segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O BEIJO NA BOCA



Casais que não se beijam na boca estão se separando. Vão se tornando amigos, parentes, irmãos, até se esquecerem de caminhar de mãos dadas. Vão se apartando do cheiro da pele, do gosto do abraço, das provocações infantis de corredor, das pernas alisadas no fundo da coberta.

O beijo na boca é a autêntica aliança, o ouro que vinga, a certidão que não desbota. Só que me refiro ao beijo mesmo, de girar o corpo, o pescoço, o rosto. Selinho não conta, onde os lábios são uma carta para quem já está distante. Beijo seco também não vale, onde não há a ameaça de morder os lábios.

O beijo molhado é que une. Um beijo úmido por dia renova o amor. O beijo de quem tem saudade dos tempos apaixonados, um beijo que ainda sopre de volta os elogios ditos um para o outro. O beijo sussurrado, em que os sons tremem com as respirações próximas.

O beijo que não tenha a necessidade de ser pensado demais senão surge sem jeito, forçado, cinematográfico. O beijo que seja um segredo a dois, que você extravie o horário e suspenda a noção do lugar. O beijo que toque uma canção dentro, que desperte a vontade de dançar.

O beijo de língua não permite o vazio crescer, a lacuna, o lapso. Pois uma ausência dentro de casa ainda tem conserto, duas ausências não têm como recuperar – o par esqueceu o amor em algum lugar das lembranças e não correu para reaver.

O beijo de língua desfaz as formalidades, os medos e a educação que esfriam a relação. Beijo de língua é beijo para combater o tédio, a mecânica repetida dos gestos. Beijo de língua salva os desaforos, perdoa as críticas e as cobranças. É como uma janela batendo com a chegada da chuva, uma porta batendo com o vento. É um susto que põe o coração a bater de novo.

Nem o sexo resolve o que o beijo faz. A transa sem beijo é apenas desafogo, catarse, apego de bichos. O beijo com língua é o que nos singulariza entre os animais. Casais felizes sempre se buscam pela boca. É uma receita simples de longevidade. Sem o beijo, a pessoa tem a vontade de largar tudo e ficar sozinha. Com o beijo, ela não perde a vontade de largar tudo, mas com a diferença de querer levar junto aquele que ama.

COMO SERÁ A SUA MULHER NO FUTURO?

Foto de Gilberto Perin

Uma manha para projetar como será a sua mulher no futuro é reparando na sogra, o temperamento, a implicância e como resistiu ao tempo. Mas, às vezes, a sua namorada puxa o pai e você estará observando o lado errado da família.

Uma tática mais bem-sucedida para firmar a profecia é esperando o primeiro porre de sua companhia. A primeira embriaguez. Quando acontecer, esteja dirigindo e tome unicamente água. Se beber junto, renunciará a confiabilidade da memória.

O aproveitamento é maior do que mapa astral, cartas de tarô, búzios e borra de café árabe.

Uma mulher quando bebe perde as censuras. Fala o que não deve, fala o que sente, assim como é a na velhice. A velhice potencializa a honestidade. Faz sentido. Uma mulher bêbada é uma idosa sóbria. Pois o idoso não espera o melhor momento para derramar a verdade em sua cara, ele cria o momento, impõe a sua opinião. Tanto o velho como a criança são cruéis em sua sinceridade e não tem como controlá-los.

Deste modo, a mulher alcoolizada revela o que será. Não se trata de uma pomba-gira ou de uma nova personalidade se mostrando, é ela mesmo daqui a algumas décadas.

Há vários tipos de embriagadas.

Existe a mulher-encrenca: que abre a pista e grita a cada novo drinque, que arma coreografias impensadas, apresenta uma versão invertida do Lepo Lepo e troca o beijinho no ombro pelo improvável beijinho no umbigo,  seduz estranhos e certamente lhe envolverá em uma briga até o final da noite. Nunca estará satisfeita. Vai sugerir uma saída à francesa e ela criará um barraco à brasileira. Você tentará ajudá-la e ela confidenciará segredos do casal:

- Ele é filhinho da mamãe!

- Ele não aprendeu a amarrar os cadarços!

- Ele ronca!

- Ele é um desastre na cama!

Colocará na roda coisas deste tipo para baixo. Se vir a aparição da mulher-encrenca na alma de sua namorada, cogite seriamente a separação, enquanto é possível se desligar, porque sofrer vicia e talvez nunca se afaste desse terremoto.

