quinta-feira, 31 de julho de 2014

IMPROVISO PERMANENTE

Arte de Eduardo Nasi

Casa perfeita é cenográfica. Não há comoção.

Casa habitada tem que ter alguma coisa quebrada, estragada, imprecisa.

Casa não pode ser de passagem, mas enraizada no uso.

São defeitos menores que terminam arrumados por um jeitinho, por algum conserto provisório, uma ideia extravagante.

Os visitantes talvez não percebam, mas você morador conhece os remendos e não revela.

É uma mesa manca reequilibrada com papelão, é uma almofada rasgada virada de lado, é uma maçaneta solta que colocamos um prego, é uma infiltração na parede tapada com um quadro, é uma tomada grudada com durex, é uma gaveta com a fórmica colada com bonder, é o encanamento sanfonado da cozinha isolado com fita.

É um problema que disfarçamos para um dia remediar definitivamente. Os anos passaram e nunca arrumamos.

Trata-se de algo pequeno para mobilizar o acerto permanente e que também não é totalmente insignificante aos olhos.

Costumamos tapear, fingir que a falha não enfeou a decoração. Acho que só um vazamento no apartamento do vizinho não tem como adiar. Já naquilo que incomoda nossa vida, sempre inventaremos um adiamento.

O que está fora do lugar é o que mais me toca na residência. A pobreza que vem com o tempo. A pobreza que é o tempo vivido, partilhado, gasto.

Para abrir a janela da cozinha, por exemplo, aproveitei uma régua de madeira.

Peguei uma vez emprestado do material do escritório, como emergência, para espantar o cheiro de fritura. A exceção virou hábito.

Agora não canso de esticar a janela com a régua para ventilar o ambiente.

Se não fosse ela, seria um guarda-chuva, uma bengala, um taco de beisebol.

O improviso manda na ordem doméstica. Podia visitar a ferragem da esquina e solucionar a questão rapidamente com um sarrafo, porém eu me apeguei à régua.

Ela fica perto do escorredor de louça, como alarme da luz e protetor da fumaça.

Eu faço o chimarrão de tardezinha e abro a janela com a régua.

Vou mateando e espiando as nuvens se dissolvendo com a noite e a o borrão vermelho no declive dos edifícios.

É o encontro da matemática com a poesia.

Meu crepúsculo tem 80 centímetros. Exatamente. Sou o único morador do prédio capaz de medir o pôr-do-sol.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
30/7/2014

terça-feira, 29 de julho de 2014

A JANELA ADESIVADA DE MINHA ADOLESCÊNCIA

Arte de Willem den Broeder

Visitei a casa do meu passado onde mora a mãe.

Sempre que entro no meu quarto é como se regredisse no tempo.

Os móveis do jeito que deixei, a estante com os livros de Castañeda e Hermann Hesse, as gavetas com cartas e fotos de amores antigos, os quadros de Brecht e Che Guevara.

Fui abrir as janelas para tirar o cheiro de guardado de décadas e permitir o sol entrar. Ao pentear as cortinas ao meio, eu me dei conta de que não dava para ver nada.

Lembrei que, como adolescente em minha época, adesivei todo o vidro.

Participei da febre e da moda entre os jovens dos anos 80: colar adesivos de lojas, de rádios e camisetas, sorteados em promoções.

A vidraça inteira coberta de propaganda. Não havia nenhuma frincha para escapar o olhar ao pátio.

A vidraça abarrotada como uniforme de piloto de Fórmula-1.

A vidraça cheia como um álbum de figurinhas gigante.

A vidraça pichada de slogans e apelos comerciais.

Não faz muito sentido hoje, mas traduzia uma das primeiras demonstrações de emancipação adulta.

Afrontávamos a estrutura dominante, careta e organizada da família.

Como não contávamos com o direito de escolher a cama, a escrivaninha, a colcha e o armário, partíamos para personalizá-los. Ou seja, estragá-los com nossa desobediência.

Os pais reclamavam de nossa mania. Para eles, significava lesar a conservação dos espaços e impedir a limpeza.

Nem havia mesmo como tirar depois. Ficava eternamente na película com sua cola aderente, grudenta, que só esponja de aço seria capaz de remover.

Pôr adesivo tinha o mesmo peso de uma tatuagem e um piercing. Uma transgressão, uma clara discordância doméstica, sinal de que crescíamos e que desejávamos nossa independência, nosso caos, nossa bagunça, expor as nossas preferências. Realizávamos escondidos, distanciados da censura dos mais velhos.

