domingo, 4 de outubro de 2015

BANHO SEMPRE JUNTOS


Um casal de amigos toma banho juntos todo dia.

Não é exagero: todo santo ou maldito dia. Ambos não abdicam do hábito.

Não se unem para sexo ou transas aquáticas, não se abraçam para sedução ou selvagerias líquidas.

Nenhuma pornografia como é possível imaginar. Pois casa não é motel, é refúgio do tumulto do mundo. Os espelhos não estão no teto, mas nos próprios olhos.

É banho para a ternura, para a transparência.

É banho para conversar e se atualizar, lavar o silêncio, acalmar a ansiedade.

É banho para chorar quando necessário, brincar de espuma, rir dos perigos e organizar os desmandos do trabalho.

É banho de amizade, de cumplicidade auditiva, de intimidade da pele, para saber como foram a manhã e a tarde de cada um e preparar a barca dos sonhos.

É banho em que os joelhos e os cotovelos são lembrados, em que as axilas e as costas são esfregadas.

É banho de açúcar, melhor do que o sal grosso para espantar o mau olhado.

Dividem o xampu e a esperança. Enquanto um se ensaboa, o outro se enxagua. O revezamento é perfeito como uma dança, como uma coreografia.

Estão nus, sem reservas, sem receios, sem caretas e poses, sem mentiras e distorções, com a humildade de se colocar à disposição.

Como Adão e Eva antes da maçã. Antes da amargura.

Adultos que escolheram a água como o refúgio infantil, puro, um confessionário onde nenhum filho abrirá a porta com novas urgências.

O box é uma piscina vertical, o box é uma hidromassagem de pé.

O box é uma varanda fechada, uma Veneza em miniatura.

O box é uma chuva particular, em que vão chapinhando nas poças e as vozes buscam alguma música brega para distrair as dificuldades.

E se um já tomou banho antes repetirá a operação para não perder a parceria. Mesmo que isso signifique tirar o pijama e deixar o calor da cama.

Não passam um dia sem tomar banho lado a lado. Descobriram que a lealdade é abrir um espaço fixo para a palavra.

Os casais devem tirar um momento de sua rotina para estarem absolutamente entregues. Um momento apenas de atenção integral, para renovar o ímã da felicidade.

Pode ser o café da manhã, o almoço, uma horinha de chimarrão no entardecer, uma caminhada pela praça, a leitura de jornais, o colo de uma novela.

É dividindo a solidão que os dois serão um só pela vida inteira.




Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.40
Porto Alegre (RS),  04/10/2015 Edição N°18314

7 comentários:

Monique Silveira disse...

Excelente crônica! Vc arrasa!

Monique Silveira disse...

Excelente crônica! Vc arrasa!

Amanda Mogwai disse...

QUE LINDO!

Fique em paz,
Amanda.

Graziella disse...

lindo lindo, me identifiquei. Momentos únicos para compartilhar a sós com quem se ama.

Suelen Azevedo disse...

"Os espelhos não estão no teto, mas nos próprios olhos."

Lindo!
É tão aconchegante ler textos e pensamentos assim, ainda mais hoje em dia.
Fazem falta, e como.


oeraumavezdeverdade.blogspot.com

Nanete Neves disse...

"É dividindo a solidão que os dois serão um só pela vida inteira." Adorei a crônica, ela chama à reflexão.

Alice Castro disse...

Que crônica linda!
Faz a gente pensar no conforto que é ter alguém pra dividir umas horas do dia, e ter onde descansar a alma.