quarta-feira, 4 de março de 2015

HORROR!

Arte de Eduardo Nasi

Quantas mudanças dentro de uma mudança?

Você precisa encaixotar os pertences e depois desencaixotar. Precisa enfrentar a seleção do que abandonará na residência antiga e depois outro descarte no novo paradeiro. Por baixo, são quatro mudanças.

Tenho pena dos militares e dos concursados, que migram indefinidamente de lugar.

Colocará no lixo o que sempre adiou, ressuscitará o que não imaginava que fosse possível.

Quando confia que finalizou o frete, esqueceu uma gaveta e já interrompe o rigor da sequência. A vontade é jogar tudo fora para não mais se preocupar em condicionar, embalar e registrar.

Mesmo que descreva o conteúdo em adesivos, acabará se confundindo. Por mais que você organize para não sofrer contratempos, fracassará em algum momento. Algo vai quebrar, algo vai estragar, algo morrerá impunemente.

Mudar-se de casa é falsificar uma graduação de biblioteconomia, é forjar um diploma de arquiteto.

Descobrirá que o desespero não tem portas. É ser perseguido por si mesmo, vigiado, censurado e odiado pela sombra que foi um dia na vida.

Entrará num perfeccionismo violento que trará erupções na pele e o retorno das espinhas da adolescência.

Aguentará uma tensão máxima ao tocar nos mínimos objetos. Só o esforço da memória é para deixar qualquer um exausto: onde comprei, onde ganhei, qual o significado, presente de que relacionamento?

Será vítima da radioatividade das lembranças. Atravessará uma viagem mental de décadas num piscar de olhos. Mudança significa hipnose regressiva. Mexer em fotos, mexer em cartas, mexer em restos de amores: são experiências de alto risco emocional.

Podemos transitar do ódio à esperança em frações de segundos, dos dez aos trinta anos em instantes.  Traumas ressurgem do nada, felicidades respiram soterradas no armário.

Eu tenho muito cuidado ao cumprimentar alguém que passa por este desafio. Nem toco nos ombros. A pessoa pode estar à beira de um colapso. Descabelada, insone, bafo de jaula.

Não dorme, não trabalha, não come, não transa, absolutamente concentrada em terminar o deslocamento. Obcecada em limpar o caos e desafogar o colchão da ameaça dos trastes.

É um psicótico cuspindo ácaros. Um sem-terra no meio da estrada das panelas. Um acampado submerso na enchente de papéis.

Não converse com quem está alterando o endereço. Não comente nada. Não suspire perto.

Deveria existir uma licença de emprego de dez dias, no mínimo. Porque é condenado a um plantão de 24h em seu prédio, aguardando as entregas. É esperar a rede telefônica instalar o aparelho, é esperar os caminhões das lojas, é esperar o eletricista, e nenhum dos envolvidos diz qual horário aparecerá.

Não pode sair. Não pode fazer mais nada da existência. Pensa que organizará a bagunça em uma semana, mas desiste e põe parte das caixas num quarto fechado para cuidar disso num final de semana que nunca vem, que nunca virá, até a próxima mudança.








Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
04/03/2015


terça-feira, 3 de março de 2015

DEVOLVA-ME

Arte de Marciano Schmitz

O sotaque da terra natal desarma os ouvidos mais duros, suaviza os corações mais indóceis.

É encontrar um conterrâneo e já voltamos a falar como na infância, apesar de longo tempo distante. Não precisamos nem de cinco minutos de conversa para reaver o tom, o chiado, as expressões, os acentos.

Nada é mais reconfortante do que o contato com a pronúncia de onde nascemos. Ainda mais quando passamos temporadas fora do nosso Estado.

Caio, engenheiro natural de Uruguaiana, há três décadas nos Estados Unidos, foi vítima de um câncer nos ossos. Nenhum tranquilizante era capaz de amenizar as dores e levantá-lo do cansaço ultrajante do fim. Estava se entregando. Indo embora. Fez um pedido extravagante para sua mulher. Um último pedido. Reivindicou para sua esposa americana um mapa do Rio Grande do Sul. Tinha que ser de papel. Mapa rodoviário de estrada.

Como quem procura um medicamento inédito diante da falta de efeitos, ela nem questionou. Aquilo seria fácil para que mora em Porto Alegre, possível de comprar em qualquer tabacaria, mas em Austin, não, não podia ser mais raro.

Ela encomendou com os irmãos de Caio, que moravam em Caxias. Cobriu tudo o que é despesa aérea para agilizar a entrega.

