quarta-feira, 27 de julho de 2016

AUDITÓRIO DE MINHA ESCOLA



Texto: Fabrício Carpinejar
Arte: Eduardo Nasi

Minha escola tinha mistérios. Quando  o professor faltava por motivo de doença, a direção cancelava a aula e a turma seguia para um apertado auditório assistir documentários alemães. A exibição não poderia ser considerada diversão.

O velho projetor rodava filmes preto e branco  e mudos, sem pé nem cabeça, com lições de higiene de adolescentes – é o que me recordo. Eles escovavam os dentes, limpavam as orelhas, acordavam cedo e nenhum deles reclamava do banho de água gelada.

Eu, com meus oito anos e remelas fundas, não compreendia o motivo da exibição, mas acho que a ignorância fazia parte do processo de aprendizagem.

O que me apavorava na sala escura com cadeiras de fórmica era a série de vidros de cobras, escorpiões e fetos.

Não dominava o sentido da vida, muito menos entendia o que significava a morte, de repente observava uma criancinha presa num pote de pepino: os olhos cinzentos de ET e os braços cruzados de gravetos. O que ela fazia lá?

No início, desconfiei de sua realidade, raciocinava que representava uma imitação bem feita, um trabalho artístico, uma massa de modelar convincente. Até que o Anselmo se desentendeu com Alexandre – não paravam de brigar pela melhor cadeira na sala  – e empurrou o colega com força na parede.

O impacto tremeu a estante e um dos frascos caiu e se espatifou em minha frente. O bebê liberto da conserva saltou em minhas pernas. O líquido com cheiro forte, talvez éter, molhou completamente a calça.

E respondi a um impulso sobrenatural e estranho de não temer a pequena criatura. Não houve nojo e receio. Eu tentei salvá-la. Eu tentei segurá-la. Eu tentei ampará-la entre as mãos. Agi primitivamente, como um bicho protegendo a sua cria menor e indefesa. Num ato reflexo, colhi a criança no ar. Não esqueço o pasmo, o pânico de apertá-la contra o meu peito.

Foi o meu primeiro e único aborto espontâneo.

Publicado em Vida Breve
Coluna Semanal
27.07.2016

terça-feira, 26 de julho de 2016

O APOCALIPSE DE POLAINA


As mulheres têm toda a razão para reclamar de alguns péssimos hábitos masculinos de se vestir, como a gola V, fetiche dos marombados para exibir o peitoral e que só faz o sujeito parecer um stripper desesperado, ou sapato social com camiseta ou a gravata estampada de brechó ou o abadá do Carnaval retrasado ou o cinto de fivela de caubói ou o hábito de sair para passear com camisetas de futebol ou a sunga branca que mostra a penugem a cada mergulho.

Realmente, não há cabimento. São motivos para largar a mão do rapaz em caminhadas pelo Brique da Redenção.

Mas a mulher também guarda seus erros sociais, monumentais, passíveis de distrato na igreja e no cartório.

E o maior deles, que envergonha a classe dos namorados e o sindicato dos maridos, é a polaina, adereço que não deixa nenhuma beldade bonita e atraente, somente engraçada.

O que é uma polaina, meu santo pai?

Polaina dá vontade de rir. Você se levantou da cama e levou a coberta de lã junto? Você se confundiu de manhã e colocou um blusão nas pernas? O tapetinho do banheiro ficou enroscado nas pernas?

A polaina é um bambolê do tênis.

A polaina é uma meia de futebol com elástico estragado.

A polaina é um pijama arriado.

A polaina é um cachecol dos pés.

A polaina é uma sanfona murcha.

A polaina é um vício sem cura: terminará combinando polainas com crocs.

A polaina serve para disfarçar a canela fina e esconde o corpo inteiro.

A polaina entrega o sonho de infância de ser Paquita.

A polaina evoca Menudos, bandana e pulseiras de cordas de violão.

A polaina é o almanaque dos anos 80 publicado em pano.

A polaina é uma gravata-borboleta que voltou a ser lagarta.

A polaina é um pompom que caiu do casaco do bebê.

A polaina é calçar um poodle.

A polaina diminui ainda mais a baixinha.

A polaina é colorida como um drinque, porém traz a ressaca antes mesmo da euforia.

A polaina aquece as panturrilhas e esfria a relação.

A polaina é tão clandestina, tão feia, que não existe polaina de marca famosa, nenhuma fábrica ousa assumir o seu crime.

Publicado em Zero Hora
Coluna Semanal
26.07.2016

segunda-feira, 25 de julho de 2016

CADÊ A COXINHA?