Existe também a mulher-sensível. Bebe e chora, bebe e se emociona, bebe e passa a pedir desculpa por tudo aquilo que errou na vida. Como sua voz está incompreensível, perdoa sem entender, como um padre diante dos murmúrios da extrema-unção. A velhice dela não será uma ameaça, mas certamente você nunca terá razão, ela será sempre a vítima de qualquer briga.

Existe ainda a mulher-amiga-de-todo-mundo. Talvez seja a mais estável. Empina os copos e continua aparentemente sóbria. Circula gentil e atenta, apenas aumenta a sua capacidade agregadora na noite. Improvisa piadas, mobiliza os casais entediados, é simpática com os garçons, consegue mesa vip, e não provoca escândalo. Parece que engoliu Ritalina em vez de álcool. Terá uma velhice sábia e generosa, com a experiência amparando as suas escolhas.

Não posso esquecer a imbatível mulher-sarjeta, ela fecha os olhos, balança a cabeça e desaparece para dentro. É um ioiô, é um pião, sacode, pula sem parar, não fala com ninguém e só termina a sessão de exorcismo na privada. Não tem limites. Dificilmente chegará na velhice. Seu exemplo antecipa que será viúvo.

E, por último, a mulher que não bebe, a mais misteriosa e indecifrável. Por via das dúvidas, não deixe de monitorar a sogra.

AZAR DO MEDO

Arte de Eduardo Nasi

Passamos sempre uma versão mais tranquilizadora a nosso respeito. Um filme editado, de acordo com as nossas intenções. O rolo bruto fica guardado na câmera para nunca ser mostrado.

Temos medo de não sermos aceitos, e vamos refinando a versão, adaptando, colocando e tirando informações e lembranças. Não que a verdade tenha mudado, dificilmente muda de um relacionamento anterior para o atual, pois a verdade requer tempo, análise e enfrentamento.

Justificamos o nosso nervosismo com uma origem bastarda: ou pela sobrecarga de trabalho ou pela falta de dinheiro ou porque cavamos um descuido da companhia e exploramos o conflito do ciúme e da deslealdade.

Mas a cólera é sinal de alguma falsificação. Perder o equilíbrio é aviso de impostura. Ali está demonstrando que vem mentindo.

Coitada de nossa interlocução que acabará não compreendendo como banalidades geram tamanha raiva, e não geram mesmo – é mera transferência de foco.

Quando alguém chega perto da ferida, rechaçamos para longe. Fomos treinados a não confessar as nossas fraquezas. Como a vulnerabilidade é usada nos momentos errados das brigas, evitamos perder a vantagem.

Arrumamos intenções para esconder as vontades, inventamos argumentos a cada discussão para despistar o que incomoda. Não expomos a raiz do problema, balançamos as folhagens com força para distrairmos a atenção.

Criamos uma ilusão de que o nosso par corresponderá as nossas expectativas. Porém, não percebemos o quanto elas são irreais, montadas, forjadas para confortar e não indicar o que realmente queremos.

Forçamos o outro a ser o que mentimos que somos. Assim não exigimos que o outro seja igual ao que somos, exigimos que seja o que não conseguimos ser – eis a trapaça.

O fracasso é previsível no espelho do impossível. E não tem como dar certo o que não é real: estaremos brigando pelos reflexos de nossas ações e jamais por aquilo que merece e importa. Gritaremos em defesa de projeções, jamais pela natureza autêntica das angústias.

O que devemos falar e não falamos? Não sei. Pode ser uma desavença com os pais ou uma disputa com irmãos ou um bullying na adolescência ou romances equivocados. Algo antigo que não foi cuidado, um quarto trancado vendido com a casa. E tampouco temos a obrigação de saber. A questão é que, em vez de colocar a culpa e a motivação em quem nos acompanha, cabe pedir simplesmente ajuda. Pedir ajuda é começar a entender.

Toda honestidade é pobre, não tem efeitos especiais, não desfruta de excesso de palavras, não soa bonito, não é Shakespeare, não produz encantamento. É ser direto com aquilo que nos provoca receio. Azar do medo, sorte do amor.

