terça-feira, 26 de abril de 2016

OS DOIS LADOS DA INTIMIDADE



A intimidade facilita a comunicação quando estamos bem, mas dificulta quando estamos mal.

Há uma predisposição para revelar o que incomoda para quem não se conhece e a de não evidenciar as falhas para quem se ama.

Não foram poucas as vezes em que um completo estranho me contou o que fez de errado no relacionamento numa mesa de bar, segredos que jamais dividiu com o seu marido ou a sua esposa, a parte envolvida e interessada na questão. Para mim, que era de fora, não teve nenhum receio de expor humildemente os seus erros. Do nada, chorou garrafas de cerveja e abriu as portas de suas angústias. Já para quem valorizava, não se sentia pronto para falar: travava, balbuciava, gaguejava e, pressionado pela ânsia de ser julgado, trocava de assunto. Não conseguia formular o pensamento e pedir desculpas. Poderia ser uma bobagem, que se agravava com o tempo. Poderia ser uma pequena mentira, uma omissão, uma distorção, que aumentava de importância pelo constante adiamento.

Somos capazes de confidências com quem não mais veremos no dia seguinte, e incapazes de passar a limpo os problemas com quem acordamos ao lado.

Taxistas e garçons acabam sendo padres involuntários, confessionários sem penitência, condicionados a ouvir desabafos surpreendentes e a opinar sobre o destino amoroso de passageiros e fregueses em minutos. Escutam relatos de infidelidade e deslealdade que nunca foram ditos antes.

A fluência com estranhos acontece pela ausência de cobrança e de expectativa. A resistência com os íntimos vem do temor das consequências e da obrigação de mudar e pagar as dívidas sentimentais.

Com medo de perder quem se gosta, cultiva-se a arrogância da covardia. Protege-se o outro da verdade que mostrará a nossa fragilidade e imperfeição, que destruirá a idealização e colocará a nossa conduta em xeque. A ameaça da separação sempre é maior do que a sinceridade.

É preciso entender que a intimidade é amar com todos os sentimentos, bons e ruins, não apenas com as melhores intenções. Ao esconder partes significativas e desagradáveis da personalidade, estaremos traindo o futuro a dois. Não adianta ser cúmplice somente naquilo que nos favorece, e boicotar o que nos prejudica.

A vergonha de sofrer na hora trará mais sofrimento depois. Ser inteiro significa também decepcionar.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna Semanal, p.4
Porto Alegre, 26/04/2016
Edição 18509

segunda-feira, 25 de abril de 2016

JAIR E ZÉ CAPITÃO



Jair tem 80 anos, Zé Capitão tem cara de noventa. Não conheço amizade tão bonita entre dois homens. Amizade pura de menino, de sujar as calças da missa subindo em árvores e jogando bolita de gude.

Eles nunca se entristecem, é estar perto que formam um domingo e reencontram a esperança infinita da infância.

Sempre arrumam o que fazer, mesmo que seja atirar pedras no rio, buscando o arremesso certo, de faiscar a superfície.

Conversam sem dó sobre qualquer assunto, de política a pintura, de pássaros a aviões.

Jair é divorciado e Zé é casado. A paixão pelas suas mulheres somente alimentou a confidência. Velhos homens hoje, mas com uma velhice dividida que é quase uma juventude.

Eles se vêem duas vezes ao mês na fazenda de Zé em Lagoinha de Fora (MG), depois de Lagoa Santa. Jair armou uma placa para avisar todos que passam onde mora o seu melhor amigo: a 2km o buraco de Zé Capitão. Criou o desenho de um pescador queimado pelo sol.

Zé não anda mais, amputou as duas pernas devido a diabetes. Jair movimenta-se pelos dois para pescar carpas. O filho do Zé ainda corta os cabelos de Jair, apesar do hábito de aparar mal e abrir um caminho de ratos. Jair deixa porque é filho do Zé.

Jair é chamado de Jairo por Zé Capitão - ninguém sabe o motivo. Assim como Zé, quando gosta de algo, diz que é mexicano. "Come esta mexerica? É mexicana!" Ninguém também sabe o motivo. Não é bom perguntar. Há piadas que são só dos dois, segredos de longas risadas.

No entardecer, ambos se juntam para cantar serestas. "A noite do meu bem" é a preferida do dueto que arranha uma viola caipira. Os cachorros disputam a audiência com ganidos para a lua.

