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quarta-feira, 23 de outubro de 2013
A RUA DOS VENTILADORES DE PEDRO GONZAGA
Pedro Gonzaga é o vinil da poesia. O antigo renovado. Os ruídos artesanais de cada poema tocando como se fosse uma faixa na agulha.
Falso Começo significa a correção da música durante a gravação. O livro inteiro, com sessão de autógrafos nesta sexta, na Casa de Ideias, é uma tentativa desesperada de repetir a infância e a adolescência no estúdio da memória. Entender o que se viveu – ou se deixou de viver – pelo esforço em descrever detalhes e odores do passado.
Em O Mesmo, o escritor confessa: “Tantas vezes ter pensado nisso / e só agora o verso”.
O verso corresponde a um último clarão – sempre perseguido – do pensamento.
Quantas vezes ele buscou escrever e não conseguiu? O verso traduz, enfim, o sucesso de todos os fracassos de suas ideias.
Percebe-se um conjunto lírico assombradamente porto-alegrense, desvelando o calor infernal da capital gaúcha e seus bares cult fechados pela falta de clientela. Com sua experiência de músico, Pedro Gonzaga captura a dificuldade de convivência entre arte e negócio e desdobra os finais das madrugadas com humor fino, pessimista e melancólico. “Onde ensaiamos mais uma vez / aquela canção que levou à falência / o gordo juarez e seu boteco de jazz”.
Apelidaria a obra de “A rua dos ventiladores”, para lembrar os sonetos desencantados de A Rua dos Cataventos de Mario Quintana. Ventilador representa a casa na rua, a casa no mundo, a casa remota, incoerente e infantil exilada na síntese da vida adulta.
Merece constar em antologias de nosso clima o poema Condenação, que aborda o nosso verão estúpido, sem praia, sossego e respiro.
“Mais uma vez
verão dos diabos
a carne gentil
mal desvelada
salubre e daninha
a vibração da vida
antes da noite
antes dos insetos
um cheiro de lavanda
só mais uma vez
denunciará meu destino”
Ele acerta mesmo quando força a barra, mesmo quando cria metáforas luxuriosas e comparações barrocas, dignas de Jorge de Lima e seu Invenção de Orfeu: “Os pulmões são dois balões cinzentos / expostos como airosos cachos de uvas”.
Acerta porque se arrisca, acerta porque ousa, acerta porque não tem medo de se elevar do chão. Afinal, o pulmão é e sempre foi um cacho de uva. Qualquer criança não duvidaria disso.
Aviso de antemão: Pedro é um belo poeta. Belo no sentido de estuário da palavra. Estro. Destro. Com uma capacidade helenística de retratar a simplicidade da novela banal do cotidiano com a elevação do sublime.
Vinculado a toda uma geração que preza a rima e o cuidado formal – Alexei Bueno, Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Brito –, mas com uma tristeza peculiar de milonga, que só o Sul poderia produzir, o poeta deslinda remakes sensíveis das paixões na juventude. Destaco O Apartamento Estranho, quando o casal se ama entre a selva de móveis estranhos, e Linha 476, que mostra aquele ansiado beijo na colega enquanto ele aguarda o ônibus.
Seus escritos têm o circuito de elegias, um texto remetendo ao próximo infinitamente. O tempo – mediante as figuras das estações e dos meses – intensifica o tom angustiado de julgamento, de ajuizamento das contas, de consciência da finitude que só vem com idade (quando a morte deixa de acontecer somente para os outros). Lembrar seria se despedir. E se despedir é perdoar. Ou – no máximo – aceitar a perda da idealização.
Falso Começo traz um andar acima de A Última Temporada, marcante estreia na poesia de Pedro Gonzaga.
Temos um novo arranjador de nossas dores.
Publicado no Jornal Zero Hora
Segundo Caderno, p.4
Porto Alegre (RS), 23/10/2013, Edição N° 17592
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE
O fim dos tempos pelos Maias foi o pretexto para tertúlia divertida com Mário Corso, Lasier Martins e Sara Bodowsky.
A ânsia pela extinção revela o cansaço dos costumes. Não estaríamos suportando as tremendas e sucessivas revoluções tecnológicas.
O programa Tudo +, da TVCOM, foi exibido na quinta-feira (20/12).
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
A FAVOR DO AMIGO VISÍVEL
A banalização do Natal foi meu tema no Jornal do Almoço de quarta-feira (19/12), da RBS TV.
- Sou favorável ao amigo visível. Aquilo que é feito escondido não pode ser bom, somente gera constrangimento.
Entre brincadeiras e confissões, protagonizei o desmonte do amigo secreto, confraternização mais utilizada atualmente nas empresas.
Confira:
- Sou favorável ao amigo visível. Aquilo que é feito escondido não pode ser bom, somente gera constrangimento.
Entre brincadeiras e confissões, protagonizei o desmonte do amigo secreto, confraternização mais utilizada atualmente nas empresas.
Confira:
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
ATÉ ONDE VAI ESSE GURI?
JAIME VAZ BRASIL
Escritor e psiquiatra
Carpinejar vem colecionando prêmios: Jabuti (Câmara Brasileira do Livro), APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), Erico Verissimo (Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre), Olavo Bilac (Academia Brasileira de Letras), Cecília Meireles (União Brasileira de Escritores) e o Açorianos de Literatura em três edições (Secretaria de Cultura de Porto Alegre). Isso falando só nos mais importantes. São 20 livros editados: oito de poesia, cinco de crônicas e sete infantojuvenis.
Além de poeta e cronista, é jornalista e professor. E apresentador da TV Gazeta. E comentarista da Rádio Gaúcha. Colunista da Zero Hora. E blogueiro. E twitteiro. E saltimbanco, acrobata, demiurgo, hermeneuta, aforista, menestrel, performático, estiloso e outros desaforos mais. Não bastasse isso tudo, é uma das 27 personalidades mais influentes na internet, escolhido pela revista Época: são mais de 2 milhões de visitas ao blog e mais de 150 mil seguidores no Twitter. São índices que raramente a literatura produz. E vale a lembrança que suas aparições na mídia são posteriores ao sucesso literário. Ou seja, a obra escrita o precedeu como figura pública.
