quinta-feira, 6 de outubro de 2011

PREENCHA A LINHA PONTILHADA

Arte de Victor Brauner

No aeroporto, vinha um segurança gigantesco em minha direção. Uma porta fardada. Com roupa azul e frisos amarelos nas mangas. O coldre enviesado indicava seu trabalho de vigilância. Seu andar anabolizava a atenção das mesas da Praça de Alimentação.

Ele se aproximava lentamente, tinha um rosto malvado, duro, tenso. Os bandidos deveriam temê-lo, lembrava o Falcon de minha infância; a barba rala e a cicatriz na testa.

Quando ele passou por mim, eu vi seu crachá e sua maldade desapareceu no ato, foi substituída por uma candura de carrossel, de pônei pintado e música de ninar.

Estava escrito no crachá: EM TREINAMENTO.

Constrangedor fazê-lo prestar serviço com o claro aviso do período probatório. É desarmá-lo moralmente.

O ideal é que seja treinado para depois entrar em atividade. Não entrar em atividade para ser debochado.

Por que não colocar uma tabuleta no pescoço ou prendê-lo no picadeiro?

O estrago é igual. Não havia mais como levá-lo a sério. Emanou uma compaixão reservada aos passarinhos de asa pisada, que correm em círculos pelo jardim.

Coitado, pensei; projetar é recuperar no outro a própria memória, lembrei meu início profissional. Aguentava as provocações do chefe pela esperança de ser efetivado (aquilo não era esperança, mas perpétuo adiamento).

Em treinamento é dizer que o guarda não merece a identidade, que sequer recebe o FGTS, que é uma versão envelhecida de um estagiário.

É um sadismo das empresas estabelecer o sofrimento como critério para merecer o emprego. Mania absurda de considerar sacrifício e renúncia requisitos de um bom trabalhador.

Já não foi provado de que o purgatório não existe, de que é uma invenção da Igreja Católica?

Novatos terminam atrás do balcão com advertência macabra EM TESTE. A tarja no bolso da camisa é um carro colorido de autoescola: mantenha distância. As letras surgem em caixa alta, para não deixar dúvida da ausência de competência.

Com o crachá de aprendiz, os erros de atendimento serão condenados antes do julgamento. Diante do primeiro impasse, os candidatos ao emprego fixo vão se tornar garotos de recado e ouvir sempre o mesmo apelo:

- Por favor, chame o gerente!

Dinheiro é arrogância, os clientes não toleram iniciantes, reclamam da inexperiência, maltratam os novatos.

A identificação temporária difere pouco dos patrões que zombam de seus funcionários ao exigir que usem roupas típicas para atrair consumidores. Expor-se como coelho da páscoa, papai noel e caipira não vale o carimbo da carteira de trabalho.

Fantasia é uma escolha pessoal, torna-se crime quando imposta. Assim como ninguém pode tirar o direito que cada um tem de se humilhar.

Ser provisório é uma ofensa definitiva.

8 comentários:

Anônimo disse...

Minha vida fica muito imatura assim, a nem... Não alcanço força vital para ter esperança. Iniciante em teste é uma falta de maturidade sem o frescor das descobertas.

Com quem eu reclamo sobre a promessa de eternidade, companhia, amizade, projeção de um futuro, autonomia, liberdade criativa? Eternidade para minha alma que só quer saber de como vai amar viver! No fundo não é escuro é muito,,, é claro!

Maturidade é muito importante para achar que somos bons o suficiente.

Que fase!

Assinado, Flávia.

Anônimo disse...

Ufa!!

Ass., Flávia de novo.

Kinha disse...

Só quem já passou por esse tipo de experiência sabe como é!

Fabiana Pacola Ius disse...

Bom vc ter tocado nesse assunto: não me conformo com funcionários que são obrigados a usarem roupas típicas para atrair consumidores. Tão humilhante quanto o crachá de treinamento.
Abraços !

Gisa disse...

O que se tem que passar por um lugar, que venhamos e convenhamos, não é nenhum sol...
Um grande bj querido amigo twitteiro

Anônimo disse...

E o que ele queria com vc afinal?

Alice Mânica disse...

Pois comigo acontece de, quando eu vejo o crachá "Em treinamento", surgir uma tolerância que às vezes até me impressiona! Eu espero a pessoa consultar a tabela de códigos, eu ajudo a passar o cartão na maquininha, eu dou um sorriso solidário e compreensivo para encorajá-la nesse período inicial.
Um pouco como a paciência com carros de autoescola: aguardo, pacientemente, a oportunidade de sair de trás do carro, mas sem buzinar, xingar ou reclamar...

Maria Amélia disse...

Uma vez, vi um rapaz muito alto, de pescoço comprido, em estágio probatório na lanchonete, com um uniforme onde se lia "Giraffas em treinamento". Piada pronta, coitado.