Entre os colegas de escola, disputava os decalques. Se recebia um novo, de formato diferente, já festejava e esnobava diante da turma nos grupos de estudo.

Os mais chinelos eram os de postos de gasolina, os mais venerados eram os de jeans com frases de efeito: “Liberdade é uma calça velha azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser”.

A janela adesivada ilustrava o isolamento do adolescente, que cria um forte em seu quarto, uma trincheira de seus gostos, apartando-se cada vez mais do resto da residência até sair em definitivo.

Explicava o quanto vivíamos para dentro, em nossos devaneios. A paisagem não existia, unicamente nossas ideias, fantasias consumistas e palavras de protesto. Período saudoso quando morava apenas em meus pensamentos e acreditava que o mundo deveria me obedecer.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 29/7/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17874

CAMINHO DO GOL(FE)

Arte de Man Ray

Porto Alegre fez muito sucesso com o Caminho do Gol durante a Copa. Multidões de estrangeiros coloridos e festivos descendo a Borges de Medeiros em direção ao Beira-Rio. Foi lindo, de arrepiar.

Entusiasmada com o sucesso da iniciativa, a Prefeitura está criando agora o Caminho do Golfe.

Temos um campo de golfe a céu aberto.  

O difícil será escolher a rua, de tantos buracos existentes.

Anita Garibaldi, Alfredo Correa Daudt, Silva Jardim, Fabrício Pilar, Lucas de Oliveira, Mostardeiro.

Há um campo de golfe para cada bairro. É um incentivo como nunca antes visto ao esporte.

Futebol é febre nos Estados Unidos, agora golfe será febre no país, começando por Porto Alegre.

É a popularização de um esporte de elite. É a democratização de um jogo antes destinado aos ricos.

Quem sabe não sediamos o Campeonato Mundial de Golfe no futuro?

Estou apenas esperando a colocação das bandeirinhas.

As crateras, os remendos malfeitos, são um convite para que a gente deixe o carro em casa e se exercite. Só pode ser isso: a Prefeitura está pensando em nosso bem-estar,  em nossa saúde, em nosso condicionamento físico, em inspirar novos talentos.

Vou aproveitar e comprar tacos antes que acabe o estoque nas lojas esportivas.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (29/7) na Rádio Gaúcha programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antônio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 28 de julho de 2014

NÃO VOU ME JULGAR E FAZER O TRABALHO PELOS OUTROS


Veja entrevista concedida a Yasmin Taketani para o Suplemento de Cultura de Pernambuco, edição de julho.

A palavra é um copo de água com açúcar. A saudade é uma esperança de amor. O impossível é o possível a dois.

Fabrício Carpinejar parece ter respostas para tudo — boas frases, no mínimo. O poeta e cronista brinca com o senso comum, pende para a moral, provoca a banalidade ou encuca dúvidas.

Tudo isso está no recém-lançado Me ajude a chorar (Bertrand), livro de crônicas que enfoca as relações humanas (sobretudo amorosas), lembranças de infância, a felicidade de um grupo de operários — histórias de uma faceta mais melancólica, mas plena de esperança.

Carpinejar é autor de mais de vinte livros e vencedor de importantes prêmios literários. Escreve nove crônicas semanais (para veículos como Zero Hora, Rádio Gaúcha, Vida Breve e o blog n’O Globo), mais duas mensais, e participa de vários eventos de literatura pelo país. De uma palestra há uns seis anos, guardo a imagem do showman que não parava quieto na poltrona e dispensava mediação; no ano passado, em um evento em Curitiba (PR), conversei com um cara tão doce quanto provocador.

Na entrevista a seguir, realizada por telefone — enquanto Fabrício cuidava das contas a pagar, cumprimentava pessoas na rua, era quase atropelado (?), entre outros intervalos —, falamos sobre sua rotina, o novo livro de poesia (previsto para 2015, oito anos depois de sua última publicação no gênero), crônica, crítica literária e morte.

Em uma crônica recente, você escreveu que “Em algum lugar de mim, todas as ofensas estão guardadas e chaveadas”, que não as procura para não chorar. Agora, você pede Me ajude a chorar. De onde vem essa mudança?
CARPINEJAR - Não é mudança, é um apelo. Não me faço sozinho. Nem para rir, nem para chorar. Risada solitária é loucura. Choro sozinho é desespero. Preciso de apoio para a tristeza e felicidade. O passado me ameaça mais do que o futuro. Tive que me inventar na juventude para me descobrir na maturidade.