Sucesso entre leitores e crítica (feliz conjunção), o autor está publicando Ai Meu Deus, Ai Meu Jesus. Segundo o próprio livro, são crônicas de amor e sexo. Mas isso diz muito pouco da obra, porque não é possível caracterizá-la apenas assim: o livro é quase um manual de instruções para a vida a dois. Se viesse com roupagem de autoajuda (no melhor sentido), igualmente funcionaria muito bem. Escrito de cabo a rabo com humor e contundência, pertence à aquela espécie de livro que, depois de pegá-lo, fica imantado nas mãos. É impressionante a capacidade que o autor demonstra ao fotografar cenas comuns e cotidianas da vida amorosa. Ao escrevê-las, faz com aquela aguda leveza que provoca um riso lá pelos dentros do leitor, que se reconhece no efeito de “É isso! É isso mesmo!”. O cronista deve ao poeta esse talento de plantar espantos. E é essa facilidade em transitar nos dois gêneros com o mesmo talento que faz dele um mestre no comportamento humano, um hábil tradutor do mundo psíquico. Tudo indica que ele seria um ótimo terapeuta de casal, como os leitores irão perceber.
Não foi por acaso que o nosso Carpinejar conquistou o Brasil. Ai meu Deus: até onde vai esse guri?
SESSÃO DE AUTÓGRAFOS NA SEXTA (9/11)
AI MEU DEUS, AI MEU JESUS
(Bertrand Brasil, 256 páginas)
Pavilhão Central, 19h
Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da
Publicado no jornal Zero Hora
Caderno da Feira, P. 3
Porto Alegre (RS), 9/11/2012
Edição N° 17248
Escritor e psiquiatra
Carpinejar vem colecionando prêmios: Jabuti (Câmara Brasileira do Livro), APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), Erico Verissimo (Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre), Olavo Bilac (Academia Brasileira de Letras), Cecília Meireles (União Brasileira de Escritores) e o Açorianos de Literatura em três edições (Secretaria de Cultura de Porto Alegre). Isso falando só nos mais importantes. São 20 livros editados: oito de poesia, cinco de crônicas e sete infantojuvenis.
Além de poeta e cronista, é jornalista e professor. E apresentador da TV Gazeta. E comentarista da Rádio Gaúcha. Colunista da Zero Hora. E blogueiro. E twitteiro. E saltimbanco, acrobata, demiurgo, hermeneuta, aforista, menestrel, performático, estiloso e outros desaforos mais. Não bastasse isso tudo, é uma das 27 personalidades mais influentes na internet, escolhido pela revista Época: são mais de 2 milhões de visitas ao blog e mais de 150 mil seguidores no Twitter. São índices que raramente a literatura produz. E vale a lembrança que suas aparições na mídia são posteriores ao sucesso literário. Ou seja, a obra escrita o precedeu como figura pública.
Sucesso entre leitores e crítica (feliz conjunção), o autor está publicando Ai Meu Deus, Ai Meu Jesus. Segundo o próprio livro, são crônicas de amor e sexo. Mas isso diz muito pouco da obra, porque não é possível caracterizá-la apenas assim: o livro é quase um manual de instruções para a vida a dois. Se viesse com roupagem de autoajuda (no melhor sentido), igualmente funcionaria muito bem. Escrito de cabo a rabo com humor e contundência, pertence à aquela espécie de livro que, depois de pegá-lo, fica imantado nas mãos. É impressionante a capacidade que o autor demonstra ao fotografar cenas comuns e cotidianas da vida amorosa. Ao escrevê-las, faz com aquela aguda leveza que provoca um riso lá pelos dentros do leitor, que se reconhece no efeito de “É isso! É isso mesmo!”. O cronista deve ao poeta esse talento de plantar espantos. E é essa facilidade em transitar nos dois gêneros com o mesmo talento que faz dele um mestre no comportamento humano, um hábil tradutor do mundo psíquico. Tudo indica que ele seria um ótimo terapeuta de casal, como os leitores irão perceber.
Não foi por acaso que o nosso Carpinejar conquistou o Brasil. Ai meu Deus: até onde vai esse guri?
SESSÃO DE AUTÓGRAFOS NA SEXTA (9/11)
AI MEU DEUS, AI MEU JESUS
(Bertrand Brasil, 256 páginas)
Pavilhão Central, 19h
Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da
Publicado no jornal Zero Hora
Caderno da Feira, P. 3
Porto Alegre (RS), 9/11/2012
Edição N° 17248
segunda-feira, 2 de julho de 2012
POESIA A CÉU ABERTO
Arte de Giacometti
A poesia está nos quadrinhos, na Bíblia, no rock, na bula do remédio, na etiqueta do sutiã. Não há como viver sem poesia. Ficamos incomunicáveis. Ela é um atalho da linguagem. Uma simplicidade comunicativa. Foi estigmatizada de difícil, de complicada, de inacessível, mas é o contrário: facilita o entendimento.
No futebol, o narrador morreria descrevendo um jogo. Ai, eu disse "morreria", desculpa, foi um exagero poético. É uma figura para dizer que ela se cansaria. A poesia exagera ou diminui, para chegar perto da adrenalina do momento. Morreria é uma sensação de ultrapassar os limites. Não é morrer de verdade, morrer literal.
Quando digo que minha mulher me levou aos céus depois de um beijo, eu não fui ao céu e voltei. É a impressão de vertigem do amor. No instante em que Pablo Neruda, poeta chileno Nobel de Literatura, coloca que o cheiro da barbearia lhe faz chorar aos gritos não é para levar a sentença ao pé da letra: ele confessa seu medo da navalha e da tesoura.
Antes as palavras eram somente palavras. O poema veio para colocar o sentimento dentro delas.
O locutor de futebol, na verdade, foi salvo pelas metáforas, senão a partida duraria 360 minutos. Metáfora é falar algo por uma comparação. Quando o radialista comenta que Neymar deu um lençol no Chicão, ele evitou de explicar que o atacante santista lançou a bola por cima da cabeça do zagueiro corintiano e buscou do outro lado. Com uma imagem, resolveu a questão, ganhou valiosos minutos no rádio. A jogada é igual ao desenho de um lençol.