Quando Caio recebeu o mapa, recobrou a cor da pele e desafiou os familiares com uma energia extra.

Era um outro homem repentinamente. Com intimidade de uma camisa antiga passada pela mãe, desdobrou o papel e cheirou a superfície.

As linhas azuis dos rios bem que poderiam ser a cartografia saliente de suas veias.

Pegou os óculos e passou a ler as cidades por ordem alfabética:

“Água Santa, Agudo, Ajuricaba, Alecrim, Alegrete, Alegria, Alpestre, Alto Alegre, Alto Feliz, Alvorada, Amaral Ferrador, Ametista do Sul, André da Rocha, Anta Gorda, Antônio Prado, Arambaré, Araricá, Aratiba, Arroio Grande, Arroio do Meio, Arroio do Sal, Arroio do Tigre, Arroio dos Ratos, Arvorezinha, Augusto Pestana, Áurea, Bagé...”

Começou a rir, tossia e ria, absurdamente feliz. Estava reeducando os ouvidos.

Sua voz falhava e não desistia, insistia tal piá empinando pipa. Os olhos lustrosos e corajosos dando cada vez mais corda ao horizonte, segurando firme cada palavra, não se entregando às puxadas do minuano.

Morreu recitando os 497 municípios, numa viagem particular pelas curvas e estradas de seu timbre.

Quem me contou esta história foi seu filho Daniel. Mas só acredito porque sou gaúcho.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 3/03/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18091

NÃO MAGOE O BICHINHO


Arte de William Strutt

Não dê cachorro ou gato para sua namorada ou namorado. É uma escolha pessoal. Pode ser fofo, bonitinho, mimoso, mas você não tem como atropelar a convivência

Não é uma roupa que erra o número ou um cd que pode ser trocado na loja.

Bicho não é brinquedo, não é passatempo, não é um produto de consumo, mas cuidado em tempo integral.

Está transferindo responsabilidades, obrigando o outro a mudar e adaptar sua rotina.

Oferecer um animal de estimação não é um ato de amor, e sim demonstração de egoísmo. Pretende surpreender a qualquer custo. Para agradar, não pensa nas consequências.

É uma chantagem emocional de última categoria. Uma brincadeira de mau gosto.

Deve supor que o bichinho vai crescer, incomodar, ter personalidade, pedir espaço.

É para toda a vida, não somente para o relacionamento.

Pois é muito triste quando o casal se separa e o cão ou o gato acaba ficando sem ninguém, enviado para adoção ou abandonado, pois nenhum dos dois quer se lembrar do ex.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (3/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

RESPEITO ROMÂNTICO

Arte de Cândido Portinari

Eu amo tanto minha mulher que temo dizer que estou feliz quando estou sem ela. Até porque não sou inteiro mesmo. Não considero justo. Não condiz com à realidade.

No momento em que ficamos distantes, por viagem ou motivos profissionais, não esnobo, não me gabo, não exagero a felicidade. A saudade não deixa.

Respondi que o passeio foi dentro das expectativas, o restaurante foi gostoso, a noite com os amigos foi agradável. Nada demais. Não faço propaganda da minha eventual saída, não existe nostalgia da autonomia de solteiro, muito menos a necessidade de gerar ciúme e criar comparações. A discrição é demonstrar cuidado com o nosso par.

Não omito, realmente não me sinto confortável em ser melhor quando ela não está junto. E não sou. Sou um quase bem simpático.

É uma questão de respeito romântico. Elogiar excessivamente o desapego equivale a subestimar sua presença tão marcante ou subentender que ela não é necessária.

Não me envergonho da dependência, posso ser classificado como alguém sem liberdade e submisso. Alguém sem vida própria. Não acho que é isso. Talvez seja antiquado, herdei valores familiares e uma etiqueta de relação que não abdico. Privacidade corresponde a proteger quem amamos de nosso orgulho e soberba. Escolhi viver com ela e, apesar de afastado por alguns dias, continuo vivendo com ela. Longe ou perto, não mudo em nada da minha mentalidade casada.

Qual a graça de contar vantagem? Nenhuma. É mais uma implicância do que uma verdade.

Há sempre uma ponta de melancolia em minhas andanças sozinho, uma brisa fria a sussurrar em meus ouvidos o quanto ela gostaria daquele espaço.

Eu me torno um olheiro sentimental de nosso casamento, conheço paisagens e locais só para depois mostrar para ela. Minha função é recrutar alegria para nós - e descobrir o que provocará seu arrebatamento. Transformo a visita solitária em convite a dois: "Passei por um lugar que vai adorar, pensei na gente".

