terça-feira, 10 de março de 2015

OS AMORES MORTOS NO LUSTRE

Arte de Antonio Saura

Você só se dá o trabalho de tirar o lustre quando a lâmpada queima.

É sempre quando ela estoura. Pode levar meses ou anos para desenroscar a redoma.

Ninguém limpa o lustre se a lâmpada não queimar. Não recebe o cuidado semanal das janelas e dos espelhos.

Mesmo enxergando camadas negras de insetos no vidro transparente. Mesmo que o lustre seja um cemitério de asas, um vaso de mariposas mortas.

Por preguiça, para não buscar a escada e interromper a rotina, para não se incomodar em apagar a energia, porque parte do princípio de que nenhum louco ficará conferindo esses detalhes no teto.
Somos iguais com os assuntos amorosos.

Quando a relação está acesa, não nos mexemos, ainda que esteja falhando. Não limpamos, não realizamos a manutenção, não nos preocupamos em nos antecipar com gentilezas e prevenir danos, não questionamos se a nossa companhia está feliz daquele jeito, não eliminamos os aborrecimentos pontualmente.

Esperamos a luz estalar até apagar de vez, para assim remover a sujeira. Esperamos o filamento de tungstênio romper seu ciclo, de tanto ligar e apagar o interruptor, para cuidar dos restos.

Agimos pelas necessidades imediatas, por urgências profissionais e familiares.

A casa é feita para funcionar, a relação é feita para funcionar, não mais para gerar beleza e poesia.
Somente nos importamos se os canais a cabo estão em dia, se o wi-fi navega, se a geladeira continua gelando. Bastam sexo e fidelidade no casamento e seguimos adiante. Nada pode adiar o nosso calendário. As distrações atrapalham. Ignoramos os suspiros dos objetos.

Não gastamos mais tempo com bobagens do lar. Não desperdiçamos tempo com conversas despropositadas de noite, brincadeiras e lembranças à toa, tudo o que tem que ser dito deve ser importante, girando sobre emprego ou agenda. Não queimamos nossa atenção com besteiras como retirar os bichinhos desenganados do lustre. É um capricho, pode esperar, não há pressa, não existe motivo para se preocupar.

Somos apenas o que pode ser visto. O que brilha. O que traz reconhecimento. O que pode ser elogiado. Dedicamos à nossa vida aos grandes feitos, limpar o lustre constantemente não trará recompensa, será chamado de maníaco por limpeza, debochado por não ter mais o que fazer.

Quem ama e cuida do seu amor é o que olha e lava o lustre antes de a lâmpada queimar, antes de a relação chegar ao fim, mas para renovar a transparência da vida dentro de residência.







Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 10/03/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18097

Um comentário:

Anna Catarina disse...

Perfeito! Provocou uma autoanálise.