Há um glossário futebolístico imenso que segue essa linha como janelinha, balãozinho, pedalada, bicicleta, elástico, folha seca, embaixadinha, trivela. A poesia é o apelido do mundo. Uma nova forma de nomear e inaugurar as coisas. Pode ser engraçado, pode ser sério. O apelido é um jeito de qualificar semelhanças. Para o bem. E para o mal. Quem pratica apelido, pratica poesia.
Nem o bullying escapa dos versos. Se alguém tem sardas pode ser chamado de Sarampo, isso acontece pela parecença com os sintomas da doença. Nem a sedução dispensa os versos. Mas quem tem sardas pode receber apelidos lindos, como Iluminado. Explico, sardas são como óculos na pele, parece que geram luz e fazem brilhar a coloração dos poros.
A poesia aproxima palavras que não se cumprimentavam. Palavras ranzinzas, que nunca conversavam no dicionário. Quanto mais diferentes, mais a união produz barulho e o efeito desejado de surpreender. Ela gosta mesmo de casar. Perfeito, a poesia é uma agência de casamento entre os vocábulos.
De um lado, o fogo. De outro, a tempestade. Os dois representam forças opostas. Poesia ama novidades, esquisitices, exuberâncias.
Vamos casar o fogo com a chuva? Temos que encontrar um ponto em comum. Que tal a rapidez? Fogo destrói casas com velocidade. Tempestade destrói casas com velocidade.
Feito o poema:
A tempestade é tão rápida quanto o fogo.
Certo?
As peças podem ser antagônicas, o importante é definir uma convergência, uma intersecção.
O que a ovelha tem de igual com a água?
A lã e a espuma são brancas e repousam na superfície.
Desse jeito, permito-me definir que
A lã é a espuma do rebanho.
É uma brincadeira que combina mais com o nosso raciocínio emocional, repleto de desejos, arrebatamentos, vontades.
No futebol, o narrador morreria descrevendo um jogo. Ai, eu disse "morreria", desculpa, foi um exagero poético. É uma figura para dizer que ela se cansaria. A poesia exagera ou diminui, para chegar perto da adrenalina do momento. Morreria é uma sensação de ultrapassar os limites. Não é morrer de verdade, morrer literal.
Quando digo que minha mulher me levou aos céus depois de um beijo, eu não fui ao céu e voltei. É a impressão de vertigem do amor. No instante em que Pablo Neruda, poeta chileno Nobel de Literatura, coloca que o cheiro da barbearia lhe faz chorar aos gritos não é para levar a sentença ao pé da letra: ele confessa seu medo da navalha e da tesoura.
Antes as palavras eram somente palavras. O poema veio para colocar o sentimento dentro delas.
O locutor de futebol, na verdade, foi salvo pelas metáforas, senão a partida duraria 360 minutos. Metáfora é falar algo por uma comparação. Quando o radialista comenta que Neymar deu um lençol no Chicão, ele evitou de explicar que o atacante santista lançou a bola por cima da cabeça do zagueiro corintiano e buscou do outro lado. Com uma imagem, resolveu a questão, ganhou valiosos minutos no rádio. A jogada é igual ao desenho de um lençol.
Há um glossário futebolístico imenso que segue essa linha como janelinha, balãozinho, pedalada, bicicleta, elástico, folha seca, embaixadinha, trivela. A poesia é o apelido do mundo. Uma nova forma de nomear e inaugurar as coisas. Pode ser engraçado, pode ser sério. O apelido é um jeito de qualificar semelhanças. Para o bem. E para o mal. Quem pratica apelido, pratica poesia.
Nem o bullying escapa dos versos. Se alguém tem sardas pode ser chamado de Sarampo, isso acontece pela parecença com os sintomas da doença. Nem a sedução dispensa os versos. Mas quem tem sardas pode receber apelidos lindos, como Iluminado. Explico, sardas são como óculos na pele, parece que geram luz e fazem brilhar a coloração dos poros.
A poesia aproxima palavras que não se cumprimentavam. Palavras ranzinzas, que nunca conversavam no dicionário. Quanto mais diferentes, mais a união produz barulho e o efeito desejado de surpreender. Ela gosta mesmo de casar. Perfeito, a poesia é uma agência de casamento entre os vocábulos.
De um lado, o fogo. De outro, a tempestade. Os dois representam forças opostas. Poesia ama novidades, esquisitices, exuberâncias.
Vamos casar o fogo com a chuva? Temos que encontrar um ponto em comum. Que tal a rapidez? Fogo destrói casas com velocidade. Tempestade destrói casas com velocidade.
Feito o poema:
A tempestade é tão rápida quanto o fogo.
Certo?
As peças podem ser antagônicas, o importante é definir uma convergência, uma intersecção.
O que a ovelha tem de igual com a água?
A lã e a espuma são brancas e repousam na superfície.
Desse jeito, permito-me definir que
A lã é a espuma do rebanho.
É uma brincadeira que combina mais com o nosso raciocínio emocional, repleto de desejos, arrebatamentos, vontades.
O ensaísta Nelson Rodrigues enfrentou a pobreza na infância, não tinha almoço e nem janta e enganava o estômago tomando água. Usou a poesia para que o leitor percebesse a gravidade da situação.
― Eu não bebia água, comia a água.
Pois a água era sua refeição. Ele traficou sentidos entre os verbos. Assim como quem já teve infecção na garganta, tem todas as condições para compreender a água como um alimento. Demora a descer, a ponto de necessitar de dentes para ingeri-la.
A poesia fotografa a emoção. É um detector de emoção das frases. Ela recombina palavras, tornando a leitura nervosa. O escritor Paulo Henriques Brito poderia ter escrito em um de seus poemas:
Noite cheia de estrelas.
Mas inventou de digitar:
Noite encaroçada de estrelas.
O adjetivo mudou a feição do verso, apesar de expressar idêntica mensagem. O primeiro verso é um lugar-comum, aquilo que a maioria está cansada de repetir em cartões românticos. Já o segundo, tem um encantamento preciso, sutil. Encaroçada lembra algo penoso, um desafio a superar, uma dor perigosa. Partilha vizinhança com o diagnóstico do câncer (caroço).