E o mais bonito é que ela faz o mesmo, sem jamais combinarmos a troca de gentilezas.



Publicado na Revista Isto É Gente
Edição Bimestral
Feveiro 2015
Ano 15 Número 716
São Paulo (SP)

SUPERPODER

Arte de Paul Klee

Todo mundo é super-herói. Todo mundo tem um poder especial. Uma característica que transforma a existência.

Pode ser uma virtude disfarçada de defeito. Pode ser algo de que você não gosta em si.
Quando conheço alguém, sei que estou desvendando um superpoder por detrás da aparência e da normalidade, uma vida multiplicada por um talento.

No jardim de infância, tinha a Bárbara, que odiava sua boca carnuda. Recebeu o apelido de flor carnívora. Mas foram justamente os lábios desenhados com volúpia que fizeram com que virasse modelo de sucesso. Recordo também de Daniel, na adolescência, com dificuldade de se expressar em público. Abominava sua timidez, gaguejava quando pressionado. Pois sua retração fascinava as mulheres, que o rodeavam e falavam por ele. Não existiu um garanhão igual na faculdade.

Conservamos um trejeito em particular que revela nossa personalidade. Já vi muita gente simples com o superpoder da esperança, capaz de enfrentar diagnósticos terríveis e a morte próxima. Ou com o superpoder da paciência, desarmando brigas com uma voz mansa e calma, sem jamais levar o desaforo para o lado pessoal. Ou com o superpoder da fé, cumprindo quilômetros de joelhos em nome de uma promessa.

Há feirantes com o superpoder do grito, atraindo compradores à distância. Há ambulantes com o superpoder do tempo, farejam pela cor da nuvem ou pela arruaça dos pássaros se choverá dentro de quinze minutos e se devem levantar a barraca. Há quem tenha o superpoder de localização, de tanto andar de ônibus, e palmilham a cidade de olhos vendados.

Minha empregada Cleonice, por exemplo, tem o superpoder da risada. A casa está tensa, acabrunhada, e ela aparece cortando a atmosfera com seu bom-dia risonho. Abre as janelas e as portas ao arejar os humores. O filho Vicente mantém o superpoder dos cílios enormes. Observa de um modo tão misterioso, com aquele olhar de árvore, que logo precipita a eloquência dos familiares – sempre está em vantagem na captura de segredos. Já Mariana guarda o dom da irreverência: dramática, passional, intensa, ela sente o mundo duas vezes mais do que a média. Dela, receberá as mais bonitas, sinceras e corajosas declarações.

O ideal é que seja amado pelo seu superpoder. Descobrir alguém que identifique sua fraqueza, e a reconheça como estimulante, apesar de ser um empecilho no entendimento da maioria.

Se bem que o amor torna qualquer um poderoso.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.28
Porto Alegre (RS),  1/03 /2015 Edição N°18088

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

HERÓIS CASEIROS

Arte de Émilie Charmy

Minha homenagem a todos que ainda dizem que a comida está na mesa, batendo de porta em porta, de quarto em quarto, que não desistiram do trabalho de reunir a família.

Minha homenagem a todos que ainda preparam a salada mesmo sabendo da antipatia da turma.

Minha homenagem a todos que arrumam a mesa com guardanapos e casais de talheres, e tiram uma hora de seu dia para ouvir os familiares.

Minha homenagem a todos que perdem tempo cortando o assado de pé para distribuir as fatias de modo igual.

Minha homenagem a todos que lembram de afiar as facas e de comprar panos de prato.

Minha homenagem a todos que não têm pressa e nem egoísmo e servem os outros só para depois cuidar de seu prato.

Minha homenagem a todos que não reclamam de buscar algo a mais na geladeira e sempre estão dispostos, sozinhos, a recolher a sujeira, embalar as sobras em plástico filme e lavar a louça.

Minha homenagem a todos que nunca são valorizados, que nunca são elogiados, que nunca recebem aplausos: mães, pais, avós e avôs silenciosos, heróis desconhecidos de nossa cozinha, que mantém vivo o ritual de se amar pela refeição.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (27/2) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

CRIANÇAS MORREM

Arte de Eduardo Nasi

Ia da casa para escola a pé. Havia um colega que saía de seu edifício no mesmo horário que atravessava a rua Bagé. Eu seguia sua mochila marrom saltitando na minha frente. Jamais puxei conversa. Ele era meu cronômetro para entrar antes do sino bater. Não estudávamos na mesma turma, ele frequentava a 102 e eu a 101.

