quarta-feira, 23 de julho de 2014

PADRINHO DO DIVÓRCIO

 Arte de Eduardo Nasi

O terapeuta guarda sigilo, e apenas ele pelo jeito.

Virou mania nas discussões de relacionamento empregar o terapeuta como argumento. Ele é sequestrado, citado, profanado dia a dia.

Ao brigar com sua mulher, estará debatendo com ela mais seu terapeuta. São sempre dois contra um. É um ménage psicológico.

Qualquer problema do casal e já se joga a opinião do terapeuta. É um recorte e cole infinito de máximas do consultório ao longo dos desentendimentos de casa.

Dos naipes da disputa, ele surge como um Curinga do convencimento, um fiador das decisões. Quando se perde o domínio, é chamado espiritualmente para reverter o quadro e socorrer sua crença.

Ele é o novo Messias da consciência, só que seus consultados não respeitam o segundo mandamento e tomam seu santo nome em vão.

“Não é o que pensa o meu terapeuta!” é uma das ameaças mais freqüentes nas DRs.

Ou seja, pode discordar de sua esposa, mas não do terapeuta dela. É o voto de Minerva no permanente desempate que é a vida a dois.

Em briga de casal, não se mete a colher, mas se mete a todo instante o psicanalista. O que é um último  recurso para trazer credibilidade para a ofensa.

— Ele diz que eu tenho razão.

— Ele concorda comigo.

Mais honesto fazer terapia de casal, pois você já vem sendo atendido indiretamente, sem nenhuma possibilidade de contraponto e defesa do seu contexto.

— O terapeuta não entende por que não me separo. Eu é que insisto.

Por afirmações como esta, que é criada rejeição à toa das consultas.

Você pretende se salvar denunciando o terapeuta.  Depois não ache estranho quando sua companhia ficar com raiva do divã e se opor à análise. Você acaba de entregar ao marido que ele está contra seu casamento.

Não cuide do que fala ao terapeuta, e sim cuide do que fala sobre o terapeuta.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
23/7/2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

TORTURA A DOIS

Arte de Umberto Boccioni

Nas compras no shopping, quanto tempo leva para seu homem sentar-se no banquinho dentro da loja?

5 segundos? 7 segundos?

Ele despreza as araras, os cabides, a decoração da loja, caminha direto para aquele banco, sonhando com aquele banco, que sempre fica perto dos caixas. Pode ser um pufe, uma banqueta, um sofá, mas ele vai se estirar naquele canto durante horas. Talvez mexa no celular, é certo que não levantará a cabeça para os demais clientes. Teme ser identificado. Está visivelmente constrangido pelo ambiente feminino. É um forasteiro num chá de fraldas. Em algum ponto remoto de seu coração, ele regride a sua infância. É outra vez um menino aguardando sua mãe fazer suas compras chatas em nome de uma recompensa (Sorvete? Chocolate?).

Não é educado, não esconde seu desgosto por estar naquele lugar, não acompanha o roteiro da curiosidade pelas novidades da coleção, chega e senta, chega e se acomoda. Como um condenado subindo ao cadafalso.

Tem horror de promoções, tem horror das conversas entre os vendedores, tem horror da música ambiente, tem horror a que lhe ofereçam água, café ou espumante, pois significa que vai demorar ainda mais, mas ele mente que deseja acompanhar sua namorada nas mil e uma portas em busca de não sei o quê.

Ele não contém sua fobia, a cadeirinha de dentro da loja é seu trono do tédio.

Todo homem procura desesperadamente a cadeirinha. Mendiga pela cadeirinha.

Não duvido que pagaria por ela se estivesse ocupada, compraria bilhete superfaturado de cambista, como se fosse um disputado show de rock.

Não decifro o motivo de os casais se maltratarem desse jeito – a saída contrariada para as lojas é um dos mistérios da relação.

Desconheço o que se passa pela cabeça do homem quando diz sim se detesta o circuito das vitrines. Custa ser sincero? Ele quer provar que tem paciência, que é generoso, que é a melhor companhia? Ou pretende garantir o sexo do fim de noite? É um vale-prazer para ser descontado na semana?

Apesar da intenção, não deveria tentar. Está na cara sua abominação. Está inscrito em cada fio de sua barba. Nem se esforça para ser agradável.