Descobrimos que é uma noite particular de sofrimento, não uma noite de prazer e alegria. O caroço também traz a ideia de nascer de novo, de germinar. Uma palavra ― e só uma palavra encaixada com sabedoria ― possibilitou uma gama infinita de interpretações. Quanto mais sugestões o poema produz, mais rico ele é.
A poesia é fábula, pacto mágico com o interlocutor. Toda ação estranha é normalizada. Toda normalidade é estranhada. Se Carlos Drummond de Andrade expõe que
Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Tal atitude – ainda que improvável, ainda que não enxerguemos os mortos - tem um resultado:
Por isso, caminho um pouco de banda.
O esquisito resulta em dano prático e razoável. Ele anda torto porque carrega seus fantasmas.
A poesia troca as funções do que é conhecido e comum. Muda as idéias de lugar para chamar atenção. É um jogo gigante dos sete erros com letras.
― Ai, dor de pólvora em meus olhos ― exclama o poeta espanhol Federico Garcia Lorca.
Além de inserir pólvora nos olhos, substitui o fogo por dor.
Dor (fogo) + pólvora (explosão) + olhos
Ocorre a mistura de três elementos até então vedados, separados. O mais impressionante é que a cena remete a uma experiência; antigamente, na hora de atirar com uma espingarda, o rastilho de pólvora ardia os olhos.
Animais e coisas são humanizados, e homens são coisificados e animalizados. Para impor uma percepção diferente daquilo que é vivido. Mulheres voam, cavalos batem palmas, peixes correm, cachorros gritam.
O que leva a Manoel de Barros a formular cenas pitorescas. Para apontar que passou muito tempo, ele versifica:
Na outra margem do rio,
as águas já tinham até criado cabelo.
Cabelo que é do homem agora é da água. E faz todo sentido visual: o que é o cabelo do rio senão raízes trançadas das árvores em volta.
Um dos pontos altos da poesia é modificar o senso comum, questionar as aparências. Seu motor de diálogo é a curiosidade infantil, insaciável. O poeta português Gonçalo Tavares estabeleceu uma inversão importante: pagamos a conta da luz todo o mês, mas se pagássemos a conta do escuro, qual seria a maior? Ao apagar a luz, estaríamos acendendo o escuro. Ao acender a luz, estaríamos apagando o escuro. Alguém já pensou sob essa perspectiva ingênua e ― incrível ― pertinente?
A luz representaria nossa alegria, nossa esperança, nossa saúde. O escuro é a nossa tristeza, nossas dores, nossas doenças. Qual usamos mais? A partir de um ponto de vista inédito, propõe a raciocinar como cuidamos de nossa vida. Somos leves ou pesados, otimistas ou pessimistas, confiantes ou desmotivados?
O poema é como uma escada, cada pergunta é um degrau.
Vou entrar numa igreja. Veja a pia com a água benta. Faço o sinal da cruz. O que seria automático não é mais porque eu pergunto.
- Água está parada? -
- De onde vem ela? -
- É potável ou suja? -
Os questionamentos formam a escadinha para atingir o verso, que é o telhado. Então, finalizo:
Será que Deus é potável?
O leitor não terá a minha escada, lerá somente o verso "Será que Deus é potável?", no qual troquei a água benta por Deus. Eu tiro a escada no livro, para que ninguém descubra como subi no telhado e permitindo que cada um crie suas próprias perguntas. Por isso qualquer verso é cercado de vazios e silêncios. São perguntas que desapareceram.
― Eu não bebia água, comia a água.
Pois a água era sua refeição. Ele traficou sentidos entre os verbos. Assim como quem já teve infecção na garganta, tem todas as condições para compreender a água como um alimento. Demora a descer, a ponto de necessitar de dentes para ingeri-la.
A poesia fotografa a emoção. É um detector de emoção das frases. Ela recombina palavras, tornando a leitura nervosa. O escritor Paulo Henriques Brito poderia ter escrito em um de seus poemas:
Noite cheia de estrelas.
Mas inventou de digitar:
Noite encaroçada de estrelas.
O adjetivo mudou a feição do verso, apesar de expressar idêntica mensagem. O primeiro verso é um lugar-comum, aquilo que a maioria está cansada de repetir em cartões românticos. Já o segundo, tem um encantamento preciso, sutil. Encaroçada lembra algo penoso, um desafio a superar, uma dor perigosa. Partilha vizinhança com o diagnóstico do câncer (caroço).
Descobrimos que é uma noite particular de sofrimento, não uma noite de prazer e alegria. O caroço também traz a ideia de nascer de novo, de germinar. Uma palavra ― e só uma palavra encaixada com sabedoria ― possibilitou uma gama infinita de interpretações. Quanto mais sugestões o poema produz, mais rico ele é.
A poesia é fábula, pacto mágico com o interlocutor. Toda ação estranha é normalizada. Toda normalidade é estranhada. Se Carlos Drummond de Andrade expõe que
Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Tal atitude – ainda que improvável, ainda que não enxerguemos os mortos - tem um resultado:
Por isso, caminho um pouco de banda.
O esquisito resulta em dano prático e razoável. Ele anda torto porque carrega seus fantasmas.
A poesia troca as funções do que é conhecido e comum. Muda as idéias de lugar para chamar atenção. É um jogo gigante dos sete erros com letras.
― Ai, dor de pólvora em meus olhos ― exclama o poeta espanhol Federico Garcia Lorca.
Além de inserir pólvora nos olhos, substitui o fogo por dor.
Dor (fogo) + pólvora (explosão) + olhos
Ocorre a mistura de três elementos até então vedados, separados. O mais impressionante é que a cena remete a uma experiência; antigamente, na hora de atirar com uma espingarda, o rastilho de pólvora ardia os olhos.
Animais e coisas são humanizados, e homens são coisificados e animalizados. Para impor uma percepção diferente daquilo que é vivido. Mulheres voam, cavalos batem palmas, peixes correm, cachorros gritam.
O que leva a Manoel de Barros a formular cenas pitorescas. Para apontar que passou muito tempo, ele versifica:
Na outra margem do rio,
as águas já tinham até criado cabelo.
Cabelo que é do homem agora é da água. E faz todo sentido visual: o que é o cabelo do rio senão raízes trançadas das árvores em volta.
