segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O UMBIGO DO CELULAR

Meu umbigo é uma fábrica de lã.

Algo que nunca corrigi na vida. Não cortei o cordão umbilical por inteiro, é uma sensação de purgatório.

Ele sempre guarda resquícios das camisas e camisetas. Fica tapado com a flufa. Todo o dia preciso efetuar a manutenção.

Antes do sexo, dou uma olhadinha para ver se está tudo bem. Não quero que a minha mulher mexa no meu umbigo durante o calor do vaivém. Ou que diga: só posso continuar quando o seu umbigo estiver limpo. A possibilidade da sentença me atordoa.

A sujeirinha criou uma paranoia desnecessária de limpeza. Como ninguém fala nada sobre o assunto, imagino que sofro uma doença rara, algo tipo flufalência. Jamais toquei no assunto com o meu terapeuta.

O curioso é que descobri que meu iPhone sofre do mesmo mal. Nenhum carregador mais funcionava com o aparelho. Estava cansado de adquirir extensões novas mensalmente, originais e bastardas. Nenhuma vingava. Terminava preso a uma tomada mudando de posição incansavelmente, apertando e afrouxando o cabo.

Disposto a pôr um ponto final no suplício, fui numa assistência autorizada da Apple. O técnico, de cara, desentortou um clipe e alertou: é sujeira no umbigo. Como assim? Nem sabia que o meu telefone tinha umbigo. E retirou um novelo de poeira do contato por onde entra o fio.

Voltei para casa disposto a fazer uma atualização do meu sistema.

Não me elogiar não quer dizer que ela não está me enxergando. Na hora em que precisar, surgirá batendo à porta e oferecerá o seu colo. Não sofro do desespero de perdê-la, estou eternamente em seus traços e manias.

Identifico o seu esforço de lutar contra a saudade, e reconheço o seu mérito.

Você só tenta escapar daquilo que é importante. Ela procura construir a sua personalidade longe de minha influência.

Eu compreendo: realizei semelhante oposição aos meus pais, escritores.

A beleza do conflito é que não existe bajulação, a relação é profundamente mais sincera.

Publicado em O Globo em 28/12/2017

O QUANTO AMO MINHA FILHA PARA ENTENDER SUA IMPLICÂNCIA

Minha filha hoje completa 24 anos.

Minha filha não usa o meu sobrenome para não criar ligação direta comigo.

Agendar um encontro com minha filha é uma operação de guerra. Chamo para almoço, jantar, café, viagem, cinema, e costuma arrumar uma desculpa e uma urgência para não aceitar.

Minha filha não comenta os meus textos. Muito menos revela se leu os meus livros.

Minha filha não usa as redes sociais para não criar parentesco com as minhas postagens.

Minha filha me deixa no vácuo quatro dias numa mensagem – eu até uso emojis para sensibilizá-la, sem efeito.

Minha filha não atende às minhas ligações – depois de algum tempo, pergunta se eu telefonei.

Minha filha não sofre com os meus problemas – avisa que é para parar de drama.

Minha filha não se emociona com o meu abraço escandaloso na rua, pelo contrário, faz um gesto de menos.

Minha filha reclama quando beijo o seu rosto e roço as bochechas com a minha barba.

Minha filha sugere que tem vergonha de mim, e é, no fundo, orgulho. Quando o filho se opõe ao pai, significa respeito e admiração. Eu não fracassei, eduquei alguém capaz de me encarar de igual para igual e me testar para descobrir o quanto a amo.

Não me elogiar não quer dizer que ela não está me enxergando. Na hora em que precisar, surgirá batendo à porta e oferecerá o seu colo. Não sofro do desespero de perdê-la, estou eternamente em seus traços e manias.

Identifico o seu esforço de lutar contra a saudade, e reconheço o seu mérito.

Você só tenta escapar daquilo que é importante. Ela procura construir a sua personalidade longe de minha influência.

Eu compreendo: realizei semelhante oposição aos meus pais, escritores.

A beleza do conflito é que não existe bajulação, a relação é profundamente mais sincera.

Ela vem aprendendo a se defender do mundo comprando briga em casa. Há sempre um porém. Já entendi que não está à minha sombra. Cursa Letras, porém confessa que é para seguir um caminho diferente do meu. Escreve, porém mente que não é escritora. Compõe e canta, porém guarda as suas músicas para o seu próprio prazer.

Ela não admite o quanto somos parecidos. Logo descobrirá que não somos. Ela é muito melhor do que eu. Paternidade é rascunho.