Literatura não é solidão?
CARPINEJAR - Pelo contrário. Literatura é sair da solidão, é esse esforço espartano pra sair da solidão. A tua independência é feita da insuficiência. Tu tem que ser muito bem resolvido para precisar de alguém, admitir que é insuficiente.

Por que fazer isso através da literatura?
CARPINEJAR - Eu não tenho outra competência. Não me tira ela. (Risos)

Suas experiências pessoais estão muito presentes nas suas crônicas. Até que ponto você aceita tornar pública a sua intimidade, e em que medida ela vale como literatura?
CARPINEJAR - Só vale como literatura aquilo que não me salvou. Partilho dúvidas, o arrebatamento das incertezas. A crônica é o gênero da primeira pessoa. Mesmo quando estou ficcionalizando, estou me confessando de alguma forma. É muita pretensão o escritor acreditar que pode escrever sem ser contaminado pela própria vida. É suspirar que mudo minha vírgula.

Ainda assim, suas crônicas têm muitos conselhos e certezas, afirmações.
CARPINEJAR - Quer uma dúvida mais visceral do que o palpite? O conselho não é uma certeza, é um ponto de vista. E todos os meus conselhos são invenções do senso comum. Tem uma inquietação aí. A gente tem a preguiça de tentar ajustar a realidade ao que a gente está sentindo. A gente quer o que se encaixa nas nossas convicções.

Você quer abalar as convicções do leitor?
CARPINEJAR - Não estou contra o leitor. Estou contra mim. O leitor está em mim. Não escrevo para agradar ou para encantar ou emocionar...

Mas dizem que você encanta e emociona.
CARPINEJAR - Mas não porque eu quero. Senão, escreveria livros técnicos. No livro emocional, pode sair tudo errado. Hoje eu escrevi uma crônica sobre um sonho que tive com um amigo que morreu. Não estou pensando se vão achar que o texto é espírita ou... Pelo contrário. Senti necessidade desse texto. Literatura é urgência. O escritor é arquiteto do vento, não de coisas sólidas. Tu está lidando com algo imprevisível.

Qual é a sua melhor obra?
CARPINEJAR - Não vou me julgar. Não vou fazer o trabalho pelos outros. (Risos)

Então, qual a obra que você vê com mais carinho?
CARPINEJAR - Eu gosto muito do Meu filho, minha filha. Acho que ali identifico uma mudança na minha poesia, que devo mostrar no meu próximo livro.

O livro, seu último de poesia, foi publicado em 2007. Por que esse intervalo?
CARPINEJAR - Acho que para não me repetir, não cair num modelo de pensamento. O poema, ele é muito perigoso. Porque precisa ser só o essencial. Se tu não tem o que dizer... Daí de repente tu vai apenas se exaurir. Eu parei de escrever para não me repetir. Meu próximo livro é mais um réquiem do que uma outra visão.

E por que o livro de poemas nasce agora?
CARPINEJAR - Não tenho a mínima ideia. Talvez porque eu não tenha conseguido na terapia. Poema é o fracasso da terapia.

Você publica quase dez crônicas por semana. Escrever tornou-se mais fácil?
CARPINEJAR - Eu sou capaz de escrever no celular, até. Como se fosse um torpedo. Porque o texto está em ti.

O que você precisa para escrever?
CARPINEJAR - Eu preciso adoecer de amor. E me curar de amizade.

E como fica a poesia? Você tem alguma rotina?
CARPINEJAR - Não. Poesia funciona mais em transe. Ela te puxa. A crônica trabalha a informalidade do pensamento. Ela vai ajudando muito o pensamento da poesia, a tornar tudo mais comunicativo. Traduzir o inacessível.

Me parece que você tinha um retorno da crítica muito maior na poesia.
CARPINEJAR - Na verdade é uma rejeição da popularidade, como se aquilo que fosse popular não pudesse ser bom. Eu me tornei popular como poeta, antes de ser cronista. E aí acho que houve um esfriamento da crítica — não que fosse negativa, mas de não falar. O cronista sofre muito com a ausência de crítica.

