terça-feira, 26 de julho de 2011

ANTES DAS FOTOGRAFIAS

Arte de Rufino Tamayo

Sofri com a separação dos pais. Carregava a sensação de que tinha sido difícil, percebo agora que foi um desastre. Ao mexer no baú da família para catar flagrantes da infância, encontrei o álbum de casamento dos dois. Capa dura, nomes dos noivos em relevo dourado, livro grosso para eternidade mesmo, resistente às traças e porões.

Fiquei intrigado no momento de folheá-lo. Tive que sentar e interromper a pressa.

Voltei no tempo. No papel vegetal entre as páginas, havia desenhado o contorno das fotografias. Copiei à mão cada imagem, colorindo depois. São mais de 50 folhas transparentes preenchidas, duplicando pai e mãe no altar, reproduzindo convidados e bastidores da festa.

Na época (mentalidade de criança ferida), fiz uma cópia reserva das cenas. Raciocinei que os dois não seriam mais amigos, jogariam duas décadas de casados no lixo e providenciei um backup primitivo com o lápis Faber Castell HB2. Ansiei preservar a história usando as armas do estojo de 1ª série. Aproveitei meu conhecimento de copista do Pernalonga.

Lembro que não dei mole na separação: briguei com os irmãos, esperneei no sofá, chantageei no carro, planejei greve de fome, renunciei futebol, peguei recuperação, chorei no mercado, passei recreio no SOE, ia de um lado para outro da sala ao quarto para diminuir a distância das palavras. Olha, coitados de Carlos Nejar e Maria Carpi, criei um inferno para reconciliá-los, demorei a constatar que o paraíso deles também não era o meu.

Diante do flashback, eu me pus a comparar o que fui com o que sou. Todos, quando pequenos, sofrem com o divórcio dos pais, indicativo de trauma, término da idealização e receio de parar num orfanato. E todos, quando maduros, consideram a separação necessária e natural.

É impressionante o quanto nos esforçamos para manter os pais juntos, e não realizamos quase nada pelo nosso casamento na vida adulta.

E se lutássemos para entender nossa esposa como defendemos nossa mãe? Se realizássemos metade da birra feita com o pai durante a despedida de nossa mulher? Se trocássemos o orgulho da cobrança pela cumplicidade emocionada do erro? Se desejássemos falar menos e ouvir a voz dela mais um pouco?

Se fôssemos meninos para sempre, nenhuma separação seria fácil. O amor não morreria fácil. O papel vegetal protegeria as fotos.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 26/07/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16773

19 comentários:

Douglas Studzinski disse...

Um raciocínio bem pertinente... o problema talvez esteja no nosso egoísmo... pois tememos que nossa família se dissolva, mas a partir do momento de encararmos a realidade do dia a dia que uma vida dois cobra, não pensamos muito antes de romper laços...

@corredorpolones

Aline Vanin disse...

Que bonita reflexão, Carpinejar! Tocante! Muito obrigada!

Anônimo disse...

As vezes eu penso que eseria melhor ser criança para sempre. As vezes eu até acho bom ser "gente grande" mesmo com 1,50. No fundo, todo undo quer continuar criança, porque só as crianças são realmente felizes, mesmo que na infelicidade.
Anna Kleiner

Zane e Dáda Guimarães disse...

Separar é romper, quebrar, desatar vínculos que parecíam ser eternos, mas que ficarão marcados pra sempre no nosso coração e memória...

mariana disse...

Muito bonito e verdadeiro... Eu mesma sou filha de pais separados e por minha vez, já me separei sendo mãe de duas crianças... Apesar de ser muito duro, às vezes qualquer sacrifício é inútil, qualquer luta vâ e inglória, quando as coisas se perdem/quebram no meio do caminho. Mas mesmo assim ainda sou uma romantica incorrigivel...

Taynná disse...

Seus textos geralmente causam alguma coisa em mim, esse é o papel de um bom escritor. Hoje me causou nó na garganta... Vontade de que não houvesse a necessidade da separação, pra não termos assim que driblar a vida adulta e ser criança pra sempre.

Mariana Terra disse...