Eles deitam na cama assistindo novela: Jair, Zé e Elza, a jovem esposa de Zé. Engraçado os três estirados. Não falam coisa alguma até vir o comercial. Não existe malícia, não existem segundas intenções. São homens antigos ocupando os espaços do silêncio.

Se não fossem amigos, não seriam Jair nem Zé Capitão.

Já perderam dinheiro, bens, posses, relações, jamais se perderam, jamais serão loucos. Loucura é estar completamente sozinho neste mundo.

Amigos podem ser mais do que irmãos de sangue. Pois inventam os seus próprios pais para cuidar melhor um do outro.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna
Sábado e domingo, 23 e 24 de abril de 2016

terça-feira, 19 de abril de 2016

LASCA INÚTIL




Eu apoiei o braço na mesinha do microondas. E arranquei sem querer a tira de madeira.

Busquei colar, mas faltava um pedaço ínfimo, para reconstituir integralmente a peça. A lasquinha inútil, que não enxergava onde estava, era a responsável pela liga. Vasculhei o chão com as mãos, e nada.

Fiquei me encarando no reflexo do microondas, como se procurasse um rosto que não o meu.

As relações de amor são assim: perdem-se por uma lasca.

É algo que nenhum dos dois percebeu como importante, mas que fará a maior falta para encaixar as partes das personalidades. É algo desprovido de valor isoladamente, só que conservava intacta a superfície e a promessa de uma vida conjunta.

As duas extremidades apresentam uma fissura irremediável. Quem diria que uma lasca fosse quebrar o móvel? Uma lasquinha boba, uma lasquinha de ralos centímetros.

A lasca é a construção da destruição, é a fabricação do vazio. Lasca é um erro que não existia no começo do romance, é um atrito, um desgaste, uma falha da soberba dos movimentos. É pensar que conquistou a pessoa e, desse jeito, perdê-la definitivamente – esquece que ela ainda aguarda alguma surpresa e que a mesinha não é de ferro. É acreditar que ela sempre estará ali segurando o microondas ou as expectativas. É o que deixou de ser dito por achar que haveria tempo de sobra. É o que deixou de ser sentido por achar que poderia ser feito no dia seguinte. A paciência é maravilhosa na solidão, e perversa na vida a dois.

A lasca é o tarde demais: a fissura, a falta de uma sobra. É a roldana de um poço fechado, é a maçaneta que cai ao abrir a porta, é a aldrava que não gira quando a janela pede vento.

O amor engasga, a fé engasga, a esperança engasga. É a separação por confiar que nada seria capaz de separar o casal.

A lasca é o egoísmo de querer cuidar somente de si e realizar os próprios sonhos enquanto o outro espera. Não há maior egoísmo do que fazer o outro esperar resolvermos os nossos problemas ou ambições. Ou se resolve junto, ou a ruptura virá impiedosamente.

A maior parte dos casais confunde o eterno com o imutável. Imutável é a surdez do tédio, a monotonia de não sair do lugar. Eterno é viver mudando para nunca cansar de amar.

Não visualizava a lasca porque ela havia entrado na pele de minha mão. A lasca é uma farpa que entra na carne dos relacionamentos. E machuca com a violência do vidro partido e jamais refeito.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4
19/04/2016, Edição 18503

domingo, 17 de abril de 2016

O SEXTO SENTIDO DA NOIVA



Toda noiva tem um sexto sentido apurado, é uma bruxa do amor. Antes de casar, tem a visão privilegiada de que a relação será para sempre ou por alguns meses.

Já convivi com amiga divorciada que garante que enxergou o fim no início. Marcou o casamento, e previu que iria se separar mais adiante. Captou o papel timbrado do divórcio debaixo da transparência do véu, escutou o martelo do juiz da Vara de Família dentro da marcha nupcial da igreja.

Com o poder mediúnico feminino, ampliado pela tragédia iminente, a noiva insatisfeita realmente carrega uma marca secreta, um sinal na testa, uma pinta do divórcio anunciado no rosto.

A profecia nem sempre conta o apoio da consciência. Ela somatiza a precariedade de futuro do relacionamento, só que não deseja pôr fora tudo o que gastou e dedicou para manter o laço.

Quanto maior o investimento, maior será dificuldade de dizer a verdade. Quanto maior o envolvimento das amigas, maiores serão a indiferença do noivo e o desastre.