A tua relação com a literatura mudou dos primeiros livros para cá?
CARPINEJAR - Total. Eu buscava a posteridade. E hoje eu vejo o quanto que é difícil ser feliz... Não tem como ficar preso à posteridade. A gente é provisório.

O que você busca hoje na literatura?
CARPINEJAR - Tem escritores que buscam a remissão dos pecados. Eu procuro um lugar onde possa pecar ainda mais.

Que tipo de pecado?
CARPINEJAR - Todos. Eles ampliam as dúvidas. Ninguém se equlibra com uma certeza, mas com mais de uma dúvida. Toda certeza só leva à doença. Se você tem uma certeza, você fica preso a ela. Vai cair no orgulho, na teimosia. No preconceito. Mas se tu tem várias dúvidas, tu não vai ser preconceituoso. Tu vai esperar, ouvir, compreender.

A dúvida não paralisa?
CARPINEJAR - Me põe em movimento.

Em que direção?
CARPINEJAR - Não preciso saber para onde estou indo. Preciso saber o que eu vou deixando.

Você escreve e fala a milhares de pessoas na tevê, no rádio, no jornal, em palestras, na internet. Não cansa ter que dizer algo o tempo todo?
CARPINEJAR - Sabe que às vezes me dá uma ressaca da visibilidade. Preciso ficar parado. Não cansa porque gosto muito do que faço. E para quem não sabia falar na infância, é sempre um triunfo. Você tem que falar na TV, no rádio, em palestras e tal... Mas é uma solidão tremenda.

Deve ser uma responsabilidade grande encarar milhares de pessoas que esperam que você diga algo importante.
CARPINEJAR - Tenho essa responsabilidade, adoro. Não me intimido. Responsabilidade é assumir quando você erra. Responsabilidade não é invisibilidade. É uma derrota altiva. É imperfeição iluminada.

Você cria essas frases na hora?
CARPINEJAR - Sim, tô falando contigo.

Às vezes penso se o Fabrício Carpinejar que vemos em palestras, na televisão, em entrevistas e nas redes sociais não é um personagem, com ótimas respostas para tudo. É possível que você tenha criado um personagem para si mesmo?
CARPINEJAR - (Risos) Não criei um personagem. Eu estava em tanta falta comigo que o personagem é que me criou. Não tinha nada no lugar. (Risos) O autor passou a ser pelo personagem. O personagem criou o autor. Sabe quando que a gente se torna adulto? Quando a gente passa a não ter amigo imaginário. A minha estratégia para me guardar é me expor.

E como esse autor dialoga com o poeta de Terceira sede, por exemplo, que me parece ser mais movido pela sutileza, dúvida e sensações?
CARPINEJAR - O poeta continua ali. O poeta fica pescando em ti. Teus pensamentos, angústias.

O que ele pescou para o próximo livro de poesia?
CARPINEJAR - O livro sou eu morto, tentando descobrir quem será minha viúva. O Brás Cubas da poesia.

Por que “tentando descobrir”?
CARPINEJAR - Você vai ter que ler...

Você é um escritor consolidado. Imagino que isso te coloque numa posição confortável e também de expectativa.
CARPINEJAR - Confortável?? Numa frase tu pode perder tudo o que construiu. Imagina uma frase infeliz na web? Quinze anos numa frase infeliz na web. Quinze anos transformados num meme!

É até incrível que isso não tenha acontecido com você, nenhum deslize em todo esse tempo.
CARPINEJAR - Não aconteceu porque eu também tenho autocrítica. Antes eu achava muito mais fácil ser escritor. João Cabral, Drummond, Bandeira — eles não tinham que dar opinião sobre tudo. Eles não tinham essa superexposição para as pessoas ficarem enjoadas deles. Tinha a obra e deu..

O que você espera do escritor?
CARPINEJAR - Firmeza, caráter. E senso de humor.

Na obra ou na vida?
CARPINEJAR - Em tudo. Principalmente na literatura. Não ter vergonha de ser perecível. Tem escritores que ainda defendem a vida culta, letrada, como se fosse um dom aquilo que eles têm.

Certa vez você disse que perguntar é se sentir vivo, “é a inquietação de tentar alargar os nossos limites”. Que pergunta o acompanha atualmente?
CARPINEJAR - Tu sabe, agora eu já estou numa fase em que meus amigos estão morrendo. É terrível isso. O que eu queria é o poder de me sentir velho. Os amigos estão morrendo e eu só me sinto finito. Se teus amigos morrem, você não consegue envelhecer com tranquilidade. Mas eles morrem e tu não fica com medo do tempo; tu fica com medo da morte. Me deixa ter medo do tempo. Não da morte.

