segunda-feira, 24 de novembro de 2014

JANTAR COM OS TIOS DO INTERIOR

Arte de Vito Campanella

É jantar fora com os pais e os tios que você se sentirá uma criança de novo. Por mais que seja adulto e independente.

Eles manterão uma conversa fora do seu alcance, rememorando nomes apagados, mortos, distantes.

A parentela italiana não dá mole. Assume a condição de testemunha alimentar da reconstrução da genealogia familiar, gozará do privilégio de acompanhar a biografia oral, na íntegra, de seus antepassados.

Mesmo que tenha avançado uma geração, eles ainda estão uma geração à frente.

A princípio, participará do entrevero. Experimentará rápida glória social, que poderia ser resolvida no abraço de chegada. Eles vão perguntar o que anda fazendo, o desempenho do trabalho, o status de seu relacionamento, para logo se

dispersar aos assuntos que mais interessam: quem morreu, quem adoeceu, quem se separou, quem está bem de vida, quem faliu, quem mudou de orientação sexual, quem engravidou. É uma agência de notícias da última metade do século. Os ouvidos adoecem devagar.

Até porque tia que é tia do interior fala baixo, enquanto o tio bebe tudo o que não deve. É um casal infalível: nenhum atrapalha o prazer do outro.

Ainda estão no aperitivo e você tem a convicção de que assiste a um documentário do Discovery. Carece de legendas para descansar os olhos. Naquele breve encontro, ouviu uma cota superior a um mês de trololó com seus amigos.

Como é difícil se inserir no debate, fica esperando a comida. Olhando para o infinito de uma televisão ligada e sem som, no fundo do ambiente. Quando se flagra fazendo leitura labial da novela é que está entediado e seu corpo e espírito estão definitivamente divorciados. Desapareceu materialmente dali.

A infância vem à tona. Quer ir embora. Quer dormir. Quer retornar para casa.

Acabou sua paciência. Precisa ser simpático, agradável, maduro, mas não tem mais como se comportar. A aparência vai se afundando com aquelas vozes distantes que parecem sobrevoar seu quarto depois das 23h. Recorda que, quando pequeno, fechava as pálpebras escutando as gargalhadas dos adultos na sala, os únicos que tinham o direito de dormir tarde.

Sim, voltou a ser um menino birrento, apesar da barba cobrindo o rosto. Impossível concorrer com a idade dos tios e seu apetite interminável de colocar o papo em dia. Estão recém na década passada e não demonstram o mínimo cansaço ou intenção de apressar os fatos.

Já observa o garçom com ternura, já repara quem fecha a conta com inveja, já começa a puxar a toalha, já começa a brincar com os palitos Gina e o saleiro, já torce para que ninguém peça a sobremesa, já puxa o braço do pai, já a mãe intervém e suplica para que tenha modos: “Vamos ouvir o que sua tia está contando, é importante!”.

Só falta descer para debaixo da mesa e brincar com os joelhos da família. Entrou no restaurante com a altivez de homem feito e sairá com alma de cachorro.

Será sempre a criança daquela família, sonhando com sua cama e arrependido de aceitar o convite para programa de gente grande.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS),  23/11/2014 Edição N°17992

A ÚLTIMA VEZ

Arte de Cézanne

Se já é difícil dar adeus quando não se ama, imagina quando se ama.

Não é simples colocar um marcador de página numa história de amor e abandonar a leitura.

Reconhecer que jamais terminaremos aquele romance. Não haverá recompensa por aquilo que se leu até ali. Ninguém nos contará o que aconteceu.

Não participaremos do final feliz: os filhos, a velhice lado a lado, a casa cheia de netos. Não estaremos juntos na derradeira linha. É morrer sem ter morrido. É desaparecer estando onipresente.

O livro de sua imaginação ficará fechado para sempre. A relação terminou antes do fim do amor. O leitor terminou antes da obra. Não descobriremos qual será o desfecho.

Não queira viver o dia de uma despedida com a consciência de que é uma despedida.

É uma cirurgia sem anestesia. Será cortado, será remexido por dentro, será costurado, sentindo cada pontada e rasgo, antecipando cada movimento com os olhos abertos. A pele vai doer como um osso, a sensibilidade pedirá piedade, o ouvido apanhará qualquer frase como uma possível sentença salvadora.