Passei na lancheria da escola para matar a saudade dos pecados de infância. Iria pedir um enroladinho. Já salivava ao imaginar a mordida na massinha. Aproveitaria os minutos antes de minha palestra em colégio na Capital para engordar e ressuscitar os sabores da meninice.

O barzinho parecia idêntico ao de minha época de estudante, com jeitão de trailer e a tampa da janela levantada. Mas não tinha enroladinho, este irmão menor do cachorro-quente.

O tio – todos os atendentes sempre serão tios para mim, não importa a minha idade – demorou a entender o que era enroladinho. Procurando me contentar, ofereceu um hossomaki. Juro que a minha audição tossiu de volta as palavras. Não esperava Tóquio em Porto Alegre, tanto que conferi o logotipo dos uniformes ao redor para me certificar de que não se tratava de um pesadelo.
– O quê?
– Sim, é o que mais sai no recreio – ele explicou.
– Tá brincando, né?
– Não, os alunos têm preferência pelos rolinhos finos, quer experimentar? Ainda oferecemos temaki, kappamaki, tekkamaki e uramaki.

Não desejava comida japonesa às 10h da manhã. Qual o destino dos lanches perigosos e gordurosos das escolas? O que aconteceu com o rissoles? Onde foi parar o folhado? Cadê a irresistível coxinha?
Suava frio com o excesso de saúde na infância. Os dedos ágeis e aflitos no guardanapo terminaram trocados por pauzinhos? A mostarda e o catchup perderam sua realeza para o shoyu e o wasabi?
Ninguém mais mastigava pastelina com guaraná? Agora era suco verde e tapioca?

Que medo dessas turmas nutri, que desconhecem o poderio doce das balas Xaxá e 7 Belo. Será que os alunos pedem bolo integral de banana em vez de nega maluca?

Que receio dessa geração fitness que não experimenta o proibido, que come no lanche o mesmo que come no almoço e na janta e que não separa o mundo doméstico da casa do selvagem universo escolar.

Só o que faltava não mentir aos pais. Para a família, eu não relatava os feitos gastronômicos. Preservava a privacidade da gula. Fingia que adorava a merenda, um sanduíche insosso de ricota, e devorava um largo e maravilhoso pastel de carne, com o caroço do ovo saltando na pele dourada.
Amadureci porque sempre cultivei os meus segredos.

Publicado no Caderno Donna de Zero Hora
24.07.2016
Coluna Semanal

MEU FILHO GRANDE



Texto Fabrício Carpinejar
Foto Gilberto Perin

Só pode saber que está morrendo quem tem um filho.

O filho é a régua da existência. Ele mede o meu fim. Mede o tamanho de minhas realizações. Mede o meu salário. Mede a minha folga. Mede a minha dispersão. Mede a minha loucura e a minha sanidade. Mede a minha vontade de acordar. Mede a minha felicidade. Mede a minha paciência com imprevistos.

Podemos até nos enganar sozinhos, só que não tem como disfarçar a fundura do cotidiano diante dos filhos.

O filho é a nossa largura, a nossa dimensão, é quando o mundo nos abraça e também nos esmaga.

O desemprego dói mais sendo pai. Um desaforo dói mais sendo pai. A risada é mais estridente sendo pai. Um elogio é mais desconcertante sendo pai.

Eu me acostumei a me encarar no espelho e desprezo as rugas, os pés-de-galinha, as olheiras. Não acompanho a minha idade - é como se mantivesse a vitalidade de um jovem por dentro do raciocínio.

O filho me devolve o meu tempo, o tempo findo e vindo da aparência.

Ele quebra as superfícies espelhadas e a fixação dos hábitos.

Não há mais como mentir a minha idade quando observo que ele me ultrapassou na altura, que usa calça 42, que o tênis abandonou o 37, que os meses são anos para o adolescente, que não compreende as minas gírias, que as minhas piadas não têm graça, que ele já é adulto e adquiriu uma melancolia no olhar, própria de quem já se frustrou alguma vez comigo.

Pelo filho, descubro que envelheço. Mas, por ele, não quero morrer.

Publicado no Jornal O Globo (blog)
22.07.2016
Coluna Semanal

quinta-feira, 21 de julho de 2016

BANHO DE CANECA



Texto de Fabrício Carpinejar
Arte de Eduardo Nasi

Quando o chuveiro estragava – e óbvio que estragaria com três irmãos mais os pais usando a todo o momento -, não havia conserto próximo. Era como obra de governo esperando licitação.
A água já vinha rala, em cinco filetes desmotivados, e ainda por cima chegaria fria em nossa pele. Não poderia continuar chamando de chuveiro, e sim de goteira. O ressentimento ganhava um aliado poderoso.