Eu não te entendo. Você se entende?
CARPINEJAR - Se tu me ama, já é um começo. Eu percebo que tem um estalo, um fermento aí — por exemplo, nisso que eu sinto de que a morte vem antes do tempo. Eu queria ter medo do tempo, medo da velhice, de enrugar, de falhar, de não ser tão exato. Não — tenho medo da morte. Antes mesmo de envelhecer você pode morrer.

BEM QUE VOCÊ PODERIA ME AMAR


Arte de Victor Vasarely

Você pode amar para esquecer quem foi um dia.

Você pode amar para lembrar quem foi um dia.

Você pode amar para recuperar a infância.

Você pode amar para repetir a adolescência.

Você pode amar para combater a velhice.

Você pode amar de olhos abertos, enxergando as falhas.

Você pode amar de olhos fechados, relevando os foras.

Você pode amar para se endividar.

Você pode amar para criar patrimônio.

Você pode amar para encontrar equilíbrio.

Você pode amar para se aproximar do abismo.

Você pode amar para ganhar lucidez.

Você pode amar para enlouquecer.

Você pode amar para adoecer de ciúme.

Você pode amar para ter segurança.

Você pode amar pessimista, falando mal aos seus amigos.

Você pode amar com esperança, silenciando os atritos.

Você pode amar magoado.

Você pode amar leve e desembaraçado.

Você pode amar para romper o padrão de antigos amores e aceitar que estava errado.

Você pode amar para imitar outros amores e se convencer de que estava certo.

Você pode amar fraquejando e acreditando nas próprias mentiras.

Você pode amar dizendo unicamente a verdade e suportando as crises da franqueza.

Você pode amar para confirmar expectativas.

Você pode amar para contrariar sua idealização.

Você pode amar para converter bandidos em santos.

Você pode amar para fazer santos pecarem.

Você pode amar à primeira vista.

Você pode amar por repescagem.

Você pode amar desconfiando e questionando as evidências.

Você pode amar por clarividência.

Você pode amar para ser triste e se deprimir de canções e livros.

Você pode amar para alegrar as estantes e os ouvidos.

Você pode amar para concordar com o terapeuta.

Você pode amar para se opor ao terapeuta.

Você pode amar para fugir da família.

Você pode amar para unir a família.

Você pode amar superficialmente, escondendo o que pensa.

Você pode amar profundamente, sem segredos e âncora para se fixar nas palavras.

Você pode amar pelo sexo.

Você pode amar pelo romance.

Você pode amar pela exposição.

Você pode amar pela solidão a dois.

Você pode amar os intermináveis problemas e brigas.

Você pode amar a paz que vem com o fim da noite.

Você pode amar compreendendo e rindo dos defeitos.

Você pode amar julgando e condenando as diferenças.

Você pode amar cuidando das roupas, da comida, da casa.

Você pode amar com a arruaça das ruas e da boemia.

Mas amor mesmo é quando você está contando seus dias, com toda a concentração dos números, e alguém chega para lhe atrapalhar de eternidade. E você esquece onde estava, a soma da sua vida, e só pensa em ficar para sempre do jeito que for. Ainda que seja por um dia.

  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 27/7/2014 Edição N°17872

TODO O AMOR DO MUNDO EM MIM


Amo duas vezes: sendo e falando. Tenho o costume de explicar meu gosto. Não direi "eu sou assim, azar dos outros". Não sou ninguém sem os outros. O inferno é eu comigo.

Amo acordar de madrugada e ficar com a impressão de que aproveitei o trabalho. Já anoiteço cedo.

Amo quando posso me emocionar com os próprios textos.

Amo quando ninguém entende como consegui fazer tantas atividades em tão pouco tempo.

Amo quando sou reconhecido por um sacrifício.

Amo fazer loucuras por quem amo como se fosse simples.

Amo sexo de manhã, que não foi planejado.

Amo quando minha carência não é repreendida, mas vista como engraçada.

Amo passear pelo meu bairro com chimarrão e me acomodar nos degraus de sol dos parques.

Amo virar o shopping pelo avesso experimentando roupas.