Manoelito evitava falar no recreio. Invariavelmente sozinho, comendo seu sanduíche de mortadela olhando para o céu. Desligado dos gritos e do polícia-ladrão nos muros. Ruivo, de sardas e baixinho, um pequeno soldadinho de chumbo. Não pretendia incomodar e dar trabalho de ser visto. Acho que vinha marcado pela profecia. Não desejava gerar apego. Como se adivinhasse seu destino.

Ele faleceu de leucemia. A primeira criança que testemunhei a morte. Não acreditava antes que criança morresse.

Desapareceu uma semana do convívio para curar dores na cabeça e depois estendeu o atestado para sempre.

Lembro que a escola parou quando soube da perda de um dos seus alunos. Não se trocava de assunto. Ninguém lembrava de sua cara. Um ajudava o outro com informações vagas para compor um retrato falado dele.

Fui no velório de Manoelito. Não me esqueço do impacto do caixão pequeno. Quase uma caixa de sapatos forrada de pano acolhendo um bichinho. Ele ainda parecia distraído olhando para o céu. Não tinha muita gente. Coitado, não fez nem amizade para encher o enterro. Eu dediquei um tempão naquela manhã gelada de abril de 1979 me esforçando para entender como se morre. Plantado sob a tampa de vidro. Como se fosse a experiência do feijão no algodão molhado.

Encarava longamente o menino de idade curta e passagem fugaz pelo mundo, que se despediu sem ao menos aprender a ler e escrever. Aguardava que fosse brotar de novo. Que viria um galho verde de seu rosto. Que o grão do nariz cresceria com a respiração. Mas nenhum movimento me surpreendeu.

Não entendo ainda como se morre, muito menos como se vive. Nunca mais cheguei no horário para nada. Fiquei uma vida atrasado.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
25/02/2015


TODO CÃO É FIEL

Arte de Rodolfo Morales

Tenho um irmão amado que mora em Faxinal do Soturno: Miguel, juiz, pai do Murilo e casado com Milena.

É o caçula de casa, o único que se dá bem com toda a família e o mais quieto e sábio, talvez porque foi o último a chegar nas brigas e descobriu que eram insolúveis e não valeria a pena perder tempo com elas.

Ele cuida de dois cachorros. O mais novo, um salsicha, o Mandi, foi atropelado na frente do Miguel. Escapou de um passeio vigiado na residência e se animou a atravessar a rua de repente.

Diante do estrondo das rodas, do rasgo do freio e do latido esganiçado, Miguel correu para socorrê-lo.

Mesmo abatido, mesmo morrendo, o cachorro mexeu o rabo ao ver seu dono.

Destroçado, encolhido na frieza das pedras, fez um esforço colossal de mexer o rabo para festejar as mãos de Miguel em sua cabeça.

Apesar de ferido e sangrando, alheio a sua condição agonizante, mexeu o rabo, esta mão prodigiosa que o cachorro tem além das patas, esta antena do coração, esta risada do corpo.

Mesmo soltando seu último suspiro, mesmo desesperadamente doendo, o cachorro mexeu o rabo ao ver o Miguel próximo.

Mesmo no pior momento de sua vida, ele encontrou um instante de felicidade e ternura, e acenou com o rabo, quis demonstrar para Miguel que o amava.

Mexeu o rabo de agradecimento. Mexeu o rabo de comoção. Mexeu o rabo, como sempre mexeu o rabo, quando Miguel chegava do trabalho e perguntava pelo seu nome pelos corredores. Nada mudaria seu hábito de mexer o rabo. Nada arrancaria dele o gesto puro e repetido dia a dia.

Nem o fim impediu sua declaração. Nem a falta de ar, o medo, a angústia de não estar mais entre nós para sempre.

Ficou mais feliz de ver Miguel do que triste de morrer.

Ele é um exemplo de como não ser tragado pela infelicidade.

O quanto não devemos nos afundar na angústia, seremos maiores do que as fatalidades e os reveses, pois poderemos agradecer o que somos e o que recebemos.

Ainda que nossa vida esteja perdida, temos uma chance de eternizá-la ao nos entregar para a amizade do outro.

Miguel mexeu os olhos em resposta. Sem ter certeza se estava rindo pelo carinho surpreendente de seu cão naquele momento ou chorando pelo acidente trágico.

