quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O PRÓXIMO

Para Jerônimo

O vô tomava um cálice de vinho no almoço e na janta. O neto terminou sendo sommelier para perpetuar a memória dos círculos na toalha de linho e da gargalhada rubra no cristal.

Todo o final de semana costumava ser sagrado para os dois. O neto adulto levava debaixo do braço a garrafa mais cara para beberem juntos. Durante quarenta anos, mantiveram a rotina, até o avô falecer. Os trabalhos começavam na mesa da varanda, migravam para a mesa da sala e terminavam na mesa do pátio, entre pedras e cactos.

O neto era o seu traficante de aromas, o seu contrabandista de sentimentos, a sua extensão ancestral.

O avô, assim que bebia o primeiro gole, dizia a mesma coisa: – É o melhor vinho da minha vida.

O neto ria da sentença, apesar de nunca definir como o novo poderia ser melhor do que o anterior. Não era capaz de acertar sempre e sempre se superar. Mas, por mais que o rótulo fosse diferente, a garrafa diferente, tratava-se do melhor vinho para o avô. Aquilo o enchia de orgulho e ele acreditava, como uma criança acredita em anjos, acredita em recompensas das formigas pelos dentes caídos, acredita em cruzar os dedos para ter sorte.

Uma tarde, antes do avô baixar hospital, ele perguntou qual de verdade tinha sido a mais encantadora degustação.

O velho, meio que tossindo e meio que tirando graça, arrematou:

– O próximo! O próximo será o melhor de todos.

No funeral, antes do caixão se enfileirar para adega de Deus, o neto abriu um vinho e derramou lentamente o seu conteúdo na tampa de vidro.

Ele foi um anfitrião enterrado a sete palmos da terra e a três dedos de vinho.

Publicado em Vida Breve em 30/08/17

LIMPANDO MANCHAS COM A SALIVA

Eu fiz aquilo que sempre odiei.

Notei uma mancha de pasta de dente no casaco do abrigo de meu filho antes da saída para a escola e tentei limpar com a saliva. Foi um gesto impensado, passional, visceral. Quando vi, já raspava a unha no tecido. Havia desaparecido o pedágio do pudor dos pensamentos e segui com os braços em alta velocidade.

— Que é isso, pai?

Ele me censurou e, então, caí em mim. Acordei do transe paterno, do coma do instinto que atinge os bichos com as suas crias. Resmunguei uma desculpa, mas ainda estava, mesmo errado, me sentindo convicto do meu ato. Veio a confusão de lembranças: ser pai é voltar a ser filho.

Lembrei que a mãe tinha a mania de tirar alguma mancha do meu uniforme escolar umedecendo o dedo em sua boca. Assim como ela virava as páginas das revistas nas salas de espera dos consultórios. Achava nojento. Preferia ir para a aula sujo a ir com o casaco cuspido. Não me faziam mal manchas de café ou do Nescau, justificáveis, eu me incomodava com a esfregação improvisada. Jamais sonhei que estaria no outro lado do balcão da alma, realizando o que abominava. Jamais imaginava que, de vítima, viraria protetor.

Mas a vida propõe a mudança generosa de lugares. Eu só não queria o meu filho entrando na sala deselegante. Ele pairava acima dos meus nojos e preconceitos. Não teria mesmo como me controlar. A educação supera condicionamentos e medos e somos mais do que a nossa mera identidade.

Não sofro com a fama de chato que possa receber por minhas tempestuosas manias.

Uma hora ou outra, o feitiço atingirá o feiticeiro. O que mais odiamos, com o tempo, será o que mais amaremos. Eu amo o que odiava. Amo fazer coisas de meus pais que odiava neles. Amo ser hoje os meus pais. Com os hábitos invasivos de mexer no cabelo dos filhos de repente, para ajeitar o penteado, ou de me agachar do nada para arrumar as bainhas das calças presas nas meias. E apanhando até terminar as tarefas: eles estapeiam as minhas mãos quando sou frenético pente ou começam a caminhar quando sou imóvel engraxate. A resistência deles com "para, pai" ou "não precisa disso" aumenta a minha ternura. Experimento cenas patéticas e ridículas publicamente.

