segunda-feira, 17 de outubro de 2016

DEIXAR PARA DEPOIS



No casamento, você sempre deixa para depois. Acredita que a pessoa mais importante de sua vida pode esperar, já que dorme e acorda ao lado dela todo dia, já que ela vai entender os seus contratempos.

Atende primeiramente os estranhos do trabalho, agrada aos desconhecidos das redes sociais, está preocupado como os demais lhe enxergam mais do que como realmente é entre quatro paredes. Casamento torna-se adiamento. Aquele bilhete não é tão urgente, aquela conversa de pacificação é empurrada para o futuro, aquele final de semana enamorado não é prioritário.

Só na separação é que agimos. Para resgatar uma paixão, somos capazes de aprender a cozinhar, aprender a dançar, aprender a faxinar.

Com o casamento, desaprendemos a cozinhar, a dançar, a faxinar. Guardamos o fôlego adormecendo cedo, poupamos as palavras não descrevendo os nossos dias, existimos menos dentro de casa, desistimos rapidamente da gentileza pela informalidade. Não podemos gastar com o supérfluo. Supérfluo é o que envolve o próximo. A avareza cresce disfarçada de economia.

Na reconquista, não dispensamos trabalho, madrugamos, viajamos continentes dentro do quarto, pedimos dinheiro emprestado para socorrer o tempo perdido com a distância.

A verdade é que fazemos tudo errado até perder aquilo que era certo.

Só amamos sofrendo. Só amamos quando o outro nos abandona, quando o outro se cansa, quando o outro se despede.

Só procuramos as janelas quando a porta fecha, só nos importamos com os detalhes quando o conjunto desaparece.

Só amamos na contrariedade, para provar que ainda prestamos.

Só amamos com o orgulho ferido, quando somos testados.

Só amamos com a desilusão, quando somos contestados.

Só amamos com a recusa, quando somos condicionados a nos esforçar para reaver a confiança.

Só amamos com o chicote da indiferença nas costas, apanhando das expectativas.

Infelizmente valorizamos mais a saudade do que a proximidade.

Banalizamos o corpo, apenas respeitamos a ausência, que é correr atrás para ter de volta a vida passada.

Somos encarnações arrependidas de matar o amor de tédio.

Para ser feliz a dois, é necessário combater a facilidade e não se conformar nunca com a disponibilidade do beijo, do toque e do abraço.

Intimidade é jamais desistir de perguntar, não é pensar que já conheceu inteiramente alguém. As respostas mudam conforme a esperança.

Publicado no Jornal Zero Hora - Caderno Donna
Coluna Semanal
16.10.2016

5 comentários:

Ninha disse...

E assim se foi ...primeiro a reunião política, primeiro os eleitores, primeiro toda a população, primeiro os necessitados, como se não houvesse alguém necessitando, implorando, quase que por uma esmola a pedir um beijo, um abraço...paciência partiu para Brasília, enquanto isso no aconchego tolerância zero...

Unknown disse...

Fabricio, gostei. É bem verdade isso. Só de dá valor depois q perde, ou melhor, qdo perde pra outro. Me parece q são mais os homens que são assim. Vc sabe usar bem as palavras, aliadas aos sentimentos. "A verdade é que fazemos tudo errado até perder aquilo que era certo ". Gostei mto .Parabéns !

André Porto disse...

"Porque que a gente é assim?"

Cazuza

Aline Oli disse...

Gostei muito... é assim mesmo que acontece com os relacionamento...
Como diz a velha e boa frase: " a gente só dá valor quando perde"

Aline Oli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.