Parecia que tudo colaborava para o treinamento militar. O chuveiro estragado igual dava choque – apenas o choque não estragava.
A janelinha do banheiro estava trincada, permitindo uma fresta de vento bater em nosso rosto na hora do banho. Nem o papelão improvisado pelo irmão mais velho conseguiu bloquear a indiscrição do minuano.

Passei muito frio na infância, a ponto de até hoje tremer com a ideia de resistência quebrada. O chuveiro terminava sendo uma roleta-russa. Alguém pagaria o vexame de colocar o xampu na cabeça e espatifar os miolos de repente na água gelada.

A tática circense da família consistia em tomar banho de caneca. Ridículo, mas o desespero unicamente produz soluções ridículas.

A mãe esquentava uma chaleira, despejava num balde, e tínhamos que nos banhar com uma caneca de metal.
Havia uma ciência em se lavar daquele jeito, uma concentração para executar passo a passo.
O banho precisava ser rápido e fulminante. Pelava no início e tiritava no fim.

Uma caneca e pá: ensaboar o corpo inteiro, outra caneca e pá: tirar a espuma, terceira caneca e pá: aquecer o corpo, quarta caneca e pá: sair correndo e se meter na toalha. Lembro perfeitamente das quatro precisas e cirúrgicas canecas.

Não fui batizado uma só vez na igreja. O inverno gaúcho foi um São João Batista insistente comigo.

Publicado no site Vida Breve
Coluna Semanal
20.07.2016

terça-feira, 19 de julho de 2016

MELHOR A EMENDA DO QUE O SONETO


Tenho piscianos por todos os lados. Minha mulher e meu filho são do signo de Peixes.

Eles são esquecidos por natureza. Deixaram para trás uma coleção de carregadores de celular, de documentos, de casacos. Esquecem, mas com a diferença de que não sofrem como os demais mortais de outros horóscopos.

Beatriz perde o cartão de crédito e não entra em pânico. É capaz de seguir com o horário do expediente e somente procurar o objeto de noite, com calma e tempo. Sempre encontra, sempre me esnoba.

Eu já não conseguiria fazer mais nada até resolver o assunto. Já telefonaria para a operadora suspendendo o serviço, já realizaria uma varredura telefônica pelos últimos lugares por que passei, já rezaria para Ave Maria e São Longuinho. Sou atormentado por tudo o que extravio.

Vicente abandonou mochilas com carteira em casas de colegas e recordou apenas quando voltava de táxi, no momento de pagar.

Eles são tão honestos e convincentes, que podem acertar as dívidas e resgatar depois. Ninguém acredita que é calote, ninguém duvida da seriedade dos lapsos.

Sou fascinado pela natureza do pisciano. Ele esquece quando quer, tem uma memória viva dentro do esquecimento.

O mais grave exemplo desta estirpe é o meu pai. Logo o meu pai, dotado da capacidade prodigiosa de decorar todo Os Lusíadas e não errar uma vírgula de cabeça.

Ele, uma vez, nos idos dos anos 70, esqueceu que tinha ido de carro ao Ministério Público, no centro de Porto Alegre, e retornou para a residência de ônibus.

Abriu o portão e a garagem estava vazia. Para quê?

Correu para a delegacia registrar o furto. Explicou aos policiais que era promotor de Justiça, que deveria ser perseguição, que havia processos importantes no carro, e criou uma mobilização à procura do seu Corcel amarelo.

Após 12 horas e dezenas de cafés em copinhos plásticos, o veículo paterno acabou localizado exatamente em sua vaga no estacionamento do Ministério Público.

O pai não se deu por rogado. Para variar, não admitiu o vacilo e não dobrou o seu orgulho:

— Pelo menos, o ladrão foi educado, usou o meu carro e estacionou certinho.

A única incoerência da história é que o meu pai não é pisciano, e sim capricorniano. Mas a incoerência é também algo muito pisciano.

Publicado em Zero Hora
Coluna Semanal
19.07.2016

segunda-feira, 18 de julho de 2016

GUARDADORA


Texto: Fabrício Carpinejar
Foto: Pixabay

Não sou de fazer suspense nem sei contar piada.

Eu sou a própria piada, o que estraga qualquer contação de história. Sou mais engraçado quando fico sério. Nasci na época errada: um astro do cinema mudo no século 21.

Nunca seguraria um segredo biográfico até a morte de alguém, ou não seria capaz de não transar antes do casamento. Evito realizar promessas de propósito para não ser amaldiçoado. Não juro beijando os dedos.

