domingo, 18 de agosto de 2013

FOI MAL


Arte de Fatturi


Quando conhecemos alguém, o mais complicado é acertar as brincadeiras. Afinar o humor. Rir e fazer rir.

É somente pelo riso que nos confessamos.

É somente pelo riso que chegamos ao quarto.

É somente pelo riso que superamos as experiências anteriores.

Arrisco a dizer que o humor é nossa verdadeira nudez. É quando realmente expomos os nossos preconceitos e fragilidades.

Não adianta ser simpático, bonito, inteligente, poético, romântico, dependemos da cumplicidade da graça.

Sem a sintonia das piadas, o casal que está se formando não vai superar as brigas e as diferenças no futuro. Casal longevo é o que ri dos seus problemas, e não transforma aborrecimentos em epopeias. Casal maduro é o que perdoa e segue.

O riso é a porta de entrada de todo o relacionamento. Torna-se a parte complicada da aproximação.

Começar uma história significa conhecer as dores do outro durante a mais pura alegria. Estará animado e, sem querer, cutucará uma cicatriz.

O que pode parecer natural para você pode ser de mau gosto para ela, o que pode soar espontâneo para ela pode ser agressivo para você.

Não podemos nos frear, mas não podemos machucar. Não podemos nos censurar, mas não podemos ferir à toa.

Precisa se soltar, porém conservando a prevenção de que ela não vive em sua cabeça e não se habituou ao seu tom de voz, à sua ironia, às suas preferências.

A brincadeira estimula a intimidade. Aproxima. Apressa o abraço. Só que também pode desencadear incompreensão e incômodo.

O cuidado aumenta com a intensidade do relacionamento: quanto mais dependente de uma resposta mais vulnerável nas palavras.

Você terá que aprender a brincar, e principalmente, com o que não pode brincar.

Esta é a senha: não podemos brincar com tudo.

Ao brincar, desvenderá o que é sério e deve manter distância.

Será um trauma, será um hábito, será uma convicção.

Ela dirá que não gosta, e não insista. Não volte mais ao assunto. Não busque se corrigir provando que a crença dela é insignificante.

Há um território do pensamento feminino onde não é possível debochar ou subestimar, é uma lembrança com cerca elétrica, ninguém entra, nem ela mesma.

Toda mulher adora quem a faça rir, mas o que mais ama é quem descobre o que merece respeito.

 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 18/08/2013 Edição N° 17526

8 comentários:

Carolina disse...

Lindo, lindo, lindo!!! E pra mim é exatamente desse jeito! Meu marido sabe disso e respeita, acho que esse é um dos grandes trunfos para o nosso relacionamento dar certo.
Adoro seus textos!
Bjos,
Carol

vih disse...

gostei muito, Carpi! Acho que a chave de um bom relacionamento (seja ele qual for), é o equilíbrio. O complicado é achá-lo, certo? kkk
beijos rimados pra você

sonia disse...

Conheci um único homem que me fez sentir totalmente eu mesma na presença dele. Ríamos tanto juntos que eu chegava a perder o fôlego. Foi a pessoa mais bacana que conheci na vida. infelizmente já partiu deste mundo. Mas nunca alguém entendeu tão bem minha alma como ele! Havia uma sintonia perfeita,como se um adivinhasse o que o outro estivesse pensando. Sensacional ter vivido isso!

Greyce Kelly Cruz disse...

concordo, as pessoas que permanecem ao nosso lado são aquelas que riem das mesmas coisas que nós...

Maria Helena, de Londrina-PR disse...

Fabrício
O que você escreve vale, igualmente, de uma mulher para um homem.
Por qualquer mal-entendido a gente pode cutucar uma cicatriz, que a gente sequer imagina que exista.
Lindo o seu texto!
Beijos
Maria Helena

Carlos Almeida disse...

Carpinejar!

É a terceira vez consecutiva que tenha um problema num dia e vc escreve sobre noutro.

Ótimas reflexões, como sempre.


Abraço

Gabriela Lago disse...

As vezes (quase sempre), me identifico muito com seus textos... Adoro todos!

Grande abraço!

Eva disse...

Que lindo!