A FALTA DE CONTROLE

Não inventaram um portão eletrônico que se abre de longe. Por mais que os vendedores digam que é somente questão de uso. É uma balela. Todos os motoristas de meu bairro passam pelo constrangimento. Não há um objeto mais xingado do que o controle da garagem, mais do que o telefone tocando sem parar no sábado e domingo com oferta de telemarketing.

O controle ativado a distância é a maior mentira da civilização. Não compreendo como somos tão avançados em tecnologia e não resolvemos nem o controle neolítico da garagem, muito menos o interfone, sempre barulhento, sempre trocado semestralmente pelo síndico com a esperança de que "agora vamos resolver".

Você aperta o comando a meia quadra, nada acontece, depois a 100 metros, 50 metros, 30 metros, 20 metros, 10 metros, e não abre. Você está beijando o portão e ele não se mexe.

Quer entrar rapidamente na garagem para evitar assaltos, mas não funciona a mágica. Eles vão dizer que é problema de pilha, a mesma desculpa. Mas o controle é novo, recente, o 15º modelo.

Desejam enganar quem, logo nós, peritos e velocistas dos controles de televisão e ar-condicionado?

Você aperta histericamente os dois botões (por que dois botões? Já sugere que um deles não é confiável).

Não há explicação, tenta encontrar um jeitinho no manuseio, pressionando bem em cima, nos ladinhos, segurando por três segundos, dando um toque rápido, mas nenhum sinal de levantar a grade. Daí você baixa a janela, fica estendendo o braço para fora desesperadamente, pedindo carona para a sorte. Começou a rezar. Começou a proferir o patético "abre-te sésamo". Começou a delirar. Em seu medo, já foi sequestrado, coberto por um capuz, torturado e o seu cadáver repousa agora no porta-malas.

É muito tempo perdido, já estaria dentro de casa se o portão fosse manual como na infância.

É uma vergonha ter que sair, deduz que os vizinhos estão nas arquibancadas das janelas observando a sua incompetência. Só que não tem mais o que fazer. Apaga o veículo, puxa o freio de mão e perde a aposta consigo mesmo. Desce do carro. Desce e aponta o controle perto das barras, derrotado.

E o portão sobe lentamente e você entra na boca aberta do prédio rindo de sua cara.

IRMÃOZINHO CHEGANDO


Depois do terrorismo familiar, estamos preparados para qualquer batalha. Quem é filho único não tem a mesma doutrinação militar.

Morar com irmãos exige resistência emocional. É fundamental suportar as oscilações dramáticas de uma vida coletiva, o que corresponde a errar, contornar o orgulho e pedir desculpa ou a de não assumir a falha, colocar a culpa no outro e fugir do castigo. São várias opções em cada cena, todas complicadas, com o diabinho e o anjo da guarda cochichando nas orelhas.

Além dos tradicionais e declarados bons sentimentos, existe o ciúme, a inveja e o medo, sentimentos que partem do insano ato de dividir brinquedos, a casa e os próprios pais.

Recordo a infância de Luiz Antonio. Ele era o segundo filho, sob a influência do conselho e da proteção do mais velho. A mãe estava grávida do terceiro rebento. A escadinha ganharia mais um degrau.

Luiz partilhava o quarto com o mano maior, distribuído em duas camas e um único armário. Não é que o primogênito lhe chamou para conversar sério.

– Olha, você notou que vamos receber mais uma pessoinha no nosso apartamento? Não terá espaço para você e será obrigado a ir embora.

O menino de quatro anos levou a sério a brincadeira. A ideia do orfanato da rua pesou em seus ombros. Enfrentou os meses finais da gestação de modo casmurro e lacônico. Mudou o seu comportamento na escolinha e na mesa. Mal falava. Mal ria. Mal fazia alguma pergunta com receio da clara resposta de despejo. O silêncio cobriu o seu semblante e não duvido que não tenha surgido a sua primeira ruga precoce.

Quando os pais foram para o hospital, Luiz tratou de fazer uma malinha. Botou dentro dela o pijama, o uniforme da escola, um par de kichute, as bolitas e o pião. Estava conformado com a partida.

Foi a mãe chegar com o bebê no colo que ele pediu licença, desculpou-se pela má hora e se despediu.

– Tchau, gente, amo vocês!
– Que foi, filho?
– Não há mais cantinho para mim, e o nenê é pequeno demais para dormir no chão.
– Não, Luizinho, você fica e a gente arruma um jeito.