Melhor que a despedida seja involuntária, desconhecida, desavisada. Melhor que seja abrupta, de repente, improvisada.

Pois se despedir é sofrer com tudo que lhe tornava feliz. É abrir os braços para a mágoa como se viesse uma alegria em nossa direção.

É um esforço para decorar o estranho momento em que abandonaremos uma vida tão desejada.

O nós é a primeira partilha – o plural perderá seu domínio. Voltará a chamar a pessoa que ama pelo nome, como se não a conhecesse. Não mais de Meu Amor. Não mais de Minha Paixão.

É entrar pelo quarto pela última vez, e ter noção de que será a última vez.

É olhar pela régua que mantém a janela aberta da cozinha pela última vez, e ter noção de que será a última vez.

É abrir o guarda-roupa pela última vez, reconhecer o estalo da divisória de madeira, e ter noção de que será a última vez.

É fechar o registro do chuveiro pingando pela última vez, e ter noção de que será a última vez.

É ajeitar as almofadas do sofá pela última vez, e ter noção de que será a última vez.

É ouvir a respiração perto pela última vez, copiosa, irrefreável, e ter noção de que será a última vez.

É abraçar pela última vez e não soltar porque é realmente a última vez.

É beijar pela última vez e soluçar porque enfim chegou a inacreditável última vez.

É uma coleção de instantes definitivos. Preciosos. Sábios.

Despedir-se é guardar. Guardar é cuidar. Cuidar é nunca deixar de amar.

Quem faz questão de se despedir, quem faz questão de inventar uma despedida, é quem ainda ama. Ama muito. Ama demais. Ama loucamente.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS),  16/11/2014 Edição N°17985

NÃO SE PODE MAIS IDEALIZAR NESTA VIDA?

Arte de Alexandre Cabanel

A mulher sempre é culpada pela idealização. Por esperar demais de um amor.

Porque o amor que ganha não se equipara ao amor que deseja.

Porque há um completo desencontro entre o que ela sonha e o que ela suporta ao acordar, entre o anseio pela cumplicidade e a avareza que aguenta num relacionamento.

E ela se torna culpada: é ela que não valoriza o que tem, não se reduz ao que vê, não agradece o que recebe.

E ela se torna uma esnobe ao abandonar relações justamente por defender sua felicidade. E parece que esta felicidade não existe e está sendo burra em persegui-la.

Será que deveria se conformar com o pior e desperdiçar sua existência com o pior? Não se pode mais idealizar? É um crime conservar o apelo romântico de achar um príncipe, sua cara-metade, seu complemento da alma? Será que ela necessita fingir que a bijuteria brilha como uma joia? Fingir que o coaxo é um canto de cisne? O pessimismo é a expressão da saúde emocional hoje em dia?

A idealizadora sofre, apanha, é xingada, apedrejada, excluída socialmente, é a Geni da canção de Chico Buarque, é a nova Madalena da Bíblia.

Não é ela que está certa, ela que é excessivamente exigente.

Não é ela que sabe o que quer, ela que é perfeccionista.

Não é ela que tem razão, ela que vive cobrando, arrumando briga e procurando defeito.

Não é ela que procura a qualidade, ela despreza as opções.

Seu sofrimento é visto como um despropósito. Acaba ganhando o descrédito dos amigos e da família, o estigma de que é fora da realidade, de que não valoriza o pouco.

Já ninguém acredita quando ela diz que vai casar.

- De novo?

Já todos reclamam quando ela anuncia que cansou de casar.

- Não pode desistir.

Se ela insiste, é louca. Se ela desiste, é louca.

Nunca agrada e corresponde às expectativas dos seus próximos. Mas não pode ter suas frustrações, é proibida de ter suas decepções, é vetada de ter suas desilusões.

Precisa suportar as lamúrias dos outros, mas não pode expressar sua insatisfação.

A idealização é vista como uma alucinação, um distúrbio psicológico: você está querendo alguém que não existe, forçando a projeção, não enxergando o que sua companhia guarda de bom e verdadeiro.