Um dos pontos altos da poesia é modificar o senso comum, questionar as aparências. Seu motor de diálogo é a curiosidade infantil, insaciável. O poeta português Gonçalo Tavares estabeleceu uma inversão importante: pagamos a conta da luz todo o mês, mas se pagássemos a conta do escuro, qual seria a maior? Ao apagar a luz, estaríamos acendendo o escuro. Ao acender a luz, estaríamos apagando o escuro. Alguém já pensou sob essa perspectiva ingênua e ― incrível ― pertinente?
A luz representaria nossa alegria, nossa esperança, nossa saúde. O escuro é a nossa tristeza, nossas dores, nossas doenças. Qual usamos mais? A partir de um ponto de vista inédito, propõe a raciocinar como cuidamos de nossa vida. Somos leves ou pesados, otimistas ou pessimistas, confiantes ou desmotivados?
O poema é como uma escada, cada pergunta é um degrau.
Vou entrar numa igreja. Veja a pia com a água benta. Faço o sinal da cruz. O que seria automático não é mais porque eu pergunto.
- Água está parada? -
- De onde vem ela? -
- É potável ou suja? -
Os questionamentos formam a escadinha para atingir o verso, que é o telhado. Então, finalizo:
Será que Deus é potável?
O leitor não terá a minha escada, lerá somente o verso "Será que Deus é potável?", no qual troquei a água benta por Deus. Eu tiro a escada no livro, para que ninguém descubra como subi no telhado e permitindo que cada um crie suas próprias perguntas. Por isso qualquer verso é cercado de vazios e silêncios. São perguntas que desapareceram.
Porém, não caía na tentação de confundir poesia com doideira. Ela tem método, dinâmica, uma estrutura definida. Traz uma história visível e outra invisível. Como num conto, privilegia a surpresa no desfecho, o choque, o "eu não imaginava" que nos incita a releitura para observar melhor o caminho.
O poema contraria as expectativas. Sempre. Adélia Prado confessa:
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Você supõe que ela vai apoiar a repulsa caseira de desventrar o cardume. Veja como continua:
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Entendeu? O que é ruim é maravilhoso, o que é agradável é nocivo. A poeta nada na contramão do clichê e estabelece uma definição diversa da rotina e dos hábitos.
A história visível é: horrível limpar peixes e acompanhar a volta do marido da pescaria. A história invisível, que somente aparece depois, é: amo dividir a madrugada com o marido mesmo que seja limpando o peixe.
Aquele que é do contra está a favor do poema. E nem sabia.
O poema contraria as expectativas. Sempre. Adélia Prado confessa:
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Você supõe que ela vai apoiar a repulsa caseira de desventrar o cardume. Veja como continua:
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Entendeu? O que é ruim é maravilhoso, o que é agradável é nocivo. A poeta nada na contramão do clichê e estabelece uma definição diversa da rotina e dos hábitos.
A história visível é: horrível limpar peixes e acompanhar a volta do marido da pescaria. A história invisível, que somente aparece depois, é: amo dividir a madrugada com o marido mesmo que seja limpando o peixe.
Aquele que é do contra está a favor do poema. E nem sabia.
Publicado na revista Vida Simples
São Paulo, Junho 2012 / Edição 120 Ps. 40-45
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
COMPOSITOR DA SAÚDE MENTAL
Fotos de Cínthya Verri
Paulo Sérgio Rosa Guedes era extremamente ligado ao seu avô, que contava histórias saborosas e brincava de cartas. Otelo morreu de infarto fulminante numa terça chuvosa de 1956. Durante décadas, Paulo Sérgio, na época com 15 anos, reprisou a cena e pensou ter condições de socorrer e salvar o familiar. Carregou a culpa pela morte. Raciocinava por condicionais: "Se eu tivesse dormido na casa dele, não teria morrido"...
Foi seu trabalho de psicoanálise que o possibilitou a se desfazer da onipotência e ajudar centenas de gaúchos a perceberem que a culpa, na maior parte das vezes, é inventada.
"A culpa em si é a única causa de doença mental, é um delírio de grandeza, que faz com que a pessoa acredite que é causadora de tudo", explica.
Autor de livros como O "Sentimento de Culpa" e "A paixão, caminhos & descaminhos", poeta e ensaísta, Paulo Sérgio, 70 anos, mostra o quanto é possível ter mais prazer e menos decepção, o quanto a culpa indica uma vontade insustentável de ter controle sobre qualquer coisa. É hábito dizer que algo deu errado porque não se agiu de determinada maneira, mas - na verdade - o sucesso ou o fracasso de um negócio ou relacionamento não depende somente de nossas ações.
"Não somos o centro do mundo, talvez tenhamos que descobrir qual é o nosso mundo para aprender a ser livre".
Em sua residência-escritório no alto da avenida Carlos Gomes, em Porto Alegre, Paulo Sérgio tem o despojamento da alegria. Sabe que o "riso é a coisa mais séria que existe". Gargalha entre frases de efeito. Articula pequenas teses em aforismos: "O que leva o jovem à insônia é o que faz o velho dormir" ou "É insuportável sermos tão diferentes uns dos outros".
Não se veste de modo pomposo, está sempre esportivo e tem a mania curiosa de calçar sapatos brancos. Na hora de comprar, não usa cartão de crédito ou cheque especial. Não sofre com aquilo que não é, muito menos pretende gastar o que não tem. Mantém o mesmo carro de 1994 na garagem, um Ford Taurus.
Paga à vista cada palavra. Não remói amargura.
"O que foi já me ensinou, o que virá não sei".
Poderia ser um xamã, um líder espiritual, mas é um dos psiquiatras mais conceituados do Rio Grande do Sul, com 42 anos de atuação, um exército de fãs e uma tropa de imitadores. Identifica a psiquiatria como música, converte conceitos em fala simples e comunicativa, transforma o jargão em sinfonia: ouvir é entender, amar é cuidar.
Quando recebeu de presente o piano de sua mãe Zuleika, na adolescência, teve vontade de recitar o texto “Gradiva” de Freud. É um compositor da saúde mental. Seu pendor acústico - toca igualmente violão e cavaquinho – emana de uma casa tomada pela arte, em que seu pai, também psiquiatra, professor da UFRGS, recebia amigos para longas e acaloradas discussões.