O pai resolveu a situação chorosa brincando, com espírito leve, acostumado a comandar a diplomacia dos meninos quando disputavam a bola e os talheres.

Já o irmão mais velho, malandro, pressentindo que sobraria para ele, ainda deu uma de herói e foi elogiado pela generosidade durante muito tempo:

– Pode ficar com a minha cama!

Ninguém nunca soube a verdadeira história.

ATÉ A SORTE TEM LIMITE

Foto de Gilberto Perin

Pode escapar ileso de um acidente ou sobreviver a uma moléstia séria: em vez de se abrir à fragilidade do cotidiano, você se fecha totalmente e jura que é imortal e nada irá atingi-lo. Assume uma onipotência na família e nos relacionamentos, achando que é mais forte do que a morte e não muda a insensibilidade do trabalho e das tarefas.

Não se deu conta que recebeu o aviso prévio da vida. Desprezou a notificação dos limites. Desdenhou da censura das fronteiras.

É um reflexo natural de quem se aproxima do fim e não tenta recuperar a qualidade dos laços, desfazendo inimizades e realizando os desejos mais genuínos. Acredita que o acidente foi impessoal, uma casualidade externa, jamais uma necessidade interna, que não é uma formalização do término de sua história por aqui. O envolvido favorece, portanto, o desfecho impiedoso, quando deveria aceitar a ampulheta virada, acolher as dúvidas e questionar o sucesso de sua existência no espaço que lhe sobra.

Mas a invencibilidade desafia a prevenção. E o comum é empreender a viagem de volta com a reserva do tanque e parar abruptamente no caminho.

Assim, quem transa sem camisinha e contrai uma doença venérea, suspira de alívio que não é HIV, HPV e sífilis, e continua tendo relações sem proteção. Não assumiu a gravidade da advertência, pelo contrário, reforçou a ideia de que jamais vai lhe acontecer algo de ruim. Troca a felicidade de posteriores cuidados para comemorar o provisório alívio.

O mesmo ocorre com quem dirige bêbado em alta velocidade. Mesmo ao colidir, não remodela a sua conduta depois, pois permaneceu vivo longe de desfechos dramáticos e apenas enfrentou danos materiais.

A trégua não corresponde ao encerramento da guerra, refere-se a um período para se recompor e acertar as contas. Por isso todo doente terminal tem uma alta antes de cair definitivamente. Joga-se de volta ao mundo em que estava, carregado de obrigações, e não vê que não desfruta de condições para seguir de modo igual. Ele pensa que pode tudo, porém só ganhou um tempo para se despedir.

O destino sempre é educado e oferece um sinal antes de levá-lo embora. A noção de que a tragédia é exclusividade dos outros embota o entendimento da mensagem.

O aviso prévio deveria ser aproveitado como uma sobrevida para colocar a alma em ordem. Ou para legar saudade, e não culpa, a aqueles que ficam.

FALAR É AMAR

Arte de Eduardo Nasi

Tudo o que é bonito e não tem com quem dividir dói por dentro. Pássaros na janela, bolinho de chuva, lua cheia, um filme sensível, um livro feito de suspense, a neblina cobrindo o rio, as estrelas no alguidar da noite, uma orquídea brotando sua pétala de colher. Tudo o que é lindo se não é partilhado sufoca, cria ansiedade, maltrata a solidão. Não temos como segurar a beleza muito tempo dentro da gente, senão ela vira dor muscular, tensão, medo.

Olhar é esquecer. As palavras são nossos olhos para guardar.

O impacto das recordações reside no fato de contá-las. A vida pede passagem muito rápido e temos que anotar o que sentimos na primeira pessoa que aparece em nossa frente. A folha de rosto é o rosto do amigo.

É descrevendo que a beleza aumenta, que o quintal se transforma em rua.

Beleza retida é angústia. Beleza falada é deslumbramento.

A emoção vem da transição do mundo interior para o exterior, do choque da passagem.

Da minha infância, mantenho o que falei ou que viram que eu fiz. O que amei em silêncio sumiu no turbilhão de imagens sem a senha e a frase de segurança.

Guardei apenas o céu da meninice porque narrava aos pais onde a  minha pandorga ia, quais nuvens caçava, se era rinoceronte ou javali.

A pandorga é a minha gaveta do céu. Quando ainda toco na pandorga, vejo o que senti naquele tempo de caça aos ventos, vejo as minhas letras presas nos gravetos.