Publicado em Jornal Zero Hora em 26/12/2017

O CHEIRO DA MÃE

Logo que a criança nasce, nas primeiras semanas depois do parto, a mãe deve evitar o uso de perfume. Para não confundir o filho.

O cheiro do corpo materno será a maior ligação que o bebê terá com o mundo. Tanto que ele costuma chorar no colo de que qualquer um, menos no colo da mãe, pois reconhecerá imediatamente o cheiro do pescoço. Só o olfato já o acalmará.

Pôr o pequeno no peito, ainda que não seja para mamar, trará o conforto da pele conhecida, o agrado de pertencer a um lugar definido depois do ventre.

É pela respiração que nos sentimos amados, antes das palavras, antes dos gestos.

O bebê mal pode enxergar, mas já sabe quem é quem pelo suor, pela química dos poros. É uma conexão primitiva, quase inexplicável, de animal com o seu ninho.

Quando ele inspira a pele da mãe, estabelece um endereço de proteção. Talvez represente o momento oficial de seu nascimento: quando ele liga o Wi-Fi da personalidade. Todo perigo se apresentará fora daquele corpo, daqueles quadrantes, daquela bússola.

A maior parte de suas lágrimas decorre de quando se vê distante do seu cheiro de existir, presente na mãe. É o seu primeiro cueiro, a sua primeira manta. É o seu esconderijo na luz, o seu ferrolho para entender o que está acontecendo e onde veio parar.

Suas lembranças primevas descendem do faro, o seu canal de comunicação com os outros.

Não é por menos que, adultos, nos comovemos com um olor, sem fixar a origem da atração. Surgiu certamente do berço, da nossa fulminante e arrebatadora estreia. Eu, por exemplo, sou apaixonado por hortelã. Numa conversa à toa com a mãe, descobri que era o seu chá predileto nas minhas semanas iniciais de vida.

Dos 3 mil odores que um ser humano pode colecionar ao longo de sua trajetória, há um apenas que lhe dará segurança.

Quando abraçamos a nossa mãe, refazemos a mágica da fragrância fundadora. Não há melhor abrigo para nascer de novo.

Publicado em Donna ZH em 25/12/2017

BROXADA GERA RELACIONAMENTOS LONGOS

Homem jura que perderá a mulher ao broxar. Mas, curiosamente, é broxando uma vez que nunca vai se separar.

A impotência eventual traz longevidade ao casal. Ainda mais nas noites iniciais.

Ele pedirá a mulher em namoro de bate-pronto, na primeira semana. Casará com a mulher sem frescura, já no primeiro mês. Tudo para ela não contar a mais ninguém o que aconteceu. Fará tudo pela relação para manter o segredo intacto. Será submisso e obediente, incansável e compreensivo. Suportará crises, barracos, ciúme, explosões. Encontrará o ponto de equilíbrio digno de Dalai Lama: o olhar infinito e cordial.

A broxada se apresentará como fiador do apartamento a dois. Ele não vai se arriscar a encerrar um romance e sofrer com a boataria. Prefere largar a sua vida de solteiro para manter a reputação.

Quando o homem falha, deixa de ser galinha, Don Juan, Casanova, comedor. Vira automaticamente um sujeito sério, comportado, disciplinado para o amor. Não espiará aos lados, não pulará a cerca.

Sua vulnerabilidade lhe salva da infalibilidade. Como já errou, não terá uma postura arrogante, de cobrar os vacilos dos outros. Nem cogitará a deslealdade. Passará o tempo inteiro lembrando e renovando a dívida de gratidão. Homem que já broxou é fiel. Irreversivelmente fiel.

Já a mulher não largará o flerte que fracassa na cama. Achará o nervosismo honesto e bonito. Julgará o parceiro como sensível, diferente dos antecedentes que apenas queriam sexo. Ao broxar, ele prova que o sexo não é tão importante.

Da mesma forma, ela vai querer ajudá-lo a superar o bloqueio. Oferecerá mais chances, mais disponibilidade, mais oportunidades. Muito mais do que um caso comum e tradicionais paqueras.

Ela assumirá o fiasco masculino como uma missão pessoal, até para se confirmar desejável. Abusará dos artifícios da luz, da trilha sonora, dos figurinos, dos fetiches, disposta a vingar a noite em seco.

Quando o homem broxa, a mulher se desespera em criatividade e ele tem o luxo inigualável de vê-la se matando com todos os seus recursos e artimanhas de sedução.

Homem que broxa é o único a desfrutar de um banquete.

