domingo, 16 de março de 2014

HOMEM SE APAIXONA FÁCIL, MAS AMA DIFÍCIL

Arte de Antonio Berni

Homem se apaixona fácil, o que ele tem medo é de amar.

Mulher não se apaixona fácil, mas não tem medo de amar.

São dois fusos diferentes. São duas realidades em desacordo.

Homem logo se entrega para um relacionamento, não mede esforços para ficar com alguém, renuncia sua vida e seus prazeres mais essenciais, altera sua rotina. Na paixão, sua generosidade é corajosa. Facilita as saídas aos bares e restaurantes, facilita a intimidade na casa, facilita o arrebatamento. Nada incomoda, nada atrapalha, nenhum defeito é contabilizado.

Sua complicação é quando passa a amar, quando larga a fase da aventura e do desconhecimento dos meses iniciais para fazer plano junto. Daí ele estaciona, emperra. Tanto que sofre horrores para dizer o primeiro eu te amo. Tanto que sofre horrores para misturar as escovas de dente. Tanto que sofre horrores para dividir as prateleiras. É como se não pensasse até aquele momento.

Na paixão, ele não avalia as separações anteriores, suas falhas de sistema, suas fobias de convivência. Explode por intuição, desmemoriado. É vir o amor que ele recua, entra em julgamento, contrai o olhar e economiza as palavras. É consolidar os laços que se confunde, acumula receios e inventa desculpas.

A mulher é exatamente o contrário, e bem mais coerente. Leva tempo para se apegar, questiona de saída, é desconfiada na paixão, cética na paixão, contida na paixão. Sofre passo a passo. Empenha malha fina da personalidade na apresentação. Sua instabilidade é de imediato, sua crise de consciência é no começo. Quando descobre que gosta realmente, é que se liberta e derruba suas defesas. É realizar projetos e formular expectativas que se solta e se desinibe. Para ela, o amor acontece mais natural do que a paixão. Paixão é choque, dói; amor é costume, cicatriza.

Homem diz “Não quero me envolver”. A mulher diz “não quero me apaixonar”. As declarações são representativas. Ele recusa intimidade após o contato, ela pretende evitar qualquer contato, já que a intimidade não a assusta.

Homem mergulha para reclamar da água. A mulher experimenta a água antes de entrar.

Homem tem primeiro certeza para depois duvidar. A mulher duvida até cansar sua cautela.

Homem oferece tudo para retirar gradualmente. A mulher esconde tudo para oferecer aos poucos.

Homem se mostra desembaraçado e, em seguida temeroso. Mulher se apresenta temerosa e, em seguida, desembaraçada.

Homem decide rápido para desmanchar lentamente sua convicção. Mulher demora a se decidir, mas não volta atrás.

Homem é paixão. Mulher é amor.
  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 16/03/2014 Edição N° 17734

10 comentários:

Rita de Cassia disse...

Me percebi relendo o texto e tentando responder os "por quês" de tantas dualidades. Homens diversos com suas verdades nos fazem exercitar a tolerância...

Gabriela Castelo disse...

Carpinejar, você me representa! Adoro como você retrata nosso universo feminino!
Beijos em você e na Katy!

Rosane disse...

Essa vou enviar para meu filho de 23 anos, vai fazer um bem enorme.


Obrigada.


Um grande abraço


Rosane

Anônimo disse...

Carpinejar levei seu texto para um debate com meus alunos do EJA (Colégio Cristovão Pereira - Santiago). A aula rendeu uma excelente discussão no Universo feminino e masculino. Os alunos adoraram. Parabéns pela temática muito saliente.

Anônimo disse...

Carpinejar levei seu texto para um debate com meus alunos do EJA (Colégio Cristovão Pereira - Santiago). A aula rendeu uma excelente discussão no Universo feminino e masculino. Os alunos adoraram. Parabéns pela temática muito saliente.Luiza

Marília Maia disse...

Perfeito!

Alessandro Marques disse...

Realmente é um texto que carrega muito realismo e sensibilidade na descrição do comportamento masculino e feminino, que na minha opinião muito bem descrita e coerentes com a realidade que observo.
Parabéns espero ler outros textos seus com este nível!

Anônimo disse...

Nunca tinha lido comentários de Fabrício Carpinajar. Adorei!
Eu não estava entendendo muito bem o jeito do meu amado, mas agora entendo. É realmente tudo isso que o Fabrício disse, até em relação a nós mulheres. Pelo menos, sei que tive comportamento assim, como por exemplo, não gostar dele muito brincalhão. Eu já não sou extrovertida, isso me assusta, mas vou compreendê-lo e me juntar a ele nas brincadeiras.
Pessoal, bom dia e Fabrício, valeu por compartilhar! Sucesso pra vc!

ROSANGELA TORRES TAIRA disse...

Adorei seu texto Carpinejar. Sou psicóloga e achei sua descrição fantástica!!!! É tão real...Por coincidencia estou passando por isso neste momento. Abandonei minhas desculpas e defesa, mas me deparei com uma muralha.... Quem sabe eu alcance o amor... rs..

Rosangela

Rose Ribeiro disse...

Os homens me fizeram agir exatamente como eles. Lendo esse texto não me vi na parte sobre o comportamento feminino em uma relsção, embora eu seja feminina e me relacione com homens.