quinta-feira, 14 de julho de 2016

NASCI PARA CHORAR



Texto: Fabrício Carpinejar
Arte: Eduardo Nasi

Todo o escritor nasce de uma morte.

Todo o escritor é o filho do fim. O filho da dor incomunicável. O filho dos limites intransponíveis.

Eu nasci da morte de minha avó.

Meu primeiro poema foi feito aos sete anos, quando minha avó morreu de câncer em Guaporé (RS). Imaginei que ela chegava ao céu primeiro do que meu avô, que havia falecido três anos antes. A mãe reproduziu o texto no convite de enterro.

Sou poeta porque não tenho como justificar o desfecho: como um parente que estava aqui na minha frente deixa de existir para sempre? Que mágica macabra é esta? De que modo posso continuar vivendo e não temer perder tudo, inclusive a mim mesmo?

Sou poeta porque não tenho onde guardar a saudade. Onde guardar quem amo.

A mão escrevendo é um aceno de despedida. O livro pronto é uma lápide. Os jardins da imaginação estão no cemitério das lembranças.

Vim da morte da avó. Antes dela, não tinha necessidade de escrever. Já depois de sua partida, eu não poderia mais viver sem a literatura. A escrita irrompe do fracasso do domínio da vida, quando acontece algo que não podemos controlar. É uma doença cheia de saúde, é uma falta impregnada de presença. É quando alguém parte e combatemos o seu esquecimento. É quando alguém some e lutamos contra o seu desaparecimento. É quando alguém deixa uma história pela metade e procuramos completar o resto com o que sonhamos ouvir.

Sou cria do enterro de Nona Elisa. Da vó que derretia o queijo na chapa, que aquecia a casa com lareira, que me ensinou a colher morangos e buscar ovos no galinheiro de manhã, que contava histórias enquanto cozinhava. A vó que colocava os seus dedos macios, frios e cheirosos de amaciante em minha nuca na hora que servia o prato.

Convivi com a minha vó somente nos meus primeiros sete anos. Os anos antes da alfabetização. Ela era o livro mais lindo – o livro que não fora impresso – o livro que andava livre das estantes – o livro que pedia para eu escrevê-lo um dia.

Publicado no site Vida Breve
Coluna Semanal
14.07.2016

3 comentários:

Bruna Matos disse...

Me emocionei! Escrever exorciza os piores temores, transformar a dor em flor é um dom.

http:/www.umavidaemandamento.blogspot.com.br/

Isabella Bastos disse...

Incrivelmente sensível. Perfeito.

Virgínia Cordeiro Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.