Esqueceria se não descrevesse. A memória pode vir a ser um terreno baldio ou um jardim. Podar é cortar e editar as lembranças. Aquele que não escolhe o que foi não é nada.

Fale o quanto você ama alguém, para o amor multiplicar. Não economize. Não seja lacônico. Não deduza que é desnecessário, que o outro já sabe. Não confie na telepatia e na leitura de pensamentos. Palavras também são gestos. Longe das testemunhas, o que vivemos é ilusão.

APAGAVA OS LIVROS PARA O MEU IRMÃO MAIS NOVO

Quando terminava o ano letivo, eu tinha a missão de reunir os livros usados em aula e apagar o que escrevi para oferecê-los ao caçula. Era uma obrigação limpar as respostas. Levava dias e duas borrachas brancas para desaparecer com aquilo que aprendi durante uma série inteira.

Da lista escolar, apenas comprávamos os cadernos. Estudávamos na mesma escola e reutilizávamos os livros de exercícios.

O meu irmão mais velho reproduzia o gesto comigo. História, geografia, matemática, língua portuguesa e ciências, as obras migravam de um nome para outro na aba de rosto sem trocar o sobrenome. Folheava os fascículos e em cada pergunta constava o relevo da letra emendada do Rodrigo, como um adubo do meu conhecimento, papel vegetal de minha alma. Ele nunca deixava nada sem preencher — a sua inteligência e presteza me apuravam. Queria ser como ele, desta forma seria melhor do que eu.

Suas marcas me inspiravam a não desistir, a cavar a solução dos problemas e equações. Pois, se ele respondeu, é que existia a resposta, isso me confortava a continuar buscando o resultado no fundo da memória. Às vezes, quando não sabia a questão, tentava trapacear e passar a minha letra por cima da dele. Nunca estive sozinho na dúvida. Ele me apoiava secretamente, tal tutor da caligrafia.

Predominava na época uma grave consciência de herança, de que deveria seguir os seus caminhos curvos da palavra e retos de conduta.

Jamais recebia um livro inédito. As linhas sempre estavam pressionadas pela mão direita do Rodrigo. Quando realizava os temas, eu também mantinha o capricho de não afundar demais o lápis, para não atrapalhar Miguel no ano seguinte. Escrevia leve, acariciando a folha. Não podia estragar o conjunto, rasgar algo, prejudicar a capa, desenhar nas bordas, colar adesivos. A responsabilidade já aparecia na ponta de meus dedos.

Havia a noção de que o livro era coletivo, não pessoal. Representava um patrimônio de todos os filhos. Não seria posto numa caixa de pertences para nunca mais, nem jogado fora. Estudar significava cuidar. Assim eu fui educado a não ser egoísta e possessivo, a não me sentir dono da verdade, a ceder o espaço para quem vinha depois de mim.

Livro importante era livro passado adiante. 

ÚLTIMO SAMURAI


Tenho uma nota de R$ 100 na carteira que já vem durando uma semana. Não vou entregá-la. É só pagar algo, e ela desaparece. É só virar uma de R$ 50 e duas de R$ 20 que ela some e nem sei com o que consumi. É só uma balconista usar a expressão troco – “toma o seu troco” – que ela se sente diminuída e se desintegra. Uma nota de R$ 100 jamais poderia ser insultada de troco, é bullying.

A nota de R$ 100 é o último samurai da família, o derradeiro guerreiro do níquel. Fará a vingança do cofrinho quebrado, do porquinho desmanchado em pedaços, do porta-moedas vazio.

Lutarei por ela, e ela lutará por mim. Não deixarei a garoupa ser pescada ou a efígie da República ser pichada. Mesmo que seja necessário atravessar um shopping inteiro com os filhos, atalhar um parque e encarar as carrocinhas de cachorro-quente e churros como um vegano convertido.

As tentações são muitas, em especial no final de semana. Sábado e domingo são inimigos declarados da nota de R$ 100.

A vontade de cinema apertou, mas não cedi e esperei um bom filme aparecer na tevê. Preparei pipoca no micro-ondas, estendi os pés no sofá e não reclamei que a metade do milho não estourou.

Reclamar esvazia o bolso. É dizer que não está feliz que o descontentamento aumenta. É dizer que não tem dinheiro para nada que você gasta o dinheiro que nem tem.