Surgem relâmpagos de cuidados que não sei frear. Riscam o céu de minhas veias.

O clarão impulsiona o corpo e ele simplesmente obedece. A impressão é de que morreria se não fizesse. Chamava a minha mãe de dramática e agora divido o palco com ela na ópera do cotidiano.

Talvez o zelo morasse em mim desde pequeno, esperando a paternidade para aflorar.

Publicado em Jornal Zero Hora em 29/08/17

O CARÁTER QUE SE REVELA NA CONFISSÃO

Contar um segredo é a triagem do caráter.

Ou o segredo liberta ou aprisiona. É confessando algo de que nos envergonhamos que saberemos se a pessoa é a nossa amiga ou não. Não tem teste tão veemente, com efeitos mais imediatos.

O confessionário prova se o outro é leal. Expor uma lembrança triste a quem não é de confiança logo vira chantagem, logo vira moeda de troca, logo vira favor. Pode não espalhar para os demais, mas usará a informação para obter vantagens e transformar a culpa em superioridade. Aquele que não é amigo se aproveita da fragilidade para garantir benefícios. Fortalece a vítima para desmerecê-la. Levanta para cima, diz que o segredo é nada, dissuade o medo, para rir depois da queda.

Não é um amigo, porém um inimigo em potencial, um adversário disfarçado de bons modos. No fundo, não tem escrúpulos. Aproxima-se para impor os seus interesses. Está jogando sujo para ganhar recompensas fáceis. Ele se faz de compreensivo e compassivo com o objetivo de manipular a relação.

Há como prever o Judas antes da confissão. Pois Judas trai com um beijo. Será alguém que se mostra muito carinhoso de uma hora para outra. Tem pressa de saber tudo a seu respeito, sem nenhuma razão aparente. Aparece forçando a intimidade, com convites generosos e apoios nababescos.

Cuide com o que fala. Porque aquilo que falar mostrará a natureza de suas companhias. A decepção virá rapidamente na forma de um insulto e de uma ironia. No primeiro desentendimento, o túmulo de cimento das palavras não resiste às marteladas da profanação.

A traição será sempre a violação de uma confidência. Os suspeitos não mudam com o tempo. É um colega de trabalho concorrendo com você. É um antigo afeto querendo vingança. É um familiar ressentido com o passado.

Amigo que é amigo escuta e esquece, e jamais volta para o assunto. Ouve e apaga. Escreve na água, para a onda levar. Escreve na areia, para o vento cobrir.

Cumplicidade é como bebedeira, nunca lembrar o que aconteceu durante a vulnerabilidade da conversa.

Amigo que é amigo mantém a decência de uma gaveta, de um cofre, de uma chave. Demonstra a sobriedade educada e gentil de ajudar e desaparecer. Já cumpriu o papel de dividir as dores e frustrações. Não alimenta a ambição de ser maior do que o silêncio.