As lágrimas escorriam, ao mesmo tempo, de contentamento envergonhado e de dor exagerada. Não conseguia separar os sentimentos.

Isto é a grandeza do humano, a imprevisibilidade do amor, que também mora na alma dos cachorros.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 24/02/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18084

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

MEUS FILHOS CRESCERAM, E AGORA?

Arte de John Tunnard

Jamais envelhecemos reparando em nossa idade.

O costume é nos perdoar, esticar as rugas com o riso, desprezar a falta de fôlego e os ossos estalando. Ainda guardamos dentro da gente a vitalidade do pensamento, mesmo que o corpo não acompanhe.
Relevamos as pontadas, o cansaço e a vontade de sentar logo ao entrar em uma sala. Não achamos que é sério. Costumamos explicar que é apenas uma indisposição temporária ou uma noite mal dormida ou o excesso do calor.

Não chamamos nunca a velhice pelo nome, está cheia de sinônimos.

O único jeito de encarar o peso dos anos é pela idade dos filhos. Eles nos denunciam. Eles nos entregam. São delatores de nossa data de nascimento. Representam um cartório sempre aberto dentro de casa.

Não tem como pintar o cabelo, estender pano de prato com calendário antigo ou fingir que não é conosco.

Meus pais esqueceram que já estão com 76 anos. Nem as cartelas vazias do remédio no café da manhã são alarmes de suas fragilidades. Mas lembrarão imediatamente do longo percurso se avisá-los que o caçula Miguel tem quarenta anos e que todos os seus filhos passaram das quatro décadas.
Eu me vejo como um guri, capaz de empreender indiadas e emendar noites trabalhando. Por mim, não sofreria abalo psicológico, não experimentaria crise de lobo, raposa, cachorro, hiena. Não me percebia velho. Nenhuma festa acentuava a passagem do tempo.

Até o momento em que comemorei o aniversário de 21 anos de minha filha. Mariana completou a maioridade. Sou pai de uma mulher de 21 anos. Minha menina é uma mulher.

Assim como o Vicente, que parecia um eterno bebê, acaba de pisar na adolescência com os dois pés. Fez 13 anos na última sexta. Meu piá tem 13 anos. A voz é de um homem, fala grosso e chiado, bate a porta do quarto com força exigindo privacidade.

Eu considerava que ambos demorariam séculos imaginários para alcançar a fase adulta. Não estou preparado para ter filhos adultos e abandonar o termo “minhas crianças”. Como se despedir da infância pela segunda vez?

É o medo de perder a paternidade mais pura, a confiança cega e incondicional de seus pequenos, e também o medo de não estar mais aqui para ver a sequência da família.

Recordo que os 13 anos do Vicente estavam ligados à quitação do imóvel de São Leopoldo. Era um longo financiamento, projetado para longe, numa realidade remota e absurda. O ano de 2015 soava, no contrato de 2002, como um filme de ficção científica.

Nem sonhava que esta data fosse existir. Pagava religiosamente todo mês como se fosse um dízimo perpétuo.

A ampulheta virou e perdi a contagem. Distraído com o mar, não enumerei os grãos de areia debaixo dos pés.

Pois aconteceu. Chegou esse dia que me diz que estou envelhecendo, que o futuro já é passado, onde o agradecimento e o pedido de desculpa estão soberanamente misturados.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.28
Porto Alegre (RS),  22/02 /2015 Edição N°18081

PAI PASSARINHO

Arte de Anastasiya Markovich

Minha filha de 21 anos veio com aquele papo estranho quando eu dava carona:

- Você não vai morrer cedo, né pai?

- Não, Mari, não vou morrer.

Depois de dez minutos, ela voltava com o assunto:

- Não vai morrer mesmo? Sabe que te amo muito.

- Eu também te amo muito. Ainda passaremos grandes momentos lado a lado.

Ela não se acalmava com as minhas respostas.

- Vou ficar furiosa se morrer, entendeu?

- De onde tirou esta preocupação, minha filha?

- É que você anda muito distraído. Como os passarinhos que quebram o pescoço e morrem.

Meu pescoço não quebrou, mas meu coração me arrancou do chão. Vi que minha filha não ama somente seu pai como uma fortaleza e um referencial de segurança. Amadureceu. Eu não sou mais eterno, o nosso sentimento que é eterno. Agora ela ama também a minha fragilidade, ama combatendo minha finitude, ama me protegendo e me salvando dia a dia com seu amor.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (20/2) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Jocimar Farina e Kelly Matos: