terça-feira, 25 de março de 2014

ALFAIATE INJUSTO

Arte de Otto Müller

O trabalho é insaciável. Todo emprego. Não terá trégua, folga, desconto.

Desde que comecei a trabalhar, aos 15 anos, não obtive nenhuma moleza. Nenhuma compreensão.

Apesar do excelente desempenho, é faltar por atestado médico, é se atrasar por engarrafamento ou greve de transporte, que estarei enforcado.

No trabalho, corda no pescoço é colar.

Não aceitamos desculpas e justificativas, a única coisa que vale é baixar a cabeça e se puxar.

O currículo só conta para contratação, depois o passado é abolido. A desmemória é valorizada. Render o máximo possível sempre, até quebrar. Se quebrar, não era tão bom assim.

E todos quebram. E todos cansam. E todos pedem um colo e um corrimão das escadas.

Não receberá intervalo para se restabelecer, período para se recuperar. É quebrar e suportar a troca imediata.

Ter feito milagres antes não é recomendação. Somos amplamente descartáveis.

Carreiras são jogadas fora num piscar de olhos, trajetórias consolidadas são dissolvidas num rearranjo de forças.

Pode ser um super-herói, um mago, um santo, um Hércules, um samurai, e não encontrará imunidade.

Demoramos um tempo imenso para adquirir credibilidade e facilmente extraviamos a confiança.

O trabalho é implacável. Não queira ser reconhecido, o reconhecimento dura 24 horas. A prática é se desconhecer ininterruptamente e recomeçar.

Você poderá ser o melhor vendedor de uma loja por seis meses consecutivos, mas é arcar com um dia ruim, somente um dia ruim, e será cobrado. Você pode ser o melhor corretor de imóveis, acumular vendas irreais, mas é enfrentar uma semana de deserto, que será criticado. Você poderá ser o melhor negociador agropecuário, mas é assistir a um mês de vacas magras, que perderá seu chão.

O trabalho é voraz, o que explica o quanto somos substituíveis.

Saudade não existe no mundo corporativo. Saudade é um sentimento proibido. Saudade é um luxo.

O trabalho não respeita ausência. Ausência é vaga. Ausência é lugar a ser preenchido, é alegria dos outros.

Quem já saiu de um emprego e jurou que nada mais funcionaria e se frustrou porque tudo continuou igual? Quem já largou um emprego de décadas, onde construiu a maior parte de suas amizades, organizou surpresas e amigo-secreto, e acreditou que ganharia um abaixo-assinado dos colegas para sua volta e não obteve um e-mail sequer de solidariedade? Quem já foi o primeiro a entrar e o último a sair no negócio e sua disciplina não rendeu ponto extra e bonificação na crise?

O trabalho é um alfaiate ao contrário. Um alfaiate ao avesso.

Não é a roupa que deve ser ajustada ao nosso corpo, é o corpo que deve ser ajustado para a roupa.

Não é o caso de cortar o tecido ou fazer bainha, nós é que temos que cortar mãos e pés e emagrecer e nos adaptarmos de qualquer jeito.

Não existe justiça no trabalho, talvez nem mais na família.

Nossa esperança agora é não ser demitido dentro de casa.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 25/3/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17743

6 comentários:

Paulus Vitórius disse...

Qual era o seu herói favorito na infância?

*Essa resposta talvez explique tudo

garota sensivel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
garota sensivel disse...

Olá Fabricio, te admiro pakas.. bom, mas venho escrever pq qero teu conselho, vou fazer 18 anos em julho, ja to procurando um trabalho e fazendo cursos, conheci um rapaz de 25 anos, q tem uma filha, nos gostamos muito, mas meus pais, principalmente minha mãe, que sabe q ele tem uma filha, não aceita, apesar q ela acha q ele tem dois filhos e se eu tentar dizer q não, ela acha q estou defendo-o. Após os 18 anos, ela tem o direito de escolher com quem vou ou não me relacionar?

Mariana Penna disse...

Tomei uma bronca linda no trampo ontem!! To feliz! #sqn

Janice Amaral disse...

Adoro teus textos e adoro escrever!
Tu és uma inspiração a que aspiro.

A Ex de Murphy disse...

Que engraçado... Tô aqui lendo esse texto em meio a uns 4 dias seguidos de horas extras (caminhando pro quinto) e pensando se isso tudo vale mesmo a pena...
Porque "todos quebram. E todos cansam".
E a cada novo trabalho eu juro que vou fazer diferente!
Realmente, Carpinejar, o trabalho é um alfaiate ingrato, e eu me identifiquei absurdamente com a sua metáfora...