Não pode reclamar de barriga vazia pois está consolidada a ideia de que reclama de barriga cheia. Como se namorar ou casar fosse uma benção, quando é apenas mais uma formalidade do machismo.

Sem idealização, não existe ambição no amor, esperança no amor, fé no amor.

Nivelar por baixo é desastre.

Quem se contenta com o banhado jamais cultivará um jardim.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS),  9/11/2014 Edição N°17978

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

SÃO LONGUINHO

Arte de Jesús Carles de Vilallonga

6 senhas bancárias pessoa física e jurídica
3 senhas de cartão de crédito.
4 senhas de jornais
1 senha do clube
1 senha da academia
1 senha da net
3 senhas de e-mails
2 senhas de Facebook
1 senha de Instagram
1 senha de Twitter
1 senha do celular
1 senha do alarme do prédio
1 senha de Skype
2 senhas de computadores
2 senhas de companhias aéreas
1 senha do ID celular
1 senha do plano de saúde
2 senhas do acesso para empresas
4 senhas de assinaturas de sites

Um adulto hoje bem informado e tecnológico terá no mínimo 25 senhas. É uma avalanche de números. Torna-se uma fórmula matemática ambulante, uma equação da relatividade com pernas.

Já acho que não sou um homem, mas um cofre. Eu tenho 38 senhas com as mais variadas e estranhas combinações. Como vou memorizá-las? Como não posso anotar para não facilitar o extravio, como não posso usar a mesma por questão de segurança, como não posso recorrer às datas de aniversário para não ser descoberto fácil, preciso ser um poço sem fim de criatividade.

Mas não tem jeito. Faço uma nova senha porque não me lembro da anterior e muito menos da dica que deixei para ajudar a memória. A dica parece ainda mais absurda. Tipo: elefante. Elefante o que cara-pálida? Na hora, eu jurava que recordaria com facilidade. Só me complica. Crio a senha tentando ser esperto, passa um tempo e logo me esqueço.

Acordo e durmo rezando para São Longuinho. Estou cansado de pular três vezes e gritar o nome do santo. Nem ele me agüenta mais.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (21/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo:



GAIOLAS DE PÃO

Arte de Eduardo Nasi

O pão francês consagrou a solidão.

Ao ser vendido por unidade, tornou-se a glória dos solteiros. Não precisávamos mais nos preocupar com a família na hora de comer.

Podia-se comprar um ou dois pãezinhos, de acordo com a nossa vontade, e não sobraria nada.

Foi a independência da fome, o descolamento do apetite do planejamento coletivo.

Morreu o aviso da passagem na padaria. O produto dispensava, inclusive, a faca, acabara o ritual das fatias e de se importar com o outro.

Na minha infância, não tinha nada de isolar o pão do resto da turma. Só se vendia de meio quilo ou 1/4. Pedia acompanhamento, partilha, generosidade.

Cortar o pão correspondia a pensar no pai, na mãe, nos irmãos.

A família morava dentro do pão. O ideal de família grande.

Aprendia-se a fatiar de modo idêntico, para ninguém ser beneficiado com mais miolo ou mais casca.

Cuidava para não rasgar a folha vegetal que embalava o produto com os dentes da faca, pois sempre servia para desenhos ou anotações de última hora.

O papel cinza do pão e o papel de seda azul da maçã constituíam a papelaria predileta da nossa cozinha, guardados na gaveta como fortuna para prováveis pacotes.

Aliás, induzido pela etiqueta “Manzanas de Argentina” nas caixinhas de maçãs vermelhas, eu mantinha a ideia extravagante de que todas as maçãs do mundo vinham da Argentina, de que Adão e Eva eram argentinos, de que o pecado era argentino, de que até a serpente era argentina.

O barbante amarrado pelo padeiro agia como um lacre de segurança, para ver se os compradores — nós, crianças! — não caíam em tentação e não furtavam pedaços antes da hora.

Ao chegar em casa, o nó intacto do embrulho provava que a mercadoria tinha sido preservada da gula e da injustiça familiar. Havia táticas para burlar o sistema, porém muito arriscadas e que podiam resultar em castigos no quartinho escuro.

No jantar, contava-se o que cada um comia, a parte mais divertida do entardecer. Criávamos um placar caseiro, onde nos provocávamos e censurávamos o próximo.

