quarta-feira, 1 de outubro de 2014

ESTAVA CURADO ATÉ VOCÊ APARECER

Arte de Oskar Kokoschka

Tudo tão bem guardado, eu jurava que tinha esquecido, controlado o nosso passado.

Eu já sorria com os amigos, já me divertia, já trabalhava com afinco, viajava leve, flertava livre.

Eu já contava com uma outra vida.

Já não resmungava seu nome em cada ligação, já não rezava pelo seu retorno, já não esperava que o celular fosse tocar, já passava pelos nossos lugares favoritos como se fossem ruas desconhecidas do GPS.

Até que vi você em minha frente.

Até que abracei você.

Até que seu perfume voltou a se misturar à minha barba.

Até que sua boca se aproximou do meu pescoço, macia e fria, como a gola de uma camisa recém estreando.

E aquela atração que julgava desaparecida e morta ressurgiu como se fosse o nosso primeiro dia, o nosso primeiro dia com a memória do último dia.

Você me reabriu muito rápido. Quanta facilidade, quanta naturalidade. Precisou de pouco, quase nada. Eu me senti inútil, despreparado, decepcionado com a fraca resistência.

Você reabriu a caixa cardíaca que destruí e não acabou, a caixa cardíaca que enterrei e continua mandando em mim.

Você precisou só me olhar como se estivesse com fome, sem dizer nada, para que eu colocasse dois pratos na mesa.

Você só precisou ameaçar abrir o botão, sem dizer nada, para que lhe ajudasse a tirar o casaco.

O que sofri não me protegeu de você. A angústia não me protegeu de você. A raiva não me protegeu de você.

E me desesperei porque poderia sofrer tudo de novo e ainda assim não me protegeria de você.

Todo esforço foi em vão. Todo o domínio foi em vão. Toda a reabilitação foi à toa.

Tanta dor para erguer paredes, que apenas serviram para não ter saída.

Deveria saber que a dor não imagina portas, a dor não cria portas, a dor unicamente levanta paredes.

A dor me facilitou para você, estava preso em minhas palavras enquanto se aproximava.

Vejo hoje que, durante o tempo distanciado, enfrentava sua lembrança, jamais sua pele roçando a minha, jamais sua voz a um passo de meu rosto, jamais suas pernas entrelaçadas.

Não me preveni contra sua presença, e sim contra sua imagem.

Eu treinei me separar com você longe, não perto, não rente, não soluçando beijo. Este seu beijo que fica soluçado quando aumenta o desejo.

Bastou uma centelha para a esperança queimar a casa inteira. Bastou o fósforo apagado para recobrar o fogo.

Antes seguro, tranquilo, confiante, agora tremia, balbuciava, perdia o discurso, agradecia o abismo.

Meses de ressurreição desmoronados em segundos.

Você se escondeu de mim dentro de mim.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 30/9/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17938

6 comentários:

Flávio P. Reis disse...

Me li nisso aí...
E tremi com isso.

Abraço!

Adonis Dutra disse...

Parabéns Fabrício!
Algum dia darei a minha vida tanto significado quanto você nos passa através de vossas palavras!
Obrigado!

Anônimo disse...

Nossa...

Anônimo disse...

Estou passando POR isso....

Anônimo disse...

Ai ai ai... o que eu faço Carpinejar?

Anônimo disse...

Uau!! primeira vez que visito esse blog e estou encantada com a singularidade dessas palavras, essa coerência... Nossa fiquei sem palavras pois simplesmente disso Tudo... C.E