quarta-feira, 6 de julho de 2016

ERA FELIZ COM TÃO POUCO

No meu primeiro apartamento, formei a minha estantes de tijolos e tábuas colhidas na rua, e eu era feliz.

Tinha dois bancos feitos de engradados jogados fora por um bar, decorados com almofadas coloridas, e era feliz.

Tinha de cama simplesmente um colchão no chão, e era feliz.

Tinha quatro pratos e quatro pares de talheres e não podia receber mais gente, e era feliz.

Tinha um ventilador que funcionava melhor sem a tampa, e era feliz.

Tinha Bombril na antena da televisão, desespero para capturar três canais, um com tempestade na tela, o segundo com chuvisco e o terceiro com neblina, e era feliz.

Tinha vasos pintados a partir de garrafas de suco, e era feliz.

Tinha um lençol que servia de cortina, a claridade não me permitia dormir depois das 8h, e era feliz.

Tinha como lixo uma sacola plástica presa na torneira do tanque, e era feliz.

Tinha a mania de somente beber água de graça, e era feliz.

Tinha a tática de atrasar o condomínio a cada dois meses, e era feliz.

Tinha como arara as pernas de mesas viradas de escritório, onde aproveitava cinco peças para o mesmo cabide, e era feliz.

Tinha que secar o banheiro depois do banho com o rodo, pois não havia cortina no box, e era feliz.

Tinha abajur informe de papelão, que aprendi na aula de educação artística, e era feliz.

Tinha duas tomadas que produziam choque, e era feliz.

Tinha que esperar acumular mudas sujas por uma semana para lavar na mãe, e era feliz.

Tinha uma geladeira vazia, com lâmpada queimada. Ela imitava o ronco de meu estômago, e era feliz.

Tinha um chuveiro que se assemelhava a uma bomba-relógio, ninho de fios coloridos soltos junto à parede, e era feliz.

Tinha palito de dente como fio dental, prendedor de roupa como pegador de massa, uma panela multifuncional, e era feliz.

Tinha o papel-toalha com vocação de guardanapo e papel higiênico, e era feliz.

Tinha que colocar as cuecas e meias na janela da sala, único lugar em que batia sol, e era feliz.

Tinha um cinzeiro de vidro de maionese, e era feliz.

Tinha uma faca cega, que não enxergava dentro do pão, e era feliz.

Tinha um tapete que embolava quando saía com pressa, e era feliz.

Tinha um gás com sete vidas. Quando acabava, deitava o botijão, e era feliz.

Sobreviver me transbordava de humor.

Sempre dava um jeito, não perdia tempo reclamando, ia me adaptando. Ria de meus problemas para não fazê-los importantes.

A verdade é que a pobreza nunca me roubou a felicidade.

Publicado em Zero Hora
Coluna Semanal
05.07.2016

3 comentários:

Ester e Cristina Artesanato disse...

Simplesmente adorei. É a mais pura verdade. Saudade daquela época, com coisas tão simples e uma vida tão leve.

Opi Matoaka disse...

Eu que estava aqui lendo este artigo antes de visitar um blog de decoração, mudei de ideia. Vou desligar o computador, pegar um cobertor quentinho, dormir mais cedo: Tratar de ser feliz.

Dalva M. Ferreira disse...

Eu tinha um tio que era pobre. Empregado de caminhão. Tinha muitos filhos, morava de aluguel. E era feliz. Eu gostava de ir à casa deles, quando ia vesprando o dia dele chegar a minha tia tomava banho com sabonete palmolive, raspava as pernas... Depois ele ficou remediado, mas o dinheiro entrou pela porta e a felicidade saiu pela outra. Coisas da vida.