Publicado em UOL em 22/12/2017

O ROSTO DESAPARECIDO

Já tive a tristeza de olhar alguns amigos queridos no caixão, pálidos, cobertos de flores. Eu não reconheci nenhum deles. Sempre levei um susto, como se eu tivesse entrado no velório errado.

A morte modifica o rosto, a ponto dele ficar irreconhecível. O rosto do morto não é o rosto de quem dorme. A face adormecida ainda é bonita, com a respiração bombeando a tez da pele. Durante o sono, nossos traços têm o contorno do lápis e a tridimensionalidade da luz.

O rosto do morto é impessoal, uma máscara de gesso, uma moldura barroca numa tela em branco, uma dor sem grito e sem socorro.

Antes acreditava que não havia olhado bem o meu amigo em nossos encontros, não gravei as suas nuances, pois ele me parecia distinto. Depois fui aceitando a ideia de que o fim transfigura a identidade. Aquele não era mais o meu amigo. Nem um gêmeo extraviado de meu amigo. Meu amigo não estava mais ali como eu o conhecia dentro da alegria. Toda morte troca o corpo. Nascemos e morremos em corpos diferentes.

Havia um estranho em seu lugar: feição sugada, queixo contraído, lábios menores do que o hábito da fala.

O choro vem porque nunca mais o verei, é a prova de que não mais o verei.

Até o morto não está em seu enterro - concluo, assoberbado. Chora-se pela sua lembrança mais do que pela referência presente daquele lugar sombrio de castiçais.

A impressão é que estou diante de um berço de madeira e ele se apequenou, regrediu de tamanho, tornou-se um bebê adulto, de colo. Na morte, somos pequenos e encolhidos, longe da imponência do movimento.

O que me confere a certeza de que temos um espírito nos aquecendo pelo interior dos músculos, temos um sopro milagroso e extraordinário dentro da gente, um vento divino de sentido.

A diferença entre o vivo e o morto é a alma. Quando a alma sobe, não resta mais nada. Por mais que a saudade procure forçar os olhos.

Publicado em O Globo em 20/12/2017

O MENINO DONO DA BOLA

A bola era cara antes dos anos 80. Não se reproduzia em série como hoje, não havia oferta do produto por diferentes marcas, não se adquiria a bola oficial da Copa, da Libertadores, do Campeonato Brasileiro e do Gaúcho, não podia ser encontrada em camelôs, muito menos tinha a aparência como a conhecemos: impermeável, sem costura, realmente esférica e de várias cores.

A bola tinha gomos de couro, que caíam conforme o uso. Ia se desfolhando como massa de pastel, até aparecer a bexiga, que saía para fora como uma espinha gigante pronta a estourar. Não durava muito. Costurada à mão, artesanal mesmo, exigia cuidados especiais, como esfregar sebo no couro, assim como um surfista passa parafina em sua prancha. Tudo para deixá-la mais resistente aos paralelepípedos e campos de terra batida.

O risco de perdê-la costumava ser imenso. Jogávamos também nas ruas, com traves de tijolos e, invariavelmente, diante do chute desesperado do zagueiro para desafogar o ataque, a bola quebrava uma vidraça ou parava no pátio de alguma residência, e os vizinhos não a devolviam, para compensar o prejuízo. Isso quando não terminava atropelada por um carro. O estouro ou a apreensão de uma bola poderia significar o término da brincadeira por meses, suspender o campeonato do bairro, pois a turma não desfrutava de condições de comprar outra.

Receber uma bola de presente costumava ser uma dádiva da classe média alta para cima. Coisa rara para nós, molecada descalça.

O que criou condições para o surgimento de uma figura odiada no meu tempo: o menino rico que dava carteiraço porque trazia a bola. Ele nunca jogava nada, inábil e desastrado, com alma perna de pau, mas mandava e desmandava nas partidas. Agia como um híbrido de gandula, técnico e cartola. Abusava da autoridade de sua posse. A pelada só começava quando ele autorizava, do lado do time que ele desejava, com o regulamento inesperado de seu humor. Quando perdia, ele apitava o fim do duelo. Do nada, estragava a disputa, enervava o adversário dizendo que não havia vencedor já que o jogo foi suspenso e corria para casa com a desculpa de que a mãe o estava esperando. Queríamos bater em sua lata esnobe, enchê-lo de porrada devido a sua tirania, oferecer uma lição ao seu egoísmo filhinho da mamãe, porém pensávamos melhor e aceitávamos a cartolagem, passivos e obedientes, porque só ele possuía a bola, no raio de 10 quilômetros.