Amo o raciocínio poético e as comparações mágicas.

Amo a gargalhada vizinha do choro e da tosse.

Amo ouvir de meus pais as façanhas da infância.

Amo dizer oi sempre que chego num ambiente, mesmo que seja o enésimo oi. No fundo, amo chegar.

Amo massa recheada e pizza. Ao terminar uma refeição, quando realmente gosto, lamento que comi demais.

Amo suspirar. O suspiro é o elevador da alma.

Amo ser recebido no restaurante pelo nome e sentar na mesma mesa.

Amo repetir histórias com ênfase diferente. A invenção é meu esquecimento.

Amo brechós e antiguidades. Sou aficionado por objetos antigos como gramofone, telefone de parede e máquinas de escrever. Já comprei cartão-ponto de uma empresa do início do século passado.

Amo raspar brigadeiro em panela e comer pipoca no cinema.

Amo colocar os livros por ordem alfabética e esconder objetos atrás de meus autores prediletos.

Amo selecionar papéis de carta, canetas coloridas e pastas.

Amo o humor direto dos palhaços e dos filmes mudos de Chaplin e Buster Keaton.

Amo quando encontro gente carinhosa que me faça parecer discreto.

Amo declarações escandalosas na rua, como gritos e corridas para abraços.

Amo comitiva familiar no aeroporto.

Amo organizar meu armário quando adquiro uma outra peça.

Amo estender a roupa em varal aproximando cores.

Amo dormir de conchinha e de pés dados - é se manter conectado durante os sonhos.

Amo dizer eu te amo em toda ligação para a mulher.

Amo a saudade dos minutos mais do que a saudade de dias.

Amo quem não economiza beijo na boca e não é avarento no amor, pois é triste beijar com vontade só na transa.

Amo ler bilhetes românticos de apoio e incentivo na cozinha.

Amo voltar do trabalho e ser surpreendido com a janta pronta. Comemoro abrindo um vinho.

Amo dar presentes e acertar o tamanho e a preferência.

Amo assistir meu time no estádio e falar de futebol por horas a fio com meu filho Vicente.

Amo as perguntas filosóficas de minha filha Mariana.

Amo telefonar para os meus amigos para rir à toa.

Amo quando sou reconhecido pelos leitores, amo quando vejo que sou ainda desconhecido para mim.

Amo a bebedeira devagar do churrasco, emendando a tarde com a noite.

Amo explicar poesia e pintura, citar autores, chamar algum livro esquisito do fundo da memória.

Amo discutir política com preconceituosos, só para provocá-los e descobrir até onde vão com suas teorias reacionárias.

Amo sorvete com cobertura de chocolate na praia.

Amo o barulho do balanço. Estudei ao lado de uma praça, e o esticar das correntes era a vida me chamando.

Amo ler o jornal logo cedo, e depois comentar as manchetes com quem está acordando.

Amo escutar notícias enquanto dirijo.

Amo comer massa chinesa em caixinha, eu me sinto estrangeiro no sofá.

Amo passear por museus e fingir seriedade. O museu é a igreja do meu silêncio.

Amo dançar sem me importar como danço.

Amo cartões na hora de mandar flores. O que me interessa é o buquê das palavras.

Amo lustrar sapatos antes de sair.

Amo ganhar missões e tarefas difíceis.

Amo oferecer o ombro e o peito para o descanso da esposa.

Amo atravessar calçadas com tapetes florido do flamboyant.

Amo os relâmpagos riscando o céu mais do que a chuva nas calhas.

Amo parar em belvedere na estrada para admirar as curvas dos rios. Amo montanha verde, que usa cinto de água.

Amo quando eu me atrapalho e sou perdoado.

Amo quando sou decifrado e não preciso mentir.

Amo quando a verdade é dita com esperança, sem grosseria e julgamento.

Amo ser a pessoa mais importante de alguém.

Amo, no fim, três vezes: sendo, falando e escrevendo.

E, por amor, se precisar, sempre me transformo.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

BAFÔMETRO AMOROSO

Arte de Ernst Ludwig Kirchner

O inverno é uma prova do temperamento amoroso. O frio é um concurso de ternura e romance. Você descobre rapidamente com quem está se relacionando. Não tem frescura. É como bafômetro: o resultado surge na hora. Veja se está embriagado de amor. A única exigência é se enfiar nas cobertas por último.