"Meu pai Paulo Luís Vianna Guedes morreu jovem, aos 52 anos, mas escondeu o riso no meu para continuar nossa serenata".
Seu pensamento é um antídoto numa época de festas de Natal e virada, de receio pelas férias, de excessivos gastos, de encontros familiares e ressentimentos.
"Final do ano é uma continuação do ano anterior. Sem pânico diante da página em branco, é apenas prosseguir escrevendo."
Hoje existe uma descarga desproporcional de cobrança: é cuidar do corpo, é atender as metas no trabalho, é sofrer por não acompanhar os filhos ou por não se dedicar ao namoro.
"Para que enlouquecer?", questiona. "Paga-se caro por preocupações irrelevantes".
Um de seus achados de percepção é desenvolver as diferenças entre culpa e responsabilidade. Por mais que soem parecidos, não são sinônimos.
Culpa é se isentar da ação, como se não tivesse envolvimento com as escolhas da própria vida. Responsabilidade é aceitar a vida como aconteceu - ainda que não tenha sido perfeita.
Quem é culpado vai adiar um prazer inúmeras vezes, é capaz de reclamar do trabalho e não mexer uma vírgula para mudar de emprego, criticar seu marido ou mulher e manter a rotina do jeito que não gosta para permanecer praguejando.
"É mais confortável se portar como culpado do que assumir os próprios desejos. Há gente que desabafa que não tem tempo para os filhos, mas não reivindica seu tempo, não abre seu tempo e procura encontrar desculpas externas para não ser criticado".
Então, a culpa traz uma dupla fantasia: de controle, em que a pessoa se vê geradora do que de ruim acontece em sua volta, e de fatalidade, em que não se sente apta a modificar o comportamento.
De acordo com Paulo Sérgio, o cotidiano depende de sorte e azar, daquilo que chamamos de acaso. Nada mais do que isso. E grande parte dos aborrecimentos surge da ilusão de ser importante em todo momento.
O culpado não faz por mal, ele mente para si e para os outros, é um enganado e um enganador. Sua atitude garante benefícios, senão não seria largamente adotada: preserva a idealização, cria amizades pela dependência do sofrimento e anula a autoridade de suas opções.
No período em que fumava, Paulo fingia que consumia um maço por dia, porém já destrinchava três carteiras. Prolongou a mentira para não arcar com as consequências de seu vício.
"Imaginamos que mentindo para si os demais não descobrirão. O que me faltava era opinião própria, reconhecer que não deveria ser melhor do que eu era, mas melhor no que eu realmente era".
É uma espécie de transe, de glorificação da vítima, de coitadismo insaciável; o problema passa a ser eternamente alheio, do governo, dos pais, do casamento, do mercado de trabalho, do trânsito.
"Na terapia, o culpado não procura ajuda, e sim um fiador, quer que concordemos com seus motivos para continuar sofrendo em vão. Chega com a alma vendida. A psicoanálise é o oposto: a arte de restituir a uma pessoa a alma que ela tem.”
A devolução da alma se desenrola pelo caminho da simplicidade: admitir o tamanho da experiência, acolher os defeitos e as falhas, permitir-se essencialmente errar e seguir adiante. Não ser superior ao passado, mas se contentar com o possível, o deliciosamente possível.
Paulo Sérgio é tão comum, que talvez ninguém repare na rua a desenvoltura de seu olhar. O brilho malandro de alguém que desvendou a verdade, recusando atalhos e assumindo suas vivências. Ele é um homem que trocou o poder pela confiança. Um negócio sábio.
June Schuck, 64, esposa há cinco décadas, é testemunha de sua enxurrada de idéias. Assim como seus filhos Luciana, Paulo Roberto, Ana Luísa e o neto Pedro. A família ri quando revela que o marido-pai-avô só poderia ter nascido em 1941, na maior enchente de Porto Alegre.
Não há dique que o contenha.
DECÁLOGO DA CULPA
1. O sentimento de culpa nunca é conseqüência, e sim causa.
2. Evite lista de intenções. Intenção não existe. Caso pretende fazer algo, faça agora. A ação é terapêutica.
3. Superfaturamos os dissabores. Tudo é muito dramático, inesquecível, incontornável. A vida é bem mais simples do que se imagina.
4. Ao invés de dizer o que se deseja, existe a fantasia de que o outro nos conhece e pode nos antecipar. É uma cilada: cobrará por não ser adivinhado.
5. Desconfie de sua importância: aquele inimigo mortal nem sequer sabe que você existe.
6. Reconheça que o outro não é igual: a diferença entre duas pessoas é maior do que entre dois animais de espécies distintas (Montaigne).
7. Em vez de interpretar, escute com atenção. Interpretar é se defender mais do que receber.
8. Não procure justificar o que fez, apenas diga que fez.
9. Se mantém a mesma opinião sempre, algo está errado. Coerência é mudar de opinião.
10. Inverta o mandamento “ame o próximo como a si mesmo” para “ame a si mesmo para amar o próximo”.
Publicado na Revista Contigo!
5 de janeiro de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
BELA ACORDADA
Gaúcho como ela, o poeta e cronista FABRÍCIO CARPINEJAR aceitou nosso desafio: explicar o que GISELE tem que a torna inspiradora para as MULHERES e irresistível para os HOMENS.
Gisele Bündchen não é uma beleza finda, uma beleza didática, uma beleza que se vira a página. É uma beleza misteriosa, amamos por não entendê-la. Há algo que sempre nos escapa. Uma duplicidade permanente. Como o sol de noite. Como a lua de dia.
Ela é extremamente feminina, mas carrega traços masculinos e fortes, germânicos e duros. Tem uma boca grande, o queixo grande, a testa grande, o nariz grande. O que ficaria desproporcional em qualquer outra face, nela é harmonia, coerência luminosa, constelação fechada. É a perfeição da poesia superando o resultado da lógica.
Os símbolos sexuais do século passado quase desmaiavam nas imagens. Marilyn Monroe, Ava Gardner e Greta Garbo, por exemplo, caracterizavam-se pelas pálpebras semicerradas, como se estivessem indo dormir ou levantando para o café da manhã. A feição adormecida revelava uma submissão, uma inclinação doméstica; a mulher sedada, anestesiada, vulnerável. Os olhos de cima para baixo, com a leve inclinação da cabeça, diziam sim ao mundo masculino, condicionados a somente oferecer prazer.
