domingo, 27 de abril de 2014

ESSE MENINO ERA SEU FILHO


Não posso nem chamá-lo de caro ou prezado, mas apenas usar seu nome: Leandro. Educação e respeito vão soar como cinismo.

Tampouco posso chamá-lo pelo sobrenome para indicar formalidade. Perdeu o direito do sobrenome. Seu filho pequeno está enterrado em seu sobrenome para sempre. Ele carregava seu sobrenome, você não soube carregar coisa alguma dele.

Tenho enfrentado vários pesadelos desde que ouvi a notícia de que seu menino de 11 anos fora morto pela madrasta.

Que seu menino foi posto numa cova às margens de um rio em Frederico Westphalen (RS), coberto pela terra quando deveria ser coberto pelo edredon para não passar frio de noite.

Seu filho foi enganado. Toda a vida enganado. Toda a vida humilhado. Na hora de seu fim, aceitou o passeio para longe de Três Passos porque jurava que receberia uma televisão.

Quando seu menino acordar dentro da morte, ele vai chamá-lo. Assim como toda criança chama seu pai quando tem medo do escuro. Vai chamá-lo e onde estará?

Ele acreditava que você era o herói dele. Estava exagerando para pedir que o salvasse, não entendeu o apelo?

Você nem pai foi. Nem homem foi. Você foi o que restou.

Como médico, não acha Bernardo uma criança um pouco grande para fazer um aborto?

O que dirá para irmãzinha dele? Que Bernardo está no céu? Que é uma estrela?

Perdeu também o direito de mentir. É você e sua memória sozinhos no silêncio. Só resta a memória para quem matou a consciência.

Nunca encontrará perdão. Deixou Bernardo desamparado. Deixou Bernardo com as mesmas roupas curtas, o mesmo uniforme escolar surrado, desde que a mãe faleceu. Deixou seu filho mendigar atenção pela cidade. Pelo fórum.

Não entendo o que leva um homem a anular sua família anterior por uma nova namorada. O sexo é mais importante do que a paternidade? A bajulação é mais importante do que a ternura? Queria estar disponível para festas? Cortar gastos?

Fingiu que Bernardo não existia para não atrapalhar a ambição da sua mulher? Fingiu que Bernardo não havia nascido para atender à exclusividade de sua mulher?

Filho não é escolha, é responsabilidade. Já casamento é escolha...

Se a mulher não gostava de seu filho, não deveria ter recusado o relacionamento?

Como seria simples. Bastava dizer "Ou meu filho ou nada!". É o que se fala no início do namoro.

Para você, nada.

Não é que você não tem mais nada, você não é mais nada. Abdicou de seu filho para ficar com alguém. Você não se contentou em abandonar sua família para criar uma segunda família, você aniquilou sua família para criar uma segunda família.

Obrigava Bernardo a esperar fora de casa até você chegar do trabalho, agora é você quem espera fora de casa.

Obrigava Bernardo a lavar as mãos para brincar com a irmã. Pois tente lavar suas mãos agora para tocar no rosto dele.

Tente todos os dias de sua paternidade. Sangue não sai com a culpa.

28 comentários:

papoila disse...

Estou chocada.
Um pai que nunca terá paz.





Giovani Zanetti disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Prof. Fabi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Prof. Fabi disse...

Terrível o próprio pai ser suspeito do assassinato do filho!
Seu texto é muito bom, mas acredito que a frase : " Não entendo o que leva um homem a anular sua família anterior por uma nova namorada." é um tanto ingênua, visto que infelismente isso é muito comum hoje em dia...
Esse caso traz de volta a pequena Isabela (Nardoni), que na época de tanto assistir sobre, acabei perdendo algumas noites de sono, talvez por isso evitei ficar ouvindo muito sobre o Bernardo, porém "esbarrei" com seu texto no facebook e cá estou eu, pensando nisso...
Só posso dizer que ver uma criança ser assassinada tão cruelmente é horrível, agora imaginar que foi seu próprio pai que fez isso ou pelo menos não o impediu... dói demais... é descrer da humanidade!!!!

