sexta-feira, 23 de abril de 2010

RIMA LABIAL

Arte de R. B. Kitaj


Quando minha namorada toma iogurte, não aceita que acabou.

Raspa a superfície com a colher, gira pelos contornos, arremata as sobras da tampa. Confesso que me enerva um pouco, como alguém pressionando o botãozinho da caneta sem parar.

Sua investigação não termina com os dedos. Coloca sua pupila no interior da embalagem, tal luneta. Faz um bigode nos cílios. Sua aproximação é extravagante. Já temo que vá diminuir e sumirá de repente pelas bordas.

O caso é que ela não confia na aparência, precisa conferir; olhar por dentro à procura de um fundo falso. Toda manhã é igual. Nem com parede de plástico, se aquieta. Continua fuçando.

O que me põe a concluir que Cínthya é muito diferente de mim. Incrédula. Totalmente cética. Ardo de ansiedade e ela esfria a conversa em desconfiança. Estarei constantemente me antecipando e ela compreenderá a antecipação como cobrança.

Não tem jeito, Cínthya odeia ser pressionada, eu odeio que não me dê resposta na hora. Qualquer ato de delicadeza e entra em pânico, prevendo meu controle da retribuição. Qualquer indelicadeza e entro em pânico, com medo de sua incompreensão.

Mesmo quando reajo impulsivo, articula uma lógica maldosa por detrás da atitude. Ela me considera tão maquiavélico que me sinto ingênuo.

Não se entregam fácil essas mulheres de Constantina. Ela não deseja nem ficar muito junto para não sofrer. Supõe que será enganada. Seu modo de se defender é me espantar. Às vezes consegue.

Diz que não sou o centro do seu mundo; pois não entende que não quero ser o centro do seu mundo, e sim seu bairro mais populoso.

Chega a afirmar que tento dominá-la, imagina?

Pior que é verdade, tento dominá-la, mas com toda elegância.

Sabe o que me irrita sinceramente no iogurte? Dificilmente ela concorda comigo, obcecada em preservar sua independência. Existem momentos que nem eu concordo, sem problema. Mas sempre? É demais, não consigo respirar, volta minha asma. Vejo que estou puxando a coberta para o meu lado, a cena pode significar o contrário.

Talvez raspe a tampa e analise o interior por excesso de esperança. É como se me admirasse do outro lado reparando em sua rima labial.

Vem a sensação de que ela seria a minha letra caso escrevesse com a mão esquerda. Não se contenta com o que é permitido, intensifica o barulho da colher como uma extensão dos dentes, disposta a desafiar os limites e provar que os contrários se completam.

Será?

Ao pegar a embalagem e botar no lixo, acho que não é nada disso, viajei novamente.

Encontro chateação onde aparece somente fome. E o que ela gostaria era de repetir o pote, sem nenhuma filosofia.

26 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Não há excesso de esperança
em raspar o pote.
Nem desejo.
Há saudade.

Daniele Britto disse...

Creio que seja apenas fome. No máximo uma mania de criança que teima em se esconder na racionalidade da vida adulta. Mas por favor, continue achando que é filosofia, ou melhor, poesia. :)

Rosemeri Sirnes disse...

Às vezes parece que pisar em terreno inimigo é mais fácil, porque ali não temos nada a perder. Como escrevi outro dia "...é preciso combinar, é preciso um tratado entre o silêncio e a música alta, eu desço um degrau e você sobe o meu, porque nenhum dos dois é absoluto, duas vidas divididas, dois pesos, duas medidas..."

Beijos poeta!

Daniel Moreira disse...

Pode não haver filosofia, mas a sensibilidade poética do amanhecer nos faz viajar até mesmo em um pote de yogurte qualquer.

*Nã* disse...

Incredulidade, desconfiança, esperança, desafio, filosofia vã, fome ou hábito despretensioso, não importa. O importante é a sensibilidade de ver além do ato de vasculhar um pote, já que é nesse espaço entre sua curiosidade e suas possíveis explicações que moram as cócegas que te fazem escrever coisas tão lindas! Adorei o texto!

Renata de Aragão Lopes disse...

Delícia raspar o pote de iogurte até o final! Não por fome, gula ou qualquer outro motivo. Tão apenas pelo ato em si.

Mulher tem dessas coisas...

Beijo doce de lira, Fabrício!

Cristiane Alberto disse...

Fabrício,

é a primeira vez que venho ao seu Blog kkkkk A-D-O-R-E-I a imagem de sua carteira de identidade no seu perfil kkkkk A-D-O-R-E-I! kkkk Mas está faltando a certificação digital, ok?! kkkkk brincadeira kkkkkk

Gosto muitíssimo dos seus escritos.
Grande abraço.

* Vanessa * disse...

Já reparou como esse pequeno prazer acaba rápido?? Talvez raspar o pote até quase desfazê-lo seja simplesmente uma tentativa de prolongar o momento. E vontade de repetir, claro!!

Amanda Arrais disse...

Fascinente! Filosofias inesperadas rules! Quase uma epifania com a sua namorada e o iogurte, héin? O texto ficou genial, de verdade. Parabéns! E poesia é sempre filosofia!

ana disse...