“Já comeu sua parte, devolve!”: a  frase preferida da turma. Havia um prazer indescritível em fazer flagrante e repreender o irmão.

O pão inteiro possibilitava uma proximidade que não existe mais.

Hoje, unitário e conservado em saquinhos, inspiram o abandono da mesa.

Aqueles pães engaiolados no saco transparente me despertam compaixão. Pássaros de trigo mudos. Sem o alarido da disputa dos farelos.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
19/11/2014


MEUS OLHOS SUJOS

Arte de Francis Picabia

Ela sempre reclamou que eu não sabia tirar as remelas quando despertava.

Eu era capaz de passar o dia, mesmo tomando banho, mesmo lavando o rosto, com os ciscos nos cantos.

Quarenta e dois anos e os olhos sujos do sono, os olhos imundos do sonho.

Não entendia como eu não tinha paciência para esfregar os dedos nas pontas e remover o que não dependia de esforço.

Permanecia com o rosto desobediente, aparvalhado, de menino acordando às pressas para a escola. Será que ninguém me ensinou? Será que não consegui aprender?

Não raspava os pratos na mesa, assim como não raspava o fundo dos olhos. Este era eu.

Quando nos separamos, eu me arrependi do que não insisti em ouvir para entender.

Foi quando escutei o seu choro na sala.

O choro derrotado de quem tentou salvar de tudo que é jeito a relação, e nada mais mudaria minhas certezas.

Ela não chorava como uma mulher, não chorava como uma adulta, não chorava como já tinha visto, apesar de fazê-la infeliz várias outras vezes.

Ela chorava como uma criança, um timbre infantil agonizando no fundo de sua voz madura. Era o choro que chorava, não alguém chorando.

Como se houvesse uma criança trancada no quarto das lágrimas, pedindo para sair, esmurrando a porta das faces.

Ela se dobrou numa almofada, as costas contraídas, envolvida no espaçar mínimo de grito e resmungo, característico de uma menina. Uma menina de luto. Uma menina cansada do luto.

Ela não uivava como um animal encurralado, não gemia como uma desiludida, não chorava cantando como a angústia pede, não forçava a passagem da correnteza com o soluço, não exagerava na cena.

Natural, espontânea, desafinada, com sua pureza renascendo do sofrimento.

Ela era uma menina desesperada, uma menina repentinamente órfã, uma menina correndo mais rápido do que o pranto.

Seu tom plangente doía em meus ouvidos, perturbava, como arranhões no vidro com as unhas.

Num sacrifício desmedido, ela me oferecia sua infância. A vulnerabilidade total de seu corpo, a grandeza de sua pequeneza. Entregava seu medo de dormir no escuro, de ficar sozinha de novo, de não ser aceita. A injustiça do mundo que uma criança, desde cedo, pressente com toda a sinceridade.

Não me contive, e chorei junto.

Foi seu gesto de adeus. Ela retrocedeu no tempo de sua dor para se tornar uma menina e amar o menino que fui.

As lágrimas levaram minhas remelas.

Enfim, poderia ser adulto. Meus olhos hoje estão limpos e, em compensação, muito mais amargos.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 18/11/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17991

PAI-FILHO, AVÔ-NETO

Arte de Otto Briese

Conversava com meu filho enquanto o levava para escola.

Ia explicando que no supermercado não havia sacola de plástico, mas de papel.

E sempre arrebentava no caminho.

Porque não podia colocar nada molhado por baixo das coisas.

Amolecia a embalagem e deslizavam potes e garrafas lomba abaixo.

Nosso maior pedido ao menino empacotador: - Não põe as verduras no fundo!

O pão era de meio quilo ou um 1/4. Não havia cacetinho (pão francês).

Vinha embrulhado em cordão e papel vegetal, que depois servia para anotar a lista das próximas compras.

O leite não ficava condicionado em caixinha, mas em saco.

Havia todo um equilíbrio para abrir o saco com faca e não jorrar leite por tudo.

Tinha que segurar o saco de pé, espichá-lo, para então fazer um recorte na ponta.

A mãe congelava os saquinhos de leite. Quando descia para a leiteira, a gente cortava pedaços e comia como se fosse sorvete.

