quarta-feira, 5 de março de 2014

O AUGE DO DESESPERO FEMININO

Arte de Peter Blake

Eu sei quando uma mulher está desesperada. Bem desesperada. Altamente desesperada. Quando ela está prestes a se separar, ou romper os laços com o trabalho, quando não aguenta sua rotina, quando expulsa os demônios, quando não responderá mais nada educadamente, quando não pretende conversar, quando atravessou a arrebentação e agora irá gritar e não fique por perto e não busque acalmá-la, que ela passou realmente dos limites e não adianta fazer o que ela pediu ou falar o que ela desejava ouvir, pois é tarde.

Quando ela tomar esta atitude, deu, foi, o vulcão rugiu e cobrirá o dia de tremores.

A mulher está desesperada na hora em que derruba o conteúdo de sua bolsa sobre a mesa, na hora em que despeja sua bolsa, na hora em que vira de cabeça para baixo sua bolsa, na hora em que derruba tudo desprovida de compaixão, desligada do cuidado se alguma coisa quebrará no choque com a realidade.

A bolsa é seu controle, sua memória, sua casa portátil.

O gesto tem uma dramaticidade de ópera, um sentido de ária. Significa o fim dos bons modos, sinaliza a rendição ao caos, nada será como antes.

Na sua mentalidade, expor os segredos da bolsa é desistir da razão ou da forma como enfrentava as adversidades até aquele momento.

A bolsa é a derradeira fronteira da aparência, os limites entre a cidade e o inferno.

Se ela deixou de procurar o que queria encontrar com a eficiência do tato, se ela deixou de procurar o que queria encontrar com a luz do celular, se ela não achou o que queria nem com os olhos das mãos muito menos com os olhos dos olhos, é que o negócio é sério, ela explodiu, perdeu a paciência, dobrou a esquina do desaforo.

A bolsa é seu equilíbrio, guarda o que precisa lá, conserva o que gosta lá, conhece exatamente seus zíperes, seus bolsos, seus esconderijos.

A bolsa é sua alma, seu chacra, seu yinyang, seu espírito.

Quando tem consciência da localização das coisas na bolsa, está tranquila, está centrada, está focada, está confiante.

Jogar fora o que vai dentro expõe que a situação não tem conserto, é uma medida extrema de mudança de personalidade.

Ao despejar a bolsa, ela verá o que foi sua vida no último mês. O que ela tentou esconder de si mesma. E iniciará uma faxina sem precedentes.

Todo cuidado é pouco, você pode desaparecer junto.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 4/3/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17722

3 comentários:

Pedra do Sertão disse...

Minha bolsa é tudo mesmo...faz tempo não a viro sobre a mesa...ainda bem!

Abraço pós-carnaval

Araceli Sobreira

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Juliêta Barbosa disse...

Carpinejar,

Já virei e revirei a minha bolsa inúmeras vezes, mas no fundo, numa parte invisível que nem os meus olhos alcançam, sempre guardo alguma coisa: segredo, mistério!? Sei lá, talvez uma tentativa desesperada para que alguém me leia de fato, e lendo, goste de passar as páginas com a delicadeza e a ternura necessárias, assim como quem sorve um gole de um vinho raro.Bjs


Paulus Vitórius disse...

quase tive vontade de ter uma bolsa tbm. só q aí eu achei q ia pegar mal com a rapaziada...