Todas as pessoas de que não gosto na vida, eu as imagino com uma bola debaixo do braço fugindo para casa. Nunca me recuperei dessa submissão na infância.

Publicado em Jornal Zero Hora em 19/12/2017

BEIJO DIÁRIO DE DESPEDIDA

Conservo um costume com a minha esposa: o primeiro a trabalhar não pode sair de casa sem dar um beijo de despedida. Mesmo que acorde o outro. Mesmo que derrube um objeto no escuro. Mesmo que sacrifique o seu mundo onírico.

Dói entrar no no quarto e ter que informar a minha partida. Talvez esteja quebrando o sono leve de minha mulher, rompendo a casca fina do insconsciente. Nem sempre ela pode dormir mais. Nem sempre ela tem uma folguinha nos horários. Mas é o nosso pacto. E acordos entre nós dois são inquebrantáveis - nos lixamos se os demais compreenderão a nossa rotina como dependência e submissão.

Chego de leve e arrisco um toque manso de boca. Seguro a respiração ofegante do café tomado, tento me conter, não quebrar os cristais do descanso, só que é ela me perceber partindo, com o perfume da loção na barba feita, que logo fica espalhafatosa: já me abraça forte e troca juras. Depois se amansa e vira ao seu lado, com o prazer do romance renovado.

Ela diz que a minha aparição não a atrapalha, ela até gosta. Confessa que dorme melhor sabendo que a amo. Espia a minha roupa, faz um check-in em meu terno e gravata, e fecha os olhos docemente. Eu sou uma espécie de despertador de celular, um alarme do amor. Ela já se habitou a ativar o tempo da soneca a parir da minha entrada para o tchau.

Ela acredita que a despedida diária mantém o casal unido. Quem não avisa que está saindo se desapega e pode não voltar. O hábito constrói o respeito e mantém acesa a paixão.

É a grande diferença entre o casamento e colegas dividindo a casa: a intimidade declarada. Quando avisamos da partida com os olhos dos lábios não deixaremos de nos procurar e nos enxergar durante a distância dos empregos.
Nossos bilhetinhos são feitos de pele, com a tinta da saliva. São dois anos invictos, com as datas presas ao calendário do ritual.

Não cumprir o nosso combinado me deixaria mal durante o resto da jornada. Não quero nem pensar viver diferente. Eu sussurro histórias de nosso romance em seus ouvidos, de manhã cedo, para ela adormecer e sonhar comigo.

Publicado em Donna ZH em 17/12/2017

SUBIR A MÃO É O VERDADEIRO TALENTO NA SEDUÇÃO

Os homens têm pressa pelo sexo. E a ansiedade só destrói a intimidade.

Sofrem com a mania de descer a mão assim que começa o envolvimento. E costumam tomar a iniciativa em festas e baladas.

Não sei da onde que julgam que a bolinação em público é agradável. É apenas constrangedor, não desenvolve a libido, não arrebata nenhuma mulher. Ainda demonstra uma falta de cuidado com a privacidade e com aquilo que os outros podem pensar.

Homem às vezes trata a mulher como homem logo querendo tudo de uma vez, chamando para o atrito (com semelhanças histéricas de uma briga), não importando a hora e o lugar.

Colocou na cabeça que precisa de uma atitude depois do beijo, que não pode ficar somente no beijo. Ou que o beijo é um semáforo verde para o resto do corpo. Engana-se, o beijo não é uma pulseira VIP para o camarote. O beijo já é tudo, já é explosivo suficiente para garantir a excitação. É no beijo que encontramos quem é capaz de voar no trapézio da nossa língua.

Como o homem jura que a pegação deve ser selvagem, ele se esparrama como um polvo em toques sem perícia alguma. Seria cômico se não fosse invasivo. E ele acha que a mulher segura a mão dele como provocação, ela segura a mão dele para que ele realmente pare, não está sendo divertido mesmo.

Pegada não é sair metendo os dedos. Mas exercitar o mistério do olhar e do elogio. Um beijo no pescoço arrepia mais do que alisar a calcinha, uma dicção séria cochichada no ouvido desperta mais estremecimento do que apertar o peito, uma carícia no rosto gera mais calor do que esfregar a bunda.

Segurar a cintura com firmeza, por exemplo, costuma obter grande sucesso na conquista, e revela uma destreza maior que qualquer afobação.

Isso não é um pedido conservador por recato e romantismo, é química. A sensualidade depende exatamente da mistura dos elementos, da hesitação e da insinuação, jamais da explosão direta do laboratório.