Da parte dela, é também incompreensível a insistência em levar seu parceiro.

Ele só servirá para cuidar da bolsa enquanto usa o provador e para depois carregar as sacolas.

Vale a aporrinhação?

Seria muito melhor passear com as amigas que podem fornecer dicas preciosas e jamais pressionar seu retorno imediato.

Mulher odeia compras com cronômetro. Por que levar o próprio alarme em pessoa?

Ele deveria ficar em casa porque cobrará cada minuto de sua espera. O que era para ser um passeio transforma-se num sacrifício.

Não vem explicar que é para ouvir a opinião masculina. Aquilo não é opinião, é resmungo.

Seu namorado dirá que está linda para todas as peças conservadoras e repuxará o rosto para as peças mínimas e sensuais. No fundo, sua opinião é o mesmo que nada.

Confesse que você não está se vestindo para ele. Nenhuma mulher se veste para o homem.

Ela pode se despir para ele, mas se vestir é um ato solitário e egoísta. Sempre foi.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 22/7/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17867

segunda-feira, 21 de julho de 2014

ESQUIZOFRENIA DO AMOR

Arte de James Gleeson

Não sei o que é mais perturbador: aquele que se sente incomodado e discute a todo momento ou o que atravessa a tempestade verbal sem nenhuma alteração de humor.

Já fui os dois, mas ainda arco com a indecisão sobre qual tipo ajuda mais o amor. Não tenho a resposta, até porque resposta nem sempre é solução.

Qual o perfil mais agradável: o que debate sem parar ou aquele que não debate nunca? O que chora nos primeiros minutos de distância ou o que não chora jamais? O que se desespera nas divergências ou quem vira as costas, bate a porta e foge de qualquer conversa séria? O que se mostra muito interessado em tudo o que se vive dentro do casamento, corrige os problemas na hora, sofre horrores para se fazer entender ou o que despreza os aborrecimento diários, não alimenta a fogueira das palavras e larga discussões com a confiança intacta, como se nada tivesse acontecido?

Não venha concluir que é o meio-termo, o meio-termo não é uma realidade amorosa.

Gostaria de entender qual dos extremos tem mais sucesso na resolução dos conflitos. Sobram pontos positivos e negativos para ambas as partes.

O primeiro ama escandalosamente, sofre com as oscilações do cotidiano, só que também não deixa os desentendimentos naturais esfriarem. Pode gerar rupturas pelo cansaço.

O segundo facilita a mudança de estado de espírito, só que parece gélido e imperturbável, subestima as dificuldades da companhia e corre o risco de criar um perigoso distanciamento na relação.

O primeiro tem a virtude da sinceridade, porém estraga a noite com sua ansiedade. Briga e não consegue realizar coisa alguma até firmar as pazes. Não dorme, não come, mergulha no mal-estar profundo. Apresenta beiço, raiva, contrariedade e vai se aquietar apenas com carinhos, abraços redentores e pedidos espalhafatosos de desculpa. É sincero, porém passional.

O segundo tem uma leveza maravilhosa e também irritante. Recém quebraram os pratos e conversa com absoluta desmemória, como se estivesse acordando naquele momento. Ao mesmo tempo em que evita dramas desnecessários, também não permite a intimidade da raiva e da catarse. A sensação é de que os gritos e as discordâncias entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Você está inchada do choro e ele já está vendo sua série predileta e rindo loucamente.

É uma dúvida insaciável, a mesma que atinge nossa reação diante do ciúme: se preferimos estar acompanhados do preocupado que não oferece um minuto de trégua ou de um indiferente, que nem nos olha?

Cada vez mais reconheço que no amor não existe o melhor, mas o menos pior.



  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 20/7/2014 Edição N° 17865

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A TERRÍVEL LISTA DE MERCADO

 Arte de Hans Hartung

A esposa já desistiu de me preparar a lista para o mercado. Meu aproveitamento foi caindo de 80% para 60% para 40%. É impossível acertar os produtos. Trata-se de um exagero de detalhes, uma personalização extremada. É muita especificidade a ser exigida de uma mente masculina. Não tenho que comprar um xampu, mas resolver uma charada. Além da marca, preciso acertar mais cinco categorias do rótulo. É xampu para cabelos semioleosos, loiros, para o sol ou sombra, para o inverno ou verão, de exposição prolongada ou reduzida ou intensa, sei lá mais o quê.

