domingo, 5 de janeiro de 2014

AMOR-SEQUESTRO E AMOR-REMANSO


Arte Edu

Se você se afastou dos amigos, dos filhos, da família, é bem possível que esteja vivendo um amor-sequestro.

Não está numa relação, mas num cativeiro, sem contato com o mundo externo e apartado de uma segunda opinião.

Seu paradeiro é desconhecido, não sai do quartinho escuro, não troca ideias com a roda de colegas, não avalia sua condição, apenas se alimenta das sombras do passado e do pensamento.

Ficará tão sozinho, tão distanciado de sua rotina anterior, que não terá mais uma vivalma para pagar o resgate.

O isolamento é o termômetro da falta de felicidade.

O amor-sequestro consiste em devotar suas energias exclusivamente para sua companhia e esquecer o elo das demais amizades. É criar uma simbiose com o sequestrador (namorada ou namorado), a ponto de discutir por qualquer coisa, por qualquer problema.

Você passará mais tempo tentando salvar o relacionamento do que aproveitando o relacionamento. Enfrentará uma situação de pânico, contando os dias, angustiado com a ausência de perspectiva e de estabilidade. Só falará do mesmo assunto: o tratamento injusto que recebe.

Não há como amadurecer com o amor-sequestro. Ninguém cresce pressionado. Ninguém cresce emparedado. Ninguém cresce cobrado. Ninguém cresce ameaçado do fim.

No amor-sequestro, nada é suficiente. Pode oferecer seu máximo de ternura, que será pouco, o máximo de gentileza e será pouco, o máximo de entrega e intensidade e será pouco.

Quando os pedidos são insaciáveis, você não está sendo amado, demonstra que seu par apenas espera sua falha para humilhar e expor a superioridade.

Tornou-se refém das brigas e da insatisfação do outro. Buscará agradar, e decepcionará com frequência. Buscará reverter a situação, e somente agredirá de volta.

No amor-sequestro, deixa-se de ser inteiro para ser fragmentado, parcial, com dificuldades de resolver o trabalho e dar continuidade para a vida social. Nunca sobra folêgo para novas tarefas e compromissos.

O ideal é o amor-remanso. Ter paz para errar, pensar no erro e retribuir com atitudes afirmativas. Experimentar um relacionamento com a sensação de contar com todo o tempo para alinhar os passos (entender para aprender). Pois a solução dos problemas não acontece com hora marcada.

Os amigos e a familiares se manterão próximos, aconselhando, amparando, valorizando o enlace. Tem chance de sentir saudade, não estará sufocado e asfixiado num mesmo lugar, não se enxergará culpado ou em desvalia. Será admirado pela sua lealdade, por aquilo que você é. Por mais que não esteja certo, sua namorada ou seu namorado estará com você, ao lado, esperando que perceba a verdade, respeitando seu ritmo.

Não há maior liberdade do que a tranquilidade. Desfrutar de calma para se conhecer e assim se doar melhor.

A eternidade está no presente, não no futuro. Que seja eterno porque confiamos.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 05/01/2014 Edição N° 17664

9 comentários:

trinity sete disse...

Legal o texto,

a mais pura verdade é que o amor verdadeiro acrescenta em nosso ser coisas que por vezes desconhecíamos, mas nunca anula, o verdadeiro amor deixa o outro crescer aonde, quando e como ele precisa, da maneira em que precisa, é bom, mas tão raro, quando se tem a companhia do amor ao lado, cúmplice e incentivador silente.
Penso que o amor verdadeiro só o é em verdade quando permite o outro ser o outro como ele é, como vc escreveu, não sufoca, não cobra, não chantageia...etc... o que já acontece geralmente nos casos de paixão... um ser apaixonado é meio "grudento" e um pouco inseguro, dai a presença desta obstinação toda e a qual pode ser o referido "sequestro",a paixão nos rouba o domínio.
Alguns relacionamentos acham que esta apelação toda é amor, mas ainda não é o amor, e infelizmente talvez nem venha a ser pois difícil é sobreviver a tanto "peso".
Penso ser um possível e promissor começo ao amor, que vc escreveu e como acredito, um remanso, maduro, sadio, sólido, calmo, na intensidade certa pra durar, onde cada um se permite ser o que é.
Entre o caminho do sequestro ao remanso existe um tempo pra caminhar, tempo que as vezes nem chegará a existir ou que muitos nem querem tentar, dai o abandono.
Gosto de ti Carpi, vc é despojado e singular.
Um abraço

Milene Cristina disse...

Amor-sequestro, suga os dias e as noites são intermináveis. O melhor é sair de si para ter espaço para o outro entrar.

Cáhh Chaves. disse...

É a mais pura verdade! Devemos estar abertos para o relacionamento e viver este de forma tranquila para podermos entrar em contato com a verdadeira essência do outro, e ter prazer com isso! O amor sequestro, cansa, nos deixa fadigado. Já o amor remanso, nos deixa leve... manso!

Obrigada por isso!

Abraço.

Cáhh Chaves.

Kiko disse...

Pois é, vivo um Amor que esta de acordo com todo o texto do Carpinejar. O pior é que não consigo sair desta relação, que me laçou de uma maneira á ponto de tirar minhas forças para esta decisão. Gostaria muito de conseguir isso!!!

Milene disse...

Verdade nua e crua! Meu Muso sempre traduzindo em belos textos coisas que vivem no coração!

ana disse...

estou vivendo um amor sequestro, sendo eu a sequestradora. Como reverter isso ?
Se alguém tiver alguma idéia, aceito. É muito sofrimento....

Anônimo disse...

No momento não vivo nem um dos dois amores. Que triste. Há dias que me sinto vazia e muito solitária...Ahh Cristo, atende minhas preces :(

Anônimo disse...

Como é que faz pra evoluir de um pro outro? tem jeito ou só trocando?kkkkkkk

António Jesus Batalha disse...

Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens é um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco.
Eu também tenho um blog, Peregrino E servo, se desejar fazer uma visita
Ficarei radiante se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais, saiba que sempre retribuo seguido também o seu blog. Deixo os meus cumprimentos e saudações.
Sou António Batalha.