sexta-feira, 15 de maio de 2015

CONTRA-ORDENS

 Arte de Anthony Earnshaw

É pedir para a pessoa relaxar que ficará mais tensa.

É pedir para se acalmar que ficará mais nervosa.

É pedir para não pensar mais no assunto que não falará de outra coisa.

Quando o homem ou a mulher teme broxar certamente vai broxar se alguém perguntar: o que está acontecendo?

O cérebro não funciona com imposições, ordens, mandos. Ainda mais quando o problema está na cara. Não é bom dizer o óbvio para quem está sentindo o óbvio. Lições daquilo que deve ser feito somente aumenta a dificuldade.

O medo não precisa de legendas. Assim como a ansiedade não depende da tradução dos outros.

A inteligência precisa da ignorância para ser feliz.

Ouça o comentário na manhã desta sexta-feira (15/05), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

O LUXO DA MARMITA

Arte de Eduardo Nasi

Trabalho em casa. Escritor acorda, pega o casaco no cabide e escreve realezas com roupa de mendigo. Quanto pior o traje, melhor o texto – é a minha superstição.

Como dificilmente passeio os olhos para fora da residência, com exceção das palestras e gravações, nunca tive marmita.

Nunca tive uma marmita preparada para mim. Nunca carreguei uma sacolinha com comida para o serviço. Nunca aticei os passageiros do ônibus com o cheiro perfumado de minha sacola. Nunca provoquei inveja dos colegas com um feijão tropeiro. Nunca disputei as prateleiras coletivas da geladeira. Nunca me gabei de ter acesso a receitas de família.

A marmita é um presente disfarçado de refeição. Alguém que lhe sabe de cor separa exatamente numa bandeja a porção que você costuma comer.

É um buquê gastronômico, escolher o que se tem nas panelas para florescer o apetite. Antecipar as bocas do fogão um dia antes para que tudo fique encaminhado de manhãzinha. Com voz dormida, acordar cedo para surpreender o desejo de nossa companhia.

Há maior prova de amor do que acertar a quantidade e o jeito de misturar de nossa esposa ou marido?

Trata-se de altíssimo conhecimento de causa montar os andares e distribuir os alimentos em diminuto espaço, a ponto de não faltar e também não sobrar.

Chego a ver a cena: três colheres de arroz, massa ao lado, dois pedaços de carne de panela e a verdurabem no cantinho. Não esquecer o bolinho seco, sem tocar em nenhum molho.

A marmita atesta que o casal se estuda a ponto de se revezar nas tarefas da vida. Se um desiste, o segundo pega a bandeira e puxa o ânimo. São continuações de horários e fôlegos, extensões de uma mesma persistência.

Não expõem frases apaixonadas e derramadas, o “eu te amo” talvez seja raro. Eles se admiram silenciosamente ajudando a dividir o fardo, o cansaço, o estresse, a rotina.

A gentileza é feita da discrição.  Quando se declaram, enfatizam a questão profissional:

- Meu marido é trabalhador!

- Minha mulher é batalhadora!

O romantismo está escondido na entrega para sustentar a família. Não se perdem em caprichos, cobranças e demonstrações ostensivas de ternura.

A marmita é mais do que preparar o café e levar numa bandeja para a cama. É preparar um dia inteiro e levar a mesa da cozinha ao trabalho.

O equivalente a avisar, com o guardanapo branco do gesto: você não estará comendo sozinho, estarei sempre ao seu lado.







Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
13/05/2015


ME TIRE DAQUI

 Arte de Francis Picabia

Nunca mais tinha dormido em Santa Maria depois da matança da boate Kiss, incêndio que sacrificou 242 pessoas há dois anos, a maior parte jovens e adolescentes, que terminaram presas numa cilada maquiavélica, impossível de fugir.

Nem sei se deveria escrever algo tão pessoal, que expõe minhas crenças espíritas. Passei a noite num hotel, satisfeito com a recepção do público e a palestra lotada na Feira do Livro na última quinta.

Só que não dormi. A princípio, jurei que estava preocupado com quem eu amo e já ultrapassava a meia-noite para telefonar. Mandei mensagens aos familiares e não obtive retorno. Não pretendia ser histérico – pressentimentos jamais são levados a sério – e aguentei a ansiedade.