Não é mais lista de mercado, é uma tese. Logo virá com notas de rodapé e referências bibliográficas.

Se erro qualquer item, minha mulher ainda me cobra que não a conheço, que não presto atenção. Gera discussão de relacionamento e quiz show sobre tudo o que sei dela.

Perco horas conferindo as informações. Vou ao mercado de manhã e volto só de noite.

Ou trabalho ou faço super. Minha vida é este dilema.

Ouça meu comentário dessa sexta (18/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 16 de julho de 2014

ME AJUDE A RIR

Você é maníaco por sexo?

Descubra em minha entrevista no talk-show The Noite Com Danilo Gentili.

Em meia hora de conversa, explico o quanto boicotamos a alegria com medo da inveja, falo de meu novo livro Me Ajude a Chorar (Bertrand Brasil) e defendo o café da manhã como ponto alto da sedução.

O programa foi exibido na noite de terça-feira (15/7), no SBT.


NÃO ESTOU ACUSANDO NINGUÉM

Arte de Eduardo Nasi

A culpa é a mãe de todo o homem.

Injusto afirmar que ele pensa uma coisa e faz outra. Ele pensa uma coisa, faz outra e sente outra ainda.

Ele costuma fazer o contrário do que fala e do que sente. Sua ação é diferente de sua conversa que é diferente de seu sentimento.

Quando a relação está por um fio, desgastada, arrebentada, toma o caminho inverso e se compromete ainda mais. Realiza planos extravagantes, assume dívidas, banca certezas. Quando está desesperançado, quando não enxerga saída, é o período em que alimenta as maiores expectativas e sonhos com sua companhia.

A facilidade esconde dificuldades. Ao ver fotos dele rindo no Facebook, radiante no instagram, jurando lealdade eterna, não conclua que alcançou o plano superior do contentamento amoroso. Talvez seja o oposto. O transbordamento masculino é disfarce.

Quem diz que ele não trai?

Homem infiel é contrafóbico. É quando promete casamento, filhos, joias, roteiros para sua namorada.

Homem infiel é generoso. É quando relaxa, busca conciliação, escuta contrapontos, exerce a humildade.

Homem perfeito só no inferno.

Prestes a se divorciar, ele se lança na contracorrente e se mostra submisso ao relacionamento.

No momento em que coloca os dois pés fora de casa, põe as duas mãos dentro da blusa da esposa. Aproveita a mala da despedida para viajar romanticamente.

Seu abraço apertado não é intencional, e sim assustado, para fugir da queda do abismo.

Exatamente o avesso do comportamento feminino. Quando a mulher trai, seu olhar fica longe, abstrato, distraído. Ela se ausenta por completo, vai se afastando pouco a pouco, criando territórios neutros pela residência.

O homem, por sua vez, é possuído de presença e magnetismo. Inventa arrebatamentos que não condizem com a situação indigente das brigas e discussões diárias.

Se a mulher não aguenta mais sua rotina, demonstra frieza no bom-dia. O pão não terá manteiga, o café será servido frio, os farelos não serão reunidos pela concha das mãos.

Já o homem é andarilho da dissimulação. Não entrega seu descontentamento nem no sexo. Procura se proteger e despistar seus desejos até tomar uma decisão. Próximo da ruptura e consciente do fim, abusará de surpresas e da imaginação sentimental.

Nenhuma amante será capaz de compreender seu comportamento, o que levará a crer que está sempre mentindo. Ele é incoerente, não mentiroso.

O perdão é o pai de todo o homem.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
16/7/2014

ESCORPIÕES DISFARÇADOS DE SIRIS

 
Arte de Francis Picabia


Raros são os que guardam segredos. Raros e invioláveis.

A maior parte dos amigos revela nossos segredos não por maldade, e sim por incompetência, absoluta inabilidade para a discrição e o respeito.

Nem são fofoqueiros, é que não conseguem conservar uma promessa e contam nossos segredos em forma de segredos para seus amigos guardarem segredo. Vão passando o segredo adiante, jurando que os demais serão capazes de sigilo (se nem eles que são próximos da fonte cumpriram a palavra, o que dirão aqueles que são distantes, sem nenhum compromisso?). E muitos partilham com a esposa ou o marido, alegando que são a mesma pessoa e que não tem como esconder nada dentro do casamento. Não absorveram a lição básica de que segredo é prato individual, não é porção para dois.

