Mostrando postagens com marcador Poema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poema. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de novembro de 2012

SIEDSCHLAG


Você ouve com as pálpebras.
As pálpebras são as unhas dos seus olhos,
pintadas de azul, laranja, preto.

Marcamos de nos ver no alto
do Teatro Municipal,
a meio caminho
entre a comédia
e a ópera.

Seu rosto tremia suavemente
com o ritmo do Viaduto do Chá.
A pressão sanguínea dos passos
na pele, a vibração envenenando.

Os passantes reverberavam
em seu corpo sestroso,
em seus seios fartos,
em suas ancas deliciosas.

A cidade ondulava no vestido.
Você segurava na barra da grade
e oferecia o pescoço
à mordida do vento.

Belvedere:
como se houvesse um mar,
como se houvesse uma serra.

Escorada no parapeito,
seus olhos fecharam
como um longo beijo
na boca do precipício

de São Paulo.

Assim que eu lhe vi
pela primeira vez,
fez cena de ciúme
com as pedras.

Todo viaduto é um amante
apressando o abraço.

Poema publicado no caderno Metrópole
Contracapa, C8, homenagem aos 120 anos do Viaduto do Chá

O Estado de São Paulo
São Paulo (SP), 11/11/12

domingo, 27 de junho de 2010

E QUE SE PONHA A ROUPA DO VENTO

Poema inédito
de Fabrício Carpinejar
Fotografia de Caio Vilela

O jogo é inventar a goleira
mais do que a bola.

Garagens são traves,
lápides são traves,
cercas são traves,
chinelos são traves.

O que pode ser levado
com uma mão,
adivinhado pelas pernas.

Postes de luz são traves,
placas são traves,
lixeiras são traves,
bancos são traves.

Marcar o chão numa linha imaginária,
daqui pra ali é o campo.
E o mundo não existe mais
fora do giz branco.

Um quarto está pronto a céu aberto.
Um quintal no meio da casa.
Uma rua cortando a praça.

Corra no jardim sonâmbulo,
pise a grama com raiva, raízes
são cadarços amarrados
nos tornozelos das árvores.

Há coices, quedas, uivos:
nada termina a vida,
essa explosão suspirada.

É um transe, a trave;
trânsito parado, feriado.
O defensor descansa
na tranca dos joelhos.
O pássaro voa de cabeça a cabeça,
descasca a chuva, espalha os cabelos.

A trave é montinho, formigueiro,
capuz de ciscos, ninhos.
Formigas transportam alimento
por dentro dos seus riscos.

Que seja capacete de moto,
um tijolo, um toco,
qualquer troco de mato e entulho.

Dez passos ao lado e uma altura infinita,
fazer endereço para receber cartas,
desenhar gol de letra.

Trave é o quadro-negro dos pés.
Caroço de brilho, queimadura de cometa.
Na praia, no calçadão, no descampado.
Tudo o que foi costurado pelo invisível
entre o corpo e uma porta.

Pedras são traves,
bambus são traves,
frutas são traves.
Até crianças são traves
para o adulto passar
de volta à infância.


Publicado na Revista Serafina
Folha de São Paulo
P. 18, Junho de 2010