domingo, 27 de outubro de 2013

COITADO DO HOMEM


Arte de Fatturi

Um dos impasses masculinos no casamento é conciliar a porção macho protetor e a porção criança feliz.

Porque sua mulher ama quando você é adulto, firme, decidido, capaz de resolver crises e contas, dar colo e acalmar, dizer que tudo vai dar certo com a voz resoluta de radialista.

A mulher ama e espera ser amada desse modo. Com alguém disposto a oferecer segurança e sentido, com o peito maior do que o travesseiro, para aninhar e resguardar cheiros e futuro. Com um homem que acaricie seus cabelos em silêncio, sem que ela descubra o que ele está pensando.

Mas, se o homem está feliz ao lado da mulher, será uma criança. Eis o grande problema da dinâmica de casal: se a mulher faz o homem feliz, ele será uma criança, daí é ela que ficará descontente. Parece que precisa deixar o homem preocupado para ser feliz, mesmo que resulte na tristeza dele.

Homem bom para a ala das noivas é melancólico, aborrecido, casmurro, fortaleza enigmática, caixa com senha numérica e alfabética.

Já um homem realizado é livre como um campo de futebol num dia ensolarado. Muda seu riso, seu olhar brilha, seu rosto se amplia e se torna uma matraca. Transforma-se num bobo carente, disposto a fazer troça de qualquer assunto. Não leva coisa alguma a sério. Debochado, hiperativo, como se estivesse arremessando aviãozinho ainda do fundo da sala de aula. Vai apertar, morder, empurrar, beliscar, incomodar, perturbar, série de movimentos proibitivos da fantasia feminina. Nos momentos de euforia do namoro, reproduz a descontração com seus amigos: em especial na pelada e no boteco. Um churrasco entre barbados exemplifica sua felicidade: os participantes só vão confidenciar bobagens e besteiras sobre sexo e carreira. A frequência estará desembaraçada, ingênua, afeita a piadas, gafes e fraquezas cômicas.

Homem brinca de brigar, mulher quando briga não gosta de brincar, entende a diferença? É um cacoete ancestral, egresso do jardim da infância. No recreio, o homem fingia guerra com os colegas para mostrar apego. Por sua vez, a mulher se divertia em montar casinha, em estabelecer ordem e hierarquia nas emoções e afetos.

A questão é que a mulher não ama quando seu marido se infantiliza, porém é quando ele está mais à vontade. É quando ele verdadeiramente está amando. A mulher é seduzida pela imagem do homem tenso e guardião, e não suporta o menino enfeitiçado pelo encantamento da relação.

Na realidade, a mulher se irrita quando sua companhia assume ares de palhaço, ou de louco. Julga comportamentos hostis, que não inspiram nenhuma confiança. Despreza essas demonstrações circenses de disputa. Tente derrubá-la na cama fora do clima sexual, que ela ficará puta da vida.

Odeia quando seu marido se mantém hipnotizado assistindo uma partida da Série C, ou na medida em que inventa de jogar playstation e perde a hora ou ainda começa a jogar bolinha dentro de casa e quebra objetos. Odeia sua birra e manha, seu timbre de desenho animado, suas miradas tristonhas de chantagem.

A mulher jamais vai nos entender. Portanto, você tem que alternar com sabedoria os dois momentos. Este é o ponto delicado: encontrar a medida. Ser os dois ao mesmo tempo sempre, e nunca exageradamente.

Nem ser demais um, nem deixar de ser o outro.

Nem ser pai demais da esposa, nem ser seu filho.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 27/10/2013 Edição N° 17596 

4 comentários:

Paula disse...

Discordo de você! Da onde você tirou isso? Homem bom é homem feliz, que dá risada junto e que faz rir. E mulher também é criança, viu? Não é um mar de profundidade que vive envolta na redoma intocável da chatice.

Julio Cezar Beal disse...

Estou passando por isso neste exato momento, parece que você escreveu direcionado para o meu relacionamento.

As vezes aquela sensação de prazer, de poder falar de tudo e compartilhar cada bobagem não servem em alguns momentos, não é o que a mulher espera, não que ela esteja infeliz ou que eu esteja feliz demais, mas a visão é diferente dos dois lados.

Só percebo que os momentos mais felizes são quando os dois estão sem escudos e agem como crianças. Mas a vida, compromissos, rotina não nos permite ter esta constante alegria... Portanto a dosagem depende muito do momento e dos problemas rotineiros que nos cercam.


Só sei que vou tentar dosar mais... :)

Vânia Doeler disse...

É exatamente, talvez não tão exatamente, isto que expuseste na tua crônica.
Falo por mim, baseada em longa experiência de vida.
Só que dá para dizer também: "Coitada da mulher", que não consegue ser fazer-se entender pelo homem.
Quando aprendemos a aceitar as diferenças e a relevar, já estamos tão mais velhas, que só servimos para aconselhar. O problema é que ninguém nos ouve.

Anônimo disse...

Paula, vce pela visto veio ao blog do carpinejar para criticar.. Incrível como voce tem um espirito sadomasoquista .. Pq vc julga as palavras de um escritor, que na minha opinião tem um talento enorme, diz que nao tem sentido em suas palavras mas continua acessando o blog e lendo .. Realmente, acho que a leitura deve ser algo prazeroso, um momento de aprendizado, de soma, e nao de subtração .. Você vem aqui para ler algo que nao faz sentido ? Qual o sentido da sua leitura aqui no blog ? Vai somar conhecimento a sua vida praticando uma leitura que sente prazer e acredita.. Sua vida deve ser muito monótona, seu marido dormir de calca jeans, caso tenha marido, pois duvido muito nessa possibilidade... Enfim, seja mais feliz pare de se castigar.. Tenho certeza absoluta que suas palavras não vão alterar a forma como o Carpinejar escreve e nem
muito menos te fazer alguem melhor ..Desejo a você mais felicidade e menos critica ! Um feliz Natal e um prospero ano novo !