Não poderia participar de nenhuma máfia porque seria morto na primeira semana. Eu me desperdiço rápido, com tendência letal à fofoca. Nem vivi ainda e já estou contando. Para mim, véspera já é notícia, quase acontecimento é experiência. Preciso cuidar para a minha ansiedade não atropelar a existência.

Mas há gente com o dom de se guardar para os grandes momentos. Com a vocação de reunir as forças para o apogeu da sensibilidade. Como a Luiza. A Luizinha de Nazaré, de 77 anos, que mora sozinha em Anta Gorda (RS), a 190 quilômetros de Porto Alegre.

Ela sofre de osteoporose. Às vezes, tem crises sérias a ponto de não ter força para se levantar. Fica acabada, triste, com ossos frouxos, como um quebra-cabeça que carece de algumas peças, e depende de ambulância para ser decifrada pelo seu doutor em Porto Alegre.

Os plantonistas do hospital local não tiram uma palavra de sua boca, uma descrição do que está acontecendo em seu corpo, um sintoma qualquer, não têm nem informações para preencher o prontuário. Entram em pânico com o silêncio irredutível de Luizinha.

Ela não fala. Só fala na presença de seu médico. Seu médico é seu advogado. Parece que a doença é um crime pessoal. Entra calada e sai calada da emergência do hospital da cidade, só troca gemidos e resmungos com os enfermeiros.

Testemunhando a aflição infinda da paciente e desconhecendo o seu temperamento arisco, um dos socorristas inventou de oferecer um analgésico para aliviar a sua tormenta. Ela começou a gritar sem parar, como um alarme de carro.

Luizinha ficou profundamente ofendida com a oferta. No fim, explicou para o perplexo atendente:

– De modo nenhum, não quero tomar nada para me aliviar. Quero chegar ao médico com toda a minha dor.

Publicado no Caderno Donna de Zero Hora
Coluna Semanal
17.07.2016

sexta-feira, 15 de julho de 2016

COMBO-FAMÍLIA



Texto: Fabrício Carpinejar
Foto: Gilberto Perin

Com a recente transformação da estrutura familiar, hoje formada por madrastas, padrastos e meio-irmãos, e diante do rearranjo veloz de relacionamentos ao longo da vida, ficou comum a expressão arcar com o pacote.

Quando alguém casa com mulher ou homem com filhos de outros casamentos, logo fala aos amigos que terá que comprar o pacote inteiro.

Mesmo soando como uma manifestação de amor ("se eu não te amasse não assumia todo o pacote"), a frase tem um quê de pesar, um tom de incômodo. É, na verdade, uma confissão de sacrifício.

A declaração é infeliz pois sublinha o apesar, ressalta o desconto, enfatiza a restrição. O pacote é uma inevitabilidade forçada, aponta os malefícios do benefício.

As crianças são tratadas com uma conotação de contrariedade.

Não adianta elogiar a companhia cometendo uma crítica velada à paternidade ou à maternidade. Não adianta homenagear o namoro e atacar os filhos, compreendidos como um fardo e juros de antigos amores.

É necessário entender que o filho não é opcional, não se abandona o laço, é parte irreversível do caráter do pai e da mãe.

Na hipótese do pai e da mãe desprezarem as crias em nome de uma relação recente serão também péssimos amantes e cuidadores.

O natural é não falar nada, deixar as coisas acontecerem, permitir que a amizade nasça da espontaneidade e se fortaleça no decorrer do tempo.

Não há como gostar de alguém por antecipação, mas tampouco é justo desgostar prematuramente, que a rejeição não seja herança de condicionamentos culturais e preconceitos sumários com quem já tem um passado.

Recorrer à ideia de combo é anunciar nitidamente que está levando algo que se quer com algo que não se quer.

A gravidez desejada não acontece uma única vez na vida com os pais da criança, acontece sempre que se inicia uma nova família com os filhos já crescidos.

Publicado em O Jornal O Globo (blog)
15.07.2016
Coluna Semanal

quinta-feira, 14 de julho de 2016

NASCI PARA CHORAR



Texto: Fabrício Carpinejar
Arte: Eduardo Nasi

Todo o escritor nasce de uma morte.

Todo o escritor é o filho do fim. O filho da dor incomunicável. O filho dos limites intransponíveis.

Eu nasci da morte de minha avó.

Meu primeiro poema foi feito aos sete anos, quando minha avó morreu de câncer em Guaporé (RS). Imaginei que ela chegava ao céu primeiro do que meu avô, que havia falecido três anos antes. A mãe reproduziu o texto no convite de enterro.