Hoje a sociedade mudou tanto, houve tantas transformações de hábitos entre os anos 80 até os dias atuais, que a diferença de memória entre pai e filho é de avô para neto.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (18/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

SE CHICO XAVIER FOSSE O SEU FILHO

Arte de Julius Schnorr von Carolsfeld

O que você faria se seu filho pequeno conversasse com espíritos, ouvisse vozes, escrevesse coisas inacreditáveis para sua idade dizendo que era alguém recitando em seus ouvidos?

O que você faria se seu filho pequeno orientasse os mais velhos, prevenisse tragédias, virasse uma antena de futuros acontecimentos?

Não é óbvio que você levaria para um psiquiatra? Não é previsível que pensaria que é um transtorno de personalidade?

Não daria remédio? Não colocaria de castigo?

Se fosse religioso, é bem possível que levasse em consideração que a criança estava com demônio no corpo.

Poderia benzê-la, exorcizá-la, carregá-la de rezas e benções.

Mas estou falando de Chico Xavier, um dos maiores brasileiros de todos os tempos, autor de 450 livros, com mais de 50 milhões de exemplares vendidos, um dos mais importantes nomes do espiritismo.

Todo mundo gostaria de ter Chico Xavier como filho, mas ninguém conseguiria aceitar o dom de Chico Xavier se fosse de seu próprio filho.

Chico Xavier, como qualquer criança absolutamente paranormal, sofreu horrores. Foi criado pela madrinha, Rita de Cássia, logo após a morte de sua mãe. Apanhava porque dizia a verdade, confessava que os espíritos vinham falar com ele.  Acabou açoitado com vara de marmelo, teve garfo de cozinha enfiado na barriga, até que parasse com a bobagem de enxergar fantasmas.

Será que levamos a sério o que as crianças dizem? Será que reconhecemos quem é realmente especial ou sempre tomaremos o caminho mais fácil de achar que a fé é tão somente loucura?

Na dúvida, tenha paciência. Procure observar e ouvir o caso com amor.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (14/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

NÃO TENHO ROUPA

Arte de Eduardo Nasi

Mulher apaixonada vem para matar no primeiro encontro.

O investimento para aquela noite traduz o interesse que tem por você.

Quando ela se produz é que alimenta a maior curiosidade, deseja prender sua atenção, não pretende lutar apenas para não ser rebaixada e se manter na série A, mas busca o título e persegue a invencibilidade.

Se ela comprou todo o figurino novo, aceite que será devastado, arrasado, esquecerá quem foi um dia. É a mulher apagão.

Se ela ainda tem o requinte de vir de salto alto, não tente ganhá-la na conversa, ela que vai levá-lo para onde quiser. É a mulher orgasmo múltiplo.

Mulher demonstra arrebatamento falindo de véspera: horas no salão, horas nos provadores das lojas. Ela não se preparou, ela se inventou totalmente.

Só deixará você pagar a conta do restaurante porque seu cartão de crédito nem vai passar de tanto que gastou.

Ela contraiu dívidas inimagináveis nem tendo a certeza que era para o homem certo. Seguiu a intuição, não facilitou para o destino.

Você acha que ela demorou a agendar um encontro, pois planejou para dois dias dali? Que ela não tem pressa de vê-lo? Que não tem urgência? Enganou-se, ela precisa de 48 horas para nascer de novo.

Protelar o primeiro encontro para a mulher é sinal promissor. Ela necessita se armar, solicitará ajuda para as amigas, criará a expectativa, derrubará seu guarda-roupa, providenciará caixas de velharias para campanha de agasalho.

É um suspense que aumenta a atenção, que gera ansiedade e taquicardia.

Quando uma mulher está interessada em alguém, sua questão existencial imediata não é seduzir, é se desesperar: — Não tenho roupa, e agora? Porque ela sempre achará que não tem roupa quando está perto de um novo romance.

Mulher não busca corresponder às expectativas, isso é coisa de homem!, mulher busca superar as expectativas.

O primeiro encontro dita sua vontade de relacionamento, sua predisposição em prolongar a madrugada ou abreviá-la. Pode até recorrer à uma combinação seminova, o que não significará falta de esperança: adotou uma aparência que inspira confiança.

