sexta-feira, 22 de agosto de 2014

NÃO SOU GAY

Arte de Eduardo Nasi

Desculpe decepcionar, mas não sou gay.

Sou hétero, tosco, apaixonado por buceta.

Sempre me relacionei exclusivamente com mulheres e será assim até o fim do meu tempo.

Não tenho nenhuma queda pela bissexualidade, não me passarei por moderno, não defendo swing, relação aberta ou sexo livre.

Minha liberdade sexual é intimidade.

Nunca me esconderia no armário, tenho muita roupa para guardar.

Seu preconceito é com qualquer um que conheça o universo feminino, como só o gay fosse sensível, observador e atento.

Você não gosta de homens que perturbem seus modelos.

Você gosta de homens monotemáticos, preguiçosos e diretos, presas fáceis da dominação.

Não é o meu caso. Posso ser submisso para influenciar ainda mais. Posso ser generoso para receber ainda mais.

O contrário é persuasivo. Quem é somente o que é não entendeu metade da missa em latim.

Talvez estranhe minha voz de turista (superei sérios problemas de dicção na infância), talvez estranhe meus gestos espalhafatosos (abraço até o vento), talvez estranhe minhas roupas extravagantes. No fundo, eu me acho apenas desengonçado.

Realmente sou educado: não vou arrotar em público, cuspir minha gripe no canteiro, palitar os dentes em churrascaria.

Minha preferência é por expor meus sentimentos: vou gritar por amor em público, pisar nos canteiros por ciúme, rilhar os dentes por justiça.

Não me envergonho de minhas dúvidas e sou capaz de permanecer horas ao telefone com amigos falando de relacionamento. Assim como qualquer mulher.

Sei fazer nó de gravata e, se precisar, posso ajudar a se maquiar. Assim como sei trocar lâmpada e pneu.

Na ausência de terapia, arrumo a casa. A faxina é um exorcismo barato, além de ser uma lição de humildade.

Gay não é aparência, gay é alma, e minha alma é essencialmente masculina. Tive vários casamentos e meu sonho é me aquietar com alguém que me entenda e me admire até envelhecer.

Sou independente, feio e estável financeiramente.

Aliás, sou tudo o que escrevo.

Minha solidão não dura sequer duas horas. Sofro de hiperatividade amorosa, sempre penso em fazer uma gentileza e agradar minha companhia. Ser carinhoso é também irritante, já que crio dependências desnecessárias.

Amo balada desde que possa sair na hora em que quiser. Festa boa não significa ficar até amanhecer, já aprendi isso em minha adolescência.

Danço com os braços e as pernas, meu quadril não se movimenta, infelizmente. Meu samba é batucar caixa de fósforos, desafiando a escuridão.

Cozinho apenas o básico para os filhos: ovo, arroz, massa e bife. Pai PF.

Perco meu senso de humor quando meu time perde. Vou ao estádio aos domingos, com a minha camiseta da sorte e o radinho de pilha da minha infância.

Sofro quando sou incompreendido, mas também quando sou compreendido rapidamente (daí eu me sinto superficial).

Meu temperamento não é fácil: encontro sempre uma desculpa para minhas falhas ou inverto a conversa para me beneficiar.

Não tenho motivos para mentir.

Olhe só como o mundo mudou: hoje temos que assumir que somos hétero.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
20/8/2014

15 comentários:

Adriana Brito disse...

Coisa louca como sempre me sinto uma maluca no espaço por causa dos meus valores e ideais. E sempre, SEMPRE, me sinto melhor quando leio suas cronicas, por não me sentir uma maluca sozinha no mundo.

Adriana Brito disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bellini Milano disse...
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Bellini Milano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
vih disse...

ai Carpi, me apaixonei pelo seu texto.

Samanta Hilbert disse...

Bahhhhhhh, que texto bom!!! Amei!

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

Hummm...Tanta coisa pra dizer que não é gay... Alguma coisa tá te incomodando. E se você for (mas for um desses que quer provar que não é), qual o problema? No começo você aparecia em público com terno azul e gravata, bem formal nos padrões. Depois virou o disco completamente, começou a aparecer todo espalhafatoso, mistura de punk com Carmen Miranda. Agora aparece mais discreto, uma tentativa de volta ao padrão. E daí, qual o problema? Idas e vindas de ondas que beijam a praia empurradas pelo oceano profundo. Ô Deus!! he, he.

Anônimo disse...

Quando as pessoas dizem que defendem sexo livre não tão obrigando ninguém a fazer então não sei porque tanta cerimonia! Quem disse que só os gays são sensiveis? Nem os gays dizem isso você que generaliza apesar de tudo eu gostei do texto loucura????

Aléxia Lage disse...

Que texto mais sincero e objetivo! Adorei o tom, as palavras e a forma como se expressa. Vi nelas a sua sinceridade e sua capacidade de se despir e ser exatamente quem você é. Que seja sempre assim! Grande abraço.

Cris Bandeira disse...

Realmente um homem muito interessante, desigual, incrível a tua habilidade não só com as palavras mas como se fazer entender claramente por elas. Adorei o texto, era uma curiosidade minha que virei gay aos quase 50 anos e sempre fui muiiiito hetero. Parabéns por tudo que és e principalmente pela total franqueza na comunicação, sem máscaras. Abraços!

Anônimo disse...

"minha alma é essencialmente masculina" e quem disse que gays não tem alma masculina? Tá vendo muita novela da Globo, hein? Da uma googlada antes de falar de sexualidade pq confundir sexualidade com gênero é deprimente pra alguem que se diz prof. universitário. Não sei pq mas sempre desconfiei de caras que tem que ficar provando pra meio mundo sua possível heterossexualidade.

Luciano disse...

Tem que dar muita explicação...

Paola disse...

Realmente, achei que ele fosse gay. Sou uma idiota preconceituosa, só pelo fato de ele falar de um jeito meio "seu lá"... mas também pelo fato de ser um homem tão profundo e incrível, em tudo que fala e faz... me desculpe mas vc tem uma alma sensível, e isso é lindo. ♡

Evelin Nascimento disse...

Bom mesmo é encontrar alguém autêntico como você num simples parquímetro de Canela, e ainda dar altas gargalhadas quando você disse que ia me "humilhar" colocando 3 moedas de 1 real enquanto eu colocava as moedinhas de 10 centavos(rachamos de rir eu e minha filha). Sim, te reconheci, mas tenho a sensibilidade de não fazer escândalos quando encontro alguém famoso. Mas confesso, deu vontade de te convidar pra um café e ficar horas e horas conversando. Você é especial, sensível, desengonçado e engraçado. Gratidão por cruzar por mim um dia!!