Mas, quanto mais a noite avançava, não aquietava o meu espírito, não achava uma posição para relaxar, liguei e desliguei a televisão, liguei e desliguei a caixinha de música, iniciei e interrompi leitura de livros. Desceu em mim uma angústia implacável. Não é que dei para chorar copiosamente do nada, irrefreável, logo eu que não choro com facilidade? Chorei infinito. Cochilava e chorava. Suspirava e chorava. Como se estivesse com Bluetooth emocional emparelhado em uma data remota.

No quarto absolutamente confortável, me enxergava emparedado, preso, encaixotado. Tossia convulsivamente. Cuspia o ar que não vinha. A sensação de sufoco e queimação se agravava, com um calor anormal no corpo para uma madrugada fria de inverno lá fora. Abri a janela e não refrescava. Tirei as roupas e não encontrava alívio.

Não ardia em febre. Não sofria de asma. Não apresentava nenhum quadro gripal. Estava bem de saúde. Porém me arrastava na cama, um cansaço indigente, próximo do desmaio. A pele reagia a um sobrepeso invisível, suava absurdos e cheirava forte.

Ao fechar os olhos e tentar sonhar, várias vozes conversavam comigo, chat multiplicando borbotões de janelas na tela do inconsciente. Não entendia nenhuma delas, pela sobreposição dos timbres. Centenas de recados, gritos e uivos ilegíveis – procurava ajudar e responder. Eu me esforçava para ouvir e sofria do pânico de não alcançar a velocidade das falas: frenéticas, constantes, passionais. Sem resultado, ajustava a atenção para aquele vendaval de apelos, o equivalente a sintonizar uma estação de rádio fora de frequência. Peguei papel e caneta com o propósito de anotar frases soltas e desconexas, pena que, tamanho o desespero, não lembrava sequer de meu nome.

O que qualquer um pode concluir é que experimentei um sofrimento paranormal. Não se engane: sobrenatural é a impunidade até hoje da boate Kiss. Se não desfrutei de um minuto de serenidade na vigência de uma lua, de uma simples lua em Santa Maria, apesar de não ter perdido nenhum parente ou amigo próximo na tragédia, como os pais das vítimas vão conseguir dormir?






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 12/05/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18160

UM LADRÃO SERIA MAIS DELICADO

 Arte de Sonia Delaunay

Depois do acordo do divórcio, uma amiga recebeu de volta o carro que estava com o ex.

O carro veio com três multas, IPVA vencido dos dois últimos anos, pneus carecas, sem rádio, bancos mofados, janela trincada, perda da garantia por atraso na revisão.

Ele não se interessou em preservar o bem em comum. Ou demonstrar que tinha capricho com o que não era dele.

Cuidou do veículo do mesmo jeito que cuidou da relação.

No fundo, ela nem precisava explicar para ninguém o motivo do fim do casamento.

Era só oferecer carona.

Ouça o comentário na manhã desta terça-feira (12/05), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quinta-feira, 14 de maio de 2015

IMOBILIDADE DO INVERNO

 Arte de Albert Gleizes

Terrível no inverno não é passar frio, mas tentar não passar frio.

É se antecipar ao desconforto do vento e da tremedeira.

Passamos a estação inteira nos adiantando para não sofrer e terminamos sofrendo o dobro.

Nunca conseguimos nos agasalhar para o frio psicológico.

Planejamos um momento em que estaremos protegidos que nunca chega. Sempre falta uma coisa que encerra o aconchego que criamos detalhadamente.

É como se refugiar num abrigo antiaéreo e deixar a sacola de mantimentos lá em cima. Subir ou não subir de volta?

Quantas vezes já tremi a noite inteira somente porque não desejava me levantar para buscar um edredom?

Dentro do sono, eu pensava: será que vou ou não vou? E, por fim, dormia com a angústia da dúvida, tremendo, chamando a gripe para conviver comigo.

Inverno é um dilema permanente, um descuido irreversível.

Vou assistir a um filme na sala com a minha mulher, preparamos pipoca e chocolate quente, puxamos o edredom, demoramos para encontrar o lugarzinho ideal, para nos encaixar entre as almofadas e o encosto, no instante em que alcançamos a perfeição alguém se dá conta da ausência do sal. Qual será a alma caridosa a largar a fortaleza e trazê-lo da cozinha? A tristeza é que – se um sair – recomeçará todo o reposicionamento delicado que levou horas para ser feito.

A ânsia de não sofrer contratempos supervaloriza o incômodo. A mania de querer uma situação ideal nos põe em perigo.