As palavras são as preliminares. Homem que não tem capacidade para falar nunca tocará o coração de uma mulher.

Publicado em UOL em 15/12/2017

A VIDA NÃO MAIS NOS PERTENCE

Os encontros deveriam ser marcados na última hora. Pena que não funcionam.

Agendamos compromissos quando estamos dispostos de manhã e não nos damos conta da exaustão do final do dia. Planejamos um cinema, um show, uma balada com amigos no momento de tranquilidade, e não percebemos que ainda teremos que atravessar um percurso inteiro de preocupações. Não há como ter conhecimento prévio do estresse que nos espera. Programamos o lazer noturno como se desfrutássemos do mesmo fôlego do despertar. Persiste o desejo de se divertir, porém o corpo não responde aos comandos da euforia.

Sempre ocorre um desgaste mental, um jogo de nervos, um dilema moral: será que vou ou não vou?

O contentamento vai desaparecendo lentamente, devido às atribulações da rotina.

No anoitecer, aquilo que foi anotado na agenda com ânimo e entusiasmo logo cedo já não parece tão agradável. Pelo contrário, a vontade é de cancelar sumariamente e achar as desculpas mais loucas para deitar na cama, colocar roupas confortáveis e procrastinar na frente da televisão.

Somos um ao combinar saídas e outro completamente diferente na véspera de sair. Não é desamor pelas amizades, não é velhice ou depressão, é simplesmente cansaço inesperado. Não possuímos controle do que virá pela frente, dos improvisos e desmandos profissionais. Somos sugados pela carga cada vez maior do emprego, pois não descansamos nem um minuto dos apelos das obrigações, dos e-mails, do WhatsApp e das ligações. Não há trégua e respiro. Morreu o lanche da tarde que animava o serviço e renovava o gás - o recreio e a sirene ficaram enterrados na vida escolar. É uma atenção em tempo integral que não vigorava antes da web. A jornada de 8 horas é folclore - não conheço quem não se dedique mais de 12 horas para a sobrevivência. A CLT está longe da realidade, prevê o que recebemos no salário, nunca o que efetivamente trabalhamos.

Quando um amigo desmarca um encontro, não condeno. Perdoo os furões. Sei que ele também é vítima da insalubridade digital.

Publicado em O Globo em 14/12/2017

PERIGOSA SUPERPROTEÇÃO

Talvez um dos grandes dilemas da vida seja deixar o outro fazer. Aguentar o outro empreender algo que você domina bem, sem interferir, é uma proeza.

Você vive reclamando de que realiza tudo sozinho em casa. Já cogitou a ideia de que você é que não cede espaço?

Você lava a louça todo dia porque não permite que ninguém se habilite. Você prepara a refeição todo dia porque não permite que ninguém tente. Você arruma a casa todo dia porque não permite que ninguém execute devagar e diferente.

Como você ama os filhos, às vezes quer ajudar e termina cumprindo as tarefas no lugar deles.

Não adotar a superproteção é difícil. A síndrome samaritana que aflige os pais surge quando as crianças começam a caminhar, a falar e comer sozinhas. Na verdade, você está apavorado com a hipótese de não ser mais necessário e carrega o bebê no colo quando ele pode caminhar, põe comida na boca quando ele já pode segurar a colher, responde por mímica quando ele já pode pronunciar as palavras.

Quando pensa por dois, pelos dois, não colabora para a independência de quem gosta.

Ajuda, por motivos nobres mas tortos, a formar pessoas vulneráveis, fragilizadas, despreparadas para a rotina. E o filho que julga que criou bem de repente não entende como é riscar um fósforo.

Existe uma hora virtuosa da incompetência, de suportar a bagunça, ficar de lado e aceitar que as pessoas aprendam na marra, dentro da sua solidão. Um momento de se ausentar para que os demais possam aparecer e se desenvolver. Mesmo que isso signifique que elas se deem mal. Mesmo que isso custe sofrimento e frustração.

O caso engloba, inclusive, os tratos entre marido e mulher. Há casais em que somente um trabalha, um dirige, um paga as contas, um organiza o futuro. E não vigora equilíbrio pela exclusividade de funções por um lado apenas do relacionamento.

É preciso combater a falta de amor e também o excesso de amor. Pois o amor escraviza. E o escravo é, estranhamente, aquele que não faz nada. Ou melhor, não pode fazer nada.

Publicado em Jornal Zero Hora em 12/12/2017