É o caso de uma comédia romântica sem roteiro e com os efeitos especiais garantidos.

A premonição acontece com frequência após longa duração do namoro. Como fica chato renovar o flerte para novos cinco anos, o altar surge como uma fatalidade social. O matrimônio é mais uma conseqüência do tempo de serviço do que uma escolha madura.

O parceiro não tem culpa. Não cometeu nenhum erro, apenas não é o homem necessário. Pode ser um bom partido, o que não significa que desfruta de condições para governar. Apresenta-se na pele de par perfeito para namorar, jamais para casar - há um grave contraste entre as duas naturezas.

A noiva sacerdotisa não consegue vislumbrar uma longevidade afetiva ao seu lado. Não é o tipo para criar filhos e cumprir projetos de realização pessoal. Trata-se de um sujeito agradável para programas a dois, viagens e passeios - quase um amigo íntimo, ideal para dividir a mesa, não o suficiente para dividir a cama pelo resto da vida.

A indecisão próxima da data da celebração pode ser confundida com ansiedade e nervosismo pelos outros, porém os sentimentos indefinidos são meros disfarces da melancolia. Não é complicado o diagnóstico. Sempre que alguém pergunta se ela está feliz, não responderá de bate-pronto, piscará e demorará para sussurrar um chocho sim. O suspense é o vírus inoculado da desconfiança. Não há taquicardia, fé, emoção durante o noivado. Segue um contrato de expectativas com pouquíssimas gafes e surpresas. A véspera possui o gene da monotonia de uma relação antiga.

Inclinada a não decepcionar os familiares, talvez termine casando por teimosia, arraste a insatisfação por alguns anos, insista na convivência, despreze os indícios, force os pesares goela abaixo, mas experimentará, inevitavelmente, a amarga sensação daquele torcedor que pressente a derrota vexaminosa do seu time e, mesmo assim, comparece no estádio e aposta na goleada de sua equipe.

Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Donna p. 30
Porto Alegre, 16 e 17 abril de 2016.

terça-feira, 12 de abril de 2016

DE CHINELO OU SALTO ALTO



Com ou sem desespero? Há sempre as duas alternativas diante dos problemas. Opto por sem desespero. Sei que a palavra tem poder e não banalizo o desaforo. Não xingarei quem não conheço.

Se tenho razão, perderei a razão na hora em que faltar com o respeito. Sacrificarei os meus direitos ao ferir e maltratar o outro.

Entendo que a justiça é lenta de propósito para não cometer uma leviandade. A agressividade, por sua vez, que é rápida e dolorosa – executa longe de ouvir o contraponto e examinar as mais diferentes versões.

O lado fraco não se torna forte pela imposição, nem o lado errado se torna certo pelo grito.

Não explodirei em qualquer situação, que é aquilo que costuma acontecer com a maior parte das pessoas. Só vou estourar em uma situação especial de perda ou luto. Economizo a dor e o sofrimento. Não perderei a cabeça por qualquer coisa. Perder a cabeça é condenar o coração.

Vivemos à flor da pele e nos sentimos permanentemente cactos, injustiçados, boicotados, passados para trás. Chegamos ao contrassenso de perseguir a paranoia. É um restaurante errar a conta e debochamos do garçom, é a companhia aérea não permitir o nosso embarque com o atraso e descascamos o funcionário do balcão, é um caixa errar o preço de um produto e chamamos para a briga, é alguém se confundir e tomar a nossa frente em uma fila e armamos uma confusão, é uma operadora de telemarketing telefonar no domingo, que mandamos a sua mãe a um lugar indesejado.

Personalizamos o serviço em um funcionário e jamais concedemos um desconto ao acaso. Ninguém pode errar, que já é por querer.

Não há discernimento. É um ódio gratuito e generalizado. De repente, o sujeito cumpre apenas regras como a gente em nosso trabalho, tem uma vida parecida de sacrifício e igualmente uma família para sustentar e não merecia ser ofendido de cima a baixo.

Não perdoamos nada. Tudo é caso de vida ou morte. Tudo é barraco. Tudo é escândalo. Agimos com a mesma intensidade nervosa com um estranho ou com um familiar, no momento de gravidade ou na banalidade.