Qualquer movimento em casa é acampamento, com o medo permanente de sair do fundo da barraca após o esforço de montá-la. É trazer tudo para não se mexer depois, mas sempre existe um lapso.

Inverno é frustração, é distração letal.

Quem já não enfrentou o banho rápido, desafiou o gelo do lençol, friccionou seus pés com os pés da esposa, abraçou forte sua companhia debaixo da montanha de cobertas, suspirou de felicidade quando se enxergou novamente quente e, de repente, verifica que a persiana tem uma fresta de luz? É preciso muita coragem para abandonar o acolhimento custoso e reiniciar os trabalhos.

No inverno, por maior que seja a cautela, esqueceremos algo.

Perderemos consecutivamente a vantagem que adquirimos com a prevenção.

Basta encontrar uma posição para se morrer feliz que seremos impelidos a ressuscitar.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.40
Porto Alegre (RS),  10/05 /2015 Edição N°18158

CUIDADO COM O FILHO

 Arte de Fernand Leger

Você se separou, tem uma criança pequena, não deixe de comprar um presente para seu filho entregar para a mãe. Você não pode abandonar a paternidade. E um dos papéis

da paternidade é respeitar a mãe, sendo ex ou não.

Mesmo que não tenha vontade de agradar a antiga companheira, não abandone seu pequeno nesta situação constrangedora.

Triste do filho que não tem o que entregar para sua mãe porque ela não está mais casada com seu pai. Preocupe-se com a alegria do filho, dando condições para que ele

possa homenagear seu afeto, e que isso seja maior do que o ressentimento pelo fim da relação.

Não repasse seu ódio para os herdeiros, transmita um ambiente de segurança pelo respeito e gentileza. Os filhos são vida depois do divórcio.

Ouça o comentário na manhã desta sexta-feira (08/05), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

GUARDA-VOLUMES

Arte de Eduardo Nasi

Tenho medo quando alguém desmontar a biblioteca de minha madre. As imensas e intermináveis prateleiras do casarão, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre (RS).

São mais de oito mil livros, distribuídos por todos os cômodos. Até no banheiro.

Meu receio é um só: escondíamos o que era proibido na retaguarda dos livros. Há uma vergonha retroativa nas contracapas dos clássicos.

Se um dia a biblioteca for abaixo, mudará a minha ingenuidade.

Não me lembro de tudo o que enfiava nas costas das obras, em especial na parte de cima do acervo, nos últimos degraus, perto do teto.

Era um hábito dividido entre os quatro irmãos.

Como o nosso quarto era funcional, tipo um hostel, com beliches e mais nada, terceirizamos nossas taras e segredos entre as coleções e enciclopédias. Sofríamos com a

mania de uma época em que se deixava um dos aposentos para o escritório e metiam a cambada de filhos no mesmo quarto.

Inventávamos armários pelos ares. Espantávamos a concorrência das traças e dos cupins. De tanto futricar, mantínhamos, pelo menos, o espaço limpo.

Um aguardava a saída do outro no lugar para produzir seu próprio esconderijo. Respeitávamos a troca de guarda. Quando encontrava algo que não era meu, nem mexia,

tomava cuidado para não gerar represálias e delações.

Armávamos gavetas nos vãos, decorávamos o título para reaver os nossos pertences. Evidente que nos confundíamos e às vezes atravessávamos tardes na biblioteca mudando

os livros de lugar, não se recordando precisamente da localização. Faulkner deve ter levado as balas azedinhas. John Dos Passos sequestrou as bolas de gude. E assim

perdia meu legado na babel dos corredores.

Os pais se orgulhavam de nossas leituras, admiravam o nosso amor pelas letras, elogiavam o nosso interesse apaixonado pela literatura – mal sabiam da verdade, que

poderá aparecer com a derrubada da mata de papel.

Atrás da erudição, vigorava o tráfico da cultura inútil: cigarros, maconha, camisinhas, caixas de bis, revistas pornôs, cartas de tarô, fichas de ônibus e de telefone.

Nunca fui um leitor puro.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
06/05/2015


CAVALO DEITADO

 Arte de Robert Falk

Eu não contei com nenhum exemplo, ídolo, modelo de vida.

Alguém que pudesse me motivar a colar cartazes atrás da porta do quarto ou que me botasse a correr por um ingresso.

Nem na música, nem no cinema, muito menos na literatura.

Alguém que fosse seguir insanamente suas pistas e biografias, capaz de me pôr a participar de chats e comunidades.

