segunda-feira, 11 de agosto de 2014

SERIAL LOVER


Existe uma infidelidade mais secreta e menos evidente, que acontece depois do relacionamento. Só acontece depois. É uma traição póstuma, retardatária, residual. 

É quando você repete os mesmo lugares, os mesmos apelos, as mesmas confidências com outro. É quando você insiste em escrever e tecer declarações exatamente iguais.

É uma extorsão sentimental colocar um desejo para sua nova companhia como se fosse inédito e que já foi dividido com a anterior. 

Pois a paixão só é idêntica para quem não enxerga as diferenças. 

É como remanejar presentes, aproveitar alianças antigas. 

Você prova que não tem criatividade nenhuma, demonstra a maior apatia: refaz os passeios que já realizou, leva para os restaurantes que freqüentava, as baladas e festas conhecidas, reincide nos roteiros de viagem, destina sonhos e palavras já gastos, reemprega até os nomes aprovados para quando nascessem seus filhos.

Mudou a pessoa, mas não o seu jeito de seduzir. Mudou a pessoa, mas não sua rotina de amar. Mudou a pessoa, mas não seu script.

É uma melancólica sobreposição, desastrada colagem. 

Nem precisa cometer o ato falho de trocar o nome do atual pelo ex, porque estará revisitando atmosferas e cenários. Experimenta locações contaminadas por juras velhas. 

Não há sensação mais ingrata para seu namorado anterior ao perceber que era mais um. Um qualquer, nem um pouco especial. Um sósia de cenas românticas. Um dublê da adrenalina e dos feromônios.

Você oferece um passado usado sob o disfarce de futuro. Alcança aquilo que foi ensaiado com o antecessor. Não se dá o luxo de disfarçar, o trabalho de maquiar, colocar uma manta no mobiliário da memória. 

Recorrendo à fórmula fixa de história feliz, estabelece uma competição imaginária, anula a individualidade do seu par, apaga a invenção a dois e a costura por caminhos surpreendentes e inesquecíveis. 

Acredita em sua inocência porque ninguém comentará o assunto. Desfruta da tolerância dos garçons, dos colegas, dos amigos, dos parentes. É realmente um segredo com pequenas chances de ser revelado, porém a consciência não é boba e um dia se vinga. 

O que vive está longe de ser amor, é obsessão.


Publicado na Revista Isto É Gente
Junho de 2014 p. 48
Ano 14 Número 711
Colunista

4 comentários:

papoila disse...

Concordo totalmente!!!!
Detesto essa falta de criatividade....
Muito bem escrito.

Larissa Noronha disse...

Adoreiii parece que foi pra mim kkkk

Ragazza disse...

E não é que isso é a mais pura verdade? Como são insanos nossos quereres...

POESIA DO BELO disse...

Escritor é feito do que rouba dos outros, de um olhar mateiro que se mete onde, muitas vezes, não é chamado. Havia feito observação semelhante em uma crônica minha que seja "Nega".
Em síntese, tive um amigo que estava na sexta namorada, mas que foi abandonado pela primeira paixão, a qual era idealizadamente perfeita. Detalhe. A primeira namorada era uma branquinha, que ela chamava carinhosamente de Nega. Hoje está na sexta Nega. Não sei se a relação vai durar, mas, se acabar, sei que a próxima também será outra "Nega".