terça-feira, 14 de janeiro de 2014

NÃO HÁ COMO IMAGINAR

Arte de Paula Rego

Um amigo virou alcoólatra.

Ele era alegre, falante, dirigia negócio promissor, morava em seu apartamento no Moinhos de Vento, viajava para Buenos Aires nas férias, adorava dançar nos sábados.

A última vez em que eu o vi foi em janeiro de 2012, num restaurante italiano da Cidade Baixa. Reencontrei-o há pouco, dentro de um carro, encolhido no banco de trás, com o olhar parado e morno, sendo conduzido para a terceira clínica de desintoxicação. Estranhei os cabelos loiros queimados nas pontas, ele que nunca descuidou de sua imagem.

Em um ano tomado pelo álcool, transformou-se num fiapo de gente: perdeu o endereço comercial, gastou o imóvel para quitar dívidas do vício, não tem capacidade de decidir nem o que vai comer.

Assim como retiramos o rótulo da garrafa de cerveja com a umidade, sua história desapareceu. A bebida sugou sua identidade, seu temperamento, sua memória, até torná-lo anônimo.

Não fiquei triste que ele não me reconheceu, fiquei triste que ele não se reconhecia mais. Sequelado excessivamente para poder reconstruir sua trajetória.

Se o estado deplorável do amigo me assustou, o que deve latejar nas veias de sua família: em seus irmãos, em seu pai, em sua mãe?

O que é ter um filho que se anulou, que morreu para o mundo, a um passo de se apagar a qualquer momento?

Não há como imaginar o sofrimento dos pais. Porque imaginar ainda não é passar a semana inteira levando o filho de um lado para o outro, de um hospital a outro, na baldeação ininterrupta de médicos.

Não há como. Porque eu disponho de tempo para imaginar, eles somente têm tempo para cuidar.

O pai, que jurava que a educação do seu filho estava resolvida (formado e com emprego), enxerga-se impelido a reiniciar a paternidade e caminhar com uma criança grande amarrada aos ombros.

Não há como imaginar o que é receber uma ligação de madrugada para retirar seu filho mergulhado no meio-fio de alguma ruela, onde apanhou ou caiu misteriosamente, lavar os ferimentos e atravessar a noite em claro, rezando para que Deus ofereça uma segunda chance e não o leve embora.

Não há como imaginar o próprio filho querendo matá-lo, possuído de raiva; querendo roubá-lo, possuído de ansiedade; querendo escapar porta afora, possuído de pânico.

Ele melhora um pouquinho, e logo piora de novo. Ele se regenera num mês, e afunda nos seguintes. Ele se acalma um instante, para explodir e bater em quem encontrar pela frente.

Não existe mais o luxo de um dia bom, mas somente dia menos ruim. As expectativas são renovadas para a certeza da frustração.

A família de meu amigo tem todos os motivos para desmoronar, porém permanece de pé. O casal de pais não se separou, os irmãos não se distanciaram, ninguém usa uma desculpa para não trabalhar, um pretexto para não seguir com a rotina. Choram no meio das tarefas, riem de puro alívio, dedicam-se a uma eterna fisioterapia emocional em torno de uma pessoa (as palavras reaprendendo a andar, os lábios reaprendendo a beijar, os braços reaprendendo a abraçar).

Apesar da convicção de que ele é irrecuperável, nenhum dos parentes desiste. Só conhece o amor verdadeiro quem teve uma esperança falsa.

Eles continuam, como continuam os que realmente acreditam em milagres.

Amar com a vida a favor já é complicado, não há como imaginar amar com a vida contra.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 14/1/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17673

8 comentários:

ana disse...

Fabrício, o que você escreveu é uma oracão para quem passa ou passou por este problema. Tive dois casos na família, meu pai que aos 75 anos parou de beber, e o irmão que não parou. Um me deu orgulho e dignidade, o outro culpa, impotência e por fim, aceitacão do fracasso.
Mas o mais importante é o quanto deixamos estas experiências nos transformarem para valorizarmos cada segundo de nossa existência e aprender a forjar a felicidade a qualquer preço. É um aprendizado para os fortes.

obat tradisional disse...

nice pict and i stil wait your update :D

Ana Carolina disse...

Espero que seu amigo ache o caminho de volta :)
Se não desacreditam dele porque nós que estamos de fora iríamos desacreditar? :)

Anônimo disse...

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Tina Bau Couto disse...

Pois é!

Complicado mesmo e é alarmante os casos de alcoolismo, os vistos e escrachados e os que são velados, não reconhecidos, encarados como comportamento habitual dos tempos modernos.

Jovens, adultos, idosos também, homens e mulheres que bebem de segunda a segunda, cerveja parece ser classificada como refrigerante pois beber mesmo é beber pinga e tão pop whisky com energético, uma bomba consumida como divertimento.

Grupos e indivíduos independentes para os quais a bebida é o ponto chave, o centro dos encontros e a falta de limites é prova de jovialidade, fortaleza, riqueza.

Compaixão para com as famílias de tanta gente e para com quem está a margem dessa triste realidade, pois essas pessoas dirigem automóveis, quebram tudo quando chegam em casa, gastam dinheiro além da conta com as contas de bares e as contas de casa são colocadas em segundo plano.
Tantas pessoas tem um bar em suas casas e nenhuma fruta, biscoito, pão muitas vezes.

Amar o errado é difícil mesmo, incompreensível para alguns.
Pessoas, vícios, erros, td muito complicado.

"Difícil não é viver com as pessoas. Difícil é compreende-las" José Saramago

Lady Projects disse...

Fabrício como sempre me presenteando com suas palavras.

Esse é um assunto delicado, até demais. As pessoas tem medo de tratar disso como um problema. Passei boa parte de minha vida com um pai assim, tentamos, demos chances, amor, ajuda, até que em um momento percebemos que nossa vida parou pra tentar arrumar a de uma pessoa que não queria isso.

Ele fez a escolha, continua nessa vida mergulhado em álcool 24h, é o café da manhã, o almoço e o jantar dele. Ele quis ir embora, pra onde ninguém dá sermão, nós quisemos que ele fosse embora pra ninguém sofrer mais agressão.

O mais triste de pensar nisso é que ele não é o único que conheço, meu sogro, amigos, pais de amigos, tios, primos, o vizinho, a família do vizinho, são tantas as pessoas que já me deparei com esse problema que fico pensando "será que o alcoolismo é um problema que deveria ser tratado como mais grave que as drogas?", é como disse a moça no comentário, todo mundo acha normal tomar uma cerveja todos os dias e em grandes quantidades, é como se fosse refrigerante, não, não é, é mais grave do que você pode imaginar.

Ana Paula disse...

E num dia menos ruim, essa família senta-se para assistir à tv.
Talvez uma novela, que nem mesmo acompanhem, mas deixam lá, e são obrigados a olhar para o comercial de cerveja cheios de gente bacana e descolada, cheios de amigos, bonitos. Ninguém vomita, ninguém está sujo e esfolado.
Num dia menos ruim eles continuam a amar.
Beijo

http://ladodeforadocoracao.blogspot.com

Anônimo disse...

Essa história relata o sofrimento que as famílias sentem quanto tem entes queridos doentes pelo alcoolismo, como também, a escravidão das drogas. O amor familiar não permite abandonar a pessoa e ao mesmo tempo todos terminam adoecendo também, de ansiedade e diversas doenças da alma. Mas, a esperança e a fé em Deus deve servir como ponto de apoio para pedir forças e perseverança.