Como ser feliz se reclamamos o dia inteiro? Como ser feliz se xingamos todos os atendimentos que recebemos? Atraímos o pior pela boca.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 5
12/04/2016, Edição 18497

domingo, 10 de abril de 2016

SANTINHO DO AMOR



Todos podem copiar imagens das redes sociais ou baixar álbuns inteiros em segundos, mas o amor ainda permanece artesanato.

A facilidade digital não mudou os símbolos do romance, que seguem os mesmos de nossos bisavós. A rosa continua como a favorita do buquê, o bilhete continua escrito à mão, a dedicatória no primeiro livro emociona mais que o conteúdo da obra, a letra de uma canção repassada ao papel revela momentos a dois.

Se alguém pedir para ver como é a minha namorada, não mostrarei foto nenhuma de meu celular.

Para a surpresa dos outros, abrirei lentamente a carteira e retirarei uma fotinho 3x4 que recebi dela.

A tradição é transgressora no campo emocional. Não há maior demonstração de compromisso do que guardar uma foto 3x4 na carteira dentro daquele envelopinho azul de plástico. Nada aplaca a materialidade desta declaração antiga e sempre atual.

A foto 3X4 é o santinho da intimidade do casal, é o RG da paixão, é o CPF da lealdade.

Supera em importância o status de relacionamento no Facebook. Ultrapassa o valor de uma aliança no dedo.

Os pares que trocam as pequenas fotos não vão se separar sem resistência. Tiveram o trabalho de visitar um estúdio, sentar na cadeira alta e atender às ordens de seriedade do fotógrafo. Reservaram uma das cópias para a sua companhia predileta. Não é pouca coisa em tempos tão líquidos, quando o desprendimento vem sendo desculpa da preguiça.

Quando a minha namorada me presentou com a sua fotinho estava simbolicamente afirmando que confiava em mim, recomendando para que cuidasse de nossos laços e lembrasse de onde venho e para quem eu volto. Logo tornou-se um talismã da ternura, um escapulário de bolso.

Representa o atestado de nascimento de nossa relação que valerá enquanto não nos casamos, assim como a certidão de nascimento é o documento provisório antes da identidade.

E o mais bonito da foto é que ela não está rindo, ninguém ri em foto 3X4 - é o amor que gargalha de orgulho em meus dedos sempre que digo que somos apaixonados.

Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Donna p. 30
Porto Alegre, 9 e 10 abril de 2016.

terça-feira, 5 de abril de 2016

FINAL DE SEMANA PERFEITO



Meu filho nunca pisou numa locadora de filmes. Ele baixa todas as séries e jogos em seu computador ou acompanha as obras de sua preferência nos canais de assinatura da web.

Já eu vivi o império das locadoras. Meu sonho por ordem era abrir uma locadora, uma livraria e um café. E, com certeza, não era só meu, antes da revolução de Steve Jobs.

O cinema em casa fez a cabeça de toda uma geração, que alugava fitas, experimentando uma extensão do empréstimo dos livros da biblioteca na escola.

Lembro da alegria ansiosa de sair do trabalho na sexta para buscar os lançamentos e garimpar clássicos. Horas a fio revistando as prateleiras, com pilhas de capas nas mãos e a séria dificuldade de escolher o que realmente desfrutava de tempo para ver.

Não controlava a gula. Havia uma fórmula secreta no desperdício. Quando eu locava cinco filmes, assistia a três. Quando locava quatro filmes, assistia a dois. Quando locava três filmes, assistia a um. Quando locava dois, não assistia a nenhum. Jamais locava um, pois era impossível ceder às promoções para permanecer uma semana dependendo do número de locações. Tenho dúvidas do que vi, a sensação é de que conclui um filme, mas na verdade apenas o retirei.

Apesar do prazo dilatado, atravessava uma maldição. Não conseguia entregar no dia. Acho que paguei mais em multa do que em aluguel. Eu não registrava a data da devolução e entrava em pânico quando reconhecia os títulos esquecidos em cima do aparelho de VHS.

As locadoras foram um termômetro da felicidade. A saudade de pegar uma montanha de filmes com amigos e virar a madrugada comendo pizza e emendando roteiros e dramas até o amanhecer. Ou, quando me apaixonava, curtir o sábado e domingo com a namorada na cama, só apertando o play e o pause. Se eu retirasse oito filmes, certamente me encontrava amando, disposto a sumir no quarto e esquecer o mundo.