Tudo bem, já perdoei essas figuras, esses escorpiões disfarçados de siris, esses conselheiros com complexo de agência de notícia.

São confiáveis, mas fracos.

São leais, mas carentes.

São honestos, mas burros.

São bem-intencionados, mas influenciáveis.

É necessário inteligência para se esquivar da curiosidade alheia, suportar a pressão, rechaçar perguntas, não entregar o assunto com insinuações, ambiguidades e caretas.

O segredo é a prova de QI da Amizade.

O confidente deve amar seu temperamento, não ser preconceituoso, careta e teimoso, e protegê-lo nas mais diferentes combinações sociais.

Tenho amigos maravilhosos, divertidos, carismáticos, só que não posso abrir nenhuma confidência para eles, já percebi que vacilam e sofrem de incontinência verbal. E jamais assumem a gravidade de dar com a língua nos dentes. Arrumam desculpas para romper o pacto de silêncio. Ainda se acham certos.

Divido os falastrões em três categorias:

Falso generoso: usa o pretexto de que estava preocupado com você e não poderia conter a informação.

Inconsequente: limitado, não calcula os desdobramentos de seus atos, não compreende que segredo não é segredo por charme, é porque ainda não se está maduro para revelá-lo a todos, há grandes chances de estragar ou interferir na realidade.

Moralista: emprega o artifício de que abriu a boca porque não sabe mentir. Além de jogar no ventilador sua intimidade, ainda – por tabela – atingirá sua honra e lhe acusará de mentiroso.

Depois de muito penar, vejo que manter segredo é uma vocação sublime.

Escolher um confidente é tão difícil quanto encontrar o verdadeiro amor. Será um por vida, não mais que um.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2,  15/7/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17860

terça-feira, 15 de julho de 2014

MELHOR QUE STATUS NO FACEBOOK

Arte de Nahum Tschacbasov 

O elogio testa o nível de confiança do namoro ou casamento da mulher.  Verifica como anda seu romance, sua alegria amorosa, sua disponibilidade social.

Um das primeiras provas de total falta de estima é não saber acolher um elogio.

Quem está com sua vaidade em alta, transando loucamente, vivendo uma lua de mel, recebe um elogio, sorri, diz obrigado e vira as costas. Nem dá margens para a conversa.

Quem está com alguma dúvida ou desconfiança na relação recebe um elogio, fica encabulada e começa a fazer perguntas: Mesmo? Ninguém me falou isso? Aceita o elogio como uma cantada.

Quem está com o relacionamento em crise recebe um elogio e desanda a falar mal do namorado.

Quem está prestes a se separar, absolutamente carente, recebe um elogio e entende que é uma promessa de casamento.

Já quem não acredita mais no amor recebe um elogio e revida com palavrões. O otimismo somente ofende. Acha que as palavras de agrado são deboche. Dessa figura, mantenha distância.

Ouça meu comentário na manhã dessa terça-feira (15/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


SÓ É FÚTIL QUEM NÃO AMA

Arte de Gerome Kamrowski

No amor, eu quero ser útil.

Que você aceite o que tenho para dar, senão dói o excesso em mim.

O excesso que não é dado me machuca.

O excesso que não é dado acaba em egoísmo.

O abraço que fica comigo me emburrece. O beijo que fica comigo me angustia. A palavra que fica comigo me tranca. O sonho que fica comigo é solidão.

Aceitar o que ofereço já é me cuidar. Aceitar o que ofereço já é me amar.

Que você me deixe ser carinhoso, que me deixe ser romântico, que me deixe ser educado, que me deixe ser tarado, que me deixe ser preocupado, que me deixe falar bobagem para atrair sua infância.

Que me deixe comprar presente, oferecer carona, preparar café na cama, perguntar mil vezes se está tudo bem.

Que não diga que não precisa. Não precisar é negar, não precisar é não dar importância.

Quero que você queira estar comigo quando estiver enjoada, com febre, dor de cabeça, gripada, que eu seja sua emergência, sua urgência, seu colo e suspiro.

