terça-feira, 10 de dezembro de 2013

VAMOS BRINCAR DE GANGORRA, MEU AMOR?

Arte de Antón Lamazares

Quando um está mal, o outro deve estar bem.

Quando um está irritado, o outro deve ser paciente.

Quando um está cansado, o outro deve encontrar disposição.

Quando um adoece, o outro deve mostrar saúde.

Quando um se envaidece de razão, o outro deve ser humilde no cuidado.

No casal, as fraquezas não podem convergir. Não podem ocorrer simultaneamente.

Se vê que sua parceira explodiu, escolha um momento distinto para desabafar e reclamar. Recue de sua catarse. Deixe para o dia seguinte. Ela nem irá ouvi-lo no acesso de cólera.

Quando os dois decidem ser a parte mais fraca do relacionamento, os laços sucumbem.

Não podem ocupar o mesmo papel, o mesmo script. Só há vaga para um protagonista em cada crise. Alguém terá que ser coadjuvante. Dois vilões no mesmo filme geram divórcio.

A alternância é o segredo da convivência. Mudar de lugar sempre, analisar quem mais precisa e ceder se for necessário.

O que traz estabilidade é a gangorra: quando a mulher cai, o homem estende o braço, quando o homem vacila, a mulher acode.

A separação acontece quando duas chagas conversam procurando mostrar qual é a mais funda. É quando duas feridas travam uma guerra buscando sangrar mais, e nenhum dos lados estanca a própria carência.

O sofrimento acentua o orgulho, a dor agrava a cegueira, a ansiedade de resolver logo a discordância apenas abre a porta para o fim.

É uma disputa do desespero, e o casal se afoga nas mágoas. Não haverá sequer um salva-vidas acordado.

Ainda que sobre paixão, ainda que reste confiança, nada segura o momento em que os dois coincidem em enlouquecer. A loucura exige troca de plantão.

O casal é capaz de destruir uma história linda e promissora por uma noite de fúria.

A esposa e o marido se transformam em crianças, e crianças abandonadas em casa berrando e com medo. Tentarão gritar alto para chamar os vizinhos e denunciar os maus-tratos. E vão se indispor e se ofender tanto, e vão se provocar e se agredir tanto, que depois é difícil cicatrizar.

Um tem que ser adulto na hora do pânico. Um tem que ser responsável. Um tem que ser forte o suficiente para preservar as fraquezas do amor.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 10/12/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17640

5 comentários:

Laisa disse...

E que gangorra!!!
Sensacional, Carpi.

helen ps disse...

Genial!.

Abraços.

["/]jeaninedemoraes["/] disse...

Grandes dicas para bem relacionar-se.

Guilherme Pereira disse...

Carpi,

A meu ver vc está voltando aos seus textos dos momentos áureos na nossa relação vc escreve eu leio, reparei que existe tbm a gangorra nas fases do leitor X escritor, mas não desisto de sempre dar uma espiada aqui.. mt bom achar uma preciosidade dessas.. No mais sobre separação, recentemente li esse texto:

http://frappuccinomochabranco.blogspot.com.br/2013/12/infidelidade-e-chororo-por-hpcharles.html#comment-form

VALE A PENA! Abraços

Josiléa Pinheiro disse...

Perfeito!... Sem mais.