Publicado em Jornal Zero Hora em 27/08/17

HOMEM SÓ CASA COM QUEM COBRA MAIS QUE A PRÓPRIA MÃE

Foto: Getty Images

Homem sempre reclama das cobranças de sua esposa. Enche a boca de orgulho para resmungar que ela policia os seus horários e impõe restrições.
O que ele esquece é que a mulher somente cobra porque ele é quem quer. Ele adora cobranças. Adora ser reprimido para depois reclamar.
Faz questão de antecipar o horário que volta, expor a sua programação, dizer onde vai e com quem vai. Sem ninguém pedir, vive se explicando e dando satisfações. Já entrega o mapa de sua rotina aguardando o GPS.
Homem é inseguro e ambiciona por alguém de fora que estabeleça limites. Assim ele não executa o que não deveria, mas nunca por falta de vontade, esconde-se no pretexto da submissão. Não é que ele não deseje ser fiel, ele não pode ser infiel. Não é que ele não deseje jogar futebol todo o dia, ele não pode jogar futebol todo o dia. Simplesmente porque ela - a sua megera inventada - não deixa. Mantém a sua pose de poderoso chefão, com o detalhe de que se acha provisoriamente atrás das grades do matrimônio. Sua soltura está vinculada a um habeas corpus. Tanto que sempre parece que foi forçado ao casamento, que nunca é uma opção consciente e sadia. "Não tinha mais como fugir" é o seu epíteto para o amor.
O fetiche por cobranças o alivia da carga de sua responsabilidade. Não precisa se censurar ou dizer não a si mesmo, acusa a sua companhia de cercear e realizar o seu trabalho. Ele espalha a fama de seguir com o que não gosta e assim se isenta da participação dos resultados.
É uma dependência forjada e mentirosa. Ao mesmo tempo, ele apenas consegue amar com implicância e incomodação, com barulho e barraco. Parte do princípio equivocado de que aquela que cobra é a única que se importa e, ao se importar, demonstra que ama. Como se a chatice fosse sinônimo de atenção.
Desde pequeno, ele encontra a disciplina com as ordens maternas - cumprindo o trabalho doméstico a contragosto. Por ele, não arrumaria a cama, não lavaria a louça, não ajeitaria a sua bagunça. Como é obrigado, requisita recompensas e troféus por algo que deveria ser natural.
Por isso ele se afasta e rejeita mulheres autônomas e independentes, financeiramente e afetivamente. Tem medo de perfis livres e vacinados contra a carência, o mimimi e a chantagem.
Ele prefere uma relação simbiótica para desenvolver o mecanismo de superproteção e não vê que transforma a sua esposa em mãe. Aliás, ele só casa com quem cobra mais do que a sua mãe.

Publicado em UOL em 25/08/17

NEM NO LADO ESQUERDO, NEM NO LADO DIREITO

Foto: Gilberto Perin

O amor nos tira o lugar do sono.
Você nunca dormirá do mesmo jeito depois de casar. Nunca voltará a descansar num lado certo da cama, num canto fixo. Não será mais no lado direito ou esquerdo, será atravessado. Ocupará as linhas verticais e horizontais progressivamente.
Toda a cama estará desarrumada ao despertar. Na adolescência, você se restringia a uma metade. Podia acordar e a segunda metade resistia intocada. Era fácil arrumar as cobertas, bastava ajeitar o montinho.
O amor perturbou a sua bússola. Depois de casado, jamais terá paz. Dormir é também se desesperar por um abraço, uma conchinha, um toque. Dormir é correr por dentro dos lençóis. É o constante medo de perder alguém e o habitual resgate.
Buscará os pés de quem ama no decorrer da madrugada, aceitará a confusão do espaço, não determinará mais o que é seu, enroscará as pernas nas pernas do outro. Não mais dormirá parado como antes. Estático. Estará, pouco a pouco, migrando para o cheiro vizinho. Escorregando para mais além.
Pode se separar, pode pousar longe num hotel, pode ter a cama somente para si, não importa, o seu corpo se encontrará cruzado. A cabeça na esquerda e o tronco na direita. Qualquer que seja a noite, qualquer que seja a manhã. O ninho se espalhou pela árvore inteira. A árvore se espalhou pelo céu.
Acostumou-se a se mexer de modo incessante, a cumprir uma ginástica involuntária, a completar uma coreografia inconsciente. Afasta-se e se aproxima sem parar, vira-se para ficar sozinho mas se sente logo culpado e procura estar junto de novo.
Nunca retornará à uma posição definitiva e calma, de usar apenas uma parte necessária do todo. Enfrentará a sina igual, divorciado ou casado: um crucifixo em movimento, revirando o norte e o sul, o leste e o oeste do quarto. Trata-se de uma herança irreversível da vida de casado.
O amor amputa a tranquilidade da cama. É dormir dobrando o corpo e se amontoando com a companhia.

Publicado em O Globo em 24/08/17

NOSSOS PROFESSORES ESPANCADOS

Arte: Eduardo Nasi

Educação é disciplina, é saber ouvir, é pedir licença e não esquecer do por favor e obrigado.

Educação é respeitar os mais velhos, é levantar a mão para falar, é aprender a ficar em silêncio.