O deslocamento físico e o manuseio balbuciante dos estojos intensificavam o prazer. Definir pela sinopse malredigida o que valeria a pena e ganhar a discussão com a mulher sobre qual título levar formavam um ritual de final de semana perfeito que não existe como antes.

Lamento a ausência galopante das locadoras em nossos hábitos. Não cumpri as minhas fantasias. Faltou coragem de entrar na salinha de filmes pornôs, um espaço à parte, carregado de preconceito e com câmeras nos cantos. Hoje estaria preparado, sem nenhuma vergonha da minha sexualidade. Pena que é tarde demais.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4
05/04/2016, Edição 18491

domingo, 3 de abril de 2016

AGRADÁVEL INSATISFAÇÃO



Quando a namorada escolhe a sua roupa para sair, a minha opinião somente vale para criar dúvidas. Se confesso que adorei, não significa que manterá a combinação. Cinco minutos depois estará com outro traje pedindo a minha opinião de novo. Ou seja, aquele vestido que elogiei já não existe mais, morreu de inédito.

A impressão é que não faz sentido o meu palpite, mas tem uma função eliminatória. Ela é capaz de recusar uma roupa que não gostei, porém não seguirá cegamente o que gostei. Porque precisa gostar mais do que eu. E uma mulher só gosta comparando.

Esqueça o sonho de que ela pegará um figurino no armário e deu, que será rápida e prática. Seu costume é realizar um leilão do seu guarda-roupa. Sempre derrubará os cabides sem medo da bagunça, com a intenção de intercambiar tecidos. É uma pintora diante da tela imensa do espelho, produzindo cores inéditas na paleta. Não esmorecerá até
definir a opção certa para o clima e para a ocasião. Não deseja apenas estar bonita, porém ser também oportuna. Odeia a hipótese de chegar num lugar com jeito de fantasiada.

Escolher depende do cruzamento das peças com os acessórios. O costume é aprovar o vestido e não achar um sapato à altura, optar por uma calça e uma camisa e cismar com o cinto. Uma simples hesitação põe o trabalho de horas abaixo.

A importância do encontro pode ser mensurada pelo número de roupas que testou. Mais de cinco é sinal de que leva a sério o passeio.

Não reclamo quando a minha namorada troca de roupa seguidamente. Não reclamo da demora e do atraso. É a minha chance de vê-la nua várias vezes. É a minha chance de vê-la se despindo para mim várias vezes.

Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Donna p. 38
Porto Alegre, 2 e 3 abril de 2016.

terça-feira, 29 de março de 2016

TER RAZÃO É DE MENOS NESTA VIDA



Aquele que nunca deu o braço a torcer um dia dobrará os joelhos. Mesmo o mais ferrenho orgulhoso não escapará da humildade. Ninguém escapa de conhecer a si. Pode durar perturbadores 20 minutos, um breve intervalo, mas experimentará o calor do despojamento, beijará o chão de sua renúncia, os ouvidos se abrirão para as batidas na porta e as vozes na janela.

Pode ser uma consciência rápida e provisória, não importa, só que ele sentirá na pele o tamanho da falta em seu corpo, o tamanho de suas falhas, o tamanho de sua teimosia que afastou de perto todos que realmente o amavam.

Mesmo o mais frio orgulhoso perceberá – por um fundo relance – que não tinha razão, que seguiu a intolerância jurando que era temperamento, que desenvolveu o egoísmo jurando que era independência, que vigiava um túmulo jurando que era o seu berço. Estará desamparado em sua esperança, não restou sequer uma companhia para acreditar em suas mentiras.

Mesmo o mais insano orgulhoso cansará das explicações e das justificativas, dos detalhes e dos álibis para aliviar a sua responsabilidade.

Mesmo o mais endurecido orgulhoso verá em algum momento o que perdeu e o valor daquilo que colocou fora. Seus olhos brilharão confusos, vermelhos, aflitos. Terá uma clareza absurda do que foi, e da prisão que criou para a boca.

Será uma tempestade de lucidez encurvando as árvores e as certezas. Conectará os fios das lembranças fazendo a saudade funcionar plenamente, pela primeira vez, em sua casa.

Ainda que por meros minutos, receberá a paz da pobreza, a paz da pequeneza, a paz da inutilidade, a paz de não ser coisa alguma sem os outros, que o colocará a chorar compulsivamente, rebobinando o sofrimento que gerou e entendendo o quanto comprou uma briga desnecessária com o destino, o quanto não valorizou o que lhe fazia alegre, o quanto sempre se viu traído e enganado por antecipação, o quanto dedicou o tempo a se vingar e a perdurar lições a quem não concordava com as suas convicções.

Não ouvia o óbvio porque preferia falar bonito; não pedia desculpa porque não queria ser fraco; não se entregava para proteger a sua vergonha. Emburreceu a emoção procurando ser inteligente.

Tudo o que combateu racionalmente, tudo o que contestava, desaparecerá e amargará exatamente o contrário do que pregava.

Virá um arrependimento por ter se defendido excessivamente a ponto de não ouvir a posição contrária, preocupado apenas em não ceder, interessado em ganhar a discussão custe o que custasse (pena que custou a própria vida!).

O que explica pais ligando de madrugada para os filhos, sem nenhum motivo, para dizerem simplesmente obrigado; filhos surgindo na residência dos velhos pais cheios da gentileza do remorso; ex mandando mensagem, décadas depois, do nada, para se penitenciarem de uma deslealdade.

O desespero não tem hora para derrubar as reservas e defesas. O desespero é sol de noite, é luz da pele no quarto escuro.

Nem o orgulhoso mais renitente foge do encontro com a verdade. Pois Deus vem, sempre virá, na forma de terapia ou simpatia, na bênção ou no isolamento. Nunca é tarde demais para Deus.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4
29/03/2016, Edição 18485

domingo, 27 de março de 2016

NÃO É BRINCADEIRA



Não é o trabalho que me cansa. Não é viajar três vezes por semana e dormir três horas por dia. Não é acordar cedo e conciliar casa, filhos e contas a pagar. Não é o excesso de tarefas, de obrigações e de responsabilidades. Não reclamo por não parar quieto, por ler em trânsito, por comer voando, por render os intervalos apressados de mim para a musculação e rústica. Não reclamo das olheiras e dos cochilos de pé no ônibus.

Só me falta na vida não mais me preocupar com o amor. O que me exaure é a procura de alguém: alguém que esteja dentro da minha solidão para não precisar mais estar sozinho.

Se quem é solteiro já sofre, imagine a situação de quem ainda por cima é romântico, pretende casar e seguir um relacionamento sério.

É uma maratona que começa nos aplicativos e redes sociais, é peneirar fotos, hábitos e postagens, é convidar no Facebook, é adicionar o telefone, é manter agenda ativa de eventos, é tentar fazer uma piada que não será entendida por diferença de geração, é perdoar gente com alternância absurda de humor, é gostar daquela que não gosta de você e recusar aquela que se interessou por você, é distinguir psicopatas e doidas das intensos e apaixonadas, é não saber se segue os conselhos dos familiares (vá devagar!) ou dos amigos (não deixe de ir!), é se defender de grosserias e gratuidades, é adorar a aparência e não suportar a burrice, é admirar a inteligência e não aguentar a cafonice, é se arrumar todo para não conhecer ninguém interessante, é enfrentar a estranheza de um novo corpo, é receber em casa, perceber que não há futuro e gastar os bons modos fingindo simpatia, é comparar as relações de antes com os problemas de agora, é atravessar as cantadas chatas dos bares, é decodificar os gritos nas baladas, é sair para jantar, é explicar um filme, é acreditar que achou, é perceber que não achou ainda, é festejar um velório, é enterrar uma festa, é recomeçar a busca, é alternar momentos de extrema esperança e excitação com picos de desânimo e ceticismo, é temer a recaída com ex com as sucessivas desventuras, é acompanhar os colegas em fracassos, é errar a medida da bebida e arcar com a ressaca moral, é retomar a terapia, é abandonar a terapia.

Não existe canseira maior, tanto física quanto espiritual, do que a expedição pelo par ideal.

Cada mês do solteiro romântico equivale a um ano do casado, tamanha a volta na alma, os passeios pela Cidade Baixa e Moinhos de Vento, as promessas infundadas e os romances abortados.

O curioso e engraçado é que, quando encontrar a minha mulher, esquecerei todo o esforço que tive, não protestarei pela demora, não xingarei os percalços. Graças a Deus, a felicidade sempre foi desmemoriada - a boba da dor é que não esquece nada e jamais perdoa.

Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Donna p. 30
Porto Alegre, 26 e 27 de março de 2016.