fixava em seu rosto como quem se posiciona diante de um quadro do pintor holandês Johannes Vermeer e não encontra ângulo que diminua a beleza.

Eu ia entregando para ela o que fui e o que poderia ser. Senti tanta devoção por alguém que as minhas pernas tremiam e os meus braços paralisaram. O arrepio passava da pele para as roupas.

Felicidade não é ter controle, é perder o controle a dois. Não sorria para os outros, não fingia felicidade e segurança, eu ria de honesto maravilhamento, como um louco conversando com a lua.

Beatriz estonteante com o busto cravejado de pedras, com o véu deposto, arrastando a longa cauda de ondas. Uma sereia cantando em silêncio. Uma sereia voando. A mulher de todos os meus dias e todas as minhas noites.

Não acreditava acreditando, atingido plenamente pela fé. Eu olhava com os olhos da fé, não com os olhos do cotidiano e da objetividade. Abriu-se uma janela emperrada da alma naquele instante e pude colher os frutos dos galhos mais altos da árvore da vida.

Havia casado com ela no civil, mas nada se compara a casar diante de Deus. Desculpe os céticos e os ateus, é uma comoção tão violenta que não suportaria experimentá-la duas vezes.

Se quem morre tem um flashback do que viveu, quem casa recorda em minutos tudo o que amou na existência.

Eu dizia sim sim sim sim sim a cada movimento de proximidade da noiva. Jamais gritei tanto sim dentro de mim.

Publicado no Jornal Zero Hora
22.11.2016
Coluna Semanal

domingo, 20 de novembro de 2016

MÁFIA SICILIANA

Pretende se defender de um canalha?

Simples, elementar, ele aparenta ser um homem do lar, que cultiva temperos em horta e cheira rolhas de vinho, mas vive na rua, não distingue a rúcula do radici e apenas come fora.

A propaganda do primeiro encontro é redondamente enganosa.

Receberá você no apartamento espaçoso, brilhando, com amplo sofá e vista para o oceano de prédios, entretanto o local de orgulho doméstico é um matadouro higienizado, acabou de se livrar dos resquícios da última conquista. Tudo está arrumado e nos trinques como se fosse um maníaco por limpeza, porém não se engane, pagou faxineira para fingir status de rapaz sério e dedicado.

Ele fará questão de abrir a porta de avental e mangas dobradas da camisa xadrez, testa suada e cabelo caprichosamente desleixado.

Estará ocupado em lhe agradar e demonstrar os dotes no fogão. Fechará a porta da cozinha para intensificar os segredos e a surpresa. Dirá que é uma receita familiar, que não expõe para qualquer um, que realmente é uma homenagem. Colocará jazz de música ambiente, apesar de vibrar e conhecer de cor as letras do sertanejo universitário.

Os livros de arte em cima da mesa são de fachada, não vê diferença em Jackson Pollock e no desenho de seu sobrinho.

Só que todos os canalhas cometem um erro. Preparam um único prato: risoto de limão siciliano. Fica como um padrão de psicopatia amorosa. É uma marca da maldade, talvez um pré-requisito do sindicato.

Sugerem que cozinham bem mais do que aquele arroz empapado, a questão é que não avançam no livro de receitas.

Não entendo o motivo: todo canalha faz risoto de limão siciliano. Por que não estrogonofe? Por que não uma massa de camarão? Por que não um salmão?

Sempre risoto de limão siciliano. Como uma assinatura, um código da cafajestada.

Levam em consideração que a mulher não resiste, que a combinação não agride o regime, além de servir como preliminar para o sexo (não provoca mau hálito).

Cheiro de alecrim fresco e limão no ar é cheiro de crime, saia correndo. Não espere o dia seguinte para descobrir que ele não telefonará.

Publicado no Caderno Donna de Zero Hora
20.11.2016
Coluna Semanal

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A ALEGRIA DA NOIVA É CATASTRÓFICA




Texto Fabrício Carpinejar
Foto Gilberto Perin

Se nascer uma espinha, se quebrar a unha, se trincar um dente, se gripar de repente, se não parar de tossir, se não dormir a noite inteira, se terminar enjoada, se começar a cair o cabelo, se inchar o dedo da aliança, se chorar e borrar a maquiagem, se rasgar o véu, se derrubarem algo em meu vestido, se o salto quebrar, se tropeçar no altar, se ninguém vier, se extrapolar a cota de convidados, se chover no casamento, se o noivo beber demais, se eu falar bobagem, se os fornecedores atrasarem a entrega, se a família brigar no dia, se a música não vingar, se me atrasar, se as palavras falharam, se esquecer os nomes dos amigos, se o nervosismo não me abandonar, se tiver um ataque de riso, se enlouquecer, se a palpitação atrapalhar os passos; e se for feliz pela vida inteira, imagina!, o que farei de mim?