A roupa diz tudo: vestido é para epopeias, saia é para dramas intimistas, leggings é para comédias românticas.

Se não está usando sutiã, é ousada, desencadeando um strip para a imaginação.

Se mostra as costas, anseia ser beijada de surpresa, assaltada no pescoço pelo passeio dos lábios.

Não alimente falsas esperanças. Mulher não vem à toa no primeiro encontro. Chegará atrasada como uma noiva para que a veja entrando. Para que a veja causando entre as outras mesas. Para que guarde essa imagem de altar no inconsciente. A inveja é a madrinha do amor.

Já quem chega antes não dá muita abertura, está relaxada e fazendo tempo. Fará tempo também com você.

Caso ela apareça sem brincos, sem colar, sem pulseiras, não está muito disposta. Nem pense em transar depois. No máximo, receberá um selinho para correspondência platônica.

Se ela aparece desarrumada ou básica, peça a conta. Ela somente lhe enxerga como amigo.

Se ela surgir de macacão jeans de pintor de parede, por Deus, é um cinto de castidade, a curva do corpo some, não há brilho de estreia, não existe provocação, e sim desleixo. Atravessará a madrugada descrevendo antigos amores e reivindicando conselhos. Ela nem lhe enxerga como amigo, mas pior: como confidente.


 



Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
12/11/2014


TROPA DE ELITE

Arte de George Grosz

As mulheres demonstram o amor entre si de um modo óbvio.

Elas se abraçam, andam de mãos dadas, oferecem colo, acariciam os cabelos, sem conotação sexual.

Amigas confessam seus cuidados sem meio-termo. Há o toque, o aconchego, o abraço longo e apertado.

Elas se aninham e se embalam no reencontro mais banal.

São catárticas, choram, não medem as palavras de ternura.

Celebram a cumplicidade: dançam juntas, realizam mímicas, cobram juras, dividem drinques, emprestam cartões de crédito.

Já os homens entre si são toscos. Quando se amam dentro da amizade, não se comunicam diretamente. Não descarregam declarações.

Eles se escondem na timidez, receiam o vexame, tensos e reprimidos.

O cumprimento é gritado e rouco, o abraço é quase um empurrão. E ainda por cima é bem possível receber uma saraivada de socos nas costas. Meninos crescidos que

continuam a trocar esbarrões e safanões para justificar o contato físico.

Amizade masculina é desidratada, árida. Amizade masculina é corredor polonês, é xingão, é cascudo, é luta livre.

O reconhecimento de importância é feito mais pela piada do que pelo elogio. A saudade é fundamentada pela grosseria. Não espere carícias e prefácios.

O hábito é falar mal para dizer que se gosta.

– Seu otário, onde você andou que não responde a minhas ligações?

Nada é suave, linear, carinhoso.

Homem não entra no armário nem para trocar de roupa.

Eles se sentem culpados por amar um outro homem e disfarçam. Têm medo de que alguém entenda errado, que interprete como atração.

Há um código militar do aceno e do diálogo lacônico. O que prepondera é o uivo, o urro, a reclamação por trás das frases emocionais.

Quem vê de fora pensa que são inimigos, são desafetos, são rivais.

– Idiota, não consegue nem assar uma carne, jamais alguma mulher lhe dará pelota.

Até a solidariedade vem suja, misturada de agressão.

– Esse panaca não tem conserto!

Amor para os amigos é ofendido, formado de insultos, preconceitos e espinhos.

É uma admiração truculenta, bélica, num idioma renhido, criado em estádios de futebol, em churrascos, em bebedeiras.

Como se o pior fosse o melhor, como se o contrário traduzisse o certo, como se o avesso significasse a transparência.

Para consagrar um eu te amo é preciso atravessar um purgatório de impropérios.

E o engraçado é que o “Eu te amo” não é entregue ao interessado, é usado na terceira pessoa para se diferenciar da cantada.

Aparece dentro de um contexto, não numa conversa a sós. É, na verdade, uma apresentação para uma plateia real ou imaginária.

– Eu amo esse babaca!

Homem mesmo só elogia, de maneira pura, a si mesmo. Sabe que não terá ninguém mais para fazer esse trabalho.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 11/11/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17984