Educação não é entretenimento, diversão, passatempo, lazer, show de música, alvoroço.

Não é feita para agradar os alunos, não é produzida para elogios e bajulação, não é palco para conquistar simpatia.

Educação não é violão e refrão, é voz e firmeza.

Educação não é brincadeira, não é recreação, não é fingimento, não é missa de corpo presente.

Educação é hierarquia, é escala, é obediência, é aceitar a autoridade, é fazer fila indiana, é alinhar as cadeiras, é estudar para prova, é fazer os temas, é perder tempo para adquirir atenção e foco.

Educação é dureza, seriedade, oposição, lidar com aquilo que não se gosta, suportar o desconhecido, enfrentar a ignorância, alfabetizar a emoção, descobrir que não se pode tudo, desligar o celular, afastar-se das redes sociais, calar-se para a frente quando a vontade é falar para os lados.

Educação não é amizade, não é passar a mão na cabeça dos desaforos, não é fugir do confronto.

Educação é se incomodar, é colocar de castigo, é repreender, é suspender, é censurar, é ser democrático nas exigências, é enfrentar os interesses da turma. É não ter compaixão, é reprovar se necessário, é não dar desconto, não realizar vista grossa. É a caneta vermelha formando uma cerca para o erro não se tornar hábito.

Os professores não devem ser simpáticos, legais, amáveis – ensinar não tem a ver com obter unanimidade e faixas -, devem se mostrar somente como referências de conteúdo, metodologia e ordem.

Educação não é para ser moderna e avançada, e sim clássica e tradicional. Quanto mais antiga mais atual. Quanto maior o passado maior o futuro.

O que aconteceu com a professora na escola pública de Indaial (SC) mostra o quanto perdemos o rumo. Marcia Friggi relatou nesta segunda-feira (21) ter sido agredida por aluno de 15 anos. Recebeu uma sequência de socos após expulsar o estudante por mau comportamento.

Se chegamos ao extremo de testemunhar um professor ser espancado e achar normal, não há mais nenhum degrau para descer na degradação humana. Se encontramos atenuantes e explicações para tamanha monstruosidade já convertemos as escolas em penitenciárias.  Transformamos a tolerância em omissão criminosa. Extraviamos a civilidade para sobrevivermos como bichos, regidos pelo medo e pela truculência.

O desastre parece inexplicável, porém não foi freado a tempo quando surgiram os primeiros sinais. Começa com uma inofensiva brincadeira e se deixa passar. Depois o estudante ganha confiança, importância com os colegas, assume a sua liderança na maldade e passa a insultar o professor. Como nada é feito, ele se sente no direito de perseguir e ameaçar dentro e fora da sala de aula. Como nada nada é feito, espera o professor na saída para exercer a sua vingança verbal e hostilizar a sua família.  Como nada nada nada é feito, vê total impunidade para agredir, depois espancar e, por fim, matar. E é tarde para recuperar os danos.

Um país que não respeita o professor jamais será digno do hasteamento da bandeira e do hino nacional.

No Brasil, o giz branco está manchado de sangue.

Publicado em Vida Breve em 23/08/17

TODO MUNDO TEM UM POUCO

Com a atual evolução da medicina, não haveria super-heróis.

O incrível Hulk, antes de sua transformação verde, tomaria Rivotril e jamais perderia as suas roupas. Poderia até arrumar um trabalho irritante de teleoperador ou de segurança de boate e não mais se irritaria com nada. Batman seria medicado com antidepressivos para contornar o trauma de ter visto os seus pais assassinados em sua frente. Não iria se fantasiar de morcego nem morar em cavernas. Talvez se transformasse em corretor imobiliário. Wolverine, com alentadas sessões de hipnose e regressão, superaria seus antecedentes bastardos, já que foi fruto da infidelidade de sua mãe, Elizabeth Howletts, com Thomas Logan, o jardineiro da mansão. Representaria o Canadá na equipe de esgrima nas Olimpíadas. O Homem-Aranha, com aplicação de um forte antialérgico, estaria normalzinho e, no máximo, subiria em andaimes para pintar murais em prédios nova-iorquinos.