Bela reflexão! Bela comparação! Me refiro a analogia desenhar e preservar. Ou melhor, desenhar para preservar a memória, no caso. Àqueles que tem facilidade em desenhar, sugiro fazer o mesmo em outras situações da vida. Por exemplo, ao invés de tirar 5000 fotos na sua câmera digital naquela viagem tão esperada, experimente reservar 10 minutos por dia para rabiscar uma paisagem, uma pessoa, uma parte da cidade... Pode ter certeza que aquela cena vai ficar pra sempre na sua memória... Bem diferente do que acontece com as 5000 fotos, que vão direto para o seu HD, depois para uma página de rede social. Saem de você e se perdem no vazio dessas relações.
E sobre relacionamentos na vida adulta... Ah, Carpinejar! Vamos sim nos esforçar... Vamos sim ser meninos! Sem orgulho, sem egos, sem vaidades...

Bazófias e Discrepâncias de um certo diverso disse...

Interessante reflexão... meus pais se separaram há dois anos, quando já estava "grandinho". De qualquer forma, nunca é fácil. Eu acho que quem cresce ou toma consciência da vida enquanto os pais estão unidos, acredita que aquilo durará para sempre, como se fosse necessidade também nossa, como vc disse. Então, é difícil. Mas o tempo mostra que as coisas tendem a melhorar para todos os envolvidos, com o tempo. abraço

CEM PALAVRAS disse...

Não sou filha de pais separados, mas meu casamento teve um término sofrido que abalou profundamente meus filhos. Todos eles, hoje adultos, sabem o valor de um relacionamento com laços fortes, porque sofreram na pele e não desejam isso para si e nem para os seus filhos.

George disse...

Eu sabia que tu ias fazer uma cRônica com esse exemplo do album de casamento que deste na aula de crônicas. Ficou bem melhor do que eu imaginei, muito boa mesmo.

Abraços

Gabriela Guimarães disse...

Mais uma pérola. Curioso: me senti o protótipo da criança cansada de salvaguardar as esperanças resignadas. A maioria dos pais ensina que o trato da falência das relações afetivas se dá, inclusive, debaixo do nosso nariz. E ai de nós se não compreendermos que o amor habita ainda assim: troca a casca.

Márcio Ezequiel disse...

pai lindo, mãe linda, pai lindo, mãe linda...

Anônimo disse...

Conheço tb esta experiência, embora não tenha encrencado tanto qdo criança (infelizmente). Mas acho que transformar a agressividade em delicadeza é uma das rugas mais bem vividas. abs Jorgia

Caroline Delgado disse...

Que sensibilidade...que Deus te conserve assim meu amigo. Sim te considero um amigo, leio suas crônicas todos os dias. Mas essa me tocou...ficarão essas frases na minha memória, brilhante, me vi abrindo um baú e recordando o passado, me vi na cena. Perfeito! Brilhante! Parabéns!

Michelle Gutmann Hesketh disse...

A separação dos pais dói em qualquer idade! Mesmo os meus tendo se separado quando eu já estava bem crescida (27 anos) a minha primeira reação foi bem infantil! Quem sabe eu seja uma grande romântica!

Anônimo disse...

No http://sociedadeblog.blogspot.com ,vc esteve presente na postagem"Na Vitrine".
Te curto um barbaridade tchê!
Walnize Carvalho(escritora)(Campos dos Goytacazes-Rj)

Magna Santos disse...

Que texto lindo, Fabrício! Poético e verdadeiro.
E, depois de lê-lo, fiquei a pensar que significativo é a junção do Carpi com o Nejar no teu nome. Conseguiste uni-los, mesmo que simbolicamente.
Abraço.
Magna

Samuca disse...

A cumplicidade emocionada do erro e a opção pelas bolachas quebradas, nos deixando as inteiras, significam muito mais do que qualquer orgulho. Justificado ou não.
Sucesso!

Rita Ribeiro disse...

Muito lindo! Adorei a reflexão do filho hoje maduro.
Se parássemos para pensar em coisas que parecem bobas mas que, muitas vezes, valem algo precioso em nossa vida...

Adoro seus textos.
Abraço!