Sou poeta porque não tenho como justificar o desfecho: como um parente que estava aqui na minha frente deixa de existir para sempre? Que mágica macabra é esta? De que modo posso continuar vivendo e não temer perder tudo, inclusive a mim mesmo?

Sou poeta porque não tenho onde guardar a saudade. Onde guardar quem amo.

A mão escrevendo é um aceno de despedida. O livro pronto é uma lápide. Os jardins da imaginação estão no cemitério das lembranças.

Vim da morte da avó. Antes dela, não tinha necessidade de escrever. Já depois de sua partida, eu não poderia mais viver sem a literatura. A escrita irrompe do fracasso do domínio da vida, quando acontece algo que não podemos controlar. É uma doença cheia de saúde, é uma falta impregnada de presença. É quando alguém parte e combatemos o seu esquecimento. É quando alguém some e lutamos contra o seu desaparecimento. É quando alguém deixa uma história pela metade e procuramos completar o resto com o que sonhamos ouvir.

Sou cria do enterro de Nona Elisa. Da vó que derretia o queijo na chapa, que aquecia a casa com lareira, que me ensinou a colher morangos e buscar ovos no galinheiro de manhã, que contava histórias enquanto cozinhava. A vó que colocava os seus dedos macios, frios e cheirosos de amaciante em minha nuca na hora que servia o prato.

Convivi com a minha vó somente nos meus primeiros sete anos. Os anos antes da alfabetização. Ela era o livro mais lindo – o livro que não fora impresso – o livro que andava livre das estantes – o livro que pedia para eu escrevê-lo um dia.

Publicado no site Vida Breve
Coluna Semanal
14.07.2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

AUTOESCOLA PARA CONDUTORES DE GUARDA-CHUVA

Porto Alegre é maravilhosa, pena que foi construída embaixo de uma goteira.

Mas o problema não é a chuva frequente, é a nossa falta de profissionalismo diante da chuva. Deveria existir uma autoescola para quem dirige guarda-chuva, com o mínimo de 25 horas de aula prática. Deveria ser criada uma nova categoria na carteira de habilitação. Deveria existir um código de trânsito para se deslocar nas marquises, com preferência para os transeuntes de capa. Deveria existir uma tropa de azuizinhos fiscalizando as barbeiragens dos usuários, os esguichos de poças e o estacionamento em locais proibidos, em especial na saída aglomerada de lojas e de farmácias. A arrecadação de multas superaria a antecipação do IPTU.

As pessoas não sabem conduzir um guarda-chuva. As manobras são altamente perigosas. Conheço gente que nunca fez baliza para fechar um, nem sequer recua antes de recolher o seu objeto e acaba agredindo o rosto de vários pedestres desavisados.

Caminhar na chuva é um excelente psicotécnico. Pressupõe raro equilíbrio entre o dentro e o fora, o motorista necessita manter a cabeça ereta para apanhar o horizonte sem jamais deixar de reparar onde está pisando.

O guarda-chuva não é uma invenção filantrópica. Não poderia ser vendido indiscriminadamente. É uma bengala com ponta de lança. Uma vareta solta torna-se faca apontada da baioneta. Não é por menos que é arma de vilões como o Pinguim de Batman, não é à toa que foi proibido o seu ingresso em partidas de futebol.

Guarda-chuva requer manejos talentosos. Reivindica estudo e treino. Nas mãos erradas, há o sério risco de nocautear velhinhos, pisar em cachorros, subir em mendigos ou arrastar crianças.

Se não é brincadeira fora daqui, no Sul ainda é pior. As chuvas nos trópicos não são monótonas a exemplo da Europa. Não respeitam nem o estilo das estações. Mudam conforme o choque inesperado das frentes frias com as quentes.

Sair de casa significa enfrentar um inimigo qualificado. Não é possível segurar o cabo do mesmo jeito e com idêntica força.

Tem a chuva canivete, que exige uma leve inclinação de viseira. Tem a chuva ventania, em que a água parece vir de baixo, a única defesa é dançar frevo. Tem a garoa, invisível, na qual você dá carona para alguém, não vê a chuva vindo e a pessoa ao lado — coitada — fica toda molhada. Tem a tempestade, em que o guarda-chuva vira na esquina e sobe como um balão. Tem o dilúvio, que sindicaliza as bocas de lobo e mobiliza os esgotos e nos surpreende com uma correnteza de frente. Tem a chuva de pedra, em que o céu devolve todos os gelos que você deixou de repor nas formas da geladeira nos últimos 10 anos.

Durante o toró porto-alegrense, cuide ao atravessar a rua e cuide muito mais para não ser atropelado na calçada.

Publicado em Zero Hora
Coluna Semanal
12.07.2016