Alguém para repetir os gestos, o riso, o carisma do olhar no espelho.

Nunca fui fã de carteirinha de qualquer artista. Não tive aquela influência externa, que facilitasse uma identidade e que poderia prestar uma homenagem no Facebook.

Com exceção de um cavalo. Um cavalo branco, pálido como o leite, que observei na infância.

Um cavalo, sim!, eu inspirei a minha vida num cavalo.

Quando tinha oito anos, participava de um churrasco numa fazenda de amigos dos pais em São Borja.

E observei um cavalo estranho abrir o portão com um meneio da cabeça, subir a estrada sinuosa de terra batida, limpar as patas no capacho, entrar dentro do casarão e deitar na sala.

Montou guarda entre o sofá, a mesa e a televisão, ocupando praticamente o espaço necessário para se locomover.

Ele parecia uma pessoa. Não se intimidou com a multidão no pátio, manteve o porte ereto e tranquilo, convicto a protestar em pleno domingo.

Um cavalo revolucionário. Um cavalo grevista.

Eu me espantei com a imprevisibilidade da cena, e me belisquei para definir se não estava dormindo.

O cavalo entrou na casa do seu dono, por algum motivo obscuro. Os mais velhos tentaram dissuadi-lo, levá-lo dali pelo tranco das rédeas ou por palavras carinhosas, xucras, bravas, nada produzia efeito.

O cavalo teimou em ficar.

Naquele pânico, no zunzum dos convidados opinando sobre qual atitude adotar, ouvi de minha mãe a frase que me serviria de lema:

– Cavalo deitado, ninguém levanta!

Sou teimoso como aquele cavalo. Turrão como aquele cavalo. Obstinado como aquele cavalo.

É só me dizer que não posso fazer, que faço. É só me contrariar que aceito o desafio. É só falar que é impossível que dou um jeito de tentar. As adversidades são estimulantes.

Deito com todo o peso de meus sonhos na dificuldade para jamais desistir. Não importa o que os outros vão pensar, não arredo do lugar até conseguir o que desejo. Quero ver me tirarem do meu objetivo.

Tenho pena de quem eu amo. Vou entrar em sua sala e jamais sair até convencê-la a subir em minha sela.

Nunca fui o príncipe, sou seu cavalo branco, mas sei que a insistência inteligente é o caminho ao reinado.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 05/05/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18153

BONECO DE NEVE

 
Arte de Henry Moore

Chega o inverno, e todo mundo que é solteiro deseja namorar.

Para dividir o calor das cobertas. Para abraços de urso no sofá. Para passear de mãos dadas. Para visitar Gramado e sentar numa mesa perto de uma fogão a lenha. Para tomar um vinho.

Aqueles que estão sozinhos entram num desespero sem precedentes e começam uma dança das cadeiras.

Preocupados em se arrumar de qualquer jeito, dispostos a não desperdiçar o luxo do frio.

É um período de caça que vai do Dia das Mães até o Dia dos Namorados.

Mas desesperador é namorar por namorar, por formalidade, para não se ver em desvantagem em relação aos amigos casados.

Melhor permanecer sozinho do que arrumar uma companhia que não se gosta, do que acabar firmando compromisso com alguém chato.

Conviver com alguém cheio de manias e não ter como sair de casa.

Ficar trancado ao lado de um boneco de neve: gelado, sem iniciativa, sem conversa, sem euforia.

Não adianta colocar cachecol e óculos no boneco de neve - ele não deixará de ser um boneco de neve.

O inverno é perfeito para namorar, com quem se ama, senão pode ser um inferno.

Ouça o comentário na manhã desta terça-feira (05/05), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


PASSARELA


Arte de Joan Erbe

Não sou de ficar olhando para homens, não é minha preferência, não sei dizer se é bonito ou feio, quadrado ou redondo, alto ou magro, gostoso ou raquítico, nem me interessa.

Não entendo homens que se declaram machões mas que me qualificam a todo instante de feio ou monstro ou estranho. No fundo estão obcecados pelo meu jeito. Estão atraídos. Eu não perco tempo avaliando a beleza masculina. Tem tanta mulher para se admirar. Gosto de mulher, de falar de mulher, de comentar sobre mulher. Para mim, não tem nada melhor nesta vida.

Esses sujeitos que se dedicam a reparar na minha aparência ainda não se definiram. Precisam ter um imenso guarda-roupa embutido em casa para se esconder.

Ouça o comentário na manhã desta sexta-feira (01/05), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: