segunda-feira, 17 de junho de 2013

AS RAÍZES DO DESEJO


É complicado adivinhar o que uma mulher deseja no homem.

Deseja que seja sensível, mas não demais.

Deseja que seja determinado, mas não grosseiro.

Deseja que se vista bem, mas que não dispute beleza. 

Deseja que seja interessado, mas não obcecado. 

Deseja que seja sensual, mas não bagaceiro.

Deseja que seja preocupado, mas não ciumento.

Deseja que seja compreensivo, mas não tolerante.

Deseja que seja apaixonado, mas não grudento.

Deseja que tenha amigos, mas não álibis.

Deseja que seja independente, mas não indiferente.

Deseja que seja afetuoso, mas não invasivo.

Deseja que seja dedicado, mas não bajulador.

Deseja que seja persistente, mas não chato. 

Deseja que seja irônico, mas não sarcástico.

Deseja que seja crítico, mas não lamurioso.

Deseja que seja surpreendente, mas não volúvel.

Deseja que seja misterioso, mas não volúvel.

Deseja que seja compreensivo,  mas não condescendente.

Deseja que seja conselheiro, mas não moralista.

Deseja que seja educado, mas não afetado.

Deseja que seja familiar, mas não acomodado.

Deseja que seja simples, mas não superficial.

Deseja que seja ousado, mas não inconsequente.

Deseja que seja culto, mas não arrogante.

Acabo por concluir que toda mulher anseia por um homem de dupla personalidade.

E a personalidade tem que vir na hora certa, e do lado certo, senão é caso psiquiátrico.

Minha namorada gosta que lhe defenda da injustiça, mas que não me defenda dela.

A raiva deve ser externa, brigando com o mundo, não me apartando do seu universo. 

Ele pretende enxergar em mim a masculinidade da fala e a fragilidade do ouvido.

E não posso ser o mesmo para os outros e para ela. Tenho que mostrar uma diferença, uma mudança, um lado b, uma reserva imaginária, uma caligrafia secreta.

Mulher procura no fundo a exclusividade. Uma parte somente sua. Um homem que somente ela conheça.

Posso esbravejar e desaforar fora, desde que seja capaz de chorar com ela. Que lute por nossas fraquezas, mas que seja compreensivo com seus erros. Que não desista de me destacar, mas que sempre possa inclui-la. Que tenha o pulso para protegê-la e ser decidido, mas que não atropele ou imponha minha vontade. Que seja intuitivo no sexo, gentil depois dele.

O homem só não pode ser o exagero de si.


Minha coluna na Revista IstoÉ Gente
São Paulo, março de 2013, p. 76, Edição Nº 698

sexta-feira, 14 de junho de 2013

DETERGENTE

O que não se deve dar no Dia dos Namorados?
Cuecas?
Meias?

DRnaTV descobriu que quem dá utensílios para a cozinha, quer acabar com a relação. Quem dá presente para colocar na sala, mostra que o relacionamento está quase morto. Na data,  a única peça da casa que pode ser usada para mimos é o quarto.

A exibição aconteceu na terça (11/6), na TVCOM, com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.


 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

OBRIGADO, AMOR, HOJE SEI QUE NÃO PRECISA AGRADECER

Arte de Eduardo Nasi

Estamos morando juntos, Juliana. Eu vivo agora a vida que gostaria que fosse eternidade.

Posso chamá-la de minha mulher. Pode me chamar de seu homem.

Você me procura na cama com os braços, eu lhe procuro com as pernas.

Você arruma as roupas quando fica braba. Eu bagunço quando fico triste.

Eu sinto ciúme de suas viagens passadas, você sente ciúme de minhas residências anteriores.

Você acorda rindo, eu durmo rindo.

Tem dias que você não encontra nenhum de seus elásticos para prender os cabelos, tem dias que não encontro nenhum de meus lápis para sublinhar os textos.

Você toma um copo de água ao despertar, eu tomo café.

Você usa o almoço para resolver pendências, eu uso o intervalo para fazer dívidas.

Você trabalha dez horas sem parar, eu vadio palavras.

Você lê um livro de cada vez, eu abandono vários ao mesmo tempo.

Você morde as cutículas quando crescem, eu coço a barba quando embranquece nas pontas.

Você me convida para ver um filme na sala e adormeço antes do final. Eu conto uma história na hora de deitar e você adormece antes do final.

Você se acalma com a massagem nas mãos, eu me acalmo com abraços.

Você se alegra com um elogio, eu me encabulo.

Eu me alegro com um presente, você se encabula.

Estamos encaixados um no outro, independentes dentro da maior falta. Nossas diferenças nos aproximam.

Minha saudade de você é maior do que minha saudade de mim.

Minha saudade de mim é somente quando estou com você.

Estamos dividindo a casa. A gente passa do horário e depois reclama que não é final de semana.

Somos tão felizes que não resta corredor entre as nossas frases.

Você me adivinha, eu lhe provoco.

Você está um passo a frente de mim, eu estou um passo atrás de você.

A sala é quarto, a cozinha é quarto, o escritório é quarto, o quarto é o quarto dos quartos.

Você abre bolachas antes da janta, e não perde a fome. Eu fecho os pacotes com prendedor.

Você prova uma loja inteira em vinte minutos, e me manda fotos para opinar. Eu escolho roupas com seus olhos emprestados.

Você me convence, eu insisto, ambos estão errados querendo acertar.

Você me descreve o passado, eu reescrevo o passado.

Você avisa que vai chorar, minha asma não avisa nada.

Nosso amor é se fazer entender sem perder os mistérios.

Nosso amor nasceu póstumo.

Nosso amor é antigo e novo ao mesmo tempo, é ancestral e recente ao mesmo tempo, é previsível e inédito ao mesmo tempo.

Você me explicou que não existe mais surpresa entre nós, mas decisões.

Surpresa é quando um decide sozinho. Amor é quando os dois decidem juntos. E não há maior surpresa do que decidir junto.

Estamos morando mais do que no mesmo endereço: estamos morando no mesmo sentido, Juliana.

Casa comigo sempre, casa comigo sem parar, casa comigo até depois de mim?





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A MÁQUINA RECEBE RAFINHA BASTOS

O humorista Rafinha Bastos acredita que seu caminho é criar as próprias oportunidades para ter contato com seu público.

Ele conta que sua exposição tem limites e que adora brincar com as expectativas das pessoas.

A entrevista foi ao ar na noite de terça (4/6), em meu programa A Máquina, na TV Gazeta.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

DUAS CAMAS DE SOLTEIRO FORMAM UM CAVALHEIRO

Arte de Eduardo Nasi

A privação cria um cavalheiro.

A renúncia prepara românticos.

O egoísta jamais será educado. O narcisista jamais será educado. O megalomaníaco jamais será educado.

A virtude masculina consiste em ser o segundo, em vir depois, em não priorizar os próprios luxos.

Quem procura se beneficiar antes não será um macho de verdade. Sempre vai abandonar ou fugir de um romance.

Amor é ter altivez dentro da humildade. É ceder sem medo de existir.

Homem que nunca lavou louça não saberá o que é se cortar no amor. O homem que nunca cozinhou não saberá o que é se queimar no amor. Homem que nunca passou roupa não saberá o que é rasgar uma promessa.

Só podemos oferecer o que somos. Só podemos imaginar o que um dia tentamos.

Nas pequenas tarefas, surgem os grandes maridos. Não subestime a epopeia da banalidade.

É difícil ser gentil. A gentileza é uma coragem, um refinamento da experiência. Árduo quem não depende do medo para ajudar, quem oferece o que tem antes que alguém precise.

O heroísmo amoroso começa na adolescência. Exatamente quando o jovem dormirá pela primeira vez com a namorada em seu quarto e decide juntar duas camas de solteiro.

Ali nasce a delicadeza no rosto barbudo.  Ali germina a sutileza na feição baldia.

A cena fundadora do lirismo viril reside no momento em que o homem abandona o posto de filho, de dependente, e assume a independência de cuidar do outro.

Não há nada mais comovente do que um garoto que adormece no meio da madeira para permitir que sua amada durma no canto acolchoado.

É um gesto carinhoso de fazer e não falar.  De zelar e não cobrar na manhã seguinte.

Diria que é neste instante que o adolescente se torna adulto.

Ele disfarça a dificuldade material com seu gesto, contorna sua pobreza com ternura.

Não está se destacando nem aparecendo. De modo inédito, mergulha na sombra, conhece o valor da retaguarda, sofre calado para não vê-la sofrer.

Com seu corpo, cobre o descompasso, o desnível, a divisão entre os dois colchões.

Não reclama da frieza da brecha, não lamenta as dores nas costas.

O que valoriza é estar junto, respirando perto, soprando os sonhos para o mesmo lado.

Um homem se mostra sensível quando não pensa somente nele, e passa a levantar de sua nudez uma ponte dos suspiros dela.




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A MÁQUINA RECEBE TULIPA RUIZ

A cantora Tulipa Ruiz conta que estava acostumada com amores de férias em sua cidade, São Lourenço (MG).

Com cabelos brejeiros, fala da saudade do seu cachorro de infância, Tambor.

A entrevista foi ao ar na noite de terça (28/5), em meu programa A Máquina, na TV Gazeta.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

ME DÊ UM PAR


Arte de Eduardo Nasi

Quando a minha vó Elisa me mostrou sua aliança, eu fiquei hipnotizado.

Foi um pouco antes dela morrer. Era viúva há cinco anos.

Ela brincava:

— Leonidas pode me trair, já que está morto. Mas eu continuo viva e não tiro.

O símbolo me cativava pelo uso. Arranhado, com o ouro todo riscado.

Eu queria um igual. Para ser empregado com semelhante fúria. Para ser gasto. Testado. Lanhado.

Uma aliança com mecha envelhecida. Anciã.

Uma aliança como pedra de riacho. Arredondada.

Uma aliança teimosa, que jamais saiu do anular. Nem durante o banho. Muito menos ao longo da viuvez.

Uma aliança montaria da espuma, bambolê de frutas, relógio de unha.

Uma aliança fiel ao corpo, coração na árvore, bússola de besouros.

Uma aliança doída, torneada, esfolada no tanque de lavar, na pia, na mesa.

Uma aliança que é aldrava de janela, argola de brinco, que acalma nossa respiração.

Eu sou apaixonado por aliança que tenha bodas, experiência de vento, vontade vivida.

Já ouvi de casados que a aliança é um ímã de traição, que aumenta apenas o assédio.

Mas aliança não traz infidelidade, não é um escudo.

Ela não nos protege, nós que a protegemos.

Aliança não é o fim, e sim o começo incessante.

Não significa que estamos prontos, definidos, fechados.  É uma escolha renovada, é uma promessa incansável, um compromisso que se carrega na mão para ter gosto de apontar o caminho ao outro.

Aliança é o laço do balanço voando, é uma admiração por alguém estendida em nossa palma.

Ela não está só na mão. É tudo o que enxergo, tudo o que acredito. Olho para os cabelos cacheados de Juliana e vejo alianças. Olho para seus olhos mouros e vejo alianças. Olho para seus lábios soprando a neblina e vejo alianças. Olho para seus joelhos de patinação e vejo alianças.  Olho para suas pequenas orelhas e vejo alianças.

Conchas, círculos, esferas são ensaios de aliança. Desenhos de alianças. Garatujas cantantes, aliadas de minhas pupilas.

A aliança nunca será uma joia, será sempre uma palavra para duas bocas.

A aliança nunca será um anel, será sempre uma chave para duas portas.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 28 de maio de 2013

O AMOR TEM SONO LEVE

Eu, namorada Juliana e minha filha Mariana. Foto de Rodrigo Rocha

Só aprendi a amar uma mulher depois de ser pai.

Antes me amava mais do que amava o outro.

A paternidade mudou meu mundo. Pela primeira vez, me tornei invisível, desaparecia no interior da casa, alguém era mais importante do que eu.

Permanecia 24 horas cuidando de minha filha. Existia por ela, para ela. Passei a destacar o que não seria notícia, a me interessar pelos assuntos da praça, pelos cuidados médicos, por aquilo que havia dentro do armário do banheiro, dentro da despensa da cozinha, dentro de minha cabeça.

Só quando pai é que descobri a diferença dos detalhes, a reparar na gola da camisa desarrumada, no farelo do canto da boca, na remela nos olhos, na previsão meteorológica, na lista do mercado sonhando almoço e janta.

Antes amava a noite mais do que o dia.

Quando nasceu minha filha, me dediquei à ordem doméstica. Dispensei creche para assumir a rotina do nosso bebê.

Meu expediente consistia em acordar, dar comida, trocar fraldas, dispor brinquedos, arrumar bagunça, levar para passear, preparar o banho, contar histórias, fazer dormir. E repetir exatamente tudo igual pela semana.

Controlava os horários com rigor. O relógio entrou em meu sangue.

Era um tal estado de solidão e carência, que todo beijo parecia um abraço dos lábios. Era um tal estado de isolamento, que toda visita recebia o dobro de festa.

Tinha direito a três telefonemas, justamente no momento em que minha criança descansava.

Brilhava cada palavra vinda dos amigos, como se fosse um sopro benfazejo de praia no rosto.

A paternidade transformou meus ouvidos. Eu comecei a escutar a residência inteira, jamais dormi igual. Meu sono agora estava atento a qualquer ruído, generoso, preparado para a vigília.

Só aprendi a amar uma mulher depois de ser pai. Arrumando a merendeira, me importando se o uniforme da filha estaria seco, conservando a memória da banalidade.

Antes não me julgava romântico, antes não me via sensível, antes não compreendia vésperas.

Foi untando os dedos de hipoglós que valorizei o uso do perfume, foi juntando meus pedaços que me formei inteiro.

Só com a paternidade aprendi a esperar, aprendi a abandonar o egoísmo, aprendi a planejar presentes, aprendi a ser provisório e não mais idealizar encontros, aprendi a aproveitar o tempo que eu tinha e o tempo que podia, aprendi a não reclamar à toa, a não mais diferenciar a janela da porta e o amor do perdão.

Só aprendi a ficar de pé depois de ser pai, antes minha fé apenas engatinhava.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 28/05/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17446

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A MÁQUINA RECEBE SÔNIA ABRÃO

A jornalista Sônia Abrão fala que o homem ainda é o atestado de existência de muitas mulheres.

Ela conta que, inicialmente, foi a destruidora de sonhos do pai.

A entrevista foi ao ar na noite de terça (21/5), em meu programa A Máquina, na TV Gazeta.

SUPORTANDO O FUXICO

As pessoas conseguem conviver com um romance secreto no trabalho?

Ou levam o caso a público e aguentam as consequências?

DRnaTV buscou casais em uma agência de Porto Alegre para saber qual o comportamento adotado pelos apaixonados.

A exibição aconteceu na terça (21/5), na TVCOM, com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.