Gisele traz finalmente uma beleza acordada. É a primeira vez que surge um ícone feminino curioso, ávido, atento. Gisele está faminta de ver e saber o que está vendo.
Rompe com o padrão de Bela Adormecida, discorda da sensualidade da tristeza, interrompe a chantagem da melancolia. Sua mirada é invertida, de baixo para cima, corajosa, otimista, questionando nossas verdades e princípios. É o almoço do olhar. A igualdade de olhar. A tourada do olhar.
Ela não precisa de ninguém, precisa de si.
Marilyn, a antecedente mitológica de Gisele, pedia “Por favor”. Gisele pede passagem. A primeira lança uma contemplação lânguida, órfã, de alegria retraída; a segunda, uma observação convicta, decidida, independente.
Gisele tem fé em sua felicidade; não confiante demais a ponto de ser arrogante, nem de menos a ponto de ser influenciável.
Suas opiniões convergem para a autonomia. Além de pensar o que fala, pensa o que pensa. Palpita sobre temas polêmicos, não se dobra a uma tendência dominante.
Em vez da intolerância própria do famoso, age compreensivamente diante do contraponto e esclarece atitudes. É unânime (não há mais como negar sua importância histórica) enquanto muitos de sua área são consensuais (filhos adotivos de tendências).
Nunca aparece assustada com o alcance de suas declarações. Já apoiou o aborto (“Toda mulher deve ser livre para fazer o que quiser”), atuou como ativista social de campanha contra HIV e na defesa do patrimônio amazônico. Apesar de sua imensa visibilidade, mantém a rotina familiar longe das câmeras. Ela não procura a fama, a fama que a procura. Protege seus segredos. Até isso conseguiu: a mulher mais conhecida na atualidade conservou sua privacidade.
Talvez seja decorrência de uma espontaneidade inabalável. Não força amizade, não ostenta simpatia. Sua discrição chama para perto, chama respeito.
Envolvida pelo batimento cardíaco, ela não acentua o balanço natural. É a única que anda nas passarelas, sabe caminhar bonito. Já suas colegas dependem de esforço e desfilam. Para ela, tanto faz passar pelos bancos de madeira da Praça 25 de Julho, de sua cidade natal Horizontina (RS) como pelo gramado do Central Park. Ela simplifica, e deslumbra.
Tem noção do que produziu, mas não glorifica o passado. Não necessita explicar sua trajetória, o que lhe torna eternamente recente. Diferente da maior parte das modelos, que exaltam o percurso. Ela apenas aceita o que aconteceu de bom e de ruim e segue adiante. Não dramatiza a memória, não se elogia pela experiência. Sua juventude reside na firmeza de caráter. Na absoluta doação. Ela interpreta a sua vontade, não se violentou para atingir objetivos.
Curiosamente homens e mulheres partilham idêntica admiração. Não cativa separadamente os públicos.
Gisele é a saudade de uma vida simples. Uma vida descomplicada. Sem censuras e ameaças. Sem anorexia e bulimia. Com doce depois do almoço, e namoro com pipoca. Não é puro osso, mas angulosa, sestrosa. É alguém de dentro do universo da moda que veste o corpo da leitora. Com curvas e esquinas. Com decotes e bunda. Alguém que pode se beliscar para revelar que não está sonhando.
Gisele manteve cuidados, claro!, porém livre dos excessos repressivos. Desafiou à matemática da aparência, às formas triangulares e quadradas dos desfiles, aos recordes da subnutrição. Não perseguiu o esplendor a todo custo, preservou a saúde do pecado.
Ela não é tudo, pode ser tudo, que é muito melhor. Mais do que camaleônica, é de uma ambigüidade apaixonante, que permite várias formas e tons, várias nuances e sombras. Domina os dois extremos: é magra, alta e essencial e irradia volúpia.
Ela torna qualquer um bonito. Não nos incita a competição. É o ideal do cotidiano. É a exuberância do comum. A singularidade da mulher comum. A normalidade consagrada.
Gisele nos perdoa pelas imperfeições. Ela tem a virtude de não julgar. Nas fotografias, não está dizendo: “Seja como eu”, está dizendo: “Eu sou como você”.
A partir da ternura, cria empatia e não desperta inveja; sua beleza é filantrópica, transparente.
Gisele Bündchen exige mais e mais atenção e não enjoamos. Não é fotogênica, mas hipnótica. Ela nos desafia, o desafio é seu convite. Empareda a nossa atenção. Seu rosto é um prisma: mesmo de lado, seu rosto está de frente. É como se fosse um olhar de árvore (árvore não tem costas).
Empenhe-se para sair de suas órbitas. Impossível. Ela se movimenta parada. Prende como um magneto. Antes mesmo de ser famosa, a gente a conhecia de algum lugar. Vê-la é reprisar existências passadas.
Gisele é uma aula de pintura. Suas madeixas materializam a Vênus de Botticelli. As camadas loiras formam andares das ondas. Ela avança como uma correnteza, uma armação marinha, ela se derrama vertical.
Gisele é nossa última Renascença. Nosso derradeiro Código. Seus olhos estão rindo. Enigmáticos como La Gioconda de Leonardo da Vinci. As mesmas sobrancelhas invisíveis. O mesmo contentamento rico de sutilezas: contido, ansioso, libertador, sereno, irônico. Um espelho de nossa multiplicidade.
Repare bem na semelhança, Gisele apresenta realmente o desenho igual aos olhos da Mona Lisa. Com a vantagem de serem azuis.
Gisele Bündchen não é uma beleza finda, uma beleza didática, uma beleza que se vira a página. É uma beleza misteriosa, amamos por não entendê-la. Há algo que sempre nos escapa. Uma duplicidade permanente. Como o sol de noite. Como a lua de dia.
Ela é extremamente feminina, mas carrega traços masculinos e fortes, germânicos e duros. Tem uma boca grande, o queixo grande, a testa grande, o nariz grande. O que ficaria desproporcional em qualquer outra face, nela é harmonia, coerência luminosa, constelação fechada. É a perfeição da poesia superando o resultado da lógica.