Raspar a superfície do pote é querer preservar um pouquinho de solidão.

Deni disse...

Fabro, por favor, dá pra você se comportar uma semaninha somente? Eu tenho um crime encomendado. Pedi pra Cynthia matar uma bailarina. mas ela não tem tempo! Tem que matar você sempre!!! Em nome da nossa amizade, da amizade das nossas mães, das nossas chácaras, da piscina com literatura. FICA QUIETO E NÃO APRONTA ESSA SEMANA CARALHO! bjs De

juliana disse...

Parece aqui em casa, eu quero a resposta na hora e ele não aceita pressão, ele raspa um pote se iogurte ou o que quer que seja até cansar, eu canso de ver tamanha paciência, o amor não tem mesmo explicação, ama-se e pronto.
Bjos Fabro, te adoro.

Cida disse...

Acho que aí, está um pouco da culpa eterna da mulher... Mulher já nasce se achando culpada de tudo. Quando pequenas, nos dizem: Você aí desperdiçando comida, enquanto tantas criancinhas morrem à míngua...
Pronto! Foi dada a largada...
Dai prá frente, não tem um prato da cria que volte inteiro prá cozinha... Ao comer o que sobrou no prato do filho, sentimos que menos uma criança vá passar fome no mundo...
Se isso tem lógica? Mas quem disse que é prá ter? Não é gula e nem fome que nos faz raspar até o último bocadinho... Estamos a salvar o mundo!...Rsrsrs

Beijão prá você e uma ótima palestra em Poços de Caldas.

Cid@

Suziley disse...

Boa noite, Fabrício:
Gostei do seu blog. Gostei dos seus textos. Parabéns! Vou passar sempre por aqui. E quanto ao iogurte, a sua mulher só está sendo prática...hehehehe!! Um grande abraço, bom final de semana para vocês, ;)

Fernando L. disse...

O que há na verdade em raspar o pote é o gosto de quero mais. Abraço.

Augusto Amato disse...

Aos que tentaram responder o significado do prcurar mais iogurte no pote, pouco importa. A diferença estampada no que se repete todo café da manhã é o tema dessa crônica.

E tem pequenas diferenças que assumem grandes proporções se ingnoradas. Belo olhar sobre as sutilizes, mais uma vez.

Grande abraço,
Augusto Amato

Ramiro Conceição disse...

Outro dia, caro Fabro, ao escovar os dentes, me deparei com um tubo (de creme dental) totalmente degolado por uma tesoura. O coitado fora usado, estropiado, até o último grama. Internamente, adquiriu até um bonito brilho metálico (para mim que sou metalurgista).
Cordialmente, perguntei a minha querida patroa de qual campo de concentração ela tinha escapado. Ela não riu, nem me olhou... E as minhas queridas orelhinhas tiveram que sambar debaixo de um tenebroso “PUTA QUE PARIU!”.
Após tal experimento científico, caro Poeta, chego à conclusão que as mulheres são de outro planeta.

Ramiro Conceição disse...

Outro dia, caro Fabro, ao escovar os dentes, me deparei com um tubo (de creme dental) totalmente degolado por uma tesoura. O coitado fora usado, estropiado, até o último grama. Internamente, adquiriu até um bonito brilho metálico (para mim que sou metalurgista).
Cordialmente, perguntei a minha querida patroa de qual campo de concentração ela tinha escapado. Ela não riu, nem me olhou... E as minhas queridas orelhinhas tiveram que sambar debaixo de um tenebroso “PUTA QUE PARIU!”.
Após tal experimento científico, caro Poeta, chego à conclusão que as mulheres são de outro planeta.

Dalva Maria Ferreira disse...

Depois conta como foi lá em Poços (minha terra) e ... bela crônica. Invejinha.

juliana disse...

Fabrício, foi um prazer inenarrável conhecer você e a Cínthya hoje na livraria Cultura, obrigada pelo autógrafo tão carinhoso e pela atenção cedida à nós.
Bjos a esse casal pra lá de escpecial.
Juliana.
Ah, melhor que esse encontro somente uma conversa em numa mesa de bar,hehe...

Denise disse...

Fazia muito, muito tempo que eu não me sentia tão imersa no que lia.
ADOREI!!!
Que delícia ter te encontrado, Fabrício!
Raras vezes a gente encontra tamanha habilidade com a escrita. Total domínio que mostra começo, meio e fim. Aliás, a "amarração da idéia" ficou genial...

Cheguei pra ficar!
Ótimo domingo pra vc!

J. disse...

A velha história da pedra no meio do caminho de Drummond...

Beijos.

Higgo disse...

Ler seu texto é uma ansiedade quase como a sua, porque a gente sabe que a cada parágrafo virá aquela frase certeira, com a qual somos obrigados a concordar. Você é genial.

cronicasdumasviagens disse...

"Pior que é verdade, tento dominá-la, mas com toda elegância." Queria aprender essa elegância!

Anônimo disse...

Sou sua fã. Você é genial. Leio e adoro o que você escreve. É um paradoxo. Consegue ser sutil e denso. Vá em frente!!

Anônimo disse...

Parabéns. Entrei por acidente no site, comecei a ler e simplesmente fiquei fascinado pelo texto.