1) A relação está maravilhosa:

Quando entra na cama, gelado, e sua companhia não reclama. Você vai abraçá-la e ela fala:

- Vem que eu vou aquecê-lo.

Ela faz todo o trabalho de lençol térmico. Demonstra muita saudade e vontade de estar junto.

2) A relação está ameaçada:

Quando entra na cama, gelado, tenta abraçar, procurar refúgio, encaixar conchinha, e sua companhia diz:

- Vai primeiro aquecer suas mãos! Parece um morto!

Há esperança, mas você não entende como aquecerá as mãos sozinho naquela hora.

3) A relação está péssima:

Quando entra na cama, gelado, mal encosta em sua companhia e ela pula, furiosa:

- Sai daqui, você está me congelando!

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (25/7) na Rádio Gaúcha programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antônio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 23 de julho de 2014

PADRINHO DO DIVÓRCIO

 Arte de Eduardo Nasi

O terapeuta guarda sigilo, e apenas ele pelo jeito.

Virou mania nas discussões de relacionamento empregar o terapeuta como argumento. Ele é sequestrado, citado, profanado dia a dia.

Ao brigar com sua mulher, estará debatendo com ela mais seu terapeuta. São sempre dois contra um. É um ménage psicológico.

Qualquer problema do casal e já se joga a opinião do terapeuta. É um recorte e cole infinito de máximas do consultório ao longo dos desentendimentos de casa.

Dos naipes da disputa, ele surge como um Curinga do convencimento, um fiador das decisões. Quando se perde o domínio, é chamado espiritualmente para reverter o quadro e socorrer sua crença.

Ele é o novo Messias da consciência, só que seus consultados não respeitam o segundo mandamento e tomam seu santo nome em vão.

“Não é o que pensa o meu terapeuta!” é uma das ameaças mais freqüentes nas DRs.

Ou seja, pode discordar de sua esposa, mas não do terapeuta dela. É o voto de Minerva no permanente desempate que é a vida a dois.

Em briga de casal, não se mete a colher, mas se mete a todo instante o psicanalista. O que é um último  recurso para trazer credibilidade para a ofensa.

— Ele diz que eu tenho razão.

— Ele concorda comigo.

Mais honesto fazer terapia de casal, pois você já vem sendo atendido indiretamente, sem nenhuma possibilidade de contraponto e defesa do seu contexto.

— O terapeuta não entende por que não me separo. Eu é que insisto.

Por afirmações como esta, que é criada rejeição à toa das consultas.

Você pretende se salvar denunciando o terapeuta.  Depois não ache estranho quando sua companhia ficar com raiva do divã e se opor à análise. Você acaba de entregar ao marido que ele está contra seu casamento.

Não cuide do que fala ao terapeuta, e sim cuide do que fala sobre o terapeuta.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
23/7/2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

TORTURA A DOIS

Arte de Umberto Boccioni

Nas compras no shopping, quanto tempo leva para seu homem sentar-se no banquinho dentro da loja?

5 segundos? 7 segundos?

Ele despreza as araras, os cabides, a decoração da loja, caminha direto para aquele banco, sonhando com aquele banco, que sempre fica perto dos caixas. Pode ser um pufe, uma banqueta, um sofá, mas ele vai se estirar naquele canto durante horas. Talvez mexa no celular, é certo que não levantará a cabeça para os demais clientes. Teme ser identificado. Está visivelmente constrangido pelo ambiente feminino. É um forasteiro num chá de fraldas. Em algum ponto remoto de seu coração, ele regride a sua infância. É outra vez um menino aguardando sua mãe fazer suas compras chatas em nome de uma recompensa (Sorvete? Chocolate?).

Não é educado, não esconde seu desgosto por estar naquele lugar, não acompanha o roteiro da curiosidade pelas novidades da coleção, chega e senta, chega e se acomoda. Como um condenado subindo ao cadafalso.

Tem horror de promoções, tem horror das conversas entre os vendedores, tem horror da música ambiente, tem horror a que lhe ofereçam água, café ou espumante, pois significa que vai demorar ainda mais, mas ele mente que deseja acompanhar sua namorada nas mil e uma portas em busca de não sei o quê.

Ele não contém sua fobia, a cadeirinha de dentro da loja é seu trono do tédio.

Todo homem procura desesperadamente a cadeirinha. Mendiga pela cadeirinha.