A felicidade dói muito mais do que qualquer tristeza. A felicidade dói por todo o corpo.

O medo é felicidade chegando, o medo é felicidade ficando para sempre.

Publicado no Blog do Jornal O Globo
Coluna Semanal
18.11.2016

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

FIM DA RELAÇÃO NAS REDES SOCIAIS



Texto Fabrício Carpinejar
Arte Eduardo Nasi

O namoro tem leis cibernéticas, menos explícitas do que alterar o status no Facebook.

Se você recebe um e-mail de seu namorado ou namorada sem assunto é término da relação.  Lascou. É tanto ódio que a pessoa nem colocou um tema para a mensagem. A raiva sofre de pressa e indecisão.

Ou como intitular uma mensagem nesta hora sem desestimular a leitura? Ao pôr “Separação” ou “Idiota” ou “Não me procure mais”, o destinatário nem precisa ler para definir o conteúdo. Está literalmente excluído. Pode apenas descobrir o motivo, e nada mais.

Cartas sem nenhum aviso são as mais perigosas.

O WhatsApp não foge à regra. Destinado à peça teatral ou ao roteiro de cinema da vida real, quando carece de travessão, algo trágico aconteceu. Textão é sinônimo de ruptura. É alguém mandar um texto imenso e ininterrupto num lugar feito para conversas miúdas significa testamento. Você nem vê o outro digitando, de repente surge um calhamaço explicando por a e mais b o motivo do término do romance. Óbvio que a enxurrada de ofensas saiu do bloco de notas e foi copiada, recortada e colada ali. Toda a passionalidade escrita é premeditada. Tentará responder, mas será bloqueado. A foto do interlocutor desaparecerá antes de entender o que está acontecendo, para aumentar o drama e o castigo.

Monólogo é o bilhete de suicida do casal. Mais de duas páginas é um caminho sem volta. Não terá como reverter o quadro e buscar a reconciliação. O ressentimento transformou o desencanto em peça de inquérito.

Quem se se separa tampouco usa emojis. Não está disposto a brincar. É letra sobre letra, desprovida de recreios e distrações, como bula de remédio. Não há intenção de descontrair com um revólver ou uma mão rezando.

Publicado no Portal Vida Breve
Coluna Semanal
16.11.2016

domingo, 13 de novembro de 2016

FRIORENTA

Tem gente que fica irritada com fome ou com sono. Sei que está ligado a flutuações dos níveis de serotonina no cérebro, fenômeno que ocorre frequentemente quando você está de estômago vazio ou sem dormir.

A minha mulher tem um problema particular com queda de  temperatura. Mineira, solar, primaveril, acostumada a tempos amenos, muda de temperamento se sofre com o frio. Fica estressada. Baixa a resistência. Enfraquece com ares juninos.

É um arrepio que cresce em calafrio que desemboca em friagem.

Sério! É encrespar o vento que ela torna-se ranzinza.

Fui percebendo aos poucos. Demorei para registrar a sua transformação.

É Porto Alegre atingir 12 graus que começa o sufoco. Ela que é doce e compreensiva passa a demonstrar uma impaciência incomum. Seus olhos congelam.

Ela não admite mais nenhuma brincadeira, nenhuma selfie, nenhuma palavra amorosa. Endurece como uma déspota. Dita regras, censura os meus hábitos, não quer ninguém perto.

Nem adianta fingir calor com camiseta de física e bermuda. Também não serve como atenuante tomar banho frio e reclamar do suor. Ela não cai mais em meus truques baratos de ilusionismo climático.

A gentileza tampouco sensibiliza. Procuro agradá-la oferecendo um casaco nos ombros ou uma coberta nas pernas e ela se irrita ainda mais com o excesso de ternura.

O problema de quem quer ajudar alguém irritado é que, ao temer a reação, perde a pose natural, exagera no carinho e bajula. Eu sinto que ela está nervosa e me aproximo com veemência quando o certo era me afastar e respeitar. Vejo que acontece o medo da contrariedade, que me impele a intensificar o meu esforço de ajudá-la e também a minha frustração de confortá-la.

O frio não é uma briga dela comigo. Mas parece que tenho culpa por ser gaúcho e trazê-la para cá e me responsabilizo por sua fragilidade, seja condenando, seja paparicando.

Não deveria sofrer junto. Ela simplesmente não nasceu para o nosso inverno, muito menos para as madrugadas gélidas e de neblina da Serra.

O que me resta fazer, dentro dos meus limites, é deixar o controle remoto do ar condicionado sob o seu domínio. Só seguro no momento de trocar as pilhas.

Isso que ela ainda não viu o que é o calor em Porto Alegre.

Publicado no Jornal Zero Hora - Caderno Donna
Coluna Semanal
13.11.2016