Paulo Cesar disse...

Texto perfeito ... Inquietante ... Pensante e triste. Obrigado Carpinejar.

Leici disse...

Triste, muito triste. Esperamos que a justiça seja feita, é o consolo que resta, já que essa pobre criança se foi, depois de sofrer com a falta de atenção do pai e as maldades da madrasta.

Anônimo disse...

Amei tuas palavras!Falei para varias pessoas lerem tb.Sempre te escuto na radio gaucha.Es o maximo!

Anônimo disse...

Ridiculo vc Giovani Zanetti. Acho que voce ja deve ter feito coisa pior pelo seu comentario ridiculo sem noção.

Anônimo disse...

Acabei de me tornar sua fã!
Considero o texto relevante não só para o ocorrido recentemente, mas para todos aqueles pais que usam seus filhos em disputas infundadas após uma separação, quantos já conheci...
Eles não acabam com a vida dos filhos de uma vez, mas são tão cruéis quanto, pois vão acabando aos poucos e para toda a vida...

RAQUEL ENEIDA disse...

Seu texto não me sai da cabeça!!! fica indo e voltando... Mais que a brutalidade do fato porque sim foi brutal !!! agente passa a não se identificar com esse ser que pertence a nossa espécie.Não concordo com esse Giovani não somos todos mostros !!! quem fez isso com o menino ,definitivamente É.você, Carpinejar mais que descrever um caso conseguiu captar o que provavelmente se passou na alma daquele menino !!!isso sim faz seu texto belo e nos faz refletir demais, paràbens.

Anônimo disse...

Tradução perfeita do que senti e sinto qd vejo alguma manchete deste caso. Agradeço.
*
Leila Costa.

Anônimo disse...

Tradução perfeita do que senti e sinto qd vejo alguma manchete deste caso. Agradeço.
*
Leila Costa.

... disse...

Este caso é mais crítico e explícito, mas renegações de filhos são mais comuns do que podemos imaginar. Não necessariamente essas histórias têm que terminar com um assassinato, mas o descaso leva a "assassinatos" lentos e mascarados. São crianças e adolescentes que, em atrito com o novo companheiro(a) da mãe ou do pai, vão morar nas ruas, roubar, traficar e usar drogas. No final, o resultado é o mesmo; morte.

DONILDONIL disse...

Seu texto já atingiu a sublimação, fazer pensar aos que pensar podem! Frase um tanto subtraida de E. D., mas o que fazer se tudo que dissermos já foi dito, tudo que fazemos (de bom ou de ruim) também já aconteceu e vai continuar por aí à fora acontecendo! Entendo que cada um de nós estará de forma inexorável contribuindo para os novos caminhos da chamada humanidade de acordo com a moralidade de sua época. Obrigado Carpinejar.

Patrícia disse...

Seu texto é simplesmente espetacular! Conseguiu descrever perfeitamente o tamanho da covardia e crueldade de um pai.
Obrigada Carpinejar.

Rossano Rox disse...

Sentar e escrever....andar de carro...jogar futebol...jantar...dormir! E lá fora, o mundo continua a girar, e vc, nem sequer olha pela janela! Semo-nos mais humanos com esse exemplo. Não deixeis de olhar no espelho...todos os dias, inclusive sua nuca!

tom paixão-belo horizonte disse...

zanetti, um pobre idiota em crescimento. se for ainda jovem, pobre planeta terra que vai ter de sustentar um trem desse.

guido obras disse...

Parabens Carpinejar, vc captou na simplicidade destas palavras o sentimento que nos toma conta, tenho quatro filhos e um da idade do falecido Bernardo, e a cada vez que olho para ele , fico pensando, como ?mas como? um pai pode desejar a morte de um filho, não consigo entender o que passa nessa cabeça deste monstro. Fico aqui pensando se entre nós, não existem tantas "pessoas" iguais a esse Leandro, mas ao ler o primeiro comentario do "tal" Giovani Zanetti, começo a entender que há muitos entre nós, obrigada por ainda existir Carpinejar

Anônimo disse...