Todos têm em comum a sede de vingança. Todos apresentam um defeito hipertrofiado. Ninguém é herói por uma virtude. Mas por uma falha trabalhada ao extremo a ponto de virar uma arma.

Nenhum traz bons sentimentos. Recalques e transtornos é o que provoca os superpoderes. Conservam a humanidade de perdas e dores debaixo das capas e das fantasias invencíveis. Eles procuram a justiça porque sentiram na pele a falta dela.

E a maior parte dos ídolos da Marvel estaria catalogada com sintomas de esquizofrenia ou psicose ou histeria ou dupla personalidade ou borderline.

Com receitas médicas, a Liga da Justiça estaria extinta.

Numa sociedade que endeusa o equilíbrio, que os super-heróis nos devolvam a sanidade. É de se pensar que suportar um naco de sofrimento não é tão grave assim. Gera disciplina e obstinação. Produz entendimento e empatia com outro. Cria referenciais para a superação de adversidades.

Não devemos nos automedicar nem seguir tratamentos indicados por amigos, muito menos prosseguir com a intolerância máxima a qualquer mal-estar. É preciso aguentar um turno de enxaqueca ou cinco minutos de azia. É salutar não resolver tudo na hora com comprimidos.

A dor não mata, mas a falta de dor com medicação excessiva é assassina, não ajudando a nos prevenir da dependência e nos tirando a força para nos defendermos, sozinhos e sóbrios, da vida.

Os remédios são um controle falso do corpo.

E, se usados com frequência, não de modo especial e provisório, sem a devida orientação, escravizam e alteram o nosso temperamento.

A medicina serve para amparar a humanidade, não substituí-la.

Não dá para curar cem por cento os problemas — que é neutralizar a espontaneidade.

De super-herói e louco, todo mundo sempre terá um pouco.

Publicado em Jornal Zero Hora em 22/08/17

MALANDRAGEM FAMILIAR

Quando alguém de casa me pergunta se eu vi determinada coisa, não está, na verdade, me questionando, está me culpando e me pondo a trabalhar para achar. A incriminação é falsa, um oportuno artifício para ganhar a atenção. Pois tenho que provar a inocência de uma hora para outra. Sou obrigado a cessar as minhas preocupações, por mais importantes que sejam, para investigar onde a pessoa deixou o objeto. Azar dos textos encomendados, das leituras em aberto, dos contatos a responder na caixa de mensagens.

O interesse de quem perdeu é criar pânico, mobilizar a casa para resolver o desaparecimento. É parar tudo e todos em nome de uma causa pessoal. E aquele que perde sempre está atrasado, prestes a sair, com a mão na maçaneta, o que agrava a urgência.

A acusação é absurda. Não toquei naquele pertence nos últimos dias. Mas, por ser descabida, fico com vontade de esfregar na cara que não fui eu.Não percebia antes a moral da cilada. O propósito é mesmo sortear a responsabilidade para desfrutar de investigadores de graça. O babaca aqui, disposto a provar algo que não fez, dedica os seus melhores esforços na procura.

Já quem esqueceu o paradeiro do objeto costuma se tranquilizar com a movimentação frenética das equipes de busca e permanece parado, apenas coordenando de longe a gincana. Ele cria uma história de que é vítima de um enxerido, da arrumação alheia, e não se mexe. É a maior malandragem da vida familiar. Quando a coisa sumida reaparece é num lugar engraçado, deixado por nada menos do que o seu próprio dono. Ele, aliviado, enterra o assunto e a difamação dos próximos. Nem pede desculpa aos suspeitos.

Acabo sempre recrutado para caça ao tesouro. Os filhos e esposa se aproveitam da minha ansiedade. Reencontrei brinquedos escondidos nas estantes, celulares no estofo do sofá, brincos no tapete fofo da sala. Sou um Google Maps dos extravios.

Da próxima vez, não sofrerei à toa, chamarei de pronto o meu advogado.