No dia seguinte, estava cansado, pois dormi tarde, vi os imãs de tele-entrega sorrindo para mim na geladeira, mas resisti aos números fáceis. Guardei as propagandas no armário e fui cozinhar. Preparei uma massa para bodear os pensamentos, jiboiar os desejos, enjaular este safári de impulsos.

Decidi empenhar a faxina senão a nota ia embora na segunda. Pensei com ternura na faxineira que é minha amiga, coitada da Vera, mas as intenções não podem demonstrar misericórdia. Esmurrei os tapetes na janela enquanto o vizinho dormia, empurrei a geladeira e varri até o braço cansar, até desistir de erguer a nota de cem.

Não bastando, desci para lavar o carro todo empoeirado da recente visita à chácara de minha mãe, em Eldorado do Sul. Eldorado é agora a nota de R$ 100. A ânsia para repassar o trabalho ao lavador do bairro era imensa, não sei como me contive. Coloquei música alta para fingir que estava cantando e dançando, e não lavando o carro.

Nota de R$ 100 não é mais papel, não é mais uma simples cédula, mas uma armadura. Tomara que eu mantenha a abstinência e bata o recorde de minha vida de oito dias com a nota de R$ 100 na carteira.

JÁ ERA AMOR NO INÍCIO

Foto de Gilberto Perin

Às vezes é amor desde o início, mas recebe o nome errado do medo, é chamado de amizade por engano e demora para ser anunciado. Até virar hipótese improvável.

Você não segurou a mão no cinema quando deveria, você não beijou a boca na primeira vez que saíram, você não usou a licença poética da embriaguez para subir ao apartamento na hora da despedida, você não arriscou e não se entregou, como nos blecautes anteriores. Foi possuído de pudor, a proteger uma afeição pura e inédita. Foi tomado de respeito, não queria avançar o sinal.

Veio um estranho medo de ferir e de ser ferido. As pernas fraquejaram, o aceno pendeu no ar pela metade, os olhos se contentaram em voar com um tchau desajeitado.

Os dias se passaram e não retornaram mais ao início onde a amizade era para ter sido amor.

Trocaram confidências para domesticar o encontro, esconderam a atração forjando lealdade, espantaram a possibilidade de sexo para não sobrecarregar de dúvidas a cumplicidade que corria dentro do toque.

Sufocaram, com as forças da juventude e da dissimulação, a inquietação que reinava no silêncio e na saudade.

Vocês se encaixavam perfeitamente. Concordavam antes mesmo da conclusão da história, decoravam datas e gostos, adoravam caminhar lado a lado e discutir o que vinha à mente com liberdade, sem censuras e filtros.

Usaram todas as palavras um com o outro, menos aquelas que mudariam tudo. Empregaram todas as verdades um com o outro, mas mentiram justamente na confissão que transformaria o relacionamento.

Não arriscaram declarar o que sentiam. Ou porque era cedo demais e estavam se conhecendo. Ou porque era tarde demais e já se conheciam excessivamente.

Não perceberam o quanto se envaideciam no momento que alguém na rua se confundia e elogiava a intimidade:

- Formam um casal muito bonito!

- Ah não, não somos um casal...

Não? Tinham um dialeto, um riso sempre fácil, conversavam por músicas e canções, atravessavam a clareza das madrugadas e a claridade dos dias, mas não apostaram na intuição, o único conselheiro que desfaz dilemas.

Esperaram reunir provas do sentimento mútuo quando nunca existiu tribunal no amor, quando nunca existiu justiça no amor, quando nunca existiu reparação de perdas e danos no amor, é sempre esse agora e sempre, essa execução sumária.

Não há como culpar ninguém por aquilo que não aconteceu, a não ser lamentar a timidez. Permitiram que namorados e namoradas aparecessem no vácuo que não ocuparam, e complicaram o que podia ser fácil. Agora estão condenados a ouvir descrições apaixonadas e lamúrias, fins e abandonos, recomeços e novos romances. Agora estão forçados a mergulhar num ménage espiritual, a suportar indiscrições, a fingir desinteresse e chorar em segredo. Agora serão empurrados pela vida a serem melhores amigos eternamente, a serem convidados para os papéis de padrinho e madrinha de um casamento errado, de um altar que no fundo era destinado aos dois.