segunda-feira, 7 de outubro de 2013

PAI DE MEU PAI

Arte de Jean Fautrier

Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.

É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.

É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe.

É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.

Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.

A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.

Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.

No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:

– Deixa que eu ajudo.

Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.

Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.

Aninhou o pai.

Acalmou o pai.

E apenas dizia, sussurrado:

– Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.




Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 06/10/2013 Edição N° 17575 

22 comentários:

Jane Garcia disse...

Carpinejar,

Acho incrível sua capacidade de emocionar...
Me lembrei de meus últimos momentos com meu pai.
Um abraço

Heloísa Santos disse...

Você tem o dom de usar as palavras! Chorei aqui no trabalho lendo isso.
Me deu vontade de chegar em casa e agarrar meus pais. A verdade é que a gente não imagina perde-los, e como dói pensar nisso.
O maior amor do mundo é o que sinto por meus pais!
Lindo isso Carpi!
Parabéns.

Anônimo disse...

Palavras não serão suficientes pra definir esse seu texto, mas mesmo assim, arrisco algumas: SENSACIONAL! PERFEITO! COMOVENTE!

Parabéns!

Maria Paula disse...

Obrigada por tuas palavras, Fabríco Carpinejar. Não pude conter as lágrimas e fico feliz por ter podido despedir-me de meus pais aos poucos como referes no texto. Tê-los cuidado foi o que pude realmente retribuir a tudo que me proporcionaram.
Sou tua admiradora por textos tão profundos abordando temas tão humanos, demasiadamente humanos.
Parabéns.

Rudimara Auler disse...

Que texto mais lindo.. e tocante!
Parabéns!
Você escreve muuuito!

Bea Couto disse...

Maravilhoso, tocante, doído, verdadeiro.....
Obrigada por traduzir em palavras esses sentimentos....
Grande abraço...

Beatriz

Dona Lázara do Jalapão disse...

Nossa que belo!è vc tem mesmo o dom de fala com todos que ler fala do dia a dia das pessoas,agente sabe mas não percebe entende!PARABÉNS e obrigado.´

Dona Lázara do Jalapão disse...

Fabrício meu lindo espero vc aqui no Jalapão!pessoa iluminada com vc o Jalapão é perfeito to te esperando!
Jalapão um Paraíso Selvagem!!!
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Sônia disse...

Fabrício, quanta sabedoria. Ao ler seu texto, me sentí em paz e com meu dever cumprido como filha/mãe de meus pais, estive com eles, cuidando e dando um pouco do carinho e amor que me foi dado. Realmente é um momento único em nossas vidas, é um sentimento que ninguem vai nos tirar, a consciencia tranquila de que se foram sabendo do amor que tenho por eles.

Flavia disse...

Realmente poder ser pai do seu pai é maravilhoso, vibrar a cada colherada, dar água de colher, trocar fraldas, pentear seu cabelo, ficar noites em claro escutando sua respiração.... que saudades sinto daquele Homem...faria tudo novamente, dava tudo para ter a oportunidade de deitar minha cabeça no seu peito....SAUDADES. SAUDADES, SAUDADES...

ervininho disse...

muito lindo!!!
Não tive esta oportunidade...meu pai faleceu quando eu tinha apenas dois anos de idade...

Anônimo disse...

Quem passa ou já passou sente cada palavra! chorei.

3idade disse...

Olá Fabrício, pela pesquisa que fiz o autor deste texto é você. Gostaria de referenciá-lo corretamente para que seja feito os devidos créditos, como indico abaixo.

Att.,
Prof. Pedro Moreira de Godoy



CARPINEJAR, Fabrício. Todo Filho é Pai da Morte de Seu Pai. REVISTA DONNA. Porto Alegre: Zero Hora, n. 17575, 6 out. 2013, p. 6. Disponível em: . Acesso em: 18 fev. 2014.

______. Pai de Meu Pai. CARPINEJAR: blog pessoal. Porto Alegre: Blogspot, 7 out. 2013. Disponível em: . Acesso em: 18 fev. 2014.

ADRIANA NUNES Consultora Imobiliária disse...

Lindo texto. Obrigada.

Anônimo disse...

... parabéns pela tua capacidade!

Anônimo disse...

Muito bom! Parabéns!

Melissa disse...

Faz 1 ano q li este texto que me marcou tanto. Hoje li novamente e senti a mesma emoçao. Sua capacidade de nos tocar como leitores é incrível! Seu texto é lindo, lindo, lindo. Parabéns.

Meiry Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Meiry Lima disse...

Carpinejar,

Recebi pelo wats seu texto, perfeito!!!
Uma das mais belas leituras que já fiz até hoje! Tive que traduzir... pois meu Pai faleceu quando eu tinha 06 anos e hoje sou mãe de minha mãe! Olha que se eu pudesse publicaria para todo ser humano ler, tamanha beleza! Parabéns!!!

Neide Marah disse...

Digo que fui agraciada por ter tido a oportunidade de ler um texto como esse! Obrigada por nos proporcionar essa reflexão!

Renata disse...

Estava procurando um texto sobre pai na internet, caí no seu blog. Faz 1 mês que perdi meu pai, ainda jovem, 67 anos, cheio de vida, na ativa, morreu subitamente. Não sei qual dor é maior, se assistir a decadência física de quem amamos ou perder no susto, de uma hora pra outra, precocemente, a figura de maior peso em nossa vida, pelo menos na minha. É uma dor imensa.

Flavia Oliveira disse...

Maravilhoso, emocionante!! Adoro seus textos...