Quero que você queira conversar comigo porque sou seu melhor conselheiro, que seja seu contato mais usado no celular, a primeira pessoa a quem você deseja contar uma novidade.

Quero que você queira assistir filme comigo para segurar minhas mãos e pedir meu abraço, que eu seja seu casaquinho do cinema.

Quero que você queira beber comigo para brindar: vinho para segredos, cerveja para fofocas, uísque para assuntos sérios, tequila para loucura.

Quero que você queira transar comigo para que possa escrever meu suor em sua pele.

Quero que você queira minha barba, meu perfume, meu toque, minhas pernas, meu peso.

Quero que você queira passear comigo no fim de tarde, caminhar pela Encol tomando chimarrão enquanto o sol faz chapinha nas nuvens.

Quero que você queira ouvir meus textos, refletir comigo, contestar o que não acredita.

Quero que você queira que não viaje a trabalho, parando na frente da porta com suas chantagens eróticas.

Quero que você queira subir a serra de repente, para escolhermos as músicas de nossa preferência.

Quero que você queira voltar correndo para casa e grite meu nome como sua campainha.

Quero que você queira não largar a cama durante o frio para levantarmos um acampamento farroupilha no quarto.

Quero que você queira mostrar seus trabalhos, suas ideias, ouvir com atenção meus comentários, agradecer minha atenção.

Quero que você queira a cumplicidade como nunca houve na vida de nenhum dos dois, quero que você queira a exclusividade, que nos defenda para os amigos, que não nos fragilize perante os outros.

Quero que você me queira sempre, acima de tudo.

Porque só posso ser útil para quem me quer.


  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 13/7/2014 Edição N° 17858

SÓ AS DÚVIDAS SÃO CERTAS

A mulher discute para se explicar, discute para se organizar.

Abre suas vacilações e temores para dividi-los. Não procura obter ajuda de ninguém, conselho de ninguém, apoio de ninguém.

Está pensando alto, repartindo suas inquietações.

Às vezes a briga é só uma sessão de gritos, de agudos, de lamentos.

Mas o homem não tem paciência. Sua vaidade é maior do que sua paciência.

Diante da mínima conversa séria, já leva para o lado pessoal, já se sente acusado, já se põe ameaçado e cobrado. Nem escuta até o fim e se defende.

Identifica-se como culpado de algo que ainda não sabe o que é e não pagará para ver. Seu anseio imediato é revidar e se proteger. Se não vira as costas de verdade, vira as costas dos ouvidos.

Carente, o homem se posiciona como o centro do mundo, sempre no papel de protagonista. Sofre de antropocentrismo amoroso. Jura que tudo o envolve e que a mulher não tem outros anseios, outras preocupações, outras necessidades que não ele.

Se ela está insatisfeita, entende que é problema dele. Se ela está deprimida, entende que é problema dele. Se ela está chateada, entende que é problema dele.

Jamais raciocina que ela pode estar falando apenas de seus problemas e que não é uma indireta, direta, cilada, armação, ironia, sarcasmo.

Esta é a grande diferença: a mulher pretende ser ouvida (e se ouvir acompanhada), descarregar a tensão, espantar as aflições, e o homem se vê atingido pelo desabafo e se coloca como o provedor de todas as dificuldades do mundo.

Durante a discussão de relacionamento, a mulher senta no divã enquanto o homem se acomoda no tribunal.

O homem quer resolver logo a questão, a mulher quer problematizar para definir a melhor escolha.

O homem acha que está perdendo tempo com divagações; a mulher acredita que ganha tempo analisando diferentes perspectivas.

Como se percebe atacado, o homem não acolhe a catarse com a alegria da cumplicidade, não recebe a confissão com o entusiasmo da confiança. É um péssimo espelho: atalha, conclui antes da hora, resume. Irrita a mulher com sua pressa e sua ânsia de sair logo daquela cena.

Tem resistência em exercitar hipóteses, possibilidades remotas, vidas imaginárias.

Qualquer dúvida que vem de sua mulher é sinal de infelicidade. Qualquer crise que vem de sua mulher é sinal de fraqueza e covardia.

Ele somente se acalma com certezas. Porém, as certezas não existem. Nunca existiram.


Publicado na Revista Isto É Gente
Julho de 2014 p.46
Ano 14 Número 710
Colunista