Não duvido que pagaria por ela se estivesse ocupada, compraria bilhete superfaturado de cambista, como se fosse um disputado show de rock.

Não decifro o motivo de os casais se maltratarem desse jeito – a saída contrariada para as lojas é um dos mistérios da relação.

Desconheço o que se passa pela cabeça do homem quando diz sim se detesta o circuito das vitrines. Custa ser sincero? Ele quer provar que tem paciência, que é generoso, que é a melhor companhia? Ou pretende garantir o sexo do fim de noite? É um vale-prazer para ser descontado na semana?

Apesar da intenção, não deveria tentar. Está na cara sua abominação. Está inscrito em cada fio de sua barba. Nem se esforça para ser agradável.

Da parte dela, é também incompreensível a insistência em levar seu parceiro.

Ele só servirá para cuidar da bolsa enquanto usa o provador e para depois carregar as sacolas.

Vale a aporrinhação?

Seria muito melhor passear com as amigas que podem fornecer dicas preciosas e jamais pressionar seu retorno imediato.

Mulher odeia compras com cronômetro. Por que levar o próprio alarme em pessoa?

Ele deveria ficar em casa porque cobrará cada minuto de sua espera. O que era para ser um passeio transforma-se num sacrifício.

Não vem explicar que é para ouvir a opinião masculina. Aquilo não é opinião, é resmungo.

Seu namorado dirá que está linda para todas as peças conservadoras e repuxará o rosto para as peças mínimas e sensuais. No fundo, sua opinião é o mesmo que nada.

Confesse que você não está se vestindo para ele. Nenhuma mulher se veste para o homem.

Ela pode se despir para ele, mas se vestir é um ato solitário e egoísta. Sempre foi.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 22/7/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17867

segunda-feira, 21 de julho de 2014

ESQUIZOFRENIA DO AMOR

Arte de James Gleeson

Não sei o que é mais perturbador: aquele que se sente incomodado e discute a todo momento ou o que atravessa a tempestade verbal sem nenhuma alteração de humor.

Já fui os dois, mas ainda arco com a indecisão sobre qual tipo ajuda mais o amor. Não tenho a resposta, até porque resposta nem sempre é solução.

Qual o perfil mais agradável: o que debate sem parar ou aquele que não debate nunca? O que chora nos primeiros minutos de distância ou o que não chora jamais? O que se desespera nas divergências ou quem vira as costas, bate a porta e foge de qualquer conversa séria? O que se mostra muito interessado em tudo o que se vive dentro do casamento, corrige os problemas na hora, sofre horrores para se fazer entender ou o que despreza os aborrecimento diários, não alimenta a fogueira das palavras e larga discussões com a confiança intacta, como se nada tivesse acontecido?

Não venha concluir que é o meio-termo, o meio-termo não é uma realidade amorosa.

Gostaria de entender qual dos extremos tem mais sucesso na resolução dos conflitos. Sobram pontos positivos e negativos para ambas as partes.

O primeiro ama escandalosamente, sofre com as oscilações do cotidiano, só que também não deixa os desentendimentos naturais esfriarem. Pode gerar rupturas pelo cansaço.

O segundo facilita a mudança de estado de espírito, só que parece gélido e imperturbável, subestima as dificuldades da companhia e corre o risco de criar um perigoso distanciamento na relação.

O primeiro tem a virtude da sinceridade, porém estraga a noite com sua ansiedade. Briga e não consegue realizar coisa alguma até firmar as pazes. Não dorme, não come, mergulha no mal-estar profundo. Apresenta beiço, raiva, contrariedade e vai se aquietar apenas com carinhos, abraços redentores e pedidos espalhafatosos de desculpa. É sincero, porém passional.

O segundo tem uma leveza maravilhosa e também irritante. Recém quebraram os pratos e conversa com absoluta desmemória, como se estivesse acordando naquele momento. Ao mesmo tempo em que evita dramas desnecessários, também não permite a intimidade da raiva e da catarse. A sensação é de que os gritos e as discordâncias entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Você está inchada do choro e ele já está vendo sua série predileta e rindo loucamente.

É uma dúvida insaciável, a mesma que atinge nossa reação diante do ciúme: se preferimos estar acompanhados do preocupado que não oferece um minuto de trégua ou de um indiferente, que nem nos olha?

Cada vez mais reconheço que no amor não existe o melhor, mas o menos pior.



  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 20/7/2014 Edição N° 17865