Essa tragédia é tão absurda, tão triste, tão sem explicação, que pela primeira vez nao gostei do seu texto...pq nao há o que dizer...a sua competência como escritor nao conseguiu amenizar a minha indignação...

Anônimo disse...

Estou como vc, não consigo parar de pensar em tudo o que esse menino sofreu, choro e não suporto mais ver nenhuma notícia sobre. Com essas suas palavras vc disse tudo o que eu sempre pensei em falar pra esse Leandro, mas será que ele iria se comover? Acho que não, ele tem uma pedra no lugar do coração, tanto que nas crises de nervosismo que o menino tinha pela falta de amor, atenção, em vez de abraçar o menino, confortá-lo, falar que iria cuidar dele, protege-lo, ele irritava ainda mais o Bernardo, falava mal da mãe dele e terminava dopando menino...meu Deus quanta maldade!

Anônimo disse...

Quem é esse tal de Giovani Zanetti? Seria algum parente do pai assassino ou herdou o mesmo espírito demoníaco? Que palavras nojentas para se referir ao autor de uma crônica tão pungente quanto (infelizmente)real! Inveja ou maldade???

Cláudia Saad Fávero disse...

Excelente repprtagem, só adoraria ler aqui uma reportagem inflamada, na mesma proporção desta, para os casos onde a Mãe MATOU o filho, lhe dando sorvete com veneno para ratos e da outra mãe que matou a filha de 2 anos a pedradas... Mães Monstruosas!!!! Ou estaríamos, mais uma vez, diante do fato que uma morte perpetrada por uma madrasta é muito pior, como se a morte de um anjo pudesse ser mensurada... Abaixo a madrastofobia!! Sou madrasta, não assassina! Ajudem a acabar com esse preconceito horroroso contra as madrastas... O que existem são mulheres loucas e assassinas, independentes de serem mães ou madrastas...

Unknown disse...

Que Texto HUMANO . Fiquei em pasmo por captar a sensibilidade do fato . Tambem penso e sinto igual a vc . Sua alma falou , tocou Deus com suas palavras ...
Que O Bernardo possa ser aquecido pelo seu amor , nosso amor de familia que ele deveria ter .

Angela Effectory disse...

Impossível ficar indiferente, impossível não chorar... tantas vezes nós que nos julgamos humanos clamamos á Deus q nos coloque no lugar de alguém que amamos e que está sofrendo por alguma razão, ainda que seja por uma pequena coisa. Senti em minha família a dor desesperador de ter uma filha assassinada por alguém que não aceitou o fim do relacionamento e disse não poder viver sem ela... Tudo é uma grande loucura, fecho os olhos e parece q estamos em um daqueles filmes horrendos, cheios de carnificina e muita dor..,
Até quando inocentes terão seus direitos tirados , roubados do dom maior de Deus que é a vida???

Anônimo disse...

tristeza, dor inconformismo quando uma coisa tão repugnante vem do seu próprio pai , e muito doloroso pra gente que nem o conhecia imagina para avó que tanto o amava

Rosimari Marques disse...

Na morte do anjo Bernardo a sociedade também foi culpada. Quantas vezes ele procurou a justiça pedindo ajuda? Não ajudaram porque o pai era médico? ... mas enfim este pai nunca terá perdão nem dos homens nem de Deus. Agora o que dizer da madrasta que tem uma filha que não terá mãe nem pai. Ela os conhecerá como assassinos do irmão. VOCE PAI AMALDIÇOADO MATOU UM ANJO QUE DEUS CONFIOU A VOCE. JUSTIÇA SEJA FEITA

lynne fontes disse...

A ganância falou mais alto do que a vida

Silvia Meister disse...

Hoje, 3 anos e meio do assassinato covarde, cruel de Bernardo. Estamos esperando que dona justiça afie sua espada, regule sua balança, que volte a ser só cega... para Bernardo ela foi surda... não ouviu seus gritos de socorro...