Publicado em Jornal Zero Hora em 20/08/17

O GRANDE VEXAME QUE É DESAMAR

Foto: Getty Images/iStockphoto

Não existe maior constrangimento do que deixar de amar. Dificilmente haverá uma vergonha maior. Nem a traição, muito menos a deslealdade gera colossal timidez. Pois, com a traição e a deslealdade, você ainda acredita que pode se redimir e pedir perdão com trabalho forçado. Já a falta de amor não tem conserto. Acabou em si qualquer dúvida, qualquer vontade de discutir e melhorar. Está seco para segurar o fogo, como um tapete de cera no altar de promessas.
O amor desapareceu e, com ele, o brilho do olhar, a curiosidade da boca e a atenção do corpo. É um morto caseiro, não um morto público. Um morto somente para uma pessoa, para as demais ainda vive.
Ficará absolutamente sem graça para explicar para a parte interessada o que aconteceu. Não há um motivo específico. Deixou de amar simplesmente. Como dar a notícia para quem talvez ainda o ame? Dizer meus pêsames? Abraçar e desejar boa sorte?
Pela primeira vez, enxerga a sua companhia como uma ex. Terá que lidar, ao mesmo tempo, com a novidade, com a estranheza íntima e acalmar os ânimos.
Não é simples. Quem deixa de amar carrega a dramaticidade de um impostor nas palavras. Porque foram feitas promessas de longevidade que não surtem mais efeito. Não mentiu enquanto amava, mas agora que não ama o passado de juras e felizes para sempre será visto como uma mentira. Uma grande e deslavada mentira.
O desejo sumiu, a intenção de permanecer sumiu, não dói fazer a mala, não é mais nenhuma chantagem ou agressão, não provoca uma cena para apressar a reconciliação e vencer a discussão por nocaute, não desfruta sequer da vontade de chorar e de gritar, nada que possa ser dito mudará a natureza do fim, é apenas um desprendimento total. Quer sair dali correndo, entretanto ninguém corre num cemitério, sob o risco de pisar nos falecidos, derrubar as flores e vasos entre as lápides. Precisa caminhar devagar, rezar e enfrentar o vazio.
Estará sozinho frente a alguém desesperado, atormentado, incrédulo, quase sentindo pena. Compaixão de si pela tarefa de comunicar o que não entende.

Publicado em UOL em 18/08/17

O MEL DO AMOR

Foto: Gilberto Perin

O amor começa puro, sem mentiras, sem segredos, sem vergonha. É uma confiança absoluta, uma lealdade invejável. Como o mel lá de casa. Como o mel em todas as casas.
É só ter preguiça e comer o mel no pote, colocando a colher com a saliva de volta no conteúdo que o mel azeda. Quimicamente muda o gosto dos favos. Dali por diante, as confissões são favas contadas.
Quando deixa o pote aberto, a relação escancarada, a umidade pode alterar o mel pois terá água para uma bactéria do ódio se desenvolver.
É só narrar tudo o que acontece para os outros que o mel dos laços estraga.
O risco não é descrever apenas tudo o que acontece na vida a dois. É descrever também tudo o que não acontece, e cobrar desejos com juros e correção.
O romance fica exposto, sujeito a julgamentos e mentiras. Você perde o controle das lembranças a partir de conselhos e intromissões de familiares e de amigos.
Permite o contágio da inveja e do ciúme do mundo externo. Os dias adoecem de suspeitas. Há a descrição de pensamentos como se fossem fatos, e o exagero vai minando a verdade. Ao narrar o que se vive cada ouvinte aumentará um ponto. O que era poesia vira conto de terror e o que era conto de terror vira romance de suspense. Quem é distraído receberá a fama de indiferente, quem é estressado receberá a fama de egoísta.
A difamação sempre começa do casal para fora, não vem de fora para dentro. No momento em que se lambe a colher e se confunde o medo com a realidade e o coração sai pela boca.
Temos que selecionar o que vale ou não vale dizer do namoro ou do casamento. E guardar o que não é certeza e dividir o que é convicção. Jamais jogar fora o esforço secreto das abelhas por bobagens. Jamais inverter o trabalho dos insetos e converter o açúcar em pólen.
O mel do amor morre com a fofoca.

Publicado em O Globo em 17/08/17