domingo, 22 de dezembro de 2013

JÁ ACONTECEU

Arte de Max Hermann Pechstein

Eles mal piscaram, mas já aconteceu a transa.

Ainda nem se conhecem, mas já aconteceu a transa.

Ainda nem se abraçaram, mas já aconteceu a transa.

Não beberam juntos, não dançaram juntos, não jantaram juntos, mas já aconteceu a transa.

Não houve nenhuma saudade, desconforto, receio de se perder e já aconteceu a transa.

Não houve nenhuma confissão, partilha de memória, declaração apaixonada, e já aconteceu a transa.

Ainda não mostraram o jeito de vestir, não ensaiaram a nudez, mas já aconteceu a transa.

Eles nem supõem se um é colorado ou gremista, se um é anarquista ou conservador, se é rico ou endividado, se dança rock ou pagode, se tem filhos ou não, se foram casados ou guardados, se têm amigos em comum, mas já aconteceu a transa.

Nada pode apagar o fato consumado antes dos fatos.

O olhar é premonitório, existe uma confiança por detrás do gesto que garante que já aconteceu a transa.

Não há como impedir a união, ambos se escolheram muito rápido.

Denunciaram o enlace ao mexer os cabelos, ao sorrir encabulado, pondo as mãos no bolso.

Foi uma provocação que vingou, foi uma graça que levantou o humor, foi uma cumplicidade que declarou o início.

É assim mesmo que acontece: definimos com quem teremos o envolvimento antes do envolvimento. A atração manda no futuro.

Não significa que vão namorar, casar, serem felizes, não há estabilidade garantida pelo desejo. A curiosidade eclodiu e suspenderá os pré-requisitos, os impeditivos, os critérios preventivos.

É o instinto definindo a ação, avisando o inconsciente que a transa já aconteceu.

A transa é uma lembrança que antecede o ato.

É uma determinação de gosto que impregna a palavra. A transa está no passado, mesmo quando parece uma possibilidade remota.

Eles não se tocaram, mas já se cheiraram, já se estudaram rapidamente, já se aprovaram, já facilitaram os caminhos.

Ainda nem sabem o nome um do outro, as convicções, os medos e desejos, mas já aconteceu a transa.

Ainda não têm noção se preferem sushi ou churrasco, se são melancólicos ou ansiosos, arrebatados ou inseguros, mas já aconteceu a transa.

Ainda não se adicionaram no Facebook, mas já aconteceu a transa.

Ainda não salvaram os telefones na agenda, mas já aconteceu a transa.

Definiram pelo olhar que vão transar. Só não marcaram a data.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 22/12/2013 Edição N° 17652

14 comentários:

Isabela Xavier disse...

Muito bom! A frase final modificou o sentido de tudo que foi dito anteriormente. Adorei.

frô disse...

Dá margem a inúmeras situações!

obat darah tinggi disse...

i respect por your pict :D

obat stroke alami disse...

nice inspirations

naruto disse...

Saibam o que escondem de você, é de graça! Você em instantes estará descobrinco os íncríveis segredos ocultado por sociedades secretas, Religiões e até o governo. ACESSE AGORA MESMO: http://movimentownv.blogspot.com.br/2013/12/o-que-e-o-movimento-wnv.html

Isabela Cruzeiro disse...

Perfeitooo *-*

Fabio Fernandes disse...

A "pobre" da transa virou um mero detalhe diante da vulnerabilidade.

Karolly disse...

Tá escrito nas estrelas que já aconteceu...

Karolly disse...
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Karolly disse...
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Karolly disse...
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Karolly disse...
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Karolly disse...
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Anônimo disse...

Mestre Carpinejar, esse belíssimo texto, parece até que fala das paixões de minutos, ou, de horas, que "encontramos" nas ruas, ou dentro dos transportes públicos rs.