Os símbolos sexuais do século passado quase desmaiavam nas imagens. Marilyn Monroe, Ava Gardner e Greta Garbo, por exemplo, caracterizavam-se pelas pálpebras semicerradas, como se estivessem indo dormir ou levantando para o café da manhã. A feição adormecida revelava uma submissão, uma inclinação doméstica; a mulher sedada, anestesiada, vulnerável. Os olhos de cima para baixo, com a leve inclinação da cabeça, diziam sim ao mundo masculino, condicionados a somente oferecer prazer.
Gisele traz finalmente uma beleza acordada. É a primeira vez que surge um ícone feminino curioso, ávido, atento. Gisele está faminta de ver e saber o que está vendo.
Rompe com o padrão de Bela Adormecida, discorda da sensualidade da tristeza, interrompe a chantagem da melancolia. Sua mirada é invertida, de baixo para cima, corajosa, otimista, questionando nossas verdades e princípios. É o almoço do olhar. A igualdade de olhar. A tourada do olhar.
Ela não precisa de ninguém, precisa de si.
Marilyn, a antecedente mitológica de Gisele, pedia “Por favor”. Gisele pede passagem. A primeira lança uma contemplação lânguida, órfã, de alegria retraída; a segunda, uma observação convicta, decidida, independente.
Gisele tem fé em sua felicidade; não confiante demais a ponto de ser arrogante, nem de menos a ponto de ser influenciável.
Suas opiniões convergem para a autonomia. Além de pensar o que fala, pensa o que pensa. Palpita sobre temas polêmicos, não se dobra a uma tendência dominante.
Em vez da intolerância própria do famoso, age compreensivamente diante do contraponto e esclarece atitudes. É unânime (não há mais como negar sua importância histórica) enquanto muitos de sua área são consensuais (filhos adotivos de tendências).
Nunca aparece assustada com o alcance de suas declarações. Já apoiou o aborto (“Toda mulher deve ser livre para fazer o que quiser”), atuou como ativista social de campanha contra HIV e na defesa do patrimônio amazônico. Apesar de sua imensa visibilidade, mantém a rotina familiar longe das câmeras. Ela não procura a fama, a fama que a procura. Protege seus segredos. Até isso conseguiu: a mulher mais conhecida na atualidade conservou sua privacidade.
Talvez seja decorrência de uma espontaneidade inabalável. Não força amizade, não ostenta simpatia. Sua discrição chama para perto, chama respeito.
Envolvida pelo batimento cardíaco, ela não acentua o balanço natural. É a única que anda nas passarelas, sabe caminhar bonito. Já suas colegas dependem de esforço e desfilam. Para ela, tanto faz passar pelos bancos de madeira da Praça 25 de Julho, de sua cidade natal Horizontina (RS) como pelo gramado do Central Park. Ela simplifica, e deslumbra.
Tem noção do que produziu, mas não glorifica o passado. Não necessita explicar sua trajetória, o que lhe torna eternamente recente. Diferente da maior parte das modelos, que exaltam o percurso. Ela apenas aceita o que aconteceu de bom e de ruim e segue adiante. Não dramatiza a memória, não se elogia pela experiência. Sua juventude reside na firmeza de caráter. Na absoluta doação. Ela interpreta a sua vontade, não se violentou para atingir objetivos.
Curiosamente homens e mulheres partilham idêntica admiração. Não cativa separadamente os públicos.
Gisele é a saudade de uma vida simples. Uma vida descomplicada. Sem censuras e ameaças. Sem anorexia e bulimia. Com doce depois do almoço, e namoro com pipoca. Não é puro osso, mas angulosa, sestrosa. É alguém de dentro do universo da moda que veste o corpo da leitora. Com curvas e esquinas. Com decotes e bunda. Alguém que pode se beliscar para revelar que não está sonhando.
Gisele manteve cuidados, claro!, porém livre dos excessos repressivos. Desafiou à matemática da aparência, às formas triangulares e quadradas dos desfiles, aos recordes da subnutrição. Não perseguiu o esplendor a todo custo, preservou a saúde do pecado.
Ela não é tudo, pode ser tudo, que é muito melhor. Mais do que camaleônica, é de uma ambigüidade apaixonante, que permite várias formas e tons, várias nuances e sombras. Domina os dois extremos: é magra, alta e essencial e irradia volúpia.
Ela torna qualquer um bonito. Não nos incita a competição. É o ideal do cotidiano. É a exuberância do comum. A singularidade da mulher comum. A normalidade consagrada.
Gisele nos perdoa pelas imperfeições. Ela tem a virtude de não julgar. Nas fotografias, não está dizendo: “Seja como eu”, está dizendo: “Eu sou como você”.
A partir da ternura, cria empatia e não desperta inveja; sua beleza é filantrópica, transparente.
Gisele Bündchen exige mais e mais atenção e não enjoamos. Não é fotogênica, mas hipnótica. Ela nos desafia, o desafio é seu convite. Empareda a nossa atenção. Seu rosto é um prisma: mesmo de lado, seu rosto está de frente. É como se fosse um olhar de árvore (árvore não tem costas).
Empenhe-se para sair de suas órbitas. Impossível. Ela se movimenta parada. Prende como um magneto. Antes mesmo de ser famosa, a gente a conhecia de algum lugar. Vê-la é reprisar existências passadas.
Gisele é uma aula de pintura. Suas madeixas materializam a Vênus de Botticelli. As camadas loiras formam andares das ondas. Ela avança como uma correnteza, uma armação marinha, ela se derrama vertical.
Gisele é nossa última Renascença. Nosso derradeiro Código. Seus olhos estão rindo. Enigmáticos como La Gioconda de Leonardo da Vinci. As mesmas sobrancelhas invisíveis. O mesmo contentamento rico de sutilezas: contido, ansioso, libertador, sereno, irônico. Um espelho de nossa multiplicidade.
Repare bem na semelhança, Gisele apresenta realmente o desenho igual aos olhos da Mona Lisa. Com a vantagem de serem azuis.
Publicado na Revista Cláudia
Nº 4, Ano 